Uma visita ao ateliê de Abelardo da Hora, no ano de sua morte

por Pedro Augusto Pinto

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O senhor se assente um pouquinho mais pra lá, pode ser?

Onde, minha filha?

Aqui, assim, isso. Perfeito. Agora fale.

Era o quê mesmo?

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Os olhos azuizinhos e miúdos procuravam entre rugas e esculturas o sentido daqueles gestos. Não é que denunciassem qualquer espécie de senilidade ou gaguice – o brilho que saía deles, somado à vivacidade marota de cada um de seus gestos, conforme buscava se adequar às exigências da jornalista, entregava a presença de um ser humano de prato cheio. E mesmo sem isso: a simples e plástica presença de um vastíssimo estatuário — distribuído caoticamente entre cozinha, sala, corredores, pátio — entregavam ali mais do que um senhor de 90 anos: entregavam um artista em atividade ininterrupta.

Me servi de mais café, conforme a jornalista soltava, simultaneamente, lisonjas e desculpas, entremeadas por exclamações de “O senhor é um gênio” e reclamações sobre a bateria de seu iPhone, conforme o velho Da Hora se desdobrava nas posições que ela pedia.

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O congresso dos escritores —, lembrei-lhe.

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Ah sim, o congresso… Minha primeira exposição, em 1944, deu de ser justamente na fundação da sucursal pernambucana da então recém-criada Associação Brasileira dos Escritores. Eu também escrevia, como poeta bissexto, e fui convidado a participar. Passados alguns anos, já derrubada a ditadura de Getúlio, houve a necessidade de um congresso em Salvador para resolver certas questões…

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A Guerra Fria, a divisão intelectual entre esquerda e direita e absoluta necessidade de tomar uma posição. E o escultor das miseráveis figuras de Água para o morro, das crianças magricelas representando a seca, das mãos desesperadas e angulosas de Hiroshima, sabia muito bem, como soube até o fim da vida, que posição devia tomar. Filiou-se ao partido comunista, entrou para a política pernambucana na época em que as reformas mais prometiam, participando diretamente delas na projeção de praças, parques, e esculturas gritantemente discordes dos bustos de Joaquim Nabuco, de Duarte Coelho, e tantos outros figurões louvados pelas tradicionais elites pernambucanas.

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Batida de Feijão, Abelardo da Hora, 1953

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Pois não é só no velho casarão da rua do Sossego, entre café e pó, que o legado do artista repousa. Está em todo Recife, nas estátuas pela primeira vez erguidas em louvor do povo anônimo, herói de cada dia. Ali vemos um lavrador, de mãos grossas, arado na mão e filhos do lado; aqui, um vaqueiro. Mais à frente, um operário sujo, um carteiro, um estudante. Anônimos, mas heroicos, sonhando no bronze dos canteiros das Avenidas Guararapes, Dantas Barreto, e tantas outras, um futuro que hoje pertence ao passado, mas que ainda se afigura melhor que nosso presente. Uma lei aprovada no seu tempo obriga edifícios de certo tamanho a terem obras de arte em sua área externa, e foi aí que Abelardo, assim como outros, fizeram da escultura uma forma de conscientização, tanto urbana quanto política. Diante de uma estátua de Nabuco, dito herói da Abolição, vemos um mural com a história do açúcar: os navios negreiros, a crueldade dos feitores, a sonhada emancipação…

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Menino de Mocambo, Abelardo da Hora, 1969

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E por causa disso é que quando os militares tomaram o poder, passei a ser perseguido. Quando fui preso, um dos comandantes exigiu se encontrar comigo, tirar satisfação, dizendo que eu tinha ganho uma fortuna com as obras para governo do Estado. Tinha nada, fazia tudo de graça, vivia do meu salário: o escorregador de concreto, por exemplo, fiz quando me contaram que esconderam uma navalha no antigo, de madeira, e uma menina tinha cortado a coxa. Aquilo me doeu no coração. No mesmo dia encomendei a forma, e em três dias estava pronto. Depois ainda cismaram com a minha torre… disseram que a biruta que eu pus em cima — numa das primeiras obras plásticas dinâmicas do Brasil — era uma mensagem comunista. Aí eu me irritei, disse que mensagem era só a do vento. E que se quisessem, prendessem o vento!

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Mas não é “só” (como se fosse pouco!) da questão social que se alimenta sua obra: no corredor estreito que vai da sempre aberta porta da rua até a confusa cozinha, abundam as gravuras de folguedos, nas figuras retorcidas de passistas de frevo e no colorido agitado dos caboclinhos. Sua preocupação recente: o corpo feminino, incansável fonte de beleza moldando o concreto sob suas mãos.

A jornalista, no entanto, não quer saber nada disso: se contenta em filmar a figurinha grisalha, perguntando de prêmios e louros, e ouvindo respostas do tipo:

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90 anos e ainda nunca sofri de pressão alta. A minha é até baixa. Alto é só o tesão!

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Entre as gargalhadas e a indignação das filhas, sentada na sala. E eu ali por acaso, por mera curiosidade pelas coisas da terra, principalmente pelas pessoas que, apesar de tudo, nela ficaram a sua vida inteira, construindo sua história e a história do próprio lugar. E Abelardo seguiu forte no Recife, no pleno gozo de seus 90 anos, até falecer, alguns meses depois desta tarde em que o conheci. Sua obra, porém, tal como Pernambuco nos dizeres de seu hino, é imortal, e não por bairrismo nortista ou por simples esteticismo: ambos se eternizaram nas mais belas páginas da história do Estado nordestino – aquelas que, nos dizeres de seu contemporâneo Carlos Pena Filho, foram escritas com as tintas de seu verão, “no tempo em que também era / Noiva da revolução”.

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Camponeses, Abelardo da Hora, 1952

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Pedro Augusto Pinto

Pedro Augusto Pinto é tradutor e mestre em Cultura e Literatura Russa, com estágio de pesquisa no Instituto de Literatura Mundial Górki da Academia Russa de Ciências, pela FFLCH - USP. É bacharel em História pela mesma instituição, com intercâmbio acadêmico na Universidade Estatal de Moscou e na St. Mary's University College. É também autor da coletânea de poemas "Um bicho de circo" (7 Letras, 2018).