O bardo Ossian: uma história de fake news no século XVIII

por André Chermont de Lima

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Entre 1760 e 1763, o jovem poeta escocês James Macpherson sacudiu o mundo literário europeu com a publicação de três coleções de fragmentos de epopeias e poemas dramáticos celtas, coletados nas Highlands e ilhas do oeste da Escócia e por ele traduzidos para o inglês. Boa parte das obras era atribuída a um bardo guerreiro da pré-cristandade conhecido como Ossian, filho do Rei Fingal da Irlanda. Seus originais derivaram tanto de manuscritos como da tradição oral, e versavam sobre o que se imagina da literatura céltica: feitos heroicos, batalhas sangrentas, traições e amores, monstros e magos, paisagens inóspitas, intempéries, sofrimentos e melancolia.

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“Sento ao pé da fonte musgosa, no topo do morro dos ventos. Uma árvore farfalha sobre mim. Ondas escuras rolam sobre a campina. O lago, embaixo, está agitado. Os cervos descem o morro. Nenhum caçador é visto à distância […]. É meio-dia: mas tudo está silencioso. Tristes apenas são meus pensamentos.”

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“Escuro é o outono nas montanhas; uma bruma cinzenta descansa sobre as colinas. O redemoinho é ouvido na campina. O rio corre, escuro, pela estreita planície. Uma árvore ergue-se solitária sobre a colina, e marca a cova de Connal […]. Às vezes os fantasmas dos mortos são vistos aqui, quando o caçador meditativo espreita, sozinho, pela campina. Aparece em tua armadura de luz, ó fantasma do poderoso Connal! Brilha junto à tua tumba, Crimora!, como um raio de luar saído de uma nuvem.”

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“— Filho do nobre Fingal, Ossian,

Príncipe dos homens! Que lágrimas rolam

pelas faces do tempo? O que escurece

tua alma poderosa?

— Memória, Filho de Alpin, a memória

machuca os mais velhos. Meus pensamentos

estão noutros tempos; meus pensamentos estão

no nobre Fingal. A raça do rei regressa

à minha mente, e me machuca com a lembrança.”[1]

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Ossian Singing, Nicolai Abildgaard, 1787

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Como todos os homens que revolucionam e transformam suas épocas, sejam eles guerreiros, políticos, filósofos ou artistas, Macpherson foi beneficiado pelo contexto histórico. O mundo, cansado do classicismo, estava sedento de um pouco de folclore, espíritos, antepassados semisselvagens. A arte queria forças indomáveis, humores pré-cristãos, espiritualidade no lugar da religião dogmática, irracionalismo no lugar do Iluminismo. É a antessala do romantismo, a década de Herder, Schlegel, do Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), do nascimento dos nacionalismos. Se os poemas tivessem surgido vinte ou trinta anos antes, é bem possível que ninguém lhes desse a mínima importância. Mas, como escreveu Jacques Barzun, Ossian preencheu “uma necessidade não meramente emocional mas intelectual: eram solicitados novos nomes, novos cenários, novos modos de vida; o tédio tinha realizado seu trabalho de preparação para a renovação. Ossian, hoje ilegível, serviu seu propósito terapêutico até a época de Napoleão”.[2]

As traduções inglesas do gaélico escocês foram tomando a Europa de assalto. Versões em francês, alemão, espanhol, italiano, sueco e russo apareceram em ondas até o início do século seguinte, encantando algumas das melhores cabeças do continente. Bocage teria sido grande admirador, e providenciou as primeiras traduções para o português;[3] na França, Diderot “exultava”, nas palavras de Carpeaux; na Alemanha, Herder, Klopstock e sobretudo Goethe dedicaram ao celta críticas e traduções de seus próprios punhos. O outro tsunami, ainda maior, deflagrado pelos Sofrimentos do Jovem Werther (1774), ajudou a divulgar Ossian aos que ainda não o conheciam. Ao final do romance, antes da separação, Werther lê para Lotte um longo trecho do poeta, traduzido pelo próprio Goethe; a amada solta “uma torrente de lágrimas”, e ele “chora as lágrimas mais amargas”.[4] Napoleão, outro admirador, teria conversado com Goethe sobre Ossian quando ambos se encontraram, e maravilhou-se com a ópera Ossian, ou les Bardes (1804), de seu mestre-de-capela Jean-François Le Sueur. Beethoven, embora não tenha chegado a musicar seus poemas, considerava Ossian um de seus poetas favoritos, ao lado de Homero, Klopstock, Schiller e Goethe.

No século XVIII, a ausência de meios velozes de circulação manteve a sobrevivência da moda ossiânica por um bom tempo. Quando não restou mais nenhuma dúvida de que os poemas eram uma fraude, Macpherson já havia morrido.

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James Macpherson, por George Romney (NPG)

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Castelo de areia

Já o primeiro volume de traduções de Macpherson causou alguma desconfiança, porque ele sabidamente escorregava no gaélico. Samuel Johnson foi um dos primeiros a identificar traços de Homero e Milton nos textos — sem desperdiçar a oportunidade de destilar a antipatia que tinha pelos escoceses, lançando dúvidas sobre a capacidade de “selvagens que não sabem contar até cinco” de comporem vastas epopeias. Em um ambiente de nacionalismos insipientes (mas orgulhos nacionais antiquíssimos), linguistas irlandeses revoltaram-se tanto com certas imprecisões a respeito de personagens como com a alegada origem escocesa dos poemas. A polêmica, contudo, não freou – talvez tenha mesmo estimulado — a febre dos poemas ossiânicos. Apenas no início do século XIX a questão finalmente se pacificou, quando foi demonstrado que os “originais” de Ossian eram textos da própria lavra de Macpherson, compostos em gaélico desajeitado e depois traduzidos. O bardo moderno já havia morrido há alguns anos, sem nada ter confessado abertamente. Hoje sabe-se que quase tudo nas três obras publicadas entre 1760 e 1763 foi escrito por ele, com enxertos dispersos de material original — que, como veremos, existe.

É curioso como, mesmo já desmascarado o golpista, uma sucessão de compositores românticos tenha insistido em manter Ossian bem vivo. É provável que Le Sueur, cuja ópera está hoje (dizem alguns imerecidamente) bem enterrada, ainda não soubesse. O jovem Schubert, que transformou meia dúzia de poemas em canções dramáticas (uma forma um pouco diferente dos seus Lieder a que estamos hoje acostumados), pode ter apenas se interessado pelos textos. Brahms, que musicou dois deles (dentre os quais a belíssima quarta canção da série para coro feminino, trompas e harpa, op. 17) em 1860, certamente sabia da fraude. Entre autores menos célebres que homenagearam a lírica ossiânica há algumas curiosidades, como uma das poucas compositoras do sexo feminino de que se tem notícia no século XVIII, a inglesa Harriet Wainwright, ou o brasileiro Alexandre Levy, que compôs o poema sinfônico Comala em 1890. Para a música, a legitimidade da autoria parece menos importante que o potencial expressivo e a força das imagens que os textos evocam. A atmosfera dos poemas, cheia de nostalgia por tempos muito caros aos românticos, embaladas por cenários misteriosos onde a chuva, o vento e a escuridão substituem o sol e as flores, parece mais uma demonstração de que os maiores compositores de Lieder no século XIX não deram grande importância para a qualidade artística da poesia que musicavam (isso só mudou ao final do século). Basta revermos os trechos aqui replicados, literariamente infantis mas que se prestam muito bem como letras de canções.

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Ossian Receiving the Ghosts of Fallen French Heroes, Anne-Louis Girodet, 1805

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Além disso, em uma época em que obras literárias levavam às vezes décadas para circular de um país a outro, sempre dependendo do interesse de um editor bem informado, da capacidade de recepção das críticas, da repercussão da reação dos leitores e lentidão dos tradutores, a música era capaz de atravessar fronteiras e seduzir ouvintes com rapidez bem maior. Como se viu, traduções completas de Ossian levaram às vezes décadas para aparecer, mesmo em países vizinhos. O Werther esperou quase cinco anos pela tradução inglesa e sete pela italiana.[5] Já os compositores disseminavam suas criações com muito mais eficiência no final dos mil e setecentos: Don Giovanni e a Flauta Mágica, por exemplo, começaram a ser montadas fora de suas cidades de estreia no ano seguinte. Partituras de Lieder e peças para piano, que encontravam demanda nos lares de classe média de toda a Europa, eram logo editadas e distribuídas.

Outra dimensão importante da história do pecado de Macpherson é que ele pecou apenas pela metade. Não se sabe se Ossian (ou Oisín) existiu de fato, mas foi protagonista de uma herança folclórica, oral e escrita, verdadeira e compartilhada entre irlandeses e escoceses, que narra os feitos do Fianna Éireann, ou simplesmente Fianna, um grupo de guerreiros na Irlanda do século III. A saga começou a ser posta no papel mil anos mais tarde, numa antologia conhecida como “Ciclo Feniano”. Suas muitas centenas de páginas descrevem, entre outras coisas, a luta do rei Fingal contra os invasores vikings e os feitos de seu filho, o misto de poeta e guerreiro Ossian, “o último dos heróis” e líder do Fianna após a morte do pai. Macpherson, inclusive, usou as invasões como defesa contra os acadêmicos irlandeses: segundo ele, Fingal e seus exércitos teriam ajudado os escoceses a repelir os escandinavos, razão pela qual a vitória seria integrada à memória coletiva e à tradição oral no outro lado do Mar da Irlanda. O fato de a mais célebre história do ciclo, intitulada Colloquy of the Old Men — “Colóquio dos Anciãos”,[6] datar de cerca de 1200, e suas primeiras compilações se originarem não do punho de Macpherson, mas do século XVI (embora não traduzidas), reduz a convicção sobre a autoria de Ossian a praticamente uma lenda, não muito diferente (inclusive quanto à sua antiguidade) dos evangelistas. Além disso, qual a possibilidade de que as primeiras baladas de Ossian tenham permanecido inalteradas nos mil anos ou mais que levaram para ser postas no papel? Se quisermos ser rigorosos, portanto, Macpherson construiu sua farsa sobre mero folclore — uma invenção sobre outra invenção. Não é o suficiente para absolvê-lo, mas o bastante para reduzir sua culpa.

O musicólogo Charles Rosen soube explicar como ninguém o problema da culpa e da fidelidade na arte folclórica: “O Ossian de James Macpherson é apenas o exemplo mais escandaloso [de falsificações e imitações de arte popular ou folclórica]: um valor alto atribuído à autenticidade é estímulo imediato para o falsificador. Da compilação de material folclórico autêntico à imitação e depois à falsificação não é uma série de estágios separados mas uma linha contínua, e é difícil classificar muitos dos exemplos, [como] as transcrições literais vindas da tradição oral feitas pelos irmãos Grimm e publicadas, primeiro com notas filológicas e depois, em edições tardias, com melhorias artísticas”.[7] Entre os inúmeros exemplos que poderíamos mencionar, sem sair do mundo da música, estaria o de Villa-Lobos: na sua grande compilação de peças ditas folclóricas (o Guia Prático em especial), resgatadas em viagens não raro imaginárias pelo Brasil, não se sabe onde terminam os registros propriamente ditos e começam as composições originais.

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Villa-Lobos (EBC)

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Do fake folk às fake news

Macpherson e Ossian são figuras hoje lembradas sobretudo por melômanos e acadêmicos. Na história da literatura, poderiam render um parágrafo; na da música, uma ou duas páginas. Nas artes plásticas, O Sonho de Ossian, de Ingres (1813), seja talvez a única tela que tenha merecido sobreviver. Seus nomes aparecem agora sempre juntos, como se a mesma confusão entre criador e criatura, ou descobridor e descoberto, tivesse voltado depois da separação, nesse eterno retorno que é a história da arte. Se Macpherson morreu praticamente impune (apesar dos ataques do Dr. Johnson e dos irlandeses durante sua vida) e saboreando a glória, há fraudes semelhantes com finais menos felizes, como a de Thomas Chatterton, o poeta que “descobriu” a obra de um monge medieval e se suicidou aos 18 anos, atormentado por ambições frustradas e, quem sabe, pelo sentimento de culpa.

