Joseph Brodsky: “Não vá sair do teu quarto”

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“Não vá sair do teu quarto”

O poema de Brodsky que se tornou hino da pandemia na Rússia

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por Astier Basílio

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Em março do ano passado, o presidente Vladimir Putin apareceu na televisão e fez um pronunciamento anunciando que toda a Rússia entraria em regime de quarentena. O decreto que impediria a circulação de pessoas sem autorização prévia, aconteceu apenas quatro dias após o aniversário do poeta Joseph Brodsky.  Por ironia do destino, um de seus poemas mais conhecidos aqui na Rússia, se inicia dizendo: “Não vá sair do teu quarto” e termina com um chamamento: fazer “uma barricada” contra “vírus”.

Ano passado, celebrou-se o jubileu de 80 anos de idade do poeta judeu que emigrou para os Estados Unidos e la viveu até sua morte, em 1996.  Em sua cidade, São Petersburgo, as comemorações tiveram de ser feitas pela internet. Além da abertura de um museu com o seu nome foram realizadas leituras de poemas. Escrito em 1970, “Não vá sair do seu quarto” assombra pelo seu tom profético. Os versos se alastraram de boca em boca, numa avalanche de citações, vindo a se tornar uma espécie de hino da pandemia.

Uma infinidade de memes circulou pelas redes sociais à medida em que as pessoas tiveram que suportar os dias de confinamento. Em um deles, uma foto do rosto do poeta é legendada com a frase: “Brodsky se orgulharia de como eu passei minha sexta-feira”.

Camisetas com o verso “Não vá sair do teu quarto”, sentença no imperativo que  se repete ao longo do poema como uma espécie de refrão, passaram a ser vendidas. Houve quem tivesse a divertida ideia de estampar um trecho do poema em um par de meias e vendê-las. Em intervenções de rua, na cidade do poeta, São Petersburgo, um artista urbano afixou uma fotografia do poeta usando máscara.

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“Brodsky se orgulharia de como eu passei minha sexta-feira”

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“Não vá sair do teu quarto”

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Em pesquisa realizada nas redes sociais, que contou com a participação de 40 mil pessoas, se chegou à conclusão de que a maioria dos russos sabe que Brodsky é o autor da frase “não vá sair do seu quarto, não vá errar na saída”. Em torno de 56 a 66% (a depender da rede social) acertaram quem havia escrito a sentença. O curioso é que 15% acreditava que o autor da frase era o representante da Organização Mundial de Saúde.

O sucesso do poema, entretanto, é anterior ao surgimento do novo coronavírus. Sua publicação aconteceu em 1994, na prestigiosa revista Novy Mir, quando Brodsky já havia sido laureado com o Prêmio Nobel e entrado de vez para o panteão da literatura clássica russa.  O texto, por sua vez, embora escrito na época que Brodsky vivia na União Soviética, não foi incluído em nenhuma samizdat, nome dado às edições clandestinas que circulavam entre os leitores, para driblar a censura do regime, que não apreciava muito as produções do poeta. Brodsky chegou ao ponto de ser preso pelas autoridades do governo socialista sob a acusação de parasitismo.

“Em algum momento o próprio Brodsky também se esqueceu do poema”, opina Roman Leibov, escritor de 57 anos, nascido em Kiev e radicado na Estônia. Em uma conversa com outros literatos sobre “Não vá sair do teu quarto”, publicada na revista Polka.

Nas redes sociais, como o VK, a mais popular da Rússia, o poema de Brodsky mais postado é justamente este que recomenda não se sair de casa. Uma das razões para o impulsionamento do sucesso talvez esteja no fato de que em 2012, o artista multimídia Userdie, de São Petersburgo, mixou a voz do poeta Brodsky, declamando “Não vá sair do teu quarto”, sob um tema do grupo Noisia.  O tom de voz semelhante ao de quem está fazendo uma prece se ajustou com perfeição à batida eletrônica e deu a impressão de se estar diante de um rapper executando seu número musical. Esta faixa apareceu ainda no filme The Downshifter (Rússia, 2015, direção de Roman Prygunov). No ano seguinte, foi a vez de  um gato aparecer recitando estes versos famosos, como uma espécie de paródia, de uma agência de vende e aluga apartamentos. Há, entretanto, outras versões em rap deste mesmo poema. Anteriores ao advento da doença que teve origem na China.

Pelas análises que li, é de se crer que o poeta, mais do que ironizar contra o sistema que lhe tolhia os passos, faz uma reflexão sobre o próprio ofício da poesia e seu lugar no mundo. Um dos críticos observa não ser por acaso que Brodsky escreveu uma longa elegia ao poeta inglês John Donne, cujas reflexões sobre o isolamento — “nenhum homem é uma ilha” — portanto, lhe eram muito caras. Evocou-se ainda a relação entre tempo e espaço dividindo o mesmo ambiente de aperto. À época da escrita, mais de 40% das moradias do centro da então Leningrado eram compostas de apartamentos comunais, onde muitas famílias dividiam o mesmo espaço comum.  Estabeleceu-se, ainda, a imagem do quarto como metáfora de um caixão. Como num lance metalinguístico, é a si próprio quem o poeta convoca para não sair de casa.

O dado curioso, para nós, é a menção à Bossa-Nova, ritmo musical que chegava, por aquele período, aos lares soviéticos pelas ondas do rádio na Rússia. Por coincidência, este foi o primeiro poema que traduzi. E o fiz, justamente, durante os dias de isolamento, numa dacha, próximo à cidade de Vologda, no Norte da Rússia. O que é publicado agora é uma revisão daquela versão inicial — abaixo, o original em russo.

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Interveção do grupo Halvahfabric

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Não vá sair do teu quarto

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Não vá sair do teu quarto, não vá errar na saída,

para que tragar o Sol se podes fumar teu Shipka?

Da porta pra fora é inútil, sobretudo, o estar contente

vá apenas ao banheiro — mas volte rapidamente

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Oh, não vá sair do teu quarto, não dê chamada ao motor,

pois teu território é feito a partir do corredor

com final no taxímetro. Se uma linda for surgindo,

a presa abrindo, não deixe ela ir se despindo.

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Não vá sair do teu quarto; considere em ti um mau jeito.

As paredes e as cadeiras — no mundo há algo mais perfeito?

Pra que ir não sei pra onde se à noite voltas e ficas

do mesmo jeito que eras, mas como quem se mutila?

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Oh, não vá sair do teu quarto. Dance Bossa-Nova em falso,

corpo nu no sobretudo e salto agulha em pé descalço.

A porta cheira a repolho e a pomada de esqui.

Escreveste muitas letras; mas uma a mais sobra aqui.

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Não vá sair do teu quarto. Que só teu quarto, a propósito,

saiba da tua aparência. Mas ainda assim, incógnito

ergo sum, já sob a forma, corações em substância.

Não vá sair do teu quarto. Na rua há chá, não há França.

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Não sejas tu um maluco! Sê o que não foram os outros

Não vá sair do teu quarto! Anime os móveis, teu rosto

cole ao papel de parede. Feche uma barricada em giros

de armário contra cronos, cosmos, eros, raças, vírus.

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Не выходи из комнаты, не совершай ошибку…

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Не выходи из комнаты, не совершай ошибку.

Зачем тебе Солнце, если ты куришь Шипку?

За дверью бессмысленно всё, особенно — возглас счастья.

Только в уборную — и сразу же возвращайся.

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О, не выходи из комнаты, не вызывай мотора.

Потому что пространство сделано из коридора

и кончается счётчиком. А если войдёт живая

милка, пасть разевая, выгони не раздевая.

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Не выходи из комнаты; считай, что тебя продуло.

Что интересней на свете стены и стула?

Зачем выходить оттуда, куда вернёшься вечером

таким же, каким ты был, тем более — изувеченным?

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О, не выходи из комнаты. Танцуй, поймав, боссанову

в пальто на голое тело, в туфлях на босу ногу.

В прихожей пахнет капустой и мазью лыжной.

Ты написал много букв; ещё одна будет лишней.

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Не выходи из комнаты. О, пускай только комната

догадывается, как ты выглядишь. И вообще инкогнито

эрго сум, как заметила форме в сердцах субстанция.

Не выходи из комнаты! На улице, чай, не Франция.

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Не будь дураком! Будь тем, чем другие не были.

Не выходи из комнаты! То есть дай волю мебели,

слейся лицом с обоями. Запрись и забаррикадируйся

шкафом от хроноса, космоса, эроса, расы, вируса.

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Brodsky

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P.S. Postei ainda um vídeo em meu canal, Direto da Rússia, em que leio os versos traduzidos, alternando-os com o original, lido na voz do próprio Brodsky.  O poema, em russo e em português, pode ser ouvido aqui:

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Astier Basílio

Astier Basílio é jornalista, poeta, ficcionista e dramaturgo. Venceu o Prêmio Funarte de Dramaturgia 2014.