Clássicos para nosso tempo: a Grande Fronteira nos contos de Borges

por José Francisco Botelho

Jorge Luis Borges era fascinado por fronteiras ? tanto geográficas quanto metafóricas. Comecemos pelas geográficas; comecemos pela fronteira que lhe estava mais próxima: a orilla, o arrabalde de Buenos Aires, limite entre a cidade e a planície, território ao mesmo tempo denso e poroso, espaçado pelos grandes pátios frontais, pelos terreiros onde assomava a figueira solitária, pelo mistério dos terrenos baldios, por muros de cemitério e pelos boliches onde transitava, de mão em mão, o fraterno e perigoso copinho de canha. O arrabalde, área pobre, periférica, ignorada ou mal vista pela alta cultura literária da época, era a linha onde a cidade se esgarçava e se espraiava, para tornar-se campo; ou, pela ótica inversa, era o estuário onde a planície se adensava e as trilhas de terra coagulavam-se, de forma relutante e gradual, em esquinas e ruas. Ali, chegava ainda o cheiro da planície. Ali, em vez do compadrito, tipo suburbano falastrão  e mulherengo, imperava o orillero, trabalhador dos curtumes ou dos frigoríficos, de ancestralidade criolla, sisudo e lacônico, amante da milonga, versado ainda nas destrezas do cavalo e da faca. Era o limbo onde o cosmopolitismo de Buenos Aires se diluía no Prata profundo. Por essas paisagens ainda mal conhecidas da literatura, Borges perambulou na casa dos vinte anos, com amigos variados, arrastando contra as grades dos pátios sua bengalinha de dândi, respondendo com epigramas oblíquos à provocação inevitável dos valentões, ouvindo e recitando milongas, entornando ? ao que consta ? doses consideráveis de ginebra e aguardente. Certa noite, aos trinta anos, numa soirée elegante na área central de Buenos Aires, entreouviu a seguinte conversa a seu respeito:

? Bom poeta, esse Borges.

? De fato; pena que seja um bêbado.

A última observação foi feita por uma moça a quem Borges dedicava afeto profundo. O ríspido diagnóstico fez com que largasse a bebida. Mas não largou os arrabaldes: continuaram a obcecá-lo pelo resto da vida, como bem demonstrou a brilhante crítica Beatriz Sarlo em Borges: um escritor na periferia, de 1993, um dos melhores livros já escritos sobre o mestre argentino. As orillas aparecem em alguns de seus melhores poemas, nas páginas ensaísticas de Evaristo Carriego, e em contos como A morte e a bússola, no qual o detetive Lönnrot ? nome ironicamente finlandês ? vai encontrar sua nêmesis nos confins de uma Buenos Aires de sonho ou pesadelo: “Ao sul da cidade do meu conto, flui um arroio cego de águas barrosas, infamado por curtumes e lixões. Do outro lado, há um subúrbio fabril onde, sob o amparo de um caudilho barcelonês, medram os pistoleiros. (…) O trem parou em uma silenciosa estação de cargas. Lönnrot desceu. Era uma dessas tardes desertas que parecem amanheceres. O ar da turva lhanura era úmido e frio. Lönnrot saiu a andar pelo campo. Viu cachorros, viu um cavalo prateado que bebia a água crapulosa de um charco. Escurecia quando viu o mirador retangular da quinta de Triste-le-Roy, quase tão alto quanto os negros eucaliptos que o rodeavam”. Lönnrot morrerá nesse arrabalde: a ênfase da descrição tem o ritmo do destino que se aproxima.

Há em nossas Américas outra área limítrofe ? mais remota, mais ampla, menos notória ? em cuja dobra a imaginação de Borges habitou fervorosamente e de cuja solidão áspera extraiu algumas de suas páginas cruciais; o leitor brasileiro talvez se espante em saber que esse recôndito não é outro senão a fronteira entre o Brasil e o Uruguai. Borges lá esteve no início da década de 1930. Hospedara-se na fazenda de Enrique Amorim, amigo da família, na cidade de Salto, no Uruguai; sabe-se que também passou dez dias em Santana do Livramento, no lado brasileiro da fronteira, e não é impossível que tenha andado por outros recantos obscuros na região da Campanha. A experiência haveria de ressoar imensuravelmente em páginas futuras. Para começar, foi ali, no confim brasileiro, que Borges assistiu, pela primeira e única vez, ao assassinato de um homem. Estavam Borges e Amorim em um café, quando um bêbado começou a importunar certo figurão local. Seu capanga ? palavra brasileira que haveria de fascinar Borges desse dia em diante ? levantou-se e disparou dois balaços contra o borracho, que caiu morto ali mesmo. No dia seguinte, patrão e capanga tomavam café no mesmo local, imunes à lei. A cena impressionou Borges de tal maneira que ele voltaria a encená-la em pelo menos cinco contos ? entre eles, seu favorito pessoal, O Sul, em que o citadino criollista Juan Dahlman vai encontrar a morte num recôndito do pampa, muito semelhante àqueles visitados por Borges e Amorim na década de 30.

