Como discutir produtivamente questões raciais?

por Flávio Williges

Os desacordos mais debatidos na sociedade brasileira são de natureza econômica, tal como ilustram as contínuas disputas entre direita e esquerda sobre privatizações, dívida pública, taxação, previdência, entre outros. No entanto, um olhar mais detido revela que a lista de questões que nos separam é bem mais vasta. Há uma cisão profunda nas ideias das pessoas sobre aborto, casamento gay, liberação da maconha, redução da maioridade penal, porte de armas, eutanásia, moralidade na arte, pornografia e assim por diante. Quero aqui analisar mais de perto um subgrupo do amplo conjunto de desacordos que dividem nossas opiniões, os “desacordos raciais”, particularmente os desacordos que dizem respeito a temas relevantes à população negra brasileira e as condições que devemos seguir para iniciar um debate produtivo sobre eles.

Um desacordo racial é um tipo de disputa ou dissenso acerca de qual a resposta correta para questões políticas e morais relativas à raça e ao racismo. Desacordos raciais, como o nome indica, ocorrem quando duas ou mais pessoas discordam sobre questões raciais como, por exemplo, as compensações financeiras aos descendentes de escravos, a adoção de cotas em universidades, proibição de piadas racistas, a causa das diferenças econômicas entre negros e brancos, importância de feriados simbólicos da comunidade negra brasileira – como o dia da consciência negra. Geralmente os desacordos sobre questões raciais ocorrem em redes sociais, conversas informais ou na mídia (televisiva e impressa) e são disparados quando alguém diz, por exemplo, que “não deveria haver um feriado da consciência negra” e outro pessoa retruca afirmando que “a data é importante para celebrar e reconhecer a importância do povo negro na história brasileira”.

Tem sido defendido (Bosco, 2017) que a sociabilidade brasileira está passando por um processo de mudança cultural. A assim chamada “ética do encontro” estaria sendo substituída por um modelo de sociabilidade centrado na disputa política, uma disputa que, no caso de questões raciais, colocaria em lados opostos brancos e negros. No plano dos desacordos raciais, no entanto, adivisão de opiniões não parece essencialmente ligada à cor ou raça. Embora brancos e não-brancos (negros e mestiços) tendam a ocupar posições opostas nos desacordos, também é comum encontrar brancos (como eu) simpáticos às pautas das minorias raciais, bem como negros conservadores (como o vereador Fernando Holiday que critica as cotas e o dia da consciência negra). Seguindo George Lakoff (2016), sugiro que divisões nos modos de pensar questões raciais decorrem dos conceitos metafóricos que orientam o pensamento e raciocínio sobre questões públicas, o que permite organizar as disputas em torno de dois grupos principais: os progressistas e os conservadores.

Os progressistas são aqueles orientados em seu pensamento sobre sociedade e raça por conceitos e categorias ligados à metáfora do “pai protetor”, ou seja, valorizam o cuidado, solidariedade e responsabilidade por si e pelos outros. Nesse sentido, progressistas veem as políticas de igualdade racial de modo positivo, e consideram negros vítimas de uma série de abusos que fazem sua história, religião, cultura, enfim, todos os aspectos de sua condição material e espiritual serem depreciados. Também consideram que brancos desfrutam de melhores condições para buscar seus objetivos, pois não precisam enfrentar certos obstáculos e nem pensar em si mesmos em termos raciais (por exemplo, considerar se sua cor ou cabelo irá prejudicá-los numa entrevista de emprego).

Conservadores, por outro lado, pensam a sociedade e os grupos raciais dentro dela em termos de uma família centrada na imagem do “pai rígido”. Nesse sentido, eles enfatizam a importância da disciplina, autoridade e veem as políticas sociais de proteção das minorias raciais como uma ameaça e um erro. Onde progressistas veem um grupo social oprimido, conservadores veem indivíduos com atitudes auto-indulgentes e consideram que seria melhor se o discurso da opressão racial fosse substituído por uma ética pessoal centrada na fortaleza diante de adversidades que seres humanos, independente da raça, precisam enfrentar.

