Augusto Del Noce: secularismo e tecnocracia na modernidade (Parte I)

Giorgio De Chirico, “Máscaras”

por Fabrício Tavares de Moraes

Num ensaio publicado no início deste ano, o filósofo britânico John Gray, apresentando as ideias centrais do recente livro The Age of Surveillance Capitalism: The Fight For a Human Future at the New Frontier of Power (2018), de Shoshana Zuboff, diz que os novos “Estados de vigilância” não somente remontam “a um tipo de cientificismo iluminista no qual os seres humanos são sistemas mecânicos regidos por leis tão universais e invariáveis quanto as da física”, uma tradição iliberal do pensamento iluminista em que a autonomia do indivíduo é tida como uma ficção obsoleta”, mas se baseiam essencialmente na crença de que o bem-estar coletivo só é possível quando uma “sociedade [é] governada por uma elite científica que reformula os homens por meio da erradicação, neles, de qualquer traço que se assemelhe a um eu autônomo”.

O resultado, obviamente, é aquilo que tanto nas ciências políticas quanto em publicações de divulgação científica e de crítica cultural se denomina “totalitarismo tech” [2]. Com exceção do problema dos dados digitais e das novas mídias interativas, decerto pouco há de novo nessa percepção, pelo menos desde que o mundo conheceu o estabelecimento do complexo industrial-militar, termo cunhado pelo ex-presidente americano Dwight D. Eisenhower.

Tendo esse cenário em mente, e em virtude da edição e tradução para o inglês de duas coletâneas de ensaios do italiano Augusto del Noce (em 2015, a McGill-Queens University Press publicou The Crisis of Modernity e, dois anos depois, The Age of Secularization, ambos traduzidos por Carlo Lancelloti), vários autores dos meios conservadores e católicos americanos assinalaram a perspicácia e clarividência desse filósofo que ainda permanece desconhecido, salvo em sua Itália natal, e que prenunciou não apenas os desdobramentos do pensamento subjacente à liberação sexual e a queda da União Soviética, mas também o caráter opressivo e desumanizador daquilo que chamava de “sociedade tecnológica” ou “sociedade opulenta”.

Del Noce viveu os turbulentos anos 60 (época em que escreveu a maioria dos ensaios agora reunidos na edição americana mais recente citada acima) e tratou dos problemas que afligiam a Europa de então, numa época em que as metodologias materialistas – especialmente a marxista – predominavam no campo dos estudos políticos.

A forma de análise do filósofo italiano, que em certos aspectos muito se assemelha à de Voegelin, a quem inclusive dedica alguns ensaios em The Crisis of Modernity,é pautada, como ele declaradamente afirma, naquilo que Renzo de Felice chamava de interpretação transpolítica da história contemporânea, isto é, a crença de que a história das ideias (ou, se quisermos, das experiências noéticas) caminha lado a lado com a história dos fatos. Num dos ensaios traduzidos (“Revolution, Risorgimento, Tradition”), Del Noce apresenta sua visão de que “não há sequer um detalhe da vida humana que não reflita ou, para ser mais exato, que não ‘simbolize’ uma concepção geral da vida” [3].

O filósofo italiano Augusto Del Noce

Como hoje se reconhece, Del Noce é talvez o maior opositor italiano à chamada “escola da secularização”, que provavelmente se tornou mais conhecida no mundo americano como a “escola da morte de Deus”. Ademais, são precisamente as críticas apresentadas por Del Noce naquele que é provavelmente seu livro mais célebre, Il problemadell’ateismo, que lançaram a base para a obra posterior de filósofos italianos hoje proeminentes, como Massimo Cacciari e Giorgio Agamben (o que, por óbvio, não implica adesão estrita e total destes últimos às teses de Del Noce).

Retomando, porém, à questão da chamada “sociedade opulenta”, termo que descreve o que se tornou todo o Ocidente, o diagnóstico de Augusto del Noce está longe das habituais e tacanhas críticas contra a fragmentação social ocasionada pelos novos meios técnicos. Aliás, Del Noce – e nisto está sua dimensão antimoderna – considera tanto a resposta conservadora quanto a reacionária como inadequadas, pois, em seu entendimento, a crítica conservadora ao ideal utópico, assim como o retorno ao passado idealizado dos reacionários, não reconhece “as raízes metafísicas da crise trazida pela ideia de revolução total” [4]. Afinal, diferentemente do historicismo que os conservadores muitas vezes adotam, é o “‘valor’ que fundamenta tradição, e não o contrário”; de maneira que é necessário à razão o reconhecimento de “uma ordem incriada, o objetivo de uma intuição não-sensível”, em resumo, um âmbito supra-histórico [5].

