O que é a história feminista da filosofia?

por Natassja Pugliese, em parceria com a ANPOF

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Não é o caso que toda pesquisa em filosofia precisa estar ligada à vida prática, muito pelo contrário. É da natureza da reflexão filosófica o voltar-se do pensamento sobre si mesmo, em uma investigação sobre os princípios de sua própria atividade. Essa reflexão sobre princípios e outras que daí decorrem muitas vezes se restrigem a uma análise de conceitos ou de sistemas conceituais e não há, aparentemente, nada neste tipo de atividade analítica — tomada como tal — que dependa ou que esteja necessariamente em diálogo direto com temas da política contemporânea. Por isso, à primeira vista, parece que a história da filosofia (suas questões e o seu fazer) não tem nenhuma relação necessária com o feminismo. E que qualquer tentativa de se estabelecer tal relação devesse ser rejeitada, dado que qualquer pressuposto anterior (seja ele feminista ou qualquer outro) à interpretação das obras seria uma determinação dogmática do rumo de uma narrativa que tem que, por princípio, contar-se ou ser contada a partir das evidências mesmas da história. Dadas estas objeções pertinentes, não estaria o próprio conceito de história feminista da filosofia fundado em um erro metodológico? Não necessariamente. Métodos demandam sua própria justificação. Assim, para evitar um erro metodológico neste caso é preciso esclarecer o que é a história feminista da filosofia. Em linhas gerais, entendo a história da feminista da filosofia como história da filosofia com recorte de gênero. Ou seja, uma história da filosofia tout court que procura realizar pesquisa e análise filosófica sobre obras escritas por mulheres, sobre obras escritas sobre mulheres (questões relacionadas à essência, e à natureza de sua racionalidade, sobre sua capacidade política e retórica, etc) a partir de reflexões sobre metodologia da pesquisa em história da filosofia, sobre historiografia e sobre os princípios da exegese que esclareçam os efeitos, a importância e os limites de um recorte de gênero (Witt & Shapiro 2020).

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Charlotte Witt

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Há, portanto, ao menos três grandes desafios que o projeto de contar a história da filosofia a partir do recorte de gênero precisa enfrentar. O primeiro desafio é a garantia — para as mulheres que atuam e atuaram na filosofia –  de liberdade de pensamento e de atuação intelectual. A história da filosofia com recorte de gênero é um método de análise que funciona como um operador que mapeia momentos da história da filosofia em que a prática filosófica era mais explicitamente generificada, ou seja, marcada por divisões de gênero na produção do conhecimento. Recontar essas exclusões, mapear essas expectativas epistêmicas, têm o papel ulterior de abrir espaço em áreas da filosofia que são tradicionalmente subrepresentadas por mulheres, a fim de garantir a liberdade plena de expressão e desenvolvimento de suas capacidades filosóficas. Neste sentido, uma história feminista da filosofia mostra as condições materiais que limitam o acesso, a formação e o desenvolvimento do pensamento filosófico realizado por mulheres ao longo da história a fim de que elas não sejam constrangidas a pensar e atuar  — hoje — apenas sobre certos temas. Ter consciência de sua própria história é fator fundamental para evitar erros de método, pois conhecer a história social das mulheres e a história dos movimento feministas é ganhar linguagem, conceitos, narrativas capazes de nos auxiliar em nosso trabalho hermenêutico de compreensão de nossa própria situação social e política. Entretanto, mulheres filósofas não devem ser obrigadas a refletir apenas sobre temas políticos, a falar necessariamente sobre feminismo, sobre “questões femininas” e relacionadas a gênero, apesar da luta política ser o coração do feminismo e apesar deste modo de narrar a história da filosofia ser devedor inegável da luta feminista. A história da filosofia sob um ponto de vista feminista é também, e principalmente, estudar as contribuições das mulheres filósofas para toda e qualquer área para as quais elas contribuem e contribuíram. Isso inclui a metafísica, a lógica e a filosofia da ciência, e todo e qualquer assunto filosófico, mesmo que ele não tenha nenhuma relação — por si mesmo — com gênero.

O segundo desafio é o perigo do anacronismo. O feminismo é um termo cunhado recentemente, na modernidade. Há diferentes modos de caracterizá-lo e há um intenso debate a respeito de quanto começa o feminismo e sua história. Dorlin (2000), por exemplo, considera que o feminismo começa em 1791, na Revolução Francesa, com a Declaração dos Direitos das Mulheres e Cidadãs por Olympe de Gouges. Ela afirma que o feminismo é um movimento por direitos que se constitui quando há reconhecimento público de um fato cujo reconhecimento de sua injustiça é reivindicado coletivamente. Para que haja o reconhecimento, é preciso primeiro haver a reivindicação e o estabelecimento do fato político. Assim, há um hiato entre o direito e o fato. O feminismo e sua história, segundo a autora, começa no século XVIII pois antes disso, não havia um movimento constituído ou um movimento coletivo com força capaz de promover mudanças legais e constitucionais (ou seja, ser um movimento capaz de estabelecer publicamente o fato da desigualdade de gênero e garantir o direito). Neste sentido, fazer uma história feminista da filosofia é um anacronismo. Só se poderia, a princípio, fazer história feminista da filosofia a partir do século XVIII. Entretanto, sabemos que além do hiato entre fato e direito, há também um hiato entre experiências individuais e fato. E que esses espaços entre experiência individual, fato e direito são preenchidos por forças teóricas e práticas cujas causas vão se acumulando ao longo dos séculos até encontrar solo fértil, condições materiais, para a emergência do reconhecimento público da injustiça e a garantia do direito. Assim, a história feminista da filosofia é possível mesmo antes do século XVIII pois as contribuições intelectuais das pioneiras constituem as condições para que o estabelecimento do fato. Portanto, podemos tomar os escritos pré-feministas, os tratados em defesa da educação das mulheres do século XVIII, as obras sobre a natureza ou a constituição da mulher, os argumentos pela igualdade e diferença entre os sexos como componentes da tradição de escritos que, de um modo de outro, estão nas origens dos feminismos modernos e contemporâneos. É importante, no entanto, sabermos as diferenças entre as épocas, as condições de enunciação das teses em cada tempo, a audiência intencionada, para não projetarmos no passado visões e expectativas do presente e perder a especificidade dos momentos históricos. As pioneiras e precursoras pré-feministas devem ser valorizadas e reconhecidas mesmo sem terem conseguido elas mesmas modificar as leis e constituições, mesmo sem terem formado um movimento coletivo, mesmo sem terem estabelecido — categoricamente falando — o direito.

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Olympe de Gouges, por autor desconhecido, c. 1793

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E, finalmente, o terceiro e último desafio está no cuidado com as evidências históricas. O anacronismo tende a passar por cima das evidências históricas. Assim, precisamos ter cuidado com o efeito negativo da visão do tempo da história como indicador de progresso; pois o perigo é instrumentalizamos anacronicamente as teses e as experiências históricas de modo não a capturarmos o que foram, mas de utilizá-las como evidências para o que queremos fazer e dizer hoje. Tudo bem fazer isso, mas o risco que corremos é de não fazermos história, mas outra coisa. Fazer história com atenção às evidências é procurar reconstruir o contexto de enunciação das teses tendo como instrumento um conhecimento da língua e da linguagem do texto original, recorrendo aos arquivos e investigando obras não-centrais, panfletos, folhetins da época, procurando reconstruir os círculos intelectuais levando em conta os limites materiais de produção do conhecimento. Uma história feminista da filosofia baseada em evidências históricas procura reconstruir o argumento em seu quadro histórico, fazendo o leitor ver a tese em seu contexto de enunciação (enargeia como conceituou Cicero ou evidentia segundo Quintiliano) bem como seus efeitos nos círculos intelectuais do passado. Essa capacidade de fazer o outro ver, contanto uma narrativa histórica a partir de elementos objetivos (os textos), faz a tese passada ganhar vida e tornar-se presente sem ser modificada forçosamente para dialogar com os interesses do nosso presente histórico.

Finalmente, ler a história feminista da filosofia como sendo um viés e a “verdadeira história da filosofia” como a neutra é um problema de compreensão, a ser superado, acerca do projeto de leitura a partir da chave de gênero. Considerando-se que a história da filosofia é feita da análise de obras e teses que direcionaram a produção filosófica ao longo dos séculos, a história da filosofia que contamos hoje carrega os efeitos de séculos de exclusão das mulheres das instituições formais de educação. Recontar essa história a partir do ponto de vista, dos interesses e da produção de autoras antes tomadas como inexistentes ou coadjuvantes, é contribuir para o desenvolvimento e aprimoramento das narrativas em história da filosofia per se.  Uma vez observados estes desafios, a história feminista da filosofia se estabelece como um projeto de enriquecimento da história da filosofia tradicional.

A história da filosofia se mostra, também, como espaço importante para este debate sobre igualdade de gênero na educação por estar em situação estrategicamente interessante para tanto: a história é aquela narrativa que nos dá identidade (Hagengruber 2020), que nos faz ter referências para nos entendermos como seres culturais, seres racionais, seres materiais com vida intelectual. Historiadores da filosofia atuam socialmente como preservadores de conhecimento e de uma longa tradição de obras e de teorias. Quando historiadores se voltam criticamente para sua tarefa, passamos a cumprir também a função de pontes entre tempos (coexistentes no nosso presente, pois vivemos em diferentes temporalidades, ainda que compartilhando o presente comum), a função de transformadores do espaço-tempo, na medida em que estas ideias resgatas do passado, tomam nova vida, se orientam na direção da reconstrução do nosso olhar para nós mesmos para nossa história de um modo mais justo. A reflexão crítica sobre as questões clássicas e a prática tradicional exegética em história da filosofia, nos traz o fato de que a história da filosofia espelha uma desigualdade que se encontra presente também nas instituições de educação.

Portanto, o projeto mais amplo da história feminista da filosofia é também o de, hoje, no século XXI, conseguir — coletivamente — mapear e transformar as causas que mantém as mulheres afastadas da escola e da universidade, alimentando e preservando todas as condições que as trazem para perto dos estudos, da ciência, da vida intelectual e pública. E que isso seja feito de modo que a academia, que nós, sejamos um espaço seguro e fértil para o desenvolvimento acadêmico das nossas jovens cientistas e intelectuais. Assim, as reflexões sobre o cânone filosófico e o projeto de resgate de obras escritas por mulheres e de obras escritas por mulheres e autores menos estudados são todas reflexões que contribuem para a solidificação tanto no campo teórico quanto no campo prático. Ou seja, que contribuem positivamente para o melhoramento da vivência acadêmica, contribuindo para as transformações positivas que ainda precisamos e que queremos ver acontecer para que possamos garantir um acesso à educação amplo, uma permanência frutífera e sólida, e a educação de qualidade para as mulheres e grupos que têm ou tiveram presenças meramente periféricas no ensino superior.

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Marquise du Châtelet por Maurice Quentin de la Tour, séc. xviii

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Referências:

Dorlin, Elsa. L’Évidence de L’Égalité des Sexes Une Philosophie oubliée du XVIIe siècle. Paris: L’Harmattan (2000)

Hagengruber, Ruth. “The Stolen History – Retrieving the History of Women Philosophers and its methodical implications” em Thorgeirsdottir & Hagengruber (eds.) Methodological reflections on Women’s contribution and Influence in the History of Philosophy. Switzerland: Springer, 2020. (pp. 43-64)

Witt, Charlotte and Lisa Shapiro. “Feminist History of Philosophy” in The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2020 Edition) Edward N. Zalta (ed.), acessado em 21 de fevereiro de 2021 em <https://plato.stanford.edu/archives/win2020/entries/feminism-femhist/>

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Natassja Pugliese

Nastassja Pugliese (UFRJ) é coordenadora do GT Mulheres na História da Filosofia da ANPOF e do grupo de pesquisa Outros Clássicos: História da Filosofia e Educação (CNPq/UFRJ).