O naufrágio dos fotogramas e o manto de plumas dos Mundurukus

por Júlio Bressane

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A catástrofe do Museu Nacional traz-me à memória a lembrança dolorosa do fogo destruidor do grande manto de arranjos plumários dos Mundurukus.

Manuel Nunes Pereira foi quem me apresentou e descreveu esta obra de arte.

Lembro-me bem.

“Pitaguari, abre a arca dos Mundurukus” dizia meu adorado Nunes Pereira ao chegar ao Museu Nacional, frequentador assíduo daquele espaço conhecia tudo ali, ou, “quase tudo” como gostava de dizer com seu sorriso divino o escritor de A casa das Minas, Os índios Maués, Moronguêtá e tantos outros. Pitaguari era um funcionário do Museu que guardava, encantoado em uma arca, os mantos e arranjos plumários dos antigos Mundurukus, peças de um valor e de uma beleza altíssimos. Mantos de plumas que conservam as formas mais elegantes da beleza, organizados em uma montagem com penas dispostas em combinações emotivas, cores, textura, parentesco e rima da plumagem, o realce feito pelo encadeamento de particular com particular, harmonia gradual de motivos, mito, dança, ritmo e música em um canto de plumas, conhecimento perfeito da natureza na mais alta arte feita pela humanidade. Depois de admirar o manto aberto inteiro e ouvir a detalhada descrição do Nunes Pereira, eu percebi uma pequena parte daquela obra de arte, construída pelo acúmulo do fundo ancestral da memória hereditária. Diante da exuberante beleza do manto de 5 ou 6 metros de comprimento sentimos a riqueza do passado, a plasticidade de uma natureza de forte sensibilidade sonora, estímulos prolongados, combinação de diversas e diferentes plumagens em uma só, verdadeiro código hieroglífico de cosmologia desconhecida. Tesouro de uma delicadeza desaparecida…

O manto de plumas dos Mundurukus, sua carbonização, crava uma chaga no nosso corpo, no corpo do mundo, de todos os homens, decepa um centro vital, a obstinada e incansável luta do homem por uma orientação sensível no mundo e no cosmos, destruída.

Traça igual sorte o destino dos milhões de fotogramas conservados na Cinemateca Brasileira em condições incertas, aflitivas e quase sempre desesperadoras, no embate com a indiferença. Todos os filmes são expressão de energia e pathos. Não há fotograma, imagem, filme sem essa carga simbólica. Há sim falta de distância, distância de nossas fobias, para se observar com longa extensão, com longa duração, os filmes. Todo movimento dos corpos, a história dos gestos, estão vivos nesses carrosséis de fotogramas.  Aby Warburg chamava o cinema de “grande Atlas de gestos humanos”.

No Brasil, tão deficiente de sua memória, forçoso é despertar, pois, estamos dentro da jangada de Medusa, na qual um sobrevivente, de costas, em meio a cadáveres, em vão acena, agitando desesperadamente um pedaço de pano, a rogar socorro de alguém no horizonte distante e perdido…

Na migração simbólica dos gestos arcaicos sobreviventes repetimos, na tragédia da Cinemateca Brasileira, a passagem, a medalha iconológica, do episódio histórico de Canudos.  O mesmo arruinar, o mesmo desatino, a mesma não compreensão de um traço superior… Hieróglifo de nosso destino.

Não temos apercepção da necessidade de biblioteca, de pinacoteca, de cinemateca, nossa sociedade dispensa tais reservas vertebrais e não dá importância a esta falta aberrante. Podemos ser um país sem estas instituições?  Pelo estado de derrelição, de desamparo, de abandono, mostramos que podemos desprezá-las. E as desprezamos.

Equipado das poderosas armas da carne animal, dos carros e mais carros, do sistemático envenenamento do solo, da água e do ar, dirigimo-nos para o futuro emborcado na direção da sentina transbordante de uma galera derruída…

SOS BRASIL.

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