A arte da galanteria: um modo de ser que se perdeu no tempo.

por Laura Ferrazza

O que é ser galante no século XXI? Será ainda possível resgatarmos o sentido desse termo? Galante deriva do francês galant – foram os franceses, afinal, que inventaram a galanteria no século XVII. Se consultamos um dicionário em nosso idioma (fiquemos com o Caldas Aulete), encontraremos algumas definições que podem apontar o caminho: “aquele que mostra delicadeza e elegância, especialmente com as mulheres”; “aquele que tem boa aparência, se veste bem”; “aquele que diverte com espírito: espirituoso”; “De certa malícia, ou caráter picante (história galante)”; “Diz-se de um tipo de música europeia do século XVIII, mundana e muito ornamentada”; “Homem que mostra delicadeza e elegância, especialmente com as mulheres”. Veja bem, não se trata de condescendência com o sexo feminino, e muito menos de uma investida amorosa de tipo contemporâneo – afinal de contas, há muito não se veem nossos rapazes a fazer galanteios. 

A galanteria chegou mesmo a ser considerada uma arte, na corte francesa dos séculos XVII e XVIII. Nessa época a palavra não se referia apenas às relações entre homem e mulher; era uma maneira mais ampla de comportamento em relação a quem quer que fosse. Na época, a palavra adquiriu uma ampla diversidade de sentidos. No “Dicionário Universal”, escrito por Antoine Furetière e publicado em 1690, o “homem galante” era definido como: “aquele que possui os ares da corte, frequenta Versailles e segue a moda, em oposição ao rústico e ao nobre do interior”. O termo galante podia também referir-se a um vestir elegante e na moda. Não por acaso, no final do século XVII, surgiu em Paris o jornal ilustrado “Le Mercure Galant”; nele era possível informar-se dos mais variados temas galantes, das festas da corte, passando pelas modas do vestir. 

O homem galante devia aprender a se comportar com as mulheres; eram elas que transmitiam o refinamento amoroso e as sutilezas da conquista, assumindo o papel de agente civilizador. A fim de afastar-se de sua rusticidade, o homem jovem devia se submeter à “escola das mulheres”, ou seja, ganhar polimento nas maneiras, aprender a vestir-se de acordo com os preceitos da elegância. Uma vez que caísse apaixonado por uma dama, deveria tratá-la com galanteria, colocando-a em um pedestal. A galanteria não deveria ser experimentada com seriedade, mas, ao contrário, era acima de tudo um movimento aprazível. Contudo, a galanteria não se praticava apenas em relação à mulher amada, mas devia estender-se a todas as pessoas. Um homem galante deveria cumprimentar todas as mulheres presentes em uma sala, assim como as pessoas mais velhas. A sua intenção era ser o homem mais apreciado por aquelas que dominavam as regras galantes – ou seja, as mulheres, grandes árbitras desse jogo.  

Segundo a estudiosa da galanteria francesa Claude Habib, a noção do galanteio restrito a um casal romântico aparece a partir dos escritos de Rousseau. Antes disso, a galanteria era uma forma de sociabilidade aristocrática que devia ser praticada em público. O jogo galante acontecia numa corte ou em um salão. Além de seu papel social, a galanteria exercia na França absolutista uma função política. Essa maneira de comportar-se era uma vitrine da monarquia e uma espécie de propaganda do reinado de Luís XIV. Quando subiu ao poder, o Rei Sol captou esse modelo galante e utilizou-o como afirmação nacional: estabeleceu-se que ninguém sabia tratar as mulheres como os franceses. Por isso, no que diz respeito ao comportamento galante, todos deveriam imitar a França do Rei Sol. 

O comportamento galante, contudo, não era apenas uma maneira de ser e de se comportar entre os membros da corte; também fez surgir um furor pela moda do vestuário e inspirou criações artísticas no campo das artes plásticas, da música e da literatura. Muito mais do que uma forma de sedução, a galanteria implicava uma empatia profunda com a mulher; o homem galante era o que sabia se colocar no lugar de suas interlocutoras femininas. Para Habib, os literatos que melhor refletiram essa questão em seu tempo foram Montesquieu e Marivaux, esse último um grande teatrólogo – e aquele que, segundo a pesquisadora, mais profundamente penetrou na psique feminina. 

A música de caráter galante era aquela escrita e dedicada às mulheres. Tocar um instrumento ou entoar uma canção para a dama bem-amada era parte de um jogo sedutor, comedido e complexo. A melodia oscila entre a alegria do encontro e a excitação do desejo sublimado, através de um ritual que coloca a mulher no centro de tudo. A escolha em aceitar ou não o galanteio era da dama; assim, no percurso da galanteria, nascia o comportamento feminino coquete. Os maiores compositores franceses do século XVIII, como François Couperin e Jean-Philippe Rameau, produziram composições inspiradas pelo espírito do jogo galante.  

As cenas ditas galantes predominaram na pintura francesa do século XVIII. O primeiro artista a captar de maneira ímpar as sutilezas e os prazeres desse comportamento social foi Antoine Watteau, ao eternizar o estilo de pintura que ficou conhecido como fête galant. O tema da galanteria alcança assim um alto posto na produção artística da época, destronando temas históricos e religiosos; até mesmo a mitologia traveste-se agora no jogo picante do galanteio.    

A sedução pura e simples difere da galanteria: esta é um fenômeno cultural, uma particularidade nacional francesa que teve ramificações em vários campos e se expandiu para toda Europa. Por meio dela, o desejo carnal adquiria as cores do sublime e do inefavelmente elegante. Haverá ainda algum espaço para o galanteio em nossos dias? Talvez fosse salutar deixá-lo sobreviver no interior dos modos de sedução contemporâneos, enquanto um “flerte respeitoso”, como algo brincalhão que se passa entre duas pessoas de maneira fugaz e sem julgamentos. A manutenção do termo “galante” ou o retorno de seu uso pode nos brindar com sua leveza despreocupada nos jogos amorosos e sua especificidade enquanto fenômeno cultural.   

Laura Ferrazza

Laura Ferrazza é Doutora em História da Arte e História da Moda (PUCRS/Sorbonne). Professora/pesquisadora autônoma, ministra cursos livres.