Como viver, se um dia tem apenas 24 horas?

por Daniel Lopes

Por que estamos sempre reclamando de falta de tempo? Por que estamos sempre adiando atividades importantes para quando tivermos mais tempo? Por que, mesmo quando estamos em dia com as obrigações do trabalho, financeiras, de saúde e familiares, ainda ficamos com aquela sensação de que os dias e anos estão apenas se acumulando, sem que estejamos de fato vivendo? Em meu trabalho, raramente um mês se passa sem que um novo paciente se queixe dessa condição. É a famosa sensação de que está faltando algo na vida, que às vezes chega ao sentimento crônico de vazio.

O mais comum, nesses casos, é que realmente falta algo na vida do indivíduo. Falta muita coisa. Às vezes, falta quase tudo. São homens e mulheres com desempenho excepcional em seus ofícios – mas apenas lá. Ninguém deveria viver apenas em função do trabalho. Se sua vida se reduz ao trabalho, você estará vivendo apenas cerca de 8 horas por dia. As outras 16 horas, incluindo algumas das valiosíssimas horas de sono, estão basicamente sendo sacrificadas. Mesmo que seu trabalho seja o mais prazeroso do mundo, dificilmente tal sacrifício produzirá bons frutos quando tomarmos sua vida como um todo.

Fora o fato de que nem todo mundo está no emprego dos sonhos, e vários ganham o pão fazendo coisas que consideram enfadonhas. Nesses casos, é tanto mais absurdo reduzir seu dia às horas de trabalho – já que assim, como observa Arnold Bennett, você “concede formalmente o lugar central a um espaço de tempo e a uma porção de atividades as quais provocam no homem somente a ideia de ‘passar por’ e de ‘acabar de vez com’.”

É sempre um prazer quando topamos com um livro de tempos atrás (como este Como viver com 24 horas por dia, do britânico Bennett) que aborda de forma leve um tema que hoje, após a revolução das ciências do cérebro, sabemos em detalhes por que é tão central à nossa saúde mental. Bennett entende de aproveitamento de tempo, pois foi incrivelmente (eu quase escrevo insanamente) prolífico: escreveu mais de 40 livros de ficção e mais de 30 de não-ficção.

O dia tem 24 horas e nele deve caber trabalho, prazer, cultura, amizade, família, cuidado com a saúde, ócio e sono. É besteira adiar essas atividades para quando tivermos mais tempo. Nosso dia sempre terá 24 horas. Esse é o tempo que temos hoje e o tempo que sempre teremos. Ademais, como já observava Sêneca, quem adia o início da vida plena para uma idade mais avançada está fazendo uma aposta arriscada: quem garante que você sequer vai chegar até lá? E o mais impressionante é que 24 horas por dia são suficientes para uma vida plena. “Não dispomos de pouco tempo”, diz Sêneca em Sobre a brevidade da vida, “mas desperdiçamos muito”.

O livro de Bennet é tão maravilhosamente prático, que é capaz de fazer brilhar os olhos do mais prático dos behavioristas. Sua fórmula: quem não consegue fazer nada porque “está sem tempo”, precisa “organizar um dia dentro de um dia”. Ou seja: você precisa ter um “dia” que vai do final do seu expediente no trabalho até o início do expediente no dia seguinte:

“(…) durante essas dezesseis horas, [o homem que organizou um dia dentro de um dia] não tem nada a fazer a não ser cultivar o corpo, a alma e a amizade com seus companheiros. Durante essas dezesseis horas ele é livre; não está em busca do ganha-pão, não está preocupado com questões financeiras; está na mesma situação do homem que vive de renda. Esta deve ser a sua postura. E a sua postura é muito importante. O seu sucesso na vida (muito mais importante do que a quantidade de patrimônios sobre o qual os seus testamentários terão de pagar impostos) depende disso”.

Na jornada de trabalho de 8 horas diárias imaginada por Bennett, indo das 10h às 18h, é possível, por exemplo, despender 3 horas por noite cultivando alguma atividade mental – organizando a noite de forma que tal atividade não seja interrompida por uma refeição (ou seja, jante antes de iniciar a atividade).

Pesado demais? Não tem problema: você provavelmente terá que começar gradualmente – uma hora e meia, ou até menos, a cada duas noites. O fato é que, se você está angustiado porque os dias e anos estão se empilhando e não sente como se estivesse vivendo, terá que mudar hábitos, e “hábitos são as coisas mais desagradáveis de mudar”, como reconhece Bennett. Seja gradual, mas seja persistente:

“Um fracasso no início pode facilmente pôr um fim definitivo ao recém-nascido impulso na direção da vitalidade completa; assim, todas as precauções devem ser observadas no intuito de evitá-lo. Esse impulso vital não pode ser sobrecarregado. Deixe que o ritmo do primeiro passo seja absurdamente vagaroso, mas transforme-o no mais regular possível”.