Em função da distância das categorias e conceitos que progressistas e conservadores empregam para pensar questões raciais, frequentemente desacordos resultam em tensão e ofensas. Não é incomum defensores de posições progressistas serem taxados de “mimizentos”, “coitadistas”, “divisivos”, “raivosos”, enquanto os conservadores são frequentemente chamados de “fascistas”, “racistas”, “nojentos”. A ausência de uma ética conversacional introduz um componente de risco social nos desacordos, pois, como lembra Livingstone Smith (2011), a desumanização da fala age como lubrificante psicológico, dissolvendo inibições e inflamando nossas paixões destrutivas.

Como, então, em contextos de tensão, ofensas e com interlocutores que compreendem a sociedade a partir de dois sistemas morais e políticos incompatíveis, iniciar um diálogo construtivo sobre questões raciais?

Parte da divisão presente nos desacordos raciais parece insuperável, pois estudos de psicologia, linguística e ciência cognitiva sugerem que os conceitos e categorias que seguimos para pensar a sociedade atuam de maneira automática e inconsciente, nublando o espaço de atuação independente do pensamento e compreensão. Por outro lado, também tem sido argumentado que um debate público mais livre, menos preocupado com as restrições do “politicamente correto” ajudaria a avançar na construção de consensos. Eu considero que o debate aberto, objetivo e razoável é essencial para o enfrentamento da injustiça racial que assola nosso país há séculos, mas há um conjunto de premissas antecedentes ligadas às condições epistêmicas, emocionais e morais dos interlocutores que seria crucial observar. Podemos formular essas premissas como uma lista de habilidades que um debatedor deveria checar se dispõe em algum grau antes de opinar sobre questões raciais no espaço público. Minha pretensão ao indicar essa lista não é pôr travas ao debate e à livre circulação de ideias. Trata-se nada mais do que um conjunto de regras cautelares que promoveriam discussões mais ricas e evitariam irracionalidades, abusos e o sofrimento desnecessário que é provocado toda vez que as pessoas falam francamente sobre questões raciais, às vezes bancando o “advogado do diabo” e que tais. Essas habilidades valem para todos os grupos envolvidos no debate e consistem, basicamente, em educar a nós mesmos sobre questões raciais para poder discordar bem, com sensibilidade e de forma responsável. Elas foram identificadas por pesquisadores importantes nos campos da epistemologia social, teoria crítica da raça e da filosofia moral e política.

1. Ignorância ou desconhecimento da realidade racial de não-brancos: Considere a possibilidade de suas opiniões raciais serem resultado de um fenômeno de não-conhecimento sistêmico (identificado por Charles Mills como ignorância branca) sobre a realidade racial do povo negro. A ignorância branca, apesar do nome, não é uma ignorância ligada a pessoas brancas. Ela tem esse nome, pois é essencialmente um tipo de não-conhecimento ou ignorância comum em sociedades hierarquizadas racialmente, o que faz o conhecimento sobre diferentes grupos sociais circular de modo distorcido, favorecendo o grupo normativamente dominante e ofuscando a cognição, percepção, memória social, emoção e imaginação sobre grupos marginalizados. Um exemplo desse fenômeno no Brasil é a forma emocionalmente embotada que informações sobre mortes violentas em bairros pobres (onde a maioria da população é negra) são registradas subjetivamente e na opinião pública em comparação com a vivacidade e indignação que acompanha o registro do mesmo fenômeno em bairros de classe média ou ricos (habitados por brancos). Porque as informações não são registradas com a mesma intensidade e vivacidade, elas se apagam facilmente, tornando mais plausível defender, como se faz frequentemente, “que o pessoal exagera nessa coisa de racismo”. Também pode ser citada aqui a amnésia social em relação aos incentivos (terras, deslocamento e ferramentas) que imigrantes europeus, como meus antepassados, receberam, mas que raramente são lembradas quando a questão da compensação financeira de descendentes de africanos pelos anos de escravidão é levantada.

