A Objetividade Científica e Seus Contextos (Evandro Agazzi) – 01

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Em parceria inédita com a Editora Unisinos, o Estado da Arte publicará, com livre acesso, trechos do primeiro capítulo de A Objetividade Científica e Seus Contextos, do filósofo italiano Evandro Agazzi.
Traduzido do italiano por Luisa Rabolini, a obra desenvolve, numa parte, uma teoria original da objetividade científica, entendida num sentido forte e num sentido fraco; na outra parte, justifica a inclusão na filosofia da ciência dos problemas da ética da ciência, as relações da ciência com a metafísica e as dimensões sociais da ciência.

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Nossos profundos agradecimentos à Editora Unisinospersonificada por seu editor-executivo, o Prof. Carlos Alberto Gianotti.

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A Objetividade Científica e Seus Contextos, de Evandro Agazzi

Capítulo 1: Contextualização histórica e filosófica
Parte 01: A objetividade como substituto da verdade na ciência moderna

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A atitude em relação à ciência resulta hoje bem mais cautelosa do que no passado ou, como se poderia dizer, bem menos ingênua, pois a ciência não é mais considerada guardiã da verdade sobre a natureza ou, mais genericamente, sobre os vários campos em que se firmou o domínio da investigação científica. Examinaremos algumas das razões que motivavam a antiga atitude. Em lugar daquele ponto de vista, amplamente compartilhado no passado, percebe-se agora uma perspectiva não menos profundamente enraizada — entre cientistas profissionais, bem como entre pessoas de diferentes formações culturais —, ou seja, a crença de que as asserções da ciência, embora não mereçam ser simplesmente definidas verdadeiras, ainda assim devam ser consideradas objetivas.[1]

Não é nada simples compreender esse tipo de contraposição entre verdade e objetividade, e trataremos mais especificamente disso mais adiante; por enquanto, consintamo-nos evidenciar o fato de que tal reconceitualização do conhecimento científico não corresponda nem implique uma desvalorização da ciência como tal. Pelo contrário, podemos facilmente demonstrar que a ciência se tornou praticamente o verdadeiro paradigma do conhecimento rigoroso, ou que, pelo menos de acordo com a opinião de muitos estudiosos, o único conhecimento que mereça esse nome é o conhecimento científico, quando se considera o conhecimento como algo distinto, por exemplo, das intuições emocionais, artísticas, religiosas e de outras atitudes desse tipo nos confrontos da realidade. Assim, enquanto no início do século XX, apenas algumas áreas de pesquisa, como a matemática, a física, a química, a biologia e, talvez, a psicologia, eram consideradas ciências, hoje falamos tranquilamente de ciência econômica, de ciência política, de filologia, de história e de linguística como ciências, e assim por diante. Em outras palavras, cada campo de pesquisa é hoje aceito como um possível ramo do conhecimento científico, desde que adote alguns padrões de rigor; isso implica que a ciência não é mais caracterizada pelo que está sendo investigado, mas pela maneira como é investigado.

A transição da ênfase no conteúdo para a ênfase no método, certamente complicou o problema de uma compreensão correta da objetividade científica, uma vez que essa indiferença em relação ao conteúdo da ciência levou gradualmente muitos estudiosos a afirmar que a ciência não lida propriamente com objetos, e que ela é objetiva simplesmente no sentido em que se atém a determinados requisitos formais ou metodológicos. Discutiremos se essa forma de conceber a objetividade possa ser considerada fundamentada; por enquanto, assumiremos isso como um retrato factual de como é frequentemente concebida a objetividade. No entanto, uma vez cumprido tal passo, logo emerge o conflito entre objetividade e verdade, já que não há espaço para a verdade propriamente dita a menos que se considere alguma referência a algo que resulte, de alguma forma, externo ou distinto do discurso.

