Berthe Morisot: a dama do impressionismo

Eugène Manet e sua filha no jardim (1883). Coleção particular

por Marize Schons

O impressionismo foi um movimento artístico que surgiu no século XIX que, ao excluir linhas e contornos, transgrediu as regras do realismo acadêmico da época. A partir de novas cores criadas pelo progresso da química e da metalurgia, esses artistas retratavam as transformações drásticas ocorridas nos modos de vida e na paisagem urbana devido à Revolução Industrial. 

Os pintores impressionistas apostavam mais nos efeitos visuais e na representação da vibração da cor e menos nos detalhes da pintura. Entretanto, apesar do nome impressionismo, o olhar estava no presente e seus temas baseavam-se em cenas muito realistas do cotidiano da época e da dinâmica efervescente de cidades como Paris. 

Claude Monet, ao investir na pintura ao ar livre, conseguiu reproduzir a luz solar na sua efemeridade. Monet pintava ferrovias, portos e fábricas. Suas técnicas expressavam a fumaça densa do ambiente industrial e urbano. Contudo, é mais conhecido ainda por seus jardins e paisagens do campo. 

Essa coexistência de imagens demonstram uma nova sensação e um poder adquirido na época: poderíamos viajar longas distâncias em pouco tempo. As festas no jardins de Auguste Renoir e Édouard Manet são convenientes à atual possibilidade de se deslocar das grandes cidades para as casas de campo. 

Ao olharmos as bailarinas de Edgar Degas, geralmente, atribuímos noções contemporâneas sobre a elegância da dança e a beleza do corpo feminino. Porém, estamos caindo nas armadilhas do anacronismo. A história do “pintor das bailarinas”, hoje, é revisitada por pesquisadores que tentam compreender sua fixação. 

Mas um fato curioso é que o ballet do século XIX, a partir de seu olhar, pretendia representar trabalho árduo e sistemático dessas mulheres. Degas não foi o pintor dos shows e espetáculos – como Toulouse Lautrec ao pintar os cabarés do Moulin Rouge – mas reproduzia os movimentos repetitivos dos ensaios, os momentos de cansaço, de tédio e até mesmo de fracasso das dançarinas. 

O impressionismo mudou o mundo e captou as mudanças no mundo moderno. E as obras desses artistas podem ser apreciadas nos mais famosos museus da Europa e dos Estados Unidos. Contudo, não é tão “simples” encontrar nos grandes museus um olhar singular específico do Impressionismo. 

Berthe Morisot (1841 – 1895), não menos brilhante que seus pares, mas muito menos conhecida, foi uma das fundadoras deste radical movimento. Em suas obras é possível apreciar seu próprio olhar sobre o cotidiano de uma mulher no século XIX e uma versão extremamente feminina da estética impressionista. 

Mulher no seu toalete (1880). Instituto de Artes de Chicago

Prática comum nas famílias burguesas, estudou arte desde cedo, trabalhou como como assistente de pesquisa e chegou a pintar profissionalmente na vida adulta, porém, não por dinheiro. Berthe Morisot foi, ao mesmo tempo, esposa e mãe. 

Sua filha, Julie Manet, pode ser vista tanto nas próprias obras de Morisot  – muita vezes acompanhada de seu marido, Eugène Manet – como também em pinturas de seu irmão, Édouard Manet, e do famoso Renoir.

Morisot e seu cunhado, além de amigos, também estabeleceram uma relação de mestre e pupila. Porém, a admiração era mútua. Documentos e registros mostram o apreço de Manet pelo estilo e talento de Berthe. 

Apesar da estética calma, simples e radiante de suas obras, cartas da artista – publicadas após a sua morte – revelam o conflito entre as demandas de esposa e mãe com as aspirações da carreira como uma pintora de extraordinário talento.

Diferente – ao mesmo tempo ainda tão semelhante – da realidade da mulher no século XXI, Berthe não abriu mão de nenhuma das partes importantes da sua vida. Seu relatos trazem as estratégias de uma mulher astuta que negociava entre as demandas da família e carreira

A chamada “dama do impressionismo” precisa ser lembrada – ou talvez conhecida por alguns. Boa parte das suas obras fazem parte de coleções particulares, das quais não podemos ter acesso. Entretanto, alguns de seus quadros podem ser encontrados no Museu Wallraf-Richar na Alemanha e no Museu de Orsay e no Museu do Impressionismo, ambos em Paris. 

Notas

[1] HIGONEET, Anne. Berthe Marisor. University of California Press: LA, 1995

Marize Schons

Marize Schons é professora no curso de Relações Internacionais do Ibmec-MG, mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Doutoranda em Sociologia pela mesma instituição.