A Fundação de um Mundo

O projeto 3 x 22, iniciativa da Universidade de São Paulo que conta com a parceria do Instituto CPFL e do Sesc-SP, busca promover o debate histórico, artístico, cultural e polí­tico em torno do Bicentenário da Independência do Brasil e do Centenário da Semana de Arte Moderna a serem comemorados em 2022. Como parceiro do Instituto CPFL, o Estado da Arte promoverá uma série de artigos, podcasts, textos clássicos e entrevistas dedicados a reflexões sobre temas nacionais.

por Adriano Moraes Migliavacca

Alguns ciclos lunares antes, homens e mulheres haviam sido aportados naquela terra estranha, que exibia alguns elementos da terra natal. Ainda que a escassez de inhames e nozes de cola diluísse um tanto a semântica ancestral da vida cotidiana, cada pessoa que respirasse sabia que, se o ar segue no entorno e a terra sob os pés, voduns e ancestrais mantêm sua existência e companhia e era necessário propiciá-los. Felizmente essa fundação não teria de sofrer com tanta carência, já que um dos trasladados conseguira esconder em seu corpo sementes de noz de cola, que agora já vingavam no fruto completo; só os voduns saberiam se tais frutos seguiriam nascendo com o romper dos ciclos nesta nova morada. Agora, poderiam gozar do alívio de não ter que eternizar uma nova terra sem a devida explosão da semente.

Tanto a luz lábil da manhã lhes servira para o rastreio de um local seguro quanto o escudo solar da tarde permitira o suado erguimento do templo – tiveram de trabalhar rápido, mais rápido que o desejável para uma tarefa sagrada, pois, à noite, tudo deveria estar pronto para a fundação. O céu tomava um azul refrescante – momento em que todos encostam suas mentes nos troncos das árvores para o necessário artesanato do tempo. É o momento em que a serpente que sustém a terra passeia pela água; o tempo de seu movimento é o tempo da quietude dos vivos sobre a terra.

Um templo erguido sem uma cerimônia que o avive é o leito telúrico de uma civilização embrionária. Sob a terra se inumam mortos, placentas e cordões umbilicais; é também sob a terra que se move a serpente que a sustenta. Sobre a terra há o local dos vivos, dos trabalhos e da contemplação; local dos tambores e das canções, das palavras. Acima, o céu é vida e morte em uma só e inquebrável cabaça. Assim equacionada, nenhuma terra é estranha.

O chifre da lua começava a aparecer, insinuando o resto de sua poética. A lua cheia, na fundação de uma nova morada, traria a plenitude do presente em si acabado, mas a ocultação de sua maior porção traz a viscosidade da incerteza; um mundo assim fundado teria que ser modelado repetidas vezes. Falando em viscosidade, os atabaques recebiam azeite de dendê para que houvesse deslizamento entre seus golpes; as sílabas, separadas que são, deslizam entre si por obra da saliva.

A cerimônia começa com o toque leve, mas seguro e constante, dos tambores. O ritmo dá forma à existência. Para que se possa existir em uma terra, ela precisa ser coberta de ritmos. Uma roda de mulheres se forma em torno do centro do templo, a dança vibrando os movimentos centrífugos e centrípetos internos a cada coisa que existe. Um halo se difunde sobre tudo o que tem movimento – interno e externo. Os búzios que cobrem estátuas, cabaças e instrumentos musicais começam a falar; as ervas sussurram em seus vasos. Surge o guardião e mensageiro no corpo de uma adepta, manquitolando devido às suas pernas de diferentes tamanhos. A roda de dança produz um vórtice de onde voduns surgem em essência, mas necessitam do veículo dos corpos de suas adeptas, de suas vodunsi. Outros voduns surgem – o ferreiro, o rio, a própria serpente. É boa prática de tempos já antigos não dizer seus nomes – o nome é porção essencial da anatomia de uma divindade – há que resguardá-lo.

Impossível evitar que, em local estranho, haja diferenças de apresentação dos voduns em suas danças. Por mais que a terra seguisse sob os pés onde quer que se andasse, um oceano é um abismo por demais gigantesco para que não ocorra nenhum abalo na dinâmica sagrada. Além disso, há modificações no ar e no solo, e o próprio couro dos tambores projeta um som mais rugoso. A lua se apresenta incompleta – o que quer dizer que a narrativa que seguiria a partir de então traria mais mistérios e percalços que o normal.

À medida que os voduns deixavam os corpos das adeptas, uma personalidade recessiva, de traços infantis, os ocupava. Era o ciclo dos vivos, dos mortos e dos ainda não nascidos se completando em grande velocidade. A cerimônia, afinal, concentrava o todo das vidas de cada um dos participantes, de cada ser humano a andar sobre a Terra. Após essa manifestação, as vodunsi se dirigem a quartos, se deitam e adormecem. O sono após a incorporação, crê-se, é o mais sereno e puro que existe, pois não se trata do deslizamento da consciência para a inconsciência, mas, isso sim, do deslizamento entre uma consciência e outra, havendo um curto porém profundo abismo entre elas. Esse é talvez o único momento em que esse abismo não causa medo; esse é o momento em que a vodunsi sente-se novamente em estado embrionário, mais perto de sua origem pré-corpórea, o momento em que a escuridão não traz nem medo nem vertigem.

Mais e mais pessoas iam deitar enquanto o sol se aproximava de seu nascimento. O astro teria seu próprio trabalho de fazer com que vingassem as sementes dessa noite. Os ritmos e cânticos já haviam unido pontas de espanto perdidas para trazer umidade simbólica a uma terra seca. Pouco mais de um século depois, um poeta nigeriano transmitiria perfeitamente em palavras o que ocorrera aquela noite: “os anéis rompidos da Terra foram curados”. A partir de então, seria a tarefa de driblar o ofício do medo com o da força e o da destreza. O ofício do amor.

A geografia e a história oficiais diriam que tudo isso ocorreu na cidade de Cachoeira, estado da Bahia, no dia 7 de setembro de 1822. A uma certa distância dali, um ritual um pouco mais curioso ocorria perto de um riacho: um homem de tez clara e farta barba, vestindo-se com indumentária litúrgica que incluía um chapéu e uma série de insígnias no peito, deixando ver apenas o rosto, se aproximou do dito riacho, desembainhou uma longa espada e entoou a fórmula mágica “Independência ou morte”, tendo abandonado o local logo após. Não se sabe exatamente a qual tribo ou etnia atribuir-se esse curioso ritual, mas alguns etnólogos creem se tratar de um grupo originário da península ibérica. O significado do ritual, no entanto, segue um mistério nos anais da etnologia.

Confira os três programas especiais do Café Filosófico CPFL da série 3 x 22 dedicados à Semana de Arte Moderna:

  • A Música na Semana de Arte Moderna, com a professora da USP Flávia Toni 

  • As Artes Visuais na Semana de Arte Moderna, com a professora da USP Ana Paula Cavalcanti Simioni:

  • A Literatura na Semana de Arte Moderna, com o professor da USP Ivan Marques:

Adriano Moraes Migliavacca

Adriano Moraes Migliavacca é tradutor e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul