A nova história de Mouchette: entre silêncios e gritos

por Fabrício Tavares de Moraes

Nas páginas iniciais de Nova História de Mouchette, Bernanos, um tanto constrangido pelo sofrimento e miséria de suas duas personagens homônimas,[1]dissera que, à exceção do nome, não tinham nada em comum “senão a trágica solidão onde vi ambas viverem e morrerem”.

Paul Claudel, por sua vez, numa carta a Bernanos, já dissera que a primeira Mouchette mostrou-se aos seus olhos como “uma pequena alma esmagada”. No entanto, se fizermos justiça aos universos de miséria explorados tanto em Sob o Sol de Satã quanto em Nova História de Mouchette, a mesma definição se aplica – e talvez até mais precisamente – à heroína deste penúltimo romance de Bernanos.

Se em Diário de um Pároco de Aldeia temos um sacerdote que, após provações e incontáveis sofrimentos, termina com sua alma sendo plenamente aberta à presença difusa da graça, a personagem Mouchette, pelo contrário, encontra-se quase sempre sob a opressão do silêncio, asfixiada por um peso negro que, como sudário, desde cedo a prepara para o mesmo final trágico de sua predecessora homônima.

Logo no início do romance, na cena da aula de canto, Bernanos nos mostra como Mouchette – a “mosquinha” – é refratária à música (e mesmo aos sons mais simples), que sempre a fere em sua intratabilidade social:

Segundo o testemunho da professora, Mouchette não tem “nenhuma inclinação para o canto”. A verdade é que ela o odeia. Odeia, aliás, todo tipo de música como uma raiva tenaz, inexplicável. Assim, que se põem sobre as teclas do gemente harmônio os longos dedos da Senhora, deformados pelos reumatismos, o frágil peito se contrai tão dolorosamente que as lágrimas lhe vêm aos olhos. Que lágrimas. Diriam que são lágrimas de vergonha. Cada nota é como uma palavra que a fere no mais profundo da alma, dessas palavras duras que os meninos lhe lançam quando passa, com voz baixa, que ela finge não escutar, porém que traz consigo às vezes até a noite, que parecem aderir à pele.

Todo o romance é perpassado por esse embate entre o silêncio agoniante – que resulta do amortecimento das potências da alma não só de Mouchette mas de todos com quem se depara – e uma linguagem que se esforça para articular-se em mais que meros grunhidos, um verbo que é deformado pelo ambiente brutal e quase ininteligível da aldeia. A bem da verdade, a própria abertura do romance já prenuncia essa aura ou miasma que aparentemente impede o florescimento pessoal e social, que se revela como o calvário de Mouchette:

Mas já o grande vento negro que vem do oeste – o vento dos mares, como diz Antoine – espalha as vozes na noite. Ele joga com elas um pouco, depois apanha-as juntas para lançá-las não se sabe onde, rugindo de cólera. O que Mouchette acaba de ouvir permanece um bom tempo suspenso entre céu e terra, como essas folhas mortas que não param de cair.

O demonismo presente na obra se dá, portanto, nessa Palavra desencarnada, que faz com que a linguagem se reduza quase que a urros, a vozes “rugindo de cólera”. E de fato Mouchette é, no dizer de sua professora, “uma pequena bárbara”, criatura feroz e arredia, que, na sua obscura consciência das coisas, é incapaz da distinção entre violência e amor, pois até mesmo chama seu violador – o caçador epilético Arsène – de amante.