Continuemos brincando com o eterno retorno: e se James Macpherson ressurgisse, em carne e osso, nos dias de hoje? Poeta obscuro, embora com formação sólida e respeitável cultura, decide lançar no Twitter e no Instagram o nome de um colega de letras, igualmente obscuro, já morto há muitos séculos. O nome dessa figura longínqua aparece em livros antigos, esses objetos que nossos contemporâneos conhecem cada vez menos; tal desconhecimento, paradoxalmente, facilita a missão do Macpherson contemporâneo, que não precisa se dar ao trabalho de viajar pelo interior de seu país gravando cantigas de ninar ou anotando histórias de bisavôs à beira do fogo. Talvez nem mesmo os livros antigos sejam necessários, porque é duro pesquisar nas bibliotecas. Há referências a esse velho poeta na Wikipedia e em sites acadêmicos ou pseudoacadêmicos, blogs de amantes de poesia, monografias que não se sabe se foram aprovadas ou por quem foram aprovadas. Não é improvável que, cansado de pesquisar, Jimmy decida inventar mais e mais coisas a respeito desse druida, coisas tanto biográficas como artísticas, coisas que, sabe ele muito bem, serão postas em dúvida por um ou outro, mas não com força de convencimento ou rigor suficientes para sofrerem execração definitiva. Macpherson se dá conta de que o século XXI é muito semelhante ao século XVIII — nesta época pós-contemporânea, pós-realista, pós-tudo, os homens que escrevem e leem também sentem necessidade de novidades. Como a visão do todo falta aos olhos do presente, corre o perigo de não saber em vida se ele e seu “personagem” mudarão os rumos da estética; falta um Herder para sistematizar a importância dessa novidade. Em compensação, seu Ossian pode tornar-se trending topic no Twitter. Pelo que ele percebeu, a fome dos superpolitizados intelectuais e críticos de hoje é de polêmica, porque a polêmica lhes garante um lugar nas colunas dos jornais e nas redes sociais, sem que ninguém precise ler o que escrevem. Jimmy sabe que ninguém, ou pelo menos pouca gente, o lerá. Mas não importa: pensando bem, é até mais seguro que seu público permaneça escasso, pois, nestes dias, Orson Welles brincando de guerra dos mundos estaria na cadeia, e o garoto Chatterton acharia motivos verdadeiros para se matar, sofrendo um selvagem bullying virtual dos internautas, sem que uma linha sua sequer seja discutida.

Assim, manter viva a discussão é tarefa que, se depender da sua esperteza e do espírito do tempo, durará o bastante para assegurar-lhe sobrevidas. Nestes tempos, ao contrário do que disseram uma ou duas gerações antes, os quinze minutos de fama podem prolongar-se indefinidamente. Basta conhecer as regras do jogo e saber encarar os vereditos sem trânsito em julgado: Macpherson sabe que será condenado por uns e absolvido por outros, em um redemoinho jurídico interminável que nunca chegará a qualquer conclusão, porque acontece no mundo das meias-verdades. Ele aprenderá rápido a circular à vontade no meio de youtubers entendidos, adolescentes-cientistas, jornalistas-cientistas, heliocentristas, influenciadores de tudo e de nada. Macpherson se divertirá no Facebook com gente obcecada por nazistas e seus inimigos obcecados por comunistas (ele será comparado a Goebbels em algum momento), com racistas de todos os tipos, com representantes de gêneros sexuais que jamais imaginaria possíveis, cada um deles carente de atenção e do que chamam de “empoderamento”. Ninguém mais terá orgulho das contribuições legadas por épocas iluminadas, como o século de sua primeira encarnação. Ninguém mais tem certeza de feitos extraordinários, e a ida do homem à Lua pode não ter passado de um bom filme. Agora, a medida moral dos despotismos é confusa: às vezes, ela depende apenas da ideologia.

Nessa pequena aventura de ficção, somos tentados a convidar outros personagens a subir ao palco, as reedições dos antigos personagens da época do primeiro Macpherson. Eles se unirão em partidos diferentes e apresentarão diagnósticos diferentes sobre a mesma farsa. Nosso polêmico escocês, a julgar por seu caráter, poderá gostar de usar robôs para disparar mensagens em sua própria defesa — ou em defesa de sua criatura. Essa inundação será, por sua vez, replicada por usuários de verdade, não necessariamente todos estúpidos; muitos admiram Ossian com sinceridade e paixão, ainda que saibam que Ossian não tenha passado de um embuste. O Dr. Samuel Johnson, cheio de princípios, dirá: “Esse escocês é um picareta, e como todo picareta merece não apenas a prisão como a condenação moral do público pelo mal que sua mentira causou” — e acionará seu próprio exército de robôs. A reencarnação de Goethe vai declarar que nunca gostou de verdade do poeta milenar, mas será logo desmascarada pelas milícias digitais que descobrirão seu entusiasmo passado — inútil demonstrar que o entusiasmo fosse apenas de personagem seu. Schubert, Beethoven e talvez Napoleão permanecerão em cima do muro, porque apreciam as poesias e não desejam polemizar (Napoleão, em especial, tem essa característica já apontada por Goethe: gosta da música e da literatura contrárias à sua natureza. Por isso é leitor do Werther, e por isso talvez prefira não polemizar). Brahms e os artistas que o sucederam, como comedores de fois gras, já lavarão as mãos quando souberem como surgiram os poemas. Por fim, Macpherson contará também com apaixonados defensores, como seu compatriota Walter Scott, inventor de muitas coisas que hoje se supõe verdades históricas. E, se ressuscitarmos Borges, cuidaremos de sua redenção absoluta: “Fingal pode não ser uma reconstrução autêntica de uma epopeia celta; o indiscutível é que se trata do primeiro poema romântico da literatura europeia. Macpherson foi um poeta que deliberadamente se sacrificou para a maior glória da Escócia”.[8]