2. Confiabilidade do testemunho de representantes de grupos minoritários: considere que muitas vezes as crenças raciais que temos são falsas ou precárias por irresponsabilidade epistêmica ligada a estereótipos sociais. Por exemplo: um testemunho valioso, que poderia ampliar nosso estoque de conhecimento sobre questões raciais, é desconsiderado pois seu emissor é negro ou faz parte de outro grupo social discriminado (Fricker, 2007). Quando cautelas excessivas ou recusa do que a pessoa diz não tem nenhuma relação com sua confiabilidade, mas com estereótipos de grupo, estamos sendo irresponsáveis cognitivamente e punindo injustamente (ao utilizar critérios assimétricos) um grupo.

3. Impaciência com reações emocionais de dor e indignação de grupos marginalizados: considere que você pode estar sendo injusto ao condenar as reações de dor, indignação e raiva que representantes de grupos minoritários manifestam em debates raciais, especialmente quando ouvem alegações mal informadas ou insensíveis racialmente. O que para você pode não passar de uma simples discussão, para pessoas que convivem com racismo ter que “corrigir” ou “explicar” certos temas pode ser parte de um exercício doloroso e extenuante. Além disso, a raiva e emoções corrosivas comumente (não sempre) atrapalham a cognição, mas podem ser importantes como demonstração de autoproteção e autorrespeito. Assim, antes de reclamar das reações, lembre que a exigência de uma atitude fria, colaborativa, no debate significa impor aos grupos minoritários uma dupla injustiça: uma injustiça moral (contida na emissão de opiniões falsas ou ofensivas) e uma injustiça afetiva (contida na expectativa da não-expressão das emoções de raiva e indignação com vistas a preservar o bom andamento da discussão).

4. Diferenças de acesso às informações de caráter qualitativo sobre questões raciais. Considere o significado que a experiência pessoal tem na apreensão da injustiça e sofrimento racial. Grupos sociais marginalizados ocupam uma posição privilegiada para a apreensão de aspectos sutis do racismo que podem não ser reconhecidos por um observador que cresceu em ambientes segregados. Essa experiência não torna verdadeiras todas as alegações de representantes de grupos minoritários, mas é, com muita frequência, fundamental para uma compreensão apta de temas raciais em desacordos.

5. Posturas de arrogância e humildade intelectual. A qualidade de um argumento (se ele é bom ou mau) é determinada pelas razões e evidências que suportam esse argumento. Seja humilde intelectualmente. Aceite um bom argumento, mesmo que isso implique admitir que se está enganado ou nos obrigue a rejeitar algo que defendemos a vida inteira.

6. Posturas objetivas, maturidade moral e emocional. Não confunda ser ofendido com sentir-se ofendido. Nem todo argumento considerado ofensivo de fato ofende. Muitas vezes ficamos chateados quando ouvimos verdades duras (sobre alguém que gostamos, por exemplo). Passado algum tempo, quando as emoções esfriam, descobrimos que tudo era verdade. Isso ocorre com frequências em debates políticos e sociais. Podemos, sem ter razão, confundir uma opinião correta com uma opinião ofensiva.

7. Posturas de assertividade e respeito mútuo. Temas raciais são temas que causam profundo sofrimento. Procure sempre atacar as ideias e crenças defendidas por seu adversário de modo desafiador, mas cauteloso e respeitoso. Evite estratégias de “lacração” como ironizar uma posição, questionar a inteligência do defensor, sua humanidade, sexualidade ou boa-fé.

Flávio Williges é Prof. do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Doutor em Filosofia pela UFRGS e fez Estágio de Pós-Doutorado na University of California(com apoio da Capes nos anos de 2017-2018). Está finalizando um livro sobre desacordos raciais.