O Brasil surge de forma ainda mais nítida em diversas páginas de Borges, sempre em posição oblíqua, reticente, fantasmagórica e fatal. A escassez de espaço me obriga a escolher apenas um caso: o conto  Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, que abre Ficções. Herbet Ashe, o homem que “sofria de irrealidade”, viveu no Rio Grande do Sul antes de mudar-se para Adrogué, na Argentina. Do Brasil, foi-lhe remetida, por mãos misteriosas, um dos volumes da Enciclopédia de Tlön. Mais tarde, recebe uma carta anônima com selo de Ouro Preto, documento que revela detalhes também cruciais ao enredo. Por fim, em uma viagem à fronteira uruguaio-brasileira ? ei-la, de novo ? o personagem-narrador descobre que o mundo imaginário de Tlön está invadindo nossa realidade. Na “venda de um brasileiro”, um objeto evidentemente tlöniano é encontrado no “tirador” ? conhecida indumentária gaúcha ? de certo cantor e arruaceiro “vindo da fronteira” (de Livramento, quem sabe?). Essas minúcias sugerem que o Brasil ? especificamente o Rio Grande do Sul e Minas Gerais ?  é um dos centros da conspiração global por cujas estratégias o mundo, mais cedo ou mais tarde, “será Tlön”.

A distância e a familiaridade conjugaram-se na fascinação de Borges por nossa fronteira meridional. É preciso dizer que, na concepção de Borges, a Argentina e o Uruguai formavam um território mentalmente contínuo: a estendida cultura do Prata, ela própria essencialmente limítrofe, eternamente oscilante entre a Europa e o continente sul-americano. Chegando à orla do Brasil, surpreendeu-se ao encontrar aí figuras e situações que lhe lembravam os grandes clássicos argentinos, como Martin Fierro e Dom Segundo Sombra. Em Buenos Aires, os gauchos há muito escasseavam; na fronteira do Uruguai com o Brasil, pululavam às centenas e, em certa medida, ainda se comportavam como os personagens de José Hernandez e Ricardo Güiraldes. Ao mesmo tempo, a vastidão lusófona do Brasil acenava com atraente estranheza: o selo de Ouro Preto, em Ficções, representa a sedução dessa vertigem. Lembremos que Borges às vezes gostava de referir certa ascendência portuguesa; que era leitor dos Lusíadas, dos Sertões, da Ilustre Casa de Ramires; que dedicou um poema a Camões e citou Euclides da Cunha em um de seus melhores contos (Três versões de Judas). Também chegou a anunciar, no fim da vida, que pretendia escrever um poema sobre o Brasil ? e talvez ali todas essas linhas convergissem num desenho derradeiro. Para o bem ou para o mal, o poema jamais foi publicado; e ficamos com esses contundentes fragmentos, que jamais cessam de dizer o que querem dizer.

No início deste texto, declarei que as fronteiras amadas por Borges não eram apenas geográficas, mas metafóricas. Se me estendo tanto a falar sobre os arrabaldes de Buenos Aires e os limiares do Brasil austral, é porque esses espaços existem duplamente: como lugar e como símbolo. A palavra “borgeano”, abusada por resenhistas, parece ter perdido entre nós qualquer sutileza de sentido; parece indicar, apenas, um gosto meio antiquado pelos clássicos, uma morosa propensão erudita em páginas ficcionais. A compreensão de Borges como um escritor fronteiriço talvez sirva de antídoto a esse mal-entendido. O autor de Ficções transitava pela literatura como quem sobe e desce por uma borda imaginária, sem respeitar as divisões e hierarquias da alfândega cultural. Abordava os clássicos de forma lúdica, lendo-os “a contrapelo”, na expressão de Beatriz Sarlo: sem reverências monolíticas, sempre de forma rigorosamente pessoal, corrigindo-os ou refutando-os quando achasse necessário. Ao mesmo tempo, abordava gêneros considerados “menores” ? a narrativa policial, o conto de horror, a história fantástica, a poesia popular ? coma mesma gravidade que geralmente se confere a Hamlet e à Ilíada, apontando neles, quando calhava, a sublimidade e a grandeza que tanto se busca alhures. Preferiu a história de aventuras ao romance realista ? com a reveladora exceção de Eça de Queirós; mas buscou a nutrição fantástica em boliches e sarjetas “onde medravam os pistoleiros”. Em todos esses casos, o texto de Borges é um andarilho incessante na Grande Fronteira, espaço adjacente ao Destino e portentoso como a Morte, onde o Próprio descobre surpreendentemente o Outro e se vê por ele transformado ? mas transformado em si mesmo.

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José Francisco Botelho

José Francisco Botelho é autor de Cavalos de Cronos (Zouk, 2018), grande vencedor do prêmio Açorianos em 2019.