Provavelmente apenas após alguns meses você poderá cantar vitória sobre a pretérita vida insossa.

E aquela parcela da manhã do seu dia dentro do dia? Como não desperdiça-la? Você pode, por exemplo, aproveitar o trajeto de casa até o trabalho, para refletir sobre alguma questão importante. Bennett propõe que os temas para nossas reflexões durante esses minutos da manhã sejam extraídos de um Marco Aurélio ou de um Epiteto (“nada mais ‘atual’, nada que transborde tanto bom senso, aplicável à vida cotidiana de pessoas comuns como eu e você”). Mas você pode simplesmente desarquivar da memória uma discussão interessante do último livro mais ou menos sério que você leu e ir matutando o tema na cabeça enquanto vai para o trabalho. De início, sua mente vai fugir para os temas mais aleatórios, mas “traga-a de volta pela orelha”, receita Bennett em uma espécie de mindfulness versão hardcore.

Esses poucos minutos diários de concentração mental é treino para algo mais profundo, que, no tempo certo, se solidificará em sua rotina: disposição reflexiva. Isso significa que você terá não apenas que aprender a viver o presente, mas também a refletir sobre seu trajeto passado e a estrada que você quer tomar rumo ao futuro. 

Veja só. Quando um paciente me conta que uma de suas queixas principais é um sentimento de vazio (“é como se nada do que venho fazendo fizesse sentido”), eu costumo pedir para ele entrar nos específicos e me relatar suas principais ações nas duas semanas anteriores. Quando pergunto por que ele fez o que fez, uma das respostas mais comuns é algo como: “Não sei. Eu só queria que o tempo passasse/que o dia acabasse”. Em seguida, peço para que a pessoa imagine como sua vida estará daqui a cinco anos (no trabalho, em projetos de desenvolvimento pessoal, em um relacionamento íntimo), e aqui a resposta quase sempre é: “Não faço a menor ideia”.

E isso nem é o mais incrível. O mais incrível é que geralmente essa é a primeira vez em muitos anos que essas pessoas estão dedicando alguns minutos para refletir seriamente sobre seu passado e futuro. Isso não é vida. Bennet:

“(…) não refletimos sobre coisas genuinamente importantes: sobre o problema da nossa felicidade, sobre a direção principal na qual estamos indo, sobre o que a vida está nos concedendo, sobre a parte que a razão tem (ou que não tem) na determinação de nossas ações, e sobre a relação entre os nossos princípios e as nossas condutas. (…) uma vida em que a conduta não segue muito bem os princípios é uma vida insensata; (…) a conduta só pode ser adotada de acordo com princípios surgidos da análise, da reflexão e da resolução diárias.”

Aliás, o sábio Sêneca também lamentava o fato de os homens ocupados não terem tempo de examinar os dias do passado – “e, tal como de nada adianta verter líquido até a borda de um recipiente, se embaixo não há fundo que o receba e conserve, assim também não importa quanto tempo nos é concedido, se não há lugar onde ele possa depositar-se, se ele vaza por trincas e perfurações de nossas almas”. Como lembra o professor William Irvine em seu delicioso livro sobre o estoicismo, Sêneca tinha o hábito de meditar sobre os eventos do dia, pouco antes de pegar no sono, passando em revista suas reações e sentimentos relacionados a cada um dos principais eventos, e decidindo como poderia ter agido de forma diferente, mais correta. É algo que qualquer um de nós pode fazer ao final do dia. Eu desafio o leitor a praticar tal meditação por cinco dias seguidos e dizer que não começou a ver o fluxo de seus dias com mais insights do que antes.

Do cultivo do corpo, da alma e das amizades, Arnold Bennett, como visto acima, foca no cultivo da alma. É até bom que seja assim. Todos nós podemos dimensionar a importância de ter atividades relacionadas à saúde e à vida social em nosso dia dentro do dia, mesmo que ainda não tenhamos tomado as medidas práticas para tanto; mas quase todos negligenciamos o cultivo da alma, classificando-o como um luxo dispensável, um acessório. E parcela dos que conseguem ter uma ideia de sua importância, não têm ideia de como inseri-lo na rotina. O livrinho de Bennett cumpre as duas pontas: a educativa e a prática. Ninguém tem mais desculpa para adiar o cultivo da alma.

Por falar nisso, a protelação é outra infâmia que consome nossas vidas. De fato, para Sêneca, ela é “a maior perda de vida”: “nos arranca um dia após o outro, rouba-nos o presente enquanto promete o futuro. O maior obstáculo à vida é a expectativa, que fica na dependência do amanhã e perde o momento presente”. Isso é vida?

Daniel Lopes é psicólogo clínico e editor da Amálgama. Vive em Teresina.