A despeito de tudo isso, porém, Mouchette “que se obstina, não se sabe por que, ‘a falar com a garganta’, a ponto de exagerar ainda mais o medonho sotaque da Picardia, possui – nas palavras da Senhora – uma voz fascinante” no canto. E é-nos dito ainda que se trata de uma “voz límpida, milagrosamente reencontrada, semelhante a um barco minúsculo no alto de uma montanha de espuma”, que “vem até ela como das profundezas de uma noite mágica, impenetrável”. Se nesse momento em questão somos confrontados com a fragilidade e beleza da voz de Mouchette que misteriosamente procede de sua interioridade rude, nos seus instantes finais e trágicos, porém, dá-se justamente o contrário, pois a voz que lhe fala e por fim a conduz às águas em que se afoga procede, segundo Bernanos, não da rusticidade mas da afabilidade:

(…) Mil vezes mais doce era a voz que falava no coração de Mouchette. Pode-se chamá-la voz? Mouchette escutava essa voz quase como um animal aquela de seu mestre, que o encoraja e o apazigua. Era semelhante à voz da velha sacristã, mas também à de Arsène, e por vezes adquiria mesmo o timbre da Senhora. Essa voz não falava naturalmente nenhuma linguagem. Era só um sussurro confuso, um murmúrio, e que ia enfraquecendo. Depois calou-se totalmente.

Esse “sussurro confuso” é, como já dito, um dos elementos demoníacos que perpassam essa narrativa marcada pela “desverbalização” do homem numa situação extrema de miséria. A voz, portanto, não é jamais a articulação da interioridade humana, mas a explosão cega e bruta da confusão maligna dos personagens, especialmente Mouchette. Num intenso e célebre diálogo do romance, a protagonista por fim injuria seu pai alcóolatra, horas após a noite tenebrosa em que caçador a estuprou:

A revolta que começa a crescer nela é um demônio cego e mudo. Merece mesmo o nome de revolta? É mais o sentimento instantâneo, quase fulminante, com que vira as costas ao passado, arrisca o primeiro passo, o passo decisivo em direção a seu destino. É preciso que faça um grande esforço para falar. Mesmo assim só encontrará uma injúria. Mas ela a articula lentamente, tristemente, tão tristemente que o pai não a entendeu de início… Uma injúria, a mais grosseira que conhece, mas que não tem para ela, nesse momento, nenhum sentido, que só exprime o seu profundo, inconsciente desespero:

– M…! diz ela.

E, mais adiante, falando à sacristã, também num acesso malicioso, Mouchette vocifera: “Você me dá nojo, velha idiota. Se eu tivesse sido essa senhorita, eu teria mais era estrangulado você”. Desse modo, ao longo da narrativa, o silêncio é sempre estéril e opressivo, uma camada opaca que precede e sobrepõe-se a cada individualidade. E por isso o mundo de Mouchette é um mundo sem Verbo, um gólgota em que o desamparo só é expresso por meio das ações mais brutais – a violação, a caça ilegal, a violência doméstica e o suicídio.

Como visto num ensaio anterior, o padre de Ambricourt (jamais nominado) pertence também à cepa dos miseráveis, dos malditos desta terra; mas mediante a operação da graça, mesmo nos momentos mais atrozes de sua dor, eleva-se por fim à santidade. Mouchette (a heroína cujo nome se impôs a Bernanos), porém, é quase um reflexo da desventura de seus antepassados, uma alma (retomando o dito de Claudel) esmagada pela penúria atávica. Assim, “tudo o que gerações de miseráveis acumularam em seu coração de revolta irrefletida, animal, sobe à sua boca, no sentido exato do termo, pois lhe parece que sua língua remexe, em vez de saliva, um caldo amargo e ardente, com gosto de bile”.

Possuída, portanto, por essa rebelião embrutecida, Mouchette é massacrada desde o início pela incomunicabilidade (que invariavelmente aborta qualquer relação de amor), vendo-se, pois, envolta por um universo mudo e impassível a eventuais súplicas. É por isso que, em sua triste história, “a palavra mais insignificante não faria menor esse grande choque em seu peito, pois ela se sente como envolvida de silêncio”.

[1] A primeira Mouchette é a protagonista do prólogo de Sob o Sol de Satã, o primeiro romance publicado por Bernanos.

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Fabrício Tavares de Moraes

Fabrício Tavares de Moraes é Professor Adjunto da UFMA. É também tradutor e Doutor em Literatura (UFJF/Queen Mary University London).