É isso uma pessoa?

por Celina Alcântara Brod

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Apenas um profundo assombro: como é que, sem raiva, pode-se bater numa criatura humana?

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Primo Levi

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Primo Levi, por Larry Rivers

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Poucos homens conseguiram registrar as sensibilidades da vida humana — mesmo que em meio à uma incalculável crueldade — melhor do que Primo Levi. No seu impactante livro, É isso um homem?, o escritor narra sua experiência em um campo de concentração nazista e os detalhes do processo brutal cujo propósito era transformar pessoas em meros “exemplares comuns da espécie humana”. O relato profundo e sensível de Primo Levi nos apresenta a morte em vida. A morte estava presente naqueles que foram reduzidos a animais pela lógica do campo, como também no vazio mortífero dos guardas, encarregados em materializar o aniquilamento daquela “multidão anônima, continuamente renovada e sempre igual”. A narrativa de Levi fala, sobretudo, a respeito da luta pela manutenção da recusa do consentimento: a última barreira que protege o indivíduo de marchar como uma marionete ao som da absoluta indiferença.

Porém, há quem sonhe, mesmo que timidamente, em ser uma marionete. Não me refiro ao determinismo das leis da natureza que nos governam; falo de quem, por estar esgotado do ato da escolha, deseja transformar-se em um leve e despreocupado fantoche. Quanta leveza há naquele que flutua pelos fios invisíveis do comando e do conhecimento alheio! Em um mundo onde os velhos mitos não satisfazem mais, crescem os anseios de entregarmos nossas incessantes maquinações à alguma ordem significante e audaz. Pinocchios antigos ou modernos, tanto faz.

Será que a facilidade pela qual aderimos aos modos de comportamento e pensamento é culpa do niilismo, das sociedades de massa ou da angústia da dúvida sem intervalo? Sinceramente, quem poderá alvejar um único e exclusivo culpado?  Para meu propósito aqui, é suficiente dizer que basta que se nasça humano para termos de lidar com isso. Ser uma pessoa é admitir e coexistir com o ônus do conflito. Porém, não basta ser humano para ser pessoa.

Ser pessoa não é o singular de humanidade, tampouco significa um conceito que meramente reúne as propriedades do corpo e da mente. Pessoa, em termos conceituais, é mais robusto, envolvendo elementos que permitem uma distinção — nem por isso especial e primordial — de outras espécies que, por sua vez, possuem igualmente corpo e mente. Ser pessoa, no sentido explorado aqui, envolve a relação, o uso e o julgamento daquilo que fazemos da nossa vontade. Disso não se segue qualquer subjugação dos indivíduos, algo que implique em uma desumanização, trata-se apenas das condições que constituem nossa capacidade para uma agência ativa; uma em que a deliberação não é aniquilada, instrumentalizada ou relegada às forças externas.

Para o filósofo Harry G. Frankfurt, os humanos, diferentemente dos outros animais, “são capazes de querer ser diferente, em seus propósitos e preferências, daquilo que eles são”. Somos criaturas com um complexo desenvolvimento racional e portadores de diferentes desejos; desejos de primeira e de segunda ordem. Os desejos de primeira ordem são inescapáveis a nós e aos outros seres, significam os desejos de querer fazer ou não querer fazer algo. Os desejos de segunda ordem, grosso modo, são desejos que dizem respeito sobre os desejos que temos. Já os juízos de valor que fazemos acerca dos desejos que temos, isto é, a avaliação crítica sobre o conteúdo dos nossos pensamentos, é chamada por Frankfurt de volições de segunda ordem. É no reconhecimento dessa espécie de volição que a autoavaliação acontece. Uma pessoa autoavalia-se toda vez que percebe a existência do conflito entre aquilo que ela quer e aquilo que ela quer querer e passa, então, a julgar qual desejo ela quer que constitua a sua vontade.

Aquilo que eu julgo como o desejo que eu deveria ter e, por isso, reconheço que quero vê-lo efetivado na minha vontade é uma volição diferente, mais refinada, menos óbvia, mas não menos importante. Para Harry Frankfurt essa volição de segunda ordem é um elemento essencial, que nos caracteriza com o conceito de pessoa, pois trata dos valores que estabelecem a nossa identidade.

A autoavaliação é um dos efeitos da nossa autoconsciência. John Gray, em sua obra A alma da Marionete, coloca essa ideia da seguinte forma: “estar divido em relação a si mesmo tem a ver com ser autoconsciente.” Ou seja, somos criaturas cuja vida interna comporta múltiplas camadas de desejos concorrentes, não somente isso, julgamos e avaliamos tais camadas. Somos uma espécie que especula sobre qual querer desejamos ver efetuado pela nossa vontade. Assim, ser pessoa implica em importar-se com tais movimentos da autoconsciência e não ser simplesmente neutro em relação aos desejos que se apresentam. Manter vivo o diálogo a respeito do peso e consequência de nossos desejos é o que nos difere tanto dos animais, como das crianças inocentes.