À vista disso, o embate entre uma esquerda revolucionária e uma direita conservadora é, em última instância, estéril, já que “as nações podem erguer-se novamente somente ao explorarem mais profundamente suas tradições e ao criticarem a ordem histórica a partir da perspectiva de uma ordem ideal”. [5]

A “sociedade tecnológica”, portanto, é não somente um resultado específico de forças históricas por vezes antípodas (como veremos adiante), mas também vivencia uma visão histórica distinta, talvez única ao longo das civilizações humanas. Primeiramente, passamos de uma consciência cíclica, epitomada em Nietzsche, para uma “marcha para o abismo” (Michael Löwy): “a ideia de que todas as coisas se repetem foi substituída pela aceleração máxima do tempo; o mais apropriado para os dias de hoje não é tanto a realização do ontem quanto sua negação”. Segundo Del Noce, essa percepção temporal reformulada caminha de mãos dadas com uma sensação de ruptura histórica com o mundo anterior às duas grandes guerras.

As obsessões para com inovação e produtividade – centrais à atual “tecnopólis” – são inclusive o que embasa a crença de que, futuramente, teremos uma satisfação generalizada de todas nossas necessidades e desejos. Conforme mencionamos, Del Noce utiliza, de modo intercambiável, as expressões “sociedade opulenta”, “sociedade tecnológica” e “sociedade do bem-estar”. Esta última designação possivelmente leva à confusão com o modo pelo qual os programas, subsídios e iniciativas sociais dos Estados europeus após o fim da 2ª Guerra Mundial ficaram conhecidos; no entanto, no pensamento de Del Noce, ela e as demais expressões implicam simplesmente a “sociedade que aceita todas as negativas do marxismo contra o pensamento contemplativo, contra a religião, contra a metafísica; que aceita, portanto, a redução marxista das ideias a instrumentos de produção; mas que, por outro lado, rechaça os aspectos revolucionários-messiânicos do marxismo, isto é, aquilo que há de religioso na ideia revolucionária. Sob esse aspecto apresenta-se verdadeiramente o espírito burguês que triunfou sobre seus dois inimigos tradicionais: a religião transcendente e o pensamento revolucionário” [6]

Portanto, a sociedade opulenta substituiu a ideia de bem comum pela satisfação de todas as demandas e desejos individuais, como se, por um artifício aritmético, a soma de cada fruição individual resultasse na felicidade generalizada. Entretanto, para Del Noce, essa sociedade não é, como já assinalado, uma rejeição do marxismo, mas um estágio que o sucedeu numa marcha histórico-filósofica que tem seus primórdios no pensamento europeu do século XVI, pelo menos (como veremos num ensaio posterior).

Marcada pela imanência absoluta, bem como pela crença de que a realidade é “um sistema de forças, e não de valores”, a sociedade opulenta é essencialmente irreligiosa, e por isso rejeita tanto o marxismo com sua escatologia quanto a religião, em especial o cristianismo. Nas palavras de Del Noce, isto se deu “rejeitando o comunismo em nome da democracia e o pensamento religioso em nome da modernidade, construindo sua forte unidade iluminista no pensamento laico, unindo liberalismo e socialismo e outra frente paralela sob a forma do modernismo religioso. Edificou-se assim uma sociedade que se apoia no equilíbrio das contradições”. [7]

Num segundo ensaio, veremos como se deu, segundo Del Noce, esse processo social formado a partir da combinação de afluentes filosóficos e sociais originalmente divergentes.

Leia a parte 2 deste artigo aqui

[1] John Gray, “The new tech totalitarianism”, The New Statesman, fevereiro de 2019.

[2] Há várias obras com essa temática. As edições mais recentes no Brasil são: Evgeny Morozov,  Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política(2018) e Byung-Chul Han, Psicopolítica(2018)

[3] Augusto del Noce, The Crisis of Modernity. Chicago: Mc-Gill Queen’s University Press, 2014.

[4] Cf. Massimo Cacciari & Michel Valensi, “Augusto del Noce et le problème de l’athéisme”, Archives de Philosophie, v. 57, n. 1, (janeiro-março 1994), pp. 111-117

[5] “Revolution, Risorgimento, Tradition” in: Augusto del Noce. The Crisis of Modernity. Tradução Carlo Lancelloti.

[6] Augusto del Noce, Agonia de la sociedade opulenta. Pamplona: EUNSA, 1979.

Fabrício Tavares de Moraes

Fabrício Tavares de Moraes é Professor Adjunto da UFMA. É também tradutor e Doutor em Literatura (UFJF/Queen Mary University London).