Borges, esse eterno fã das sagas islandesas (com as quais a poesia céltica tanto se parece), transcreve alguns trechos para defender que Ossian-Macpherson não é assim tão ilegível: “minha alma está cheia de outros tempos”; “viram a batalha em seus olhos, a matança dos exércitos em sua espada” etc.

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Destaco ainda estas duas estrofes:

Ao lado duma pedra, no morro, debaixo

das antigas árvores, o velho Ossian

sentava sobre o musgo; o último da raça de

Fingal. Sem olhos cansados estão sem visão;

sua barba ondula com o vento. Vaga,

através das árvores nuas, ele ouviu a

voz do norte. Renasceu a tristeza em

sua alma: ele começou a chorar os mortos.

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De que maneira caíste como um carvalho,

com todos os galhos à tua volta! Onde

está Fingal, o rei? Onde está Oscur, meu

filho? Onde estão todos de minha raça? O dor! Sob a

terra eles jazem. Sinto suas tumbas

com minhas mãos. Ouço o rio embaixo

murmurando, rouco, sobre as pedras.

O que me fizeste, ó rio? Trouxeste

de volta a memória do passado.

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Legível ou não, a poesia ossiânica é um marco remoto da confusão gerada por notícias falsas no mundo da arte. A moral da história, se é que há alguma, deveria sustentar-se na força da consciência individual e na posteridade como os melhores — e talvez únicos — juízes.

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The Death of Malvina, Ary Scheffer, c. 1802

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Notas:

[1] Estes e os demais trechos transcritos neste artigo integram os Fragments of Ancient Poetry Collected in the Highlands of Scotland, a primeira coleção dos antigos poemas celtas publicada por Macpherson (1760). Disponível no sítio eletrônico do Projeto Gutenberg (www.gutenberg.org). Tradução livre, para a qual contei com a valiosa ajuda de Luís Guilherme Cintra.

[2] Barzun, Jacques. Da Alvorada à Decadência. Rio de Janeiro, Editora Campus, 2002. Pág. 449.

[3] Almeida Garrett e Fagundes Varella também deram suas contribuições. Apesar disso, não há, aparentemente, tradução integral dos poemas para o português.

[4] É possível que a admiração de Goethe por Ossian não tenha sido tão intensa, ou possa ter declinado ao fim de sua vida. Em 1829, comentou em uma entrevista que Werther admirava Homero enquanto mantinha a sanidade, substituindo-o por Ossian quando começou a enlouquecer. De fato, o já apaixonado Werther escreve em uma de suas cartas que “Ossian tomou o lugar de Homero em meu coração”.

[5] Traduções soltas para o francês vieram à luz com extraordinária rapidez, em questão de alguns meses, mas a obra completa só foi vertida em 1777 por Le Tourneur, o grande tradutor de Shakespeare.

[6] No Colóquio, Ossian, após passar séculos na Terra da Juventude, narra a São Patrício os feitos de seu pai e avô à frente do Fianna.

[7] Rosen, Charles. The Romantic Generation. Cambridge-Massachussets, Harvard University Press, 1998. Pág. 411

[8] Borges, Jorge Luis (com Vázquez, Maria Esther). Introducción a la Literatura Inglesa in Biblioteca Borges. Madri, Alianza Editorial, 1999. Pág. 52

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Bibliografia adicional:

Carpeaux, Otto Maria. “Falsificações” in Ensaios Reunidos, vol. 1. Rio de Janeiro, UniverCidade Editora e Topbooks, 1999. Págs. 515-6.

Goethe, Johann Wofgang von. Os Sofrimentos do Jovem Werther. São Paulo, Editora Estação Liberdade, 1999.

Porter, James. Beyond Fingal’s Cave. Rochester, University of Rochester Press, 2019

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André Chermont de Lima

André Chermont de Lima é diplomata de carreira e atualmente exerce o cargo de Ministro-Conselheiro na Representação do Brasil junto à UNESCO, em Paris.