Para sermos mais precisos, observamos que, de imediato, foram identificadas duas características distintas para marcar a concepção contemporânea da ciência: objetividade e rigor, e não é absolutamente evidente que esses dois requisitos sejam sinônimos, ou que a objetividade seja “reduzida” ao rigor. A concepção tradicional, ao contrário (voltando a Platão e Aristóteles, e prosseguindo, no Ocidente, até o Renascimento), caracterizava a ciência com base em dois critérios distintos: verdade e rigor. A ideia de que a ciência fornecesse um conhecimento de um tal tipo que merecesse a qualificação mais elevada surgiu gradualmente na Grécia antiga como exigência de que isso não só fosse conhecimento de um estado de coisas, mas também da razão ou das razões pelas quais esse estado de coisas subsiste. Este “dar razão” (logon didonai) rapidamente levou ao ideal tradicional da ciência como discurso demonstrativo — como discurso em que se fornecem provas logicamente cogentes do que é afirmado —, e nesse requisito podemos entrever uma primeira qualificação da noção de rigor que deve acompanhar a verdade na ciência (deixando de lado, por enquanto, quais deveriam ser essas razões). É por isso que o conhecimento puramente empírico ou descritivo (mesmo que verdadeiro) não foi qualificado como ciência, mas como história em um sentido bastante amplo (no qual, por exemplo, insere-se facilmente o conceito de “história natural”). Vemos, portanto, que, no curso da história da civilização ocidental, o requisito de rigor consistentemente caracterizou a ideia de ciência, ampliando-se da originária proposição de demonstrar logicamente a verdade de determinadas asserções (a partir de verdades mais basilares que pudessem dar a razão delas) para a proposta de verificação confiável da, assim chamada, verdade. Nesse sentido, o desenvolvimento de métodos empíricos nas ciências naturais, bem como nos campos da pesquisa filológica, histórica, sociológica e psicológica, pertence a essa extensão do conceito de rigor (e de ciência). Do mesmo modo, as sutilezas orientadas à busca do rigor matemático —  que caracterizaram a história da matemática nos últimos dois séculos —  manifestam, igualmente, o desenvolvimento do requisito de rigor que tem consistentemente marcado a ciência.

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‘A Escola de Atenas’, de Rafael

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Portanto, precisamos reconhecer que, enquanto hoje se acredita que a ciência forneça conhecimento dotado tanto de objetividade como de rigor, apenas o primeiro dos dois aspectos, a saber, a objetividade, constitui uma radical novidade em relação ao passado. No entanto, em razão, em parte, da menor confiança depositada no requisito da verdade, a nova noção de objetividade acabou se identificando com a do rigor. Essa tendência resultou particularmente forte no campo da matemática em decorrência do predomínio da perspectiva formalista e não obteve a mesma força no campo das ciências empíricas. Neste livro, nos concentraremos quase inteiramente no problema da objetividade científica: não porque subestimemos o papel central do rigor na ciência, nem porque não estamos cientes de que rigor e objetividade sejam de tal forma interligados que seria impossível separá-los, mas simplesmente porque certos problemas que não estão relacionados com a questão do rigor estão, sim, relacionados com a noção de objetividade. Podemos esboçar tal distinção ao dizer que o rigor científico corresponde ainda ao cumprimento do requisito de dar a razão de tudo o que é afirmado na ciência (isto é, consiste no explicitar como e por que é possível chegar a uma asserção específica) enquanto a objetividade corresponde mais ao esclarecimento de o que se afirma — o significado e o conteúdo do que é afirmado. Com base no que dissemos até agora, também resulta claro o motivo pelo qual, falando de ciência em geral, estaremos nos referindo à ciência empírica; a objetividade em matemática (como algo distinto do rigor puro) exigiria uma discussão muito mais elaborada.[2] De acordo com as explicações dadas até agora, vamos tentar entender que tipo de mudança ocorreu na nossa maneira de conceber o que a ciência afirma, tem possibilidade de conhecer e diz respeito; e para isso precisamos de uma breve análise histórica.

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que a ciência moderna, assim como emergiu da “revolução galileana”, possui algumas características antiessencialistas e antissubstancialistas que a distinguem visivelmente da atitude filosófica da época. A proposta de Galileu — de não lidar com a “essência” das realidades físicas (“substâncias naturais”, como ele dizia), mas simplesmente com algumas de suas “afecções”, e não se preocupar com as causas últimas dos fenômenos empíricos, mas apenas sobre como descobrir sua simples descrição matemática — não só expressava uma atitude de modéstia intelectual, mas também indicava precisamente uma metodologia peculiar, à qual se ativeram Newton (pelo menos nos Principia) e os fundadores da “nova ciência” da mecânica (como a definiu Galileu).[3]