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John Gray

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Não é à toa que o nosso vocabulário abriga palavras como arrependimento, desculpas, agir precipitado, erro e aprendizado. A frase “eu me arrependi” só existe e faz sentido em um mundo onde é possível reconhecer desejos conflitantes e o fato de que alguém poderia ter escolhido diferente. Quando cedemos, com total indiferença valorativa, aos desejos que arranham bruscamente a superfície, ou em termos humeanos, às paixões violentas, somos aquilo que Frankfurt denominou como “wanton”.  Um “wanton”, diferente de pessoa, torna-se insensível às volições de segunda ordem, deixando de ajuizar sobre aquilo que deseja, sendo, então, tragado pela indiferença. O wanton não se preocupa se os desejos que lhe motivam a agir são desejos que ele quer que, de fato, impulsionem sua ação. Um wanton, portanto, não é conceitualmente pessoa, pois o fato de sua vontade ser livre ou não, sequer é um problema para ele.

No entanto, alguns acontecimentos apontam para uma inquietante hipótese: não se é uma pessoa, se está uma pessoa. Ou seja, podemos em determinadas circunstâncias, por uma conjunção de múltiplos fatores, perder completamente ou negligenciar aquilo que nos faz pessoa. O mais assustador é perceber que essa perda não é tão difícil assim. É possível abafar as volições de segunda ordem de inúmeras maneiras. Podemos abandonar o conflito da liberdade da vontade, por exemplo, destilando os nossos desejos sobrepostos em algum “ismo”, comunidade, grupo, movimento ou autoridade.

Dois experimentos ficaram famosos por evidenciar elementos que dificultam ou neutralizam a efetivação de nossas vontades mais sinceras. Experimentos que nos levam a questionar o gatilho e a autoria de nossos feitos. Os psicólogos sociais Solomon Asch e Stanley Milgram abriram uma caixa de pandora quando decidiram ir atrás das respostas para a questão da conformidade e do consentimento submisso. Os resultados até hoje desafiam nossas noções de deliberação autônoma. Aparentemente, agir e pensar de forma independente pode ser extremamente raro em determinados contextos e ambientes.

Por exemplo: será que a pressão social externa consegue levar alguém a repudiar a evidência dos seus próprios sentidos? Ou seja, a simples opinião majoritária pode fazer com que alguém diga que algo é, mesmo não sendo? O quanto de nossas ações sucumbem à necessidade de conformidade com as normas de um grupo? O quanto estamos dispostos obedecer a alguém apenas para evitar o desconforto de dizer não? Essas foram algumas das perguntas que aguçaram a curiosidade de Asch e Milgram.

O psicólogo Stanley Milgram, a partir de um experimento um tanto polêmico, mostrou que podemos ser capazes de aplicar choques de alta voltagem em um inocente, quando nos vemos em uma determinada situação com que havíamos consentindo inicialmente. Assim, Milgram desnudou outra faceta da obediência: ela pode ocorrer sem que haja grande coerção ou imposição violenta. A sala de choques de Milgram lançava um olhar sobre o seguinte fato: fazer com que alguém siga regras de consequências danosas era mais fácil do que se pensava. Além disso, as ordens poderiam vir de alguém nada suspeito, até mesmo de um pesquisador vestindo jaleco branco, usando como causa o bem da ciência.

A hipótese audaciosa de Milgram — será que somos capazes de aplicar choques só para não ter de desobedecer a alguém? — revelava a facilidade com que o mal poderia ser praticado, até mesmo por quem não o deseja de fato. Bastava estabelecer uma obrigação contratual, oferecer uma oportunidade para abdicação da responsabilidade, dificultar o processo de desistência e montar uma situação em que uma figura de autoridade proferisse ordens diretas e secas.

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Stanley Milgram e seus alunos, em 1961

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Já as perguntas que orbitavam o pensamento de Solomon Asch eram: será que mentiríamos o que os olhos enxergam para não sofrer o desconforto do julgamento da maioria? Será que nossa percepção e crenças básicas — dizer que A é B, mesmo sendo uma óbvia falsidade — seria desafiada pela força da conformidade? O experimento de Asch mostrou que, quando temos que dar nossa opinião em público, mesmo referente a algo tão simples quanto o comprimento de uma linha, há uma enorme resistência em dizer algo diferente do que foi dito pela maioria. Mesmo quando esse algo é uma realidade óbvia e objetiva, tal como dois mais dois igual a quatro.

