A educação durante o distanciamento social e depois dele

por Gregório Grisa

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“. . . como se acabasse de descobrir algo que estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou triste”.

José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira

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Segundo a UNESCO (2020), 91% da população estudantil do mundo está afetada com o fechamento de escolas, no Brasil não é diferente, praticamente todas redes de ensino cancelaram as atividades presenciais. A necessidade do distanciamento social em decorrência da pandemia do novo coronavírus impôs uma realidade inédita para os formuladores de políticas públicas de educação. Diante de um país diverso, de contextos escolares e perfis estudantis heterogêneos, não existem respostas únicas, são muitos os cenários e desafios.

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(Imagem: Reuters)

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Dado que o tempo de distanciamento social deve perdurar ou até mesmo voltar, no caso de uma segunda onda da Covid-19, urge desenharmos políticas para ofertar o ensino em quarentena e para recuperar as aulas quando do retorno ao convívio escolar. A premissa aqui adotada é de que, mesmo diante dos grandes limites de infraestrutura impostos, os estudantes não podem ficar por meses a fio sem nenhum tipo de atividade pedagógica dirigida.

Três tipos de práticas estão no horizonte: educação a distância (EAD, modalidade já regulamentada no Brasil), ensino remoto e ensino mediado por tecnologias. O Conselho Nacional de Educação (CNE) está elaborando resolução que conceitua essas três formas. Tais diretrizes serão fundamentais para que redes estaduais e municipais normatizem e parametrizem suas ações, dando segurança jurídica para os gestores das redes, gestores escolares, docentes e estudantes.

As plataformas digitais e as ferramentas utilizadas na EAD serão importantes aliadas nesse momento, não há dúvida. O ensino remoto, que não significa necessariamente online, assim como o ensino mediado por tecnologias, podem se utilizar de televisão, celular, rádio, livros (didáticos, teóricos e literários), bem como de aplicativos de redes sociais e afins. Importante é identificar a viabilidade e aquilo que mais alcança os estudantes, cada gestor e cada docente terá de analisar o potencial de cada ferramenta. Ter realizado uma pesquisa socioantropológica para conhecer a realidade dos alunos faz toda diferença, redes e escolas que o fizeram largam na frente no diagnóstico e devem propor ações mais realistas e eficazes.

O momento é de construção de critérios para definir que tipo de atividade é passível de registro de carga-horária e avaliação. Isso vale tanto para o período de distanciamento social quanto para a reposição das aulas no retorno das atividades presenciais. Os estudantes com melhor rendimento tendem a ter mais facilidade também nas atividades remotas, por isso é essencial que elas considerem a desigualdade existente no país e que se preserve o direito dos estudantes de realizar o que foi proposto remotamente depois do retorno, se for o caso.

Poucas experiências localizadas, de alguns docentes, têm mostrado que os estudantes, em geral, pouco realizam as atividades que “não valem nota” ou que “não serão registradas”. As atividades mobilizadoras, de incentivo, que muitos docentes estão propondo são necessárias e valiosas, mas podem se perder mediante a participação de poucos estudantes.

Há limitadores que precedem o ensino em si: falo das condições psicológicas, sociais e de estudo dos discentes em seus domicílios. O planejamento das atividades remotas para fins de registro deve considerar essa conjuntura particular do distanciamento social, prever a intensificação do diálogo com as famílias e evitar a sobrecarga de atividades em um mesmo período. Teremos de priorizar o desenvolvimento de algumas competências e habilidades previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), no caso da educação básica, e nas Diretrizes Curriculares e Projetos Pedagógicos dos cursos no caso do ensino superior.

Assim como a crise do coronavírus está demonstrando a fragilidade do sistema de saúde, na educação, revela que também é tempo de se prover estruturas, ferramentas e tecnologias para fortalecer as redes de ensino, assim elas terão mais condições para propor alternativas factíveis, maduras e de forma ágil em momentos de crise. Essa não é a primeira pandemia e nem será a última, desastres naturais são cada vez mais comuns, é necessário pensar o futuro e preparar os sistemas de ensino e seus profissionais. Aqui ganha relevo a necessária renovação do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB) nesse ano, prevendo adequações para que ele seja mais equitativo e uma ampliação escalonada da complementação de recursos da União para o fundo.

A improvisação de ações EAD definitivamente não é o caminho; esse artigo detalha bem os riscos envolvidos nisso. Contudo, deixar os estudantes sem experiências de aprendizagem também não é uma escolha razoável, é momento de ser propositivo e encontrar soluções.

Ações extraordinárias carecem de planejamento ainda mais acurado. A formação dos professores para novos formatos de atividades também deve entrar no pacote das políticas públicas educacionais. A cultura digital é uma realidade, a crise pode oportunizar reflexões, inclusive, sobre a