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Galileu Galilei

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De fato, a ciência que se desenvolveu demonstrou-se tão poderosa em predizer e explicar os fatos em numerosos ramos da investigação natural (daqueles que dizem respeito aos eventos mais comuns da experiência cotidiana às perspectivas cosmológicas da mecânica celeste) que — depois de menos de um século de grandes realizações — os estudiosos começaram a acreditar, no final do século XVIII, que essa ciência tivesse dotado a humanidade do único instrumento eficaz para investigar a verdadeira estrutura da realidade física, alcançando assim o que a “tradicional” filosofia da natureza havia perseguido em vão durante séculos. Como consequência, nasceu uma espécie de metafísica da ciência que encontrou sua expressão mais manifesta no que, geralmente, costuma ser indicado como uma visão mecanicista do mundo do século XIX.[4] A mecânica foi considerada não apenas como o ramo fundamental da física, mas também como a chave para a interpretação de todos os fenômenos naturais, já que seus princípios tinham obtido a mais ampla aplicação possível e se acreditava que possuíssem uma aplicação ilimitada. Assim, teve início a tentativa de reduzir todos os tradicionais ramos da física, como a acústica, a ótica e a teoria do calor, à mecânica, ou seja, investigar esses campos assumindo como conceitos fundamentais exclusivamente aqueles do movimento e das partículas materiais, ou do éter material, sob a influência de determinadas forças. O mesmo esforço foi realizado quando foi criada a eletrodinâmica, mediante a proposta de numerosos complicados “modelos mecânicos” para o “éter eletromagnético”. Essa parte da história é tão conhecida que sentimos que podemos nos eximir de fornecer maiores detalhes.[5] Recapitulamos rapidamente esses fatos para ressaltar como, no século XIX, a ciência fosse considerada uma investigação completamente comprometida ontologicamente e guardiã da eterna verdade sobre a realidade física.

É do conhecimento geral que essa concepção fundamental da realidade sofreu uma crise radical nas últimas décadas do século XIX e no início do século XX, como resultado das dificuldades encontradas, no início, pela eletrodinâmica e a termodinâmica e, posteriormente, ressurgindo como consequência do desenvolvimento da relatividade e da teoria quântica. Essa crise acabou por ser muito impactante para numerosos cientistas e induziu muitos deles a uma profunda mudança em suas atitudes em relação ao conhecimento como tal. De fato, não só as categorias de cada representação do mundo físico (como as do espaço e do tempo) estavam sendo alteradas, mas praticamente todo conceito da antiga física mecânica foi submetido a uma revisão radical. Essas mudanças provocaram duas principais consequências. Em primeiro lugar, esses conceitos mecanicistas pareceram não ser mais ontologicamente confiáveis e fidedignos como acreditavam os cientistas do passado; em segundo lugar, surgiram obstáculos muito sérios à possibilidade de construir uma imagem inteligível do mundo microscópico. Os físicos acabaram por se acostumar com a ideia de que sua tarefa não era formular uma representação ou uma imagem ontológica intuitiva de seu campo de pesquisa; e esse fato induziu-os a não confiar mais na concepção da física como descrição do mundo real, pois não havia mais espaço para falar sobre alguma conformidade entre a íntima estrutura do microscópio e a sua imagem científica, uma vez que tal imagem não podia nem mesmo ser proposta.

Consequentemente, primeiro a física e, depois, as outras ciências seguindo seu exemplo tornaram-se independentes da ontologia, mais ou menos no sentido em que Kant negou a possibilidade de conhecer o númeno, a “coisa em si”, e certas variedades de posições gnosiológicas substituíram a antiga confiança na capacidade da ciência para fornecer  o conhecimento da realidade, no sentido de que essa faculdade era aceita mais ou menos sem problemas pela parte empírica do conhecimento, mas não da mesma forma por aquela teórica.