Asch demonstrava com seu experimento nossa forte inclinação a seguir o comportamento do grupo: o domínio da conformidade. Bastou alguns cartazes contendo três linhas (todas com comprimentos distintos), um outro cartaz com uma única linha e um pedido para que os participantes do estudo manifestassem em voz alta qual das linhas tinha o mesmo comprimento da linha referencial. O sujeito do experimento é o último a dar sua resposta. Após algumas rodadas de respostas corretas manifestada pelo grupo — sem conflito com sua percepção — o grupo começa a divergir. Os participantes passam a errar propositalmente (sem que o sujeito-cobaia desconfie), afirmando que a linha mais longa tinha o mesmo tamanho da linha média, ou a linha mais curta o tamanho da média. Na hora dos sujeitos-cobaias darem o seu veredito, a pesquisa mostrou que apenas um quarto manteve-se independente do começo ao fim do teste. Ao invés de confiarem nos seus tacos, decidiram dar a mesma resposta que o restante do grupo. Embora eles estivessem independentes em suas crenças, não efetivaram na ação. O estudo revelou outras variáveis interessantes, a saber, que a conformidade cresce conforme o número de pessoas no grupo aumenta. Por outro lado, a independência de pensamento também aumenta quando existe alguém concordando com as respostas do sujeito do experimento.

O estudo de Solomon Asch trouxe à tona algo que intuímos em nossas inter-relações: presumimos que somos mais facilmente aceitos quando concordamos com a opinião alheia. Por causa de uma forte ânsia pelo pertencimento trocamos as nossas diferenças por semelhanças. Manter a independência teria, portanto, um custo emocional; um pesado fardo psíquico.

Ambos os estudos, de formas distintas, mostram como os elementos que garantem nossa deliberação e agência autônoma podem ser corrompidos, levando os sujeitos a agirem em conformidade com uma força externa e não exatamente com suas vontades. No caso do experimento social de Solomon Asch, a força inibidora estava na opinião da maioria; já na sala de choques, desenhada por Stanley Milgram, a contaminação de uma ação livre estava na figura do cientista calculista.

Como podemos ver, não é preciso uma bota pisando um rosto humano — metáfora dita por O’Brien ao torturar Winston, na famoso obra de Orwell, 1984, ao forçá-lo a contradizer a lei da aritmética e aceitar aquilo que o Partido lhe dizia ser verdade — para que alguém desista de relatar a objetividade ou obedecer a ordens maldosas. Troque a bota por uma maioria e um conjunto inusitado de situações e talvez você tenha o mesmo resultado. Algo tão simples quanto o comprimento de uma linha pode ser omitido em nome da conformidade. Não é exagero. Foi a reflexão provocada por Asch e Milgram e seus experimentos.

Os motivos que nos levam a ceder nossa liberdade de discordar não podem ser resumidos a um só. Há quem não discorde pela preguiça do conflito, há quem consente por medo, outros por insegurança, outros pela simples vergonha de ser diferente. Além disso, há também aquele buraco que sentimos quando não nos juntamos ao grupo, uma estranha sensação angustiante e irrefletida de sermos excluídos. O medo, portanto, muitas vezes ganha da nossa autenticidade e enfraquece nossa independência. O custo social e emocional da autenticidade pode ser, para muitos, mais alto do que um consentimento insincero.

Ora, toda sociedade depende de nossa capacidade de consentir, mas para que esse consenso seja produtivo e frutífero, não pode ser resultado do domínio da conformidade, tampouco da obediência acrítica a uma autoridade. Isso ocorre porque a alta sociabilidade humana muitas vezes compete lugar com nossa autonomia. Seguidamente, pelo simples desconforto de pensar diferente, outras vezes pela sede de querer pertencer, fazemos o que não desejamos verdadeiramente e silenciamos quando não concordamos.

No pior dos cenários, acabamos codificando o nosso inconstante querer por deveres e fins alheios de um grupo, culto, ideologia ou líder. Mas há que se ter coragem para manter-se pessoa, e uma das formas de garantir isso é reconhecer que determinados princípios existem. Como escreveu Solomon Asch: “Quanto maior for a ignorância do homem sobre os princípios de seu ambiente social, mais sujeito estará ao seu controle; e quanto maior for seu conhecimento de suas operações e de suas consequências necessárias, mais livre ele pode se tornar em relação a eles.”

Liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro; de questionar as atitudes prejudiciais de um líder e suas contradições; de não delegar à alguma autoridade à expressão de uma verdade e poder inquestionável. A autodeterminação é mais rara do que se imagina e pode ser facilmente minada, pois nós estamos muitas vezes dispostos a agir contra uma de nossas mais calmas e nobres vontades em nome da conformidade. Às vezes um indivíduo pode perder inclusive a capacidade de se importar, alcançando finalmente a sua tão sonhada existência de uma marionete suspensa no ar.

Ser pessoa é praticar a arte de contornar o fúnebre prazer de ser um dócil ventríloquo. Uma prática que talvez comece pelo reconhecimento da nossa inconstância: “mudamos de vontade como muda de cor o camaleão”, nos lembra Montaigne, o filósofo desencantado. Ser pessoa é, nesse sentido mais sensível e humano, assumir a incontornável e responsável tarefa de andar, mesmo que cambaleando, na superfície da terra.

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A morte de Pinocchio, por Walther Jervolino

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Celina Alcântara Brod

Celina Alcantara Brod é mestre e doutoranda em Filosofia Política pelo Curso de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).