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Immanuel Kant

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Alguns estudiosos (que podemos chamar de defensores de uma forma  de  empirismo/positivismo)  adotaram  uma  atitude  puramente pragmática ou “instrumentalista”; na verdade, eles consideraram que o propósito da ciência fosse bem mais modesto e consistisse em fornecer às pessoas instruções úteis sobre como lidar com sucesso com a natureza, como tornar fidedignas as predições sobre determinados eventos relevantes, como organizar as diferentes partes da informação que podemos extrair da experiência, da evidência empírica e assim por diante.[6]

Outros continuaram a depositar sua confiança na ideia de que a ciência é uma tarefa “cognitiva”; mas acabaram por tender a uma gnosiologia fenomenalista. Não tinham pretensão de que a ciência tivesse a ver com a realidade, mas sim aceitaram a ideia de que as suas preocupações deveriam se limitar ao mundo específico dos fenômenos. Os fenômenos devem ser aqui entendidos como componentes de um reino de construções intelectuais ligadas à experiência com base em condições internas e externas, condições que impedem que elas se tornem especulativas. Essa orientação do pensamento, além de compreender manifestos elementos da filosofia de Kant, também conta com alguns ilustres predecessores entre os cientistas do século XIX (como Helmholtz e Hertz), mas recebeu um novo impulso pelo estado das coisas propiciado pela mecânica quântica.[7] Um dos pontos mais característicos da mecânica quântica consiste, é claro, no fato de não ser possível a concepção de um objeto que não seja influenciado pelo efetivo processo pelo qual é observado, ou pelos procedimentos de medição aplicados a ele. Tornou-se habitual na literatura afirmar que, na microfísica, não há mais possibilidade alguma de separar o “sujeito” do “objeto”, da mesma forma que resulta igualmente impossível atribuir quantidades específicas separadas a cada um deles no mesmo momento. Essa situação é muitas vezes descrita afirmando que nunca estamos lidando com a natureza, mas sempre com as inter-relações entre a natureza e o homem. Em tal perspectiva, resultava muito tentador identificar essa nova estrutura, essa unidade indiscernível de sujeito e objeto, com o “fenômeno” que a nova ciência devia tratar como sua matéria específica.[8]

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Von Helmholtz

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Claramente, em ambas as posições até aqui mencionadas, a ciência parecia já não ter mais nada a ver com a descrição da realidade (já que, de acordo com o primeiro ponto de vista, esta não possui um intuito descritivo, mas pragmático, ao passo que, de acordo com o outro ponto de vista, ela conserva a sua intenção descritiva, mas não resulta capaz de alcançar a realidade propriamente dita). Menos ainda parece possuir a tarefa de explicar os fenômenos com base em alguma realidade subjacente (que constitui um dos pontos nodais da controvérsia entre empiristas e realistas). Portanto, a ciência não pode mais ser concebida como uma forma de conhecimento verdadeiro (pelo menos no senso usual de “verdadeiro”, que é aquele de se adequar à realidade).

Por outro lado, o fato de que a ciência tenha abandonado a tarefa de alcançar a verdade sobre a realidade não significava que ela fornecesse uma forma de conhecimento arbitrário. Mesmo determinadas perspectivas convencionais avançadas no contexto da visão pragmatista e convencionalista (Mach, Duhem, Poincaré) não conferiram arbitrariedade alguma à ciência.[9] Isso resultou em um esforço direcionado a preservar o caráter de não arbitrariedade e rigor do conhecimento científico fundando-o com base em determinados critérios estruturais, alguns dos quais dotados de caráter pragmático e outros de caráter cognitivo, dependendo das diferentes posições. Tudo isso originou a concepção da ciência com  a qual iniciamos as nossas considerações: a ciência fornece um conhecimento objetivo que, não obstante, não é verdadeiro, pois não diz respeito à realidade. Essa ausência de envolvimento ontológico se manifestou como marca distintiva da nova caracterização da ciência.

Neste ponto, é útil explicar o que entendemos por conhecimento nesta obra. A noção de conhecimento é expressa linguisticamente de forma distinta, de acordo com as diferentes línguas. Em inglês, existe apenas um termo (“knowledge” com o relativo verbo “to know”) e isso levou à necessidade de distinguir entre conhecimento direto [knowledge by acquaintance] e conhecimento proposicional [propositional knowledge], ou seja, distinguir “conhecer p” de “conhecer que p”: por exemplo, “Conheço este lápis vermelho” (de maneira direta) de “Conheço que este é um lápis vermelho” (conhecimento proposicional). Essa distinção não se torna necessária em outras línguas, em que existem dois termos distintos para esses dois tipos de conhecimento. O conhecimento direto e o seu verbo são expressos, por exemplo, por: conoscenza-conoscere (em italiano), connaissance-connaître (em francês), conoscimento-conoscer (em espanhol), Erkentnis-kennen (em alemão) [Em português: “conhecimento” e “conhecer” (NdT).]. Nessas línguas, o conhecimento proposicional é denotado por um termo que serve ao mesmo tempo como substantivo e como verbo, por exemplo: sapere (em italiano), savoir (em francês), saber (em espanhol) e Wissen (em alemão). [Em português: “saber” (NdT).] Portanto, não se pode dizer, por exemplo, “je connais que Paris est la capitale de la France”, mas “je sais que Paris est la capitale da la France”; por outro lado, não pode ser dito, por exemplo, “je sais New York”, mas “je connais New York”.

Nas línguas neolatinas, no entanto, é preciso inserir outra distinção no significado de “sapere”, “savoir”, “saber”, e assim por diante, uma vez que esses verbos também são empregados para indicar o que poderia ser chamado de conhecimento performativo, que indica alguma competência ou habilidade quando se fala, por exemplo, “egli sa parlare inglese”, “il sait parler anglais”, “el sabe hablar inglés”, o significado dessas frases é dado em inglês por “he can speak English” (bem como em alemão: “er kann Englisch sprechen”).

Essas não são meras digressões filológicas, uma vez que a distinção entre os dois tipos de conhecimento (direto e proposicional) resulta muito importante para uma série de questões e, em especial, em relação ao fato de que o conhecimento direto é intrinsecamente privado enquanto  o conhecimento proposicional pode ser comunicado e se torna “intersubjetivo”. Esse é um aspecto de importância capital para o tratamento do conhecimento científico que, obviamente, é público. Então, quando falamos de conhecimento nesta obra, referimo-nos ao conhecimento proposicional (a menos que seja explicitamente indicado que estamos nos referindo ao conhecimento direto).

Agora surge uma questão: o conhecimento tem algo a ver com a verdade? Para fornecer uma resposta satisfatória a essa questão, é preciso esclarecer a noção de verdade que será proposta mais adiante neste livro. No entanto, torna-se necessário adiantar algum de seus traços agora. Uma vez que a ideia intuitiva da verdade implica alguns tipo de “correspondência” entre uma representação e a coisa representada, poder-se-ia afirmar espontaneamente que o conhecimento direto seja sempre verdadeiro. Uma análise mais atenta, no entanto (que será fornecida no devido tempo), demonstra que se fala de maneira muito mais apropriada a propósito de proposições. Portanto, é mais oportuno afirmar que o conhecimento direto não é verdadeiro ou falso, mas, talvez, correto, ao passo que o conhecimento proposicional tem a ver com a verdade. Mas o que significa “ter a ver”? O conhecimento proposicional pode realmente ser considerado um conhecimento sem ser verdadeiro? Aparentemente não; na verdade, na gnosiologia geral admite-se que, para poder afirmar “eu conheço que p”, a primeira condição necessária (embora não suficiente)  é que p seja verdadeiro. Portanto, exigir do conhecimento (proposicional) que este seja verdadeiro parece pouco pertinente, já que o conhecimento inclui a verdade e resultaria autocontraditório, por exemplo, falar de “conhecimento falso”. A despeito de tudo isso, devemos nos confrontar com um fato histórico: o conhecimento científico (que é uma forma de conhecimento proposicional) é considerado por muitos como uma forma de conhecimento desprovido de verdade, mas que ainda merece ser conside- rado como conhecimento. É por isso que, por razões metodológicas, devemos reconhecer essa situação, procurar por suas razões e, eventualmente, ver se e como deve ser corrigida defendendo os direitos da verdade também no campo do conhecimento científico (como será feito neste trabalho).

(Um último destaque. A tradição geralmente exigia (a partir de Platão e Aristóteles) que o conhecimento autêntico necessitasse de compreensão e explicação do quanto diretamente conhecido. Os positivistas (como já vimos) rejeitaram esses requisitos acessórios, mas essa era apenas a consequência de seu empirismo radical e o implícito pressuposto dogmático segundo o qual a razão não possui alcance cognitivo. Como nós não compartilhamos esse pressuposto (e apresentaremos a razão para tal rejeição), incluiremos a compreensão e a explicação na estrutura do conhecimento. Isso justificará a nossa afirmação segundo a qual a ciência (mesmo em sua parte teórica) visa à verdade como consequência do fato de que ela persegue a aquisição mais completa do conhecimento (proposicional). Nem todos os autores compartilham essa tese,[10] mas sentimo-nos confortáveis em defendê-la, até pelo fato de que a gnosiologia contemporânea (e não apenas a gnosiologia tradicional) exige que, para afirmar corretamente “Conheço que p”, não só é preciso que p seja verdadeiro (uma condição necessária, mas não suficiente), mas também precisa que este seja “justificado”; e a compreensão e a explicação resultam certamente como requisitos importantes para a justificação.)

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Evandro Agazzi

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Notas:

[1] Certamente, alguns filósofos da ciência negam que a ciência mereça a qualificação de fornecer conhecimento objetivo, e também afirmam que os conceitos de método científico e rigor científico são fictícios. Em sua opinião, a ciência consiste simplesmente em uma prática social, desprovida de quaisquer características especiais que a tornem superior ou mesmo claramente distinta de outras práticas sociais. Examinaremos, então, algumas de suas afirmações neste trabalho e demonstraremos o quão injustificadas e enganosas elas são. Teremos que iniciar aqui essa discussão por duas razões: em primeiro lugar, porque gostaríamos de investigar a visão muito mais sólida e amplamente compartilhada (especialmente entre os cientistas) de que a ciência realmente fornece conhecimento objetivo. Em segundo lugar, porque a avaliação crítica das teses opostas será mais precisa depois de ter esclarecido o que podemos realmente entender com objetividade científica. Após esse esclarecimento, será possível aceitar algumas afirmações da posição sociológica, sem renunciar ao requisito da objetividade científica.

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[2] Esbocei em outros momentos esses debates, argumentando que uma abordagem puramente formalista não capta a natureza das ciências formais, em que estão presentes também alguns “conteúdos”. Mais recentemente, fiz uma coletânea de meus artigos mais significativos sobre essa e outras questões correlatas.

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[3] Para ser mais preciso, Boyle, Hooke e quase todos os experimentalistas teorizaram sobre as causas, destacando o fenômeno que haviam descoberto, porém, sem se preocupar com as causas “finais”. Isso pode ser entendido tomando consciência do fato de que a busca das causas constitui o cerne de todas as explicações, e até mesmo Galileu (como veremos adiante) não vai desconsiderar essa condição básica do conhecimento. A questão, portanto, se reduz a “que tipo de causas” a pessoa está pronta a admitir e, nesse caso, o significado de causas “finais” deve ser J. S. Mill, por exemplo, (que sob ponto de vista está de acordo com a tradição do empirismo inglês) afirma: “Eu não faço qualquer investigação sobre a causa final ou ontológica ou alguma coisa […] A única noção de causa que a teoria da indução exige é a que pode ser adquirida através da experiência”. A afirmação de Mill reflete a sua atitude positivista geral que envolveu a rejeição de qualquer ontologia e reduziu a causalidade a mera uniformidade (uma redução, esta, que, no entanto, assume implicitamente o pressuposto “ontológico” do princípio de uniformidade da natureza). No caso de Galileu e de outros cientistas do século XVII, as causas foram dotadas de um status ontológico, mas, como veremos, um status que resultava “delimitado” por aquelas “afecções mecânicas” que eles pensavam fossem a única realmente relevantes para a ciência natural.

[4] Uma espécie de filosofia mecanicista da natureza mostrou-se influente e amplamente difundida no século Essa filosofia constituiu, no entanto, uma visão metafísica que não foi gerada ou sugerida pela moderna ciência física, mas sim (pelo menos até certo ponto) promoveu seu nascimento. Além disso, seria excessivo denominá-la de metafísica em sentido próprio, dado que muitos dos cientistas que a adotaram não pre- tendiam que a abordagem mecanicista fosse adequada para interpretar inteiramente os fenômenos naturais. Por exemplo, Boyle e Newton afirmaram explicitamente que os fenômenos da vida ultrapassam os limites da explicação mecânica, e até mesmo dentro do âmbito da natureza íntima não se espera que a eletricidade e o magnetismo possam ser fechados dentro desses limites. A visão mecanicista do mundo do século XIX, por outro lado, consistiu uma autêntica visão metafísica resultante do enorme sucesso da ciência da mecânica que foi apta a absorver gradualmente diferentes ramos da física, fato este que levou à convicção de que os fenômenos naturais poderiam ser inteiramente explicados de maneira mecânica.

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[5] Como exemplo, mencionamos algumas afirmações significativas de alguns dos principais cientistas da época. Em seu bem conhecido artigo Sobre a conservação da força, Helmholtz afirma:

“A tarefa das ciências físicas é, portanto, determinada, em última instância, como a de reconduzir os fenômenos naturais a forças imutáveis, atrativas ou repulsivas, cuja intensidade depende da distância. A possibilidade de que essa tarefa seja cumpri- da constitui ao mesmo tempo a condição da completa inteligibilidade da natureza”

Maxwell, no final do seu Tratado sobre Eletricidade e Magnetismo, apesar do fato de ter fornecido como resultado mais significativo de sua pesquisa as famosas equações do campo eletromagnético, que não pressupõem nada sobre a “substância” específica desse mesmo campo, sente-se quase obrigado a propor como um programa para pesquisas futuras a determinação exata da estrutura desse campo na forma de um meio mecânico:

“É verdade que uma vez aqueles que realizavam pesquisas sobre as causas dos fenômenos físicos tinham o hábito de explicar todo tipo de ação a distância por meio de um fluido etéreo especial, cuja função e propriedade era de produzir precisamente essas ações. Eles preenchiam todo o espaço três ou quatro vezes simultaneamente com éteres de vários tipos, cujas propriedades eram inventadas apenas para ‘salvar as aparências’ […]. De fato, se a energia for transmitida de um corpo para outro no tem- po, deve existir um meio ou substância no qual a energia existe depois de ter deixado um corpo e antes de chegar ao outro […]. Então, todas essas teorias levam à concepção de um meio no qual acontece a propagação e, se admitirmos esse meio como uma hipótese, penso que ele tem de ocupar um lugar proeminente em nossa pesquisa, e temos que nos esforçar em construir uma representação mental de todos detalhes de sua ação, o que foi o objetivo constante desta obra.”

Quanto ao nosso último exemplo, a conhecida incapacidade de realizar um mode- lo mecânico do campo eletromagnético induziu Lord Kelvin a se recusar a compartilhar a teoria da luz de Maxwell:

“Não me sinto satisfeito por não ter conseguido antes construir um modelo mecânico do objeto que estudo; se eu puder fazer tal modelo, é porque compreendo; se eu não puder fazer isso, é porque não compreendo. Por isso não consigo entender a teoria eletromagnética da luz […]. Eu gostaria de entender a luz da melhor maneira possível, sem introduzir coisas de que entendo menos ainda”.

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[6] A doutrina mais conhecida e mais afirmada a esse respeito é provavelmente a de Ernst Mach, que numa primeira fase de seu pensamento era um defensor da visão mecanicista do mundo (por exemplo, quando escreveu seu Compêndio de física para médicos, 1863), para tornar-se a seguir um dos críticos mais influentes de tal perspectiva e, em geral, de qualquer envolvimento “metafísico” da ciência.

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[7] Como exemplo relevante dessa posição, poderíamos mencionar o de Max Ver, em especial, seu ensaio de 1930, Positivismus und real Aussenwelt (em Planck, 1933, p. 208-232). No artigo, ele distingue claramente o “mundo real” inacessível do “mundo das percepções sensíveis”, e entrevê o propósito da ciência na construção de uma imagem física do mundo que deveria propiciar uma relação objetiva entre esses dois mundos. Essas concepções são apresentadas em maneira muito detalhada no início do artigo mais acessível L’immagine del mondo nella fisica moderna, disponível em italiano em Planck (1964).

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[8] Para nos limitarmos novamente a considerar apenas um autor, podemos mencionar Werner Heisenberg, que defendeu um ponto  de  vista semelhante em  numerosos  de seus escritos de teor filosófico. Considere-se, por exemplo, a seguinte afirmação: “Como consequência última, as leis naturais, que nós formulamos matematicamente na teoria quântica, não tratam mais de partículas elementares em si, mas do nosso conhecimento das partículas elementares”.

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[9] O rigor histórico exigiria que as distinções apropriadas fossem feitas entre essas po- sições. No caso de Duhem, por exemplo, o convencionalismo constitui simplesmente um esquema metodológico para a análise da estrutura das teorias científicas, e não ex- clui a pretensão da verdade científica (“a imagem de uma ordem e uma organização da realidade”, como ele afirma), como resulta claro também por suas polêmicas contra a construção dos modelos da física inglesa e de sua interpretação “realista”, inclusive dos conceitos teóricos da ciência. Em sua opinião, a conciliação desses dois aspectos resulta possível considerando o desenvolvimento histórico da ciência. Poincaré, como é bem conhecido, não só criticou duramente o convencionalismo de Le Roy — especialmente no último capítulo de O valor da ciência (Poincaré, 1904) —, mas chegou inclusive a moderar o seu próprio convencionalismo alegando que o sucesso prático do conhecimento científico nas aplicações e predições atesta o fato de que ele representa — pelo menos até certo ponto — a “realidade”. Essa declaração não torna, no entanto, Poincaré um instrumentalista, pois ele admite explicitamente a existência da verdade científica (não redutível ao citado sucesso prático) em um sentido bem mais próximo da já mencionada posição de Planck, como pode ser visto, por exemplo, nesta passagem de Ciência e hipótese:

“Não se diga que reduzimos, assim, as teorias físicas ao papel de meras receitas práti- cas; essas equações exprimem relações e, se as equações permanecem verdadeiras, é porque essas relações conservam sua realidade. Elas nos mostram, agora [depois da mudança de interpretação] como o faziam antes, que há uma dada relação entre duas coisas; unicamente, o que antes chamávamos movimento, hoje chamamos corrente elé- trica. Mas essas denominações não passavam de imagens que substituíam os objetos reais que a natureza nos ocultará para todo o sempre. As verdadeiras relações entre esses objetos reais são a única realidade que podemos alcançar, e a única condição é que haja a mesma relação entre esses objetos e entre as imagens que somos obrigados a colocar em seu lugar. Se essas relações nos são conhecidas, não tem importância alguma se julgamos conveniente substituir uma imagem por outra”.

Para concluir essas observações, permita-nos notar que tais afirmações de Poinca- ré lembram a maneira como Heinrich Hertz expressava na introdução a seus Princípios de mecânica:

“Nós formamos, para nós mesmos, imagens ou símbolos de objetos externos; de tal modo que as consequências necessárias das imagens no pensamento são sempre as imagens das consequências necessárias na natureza das coisas. Para que tal exigência seja satisfeita, em geral, devem existir certas correspondências entre a natureza e o nosso intelecto. A experiência nos ensina que essa exigência é atendida; e, além disso, que tais correspondências existem de fato. […] As imagens de que estamos falando são nossas representações das coisas, elas estão conectadas às coisas através da única, essencial característica de satisfazer a exigência acima mencionada; mas sem a ne- cessidade de que, para cumprir sua função, possam estar ligados mediante outras ca- racterísticas. De fato, não sabemos, nem dispomos de nenhum método para chegar a saber se as nossas representações das coisas se conformam a estas de alguma ulterior forma, a não ser dessa única, fundamental relação”.

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[10] Craig Dilworth, por exemplo, argumenta que verdade e explicação constituem os obje- tivos fundamentais da ciência, e considera a verdade como propriedade fundamental das leis científicas (que se colocam em um nível empírico, embora não no sentido empirista/positivista). Eles produzem conhecimento enquanto as teorias são propostas para produzir compreensão e explicação, e não constituem conhecimento. Dilworth defende o realismo científico, no sentido de que ele insiste que a ciência não pode evitar de provar explicar (causalmente), por meio de teorias, os resultados empíricos postulando que as características observadas (ou, pelo menos, mensuradas) da realidade sejam o produto de determinadas entidades relevantes que não resultam empiricamente acessíveis. No entanto, ele não afirma explicitamente que tais entidades existam e, dessa forma, o seu é um realismo “fraco”, quando comparado àquele que defende a “realidade dos inobserváveis”, resumindo Pelo contrário, nós defenderemos essa forma de realismo “forte”, e provavelmente seja esta a diferença mais relevante da nossa posição em comparação com aquela de um autor com cujas concepções geralmente concordamos.

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Evando Agazzi

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A Objetividade Científica e Seus Contextos, de Evandro Agazzi. Tradução  de Luisa Rabolini. Editora Unisinos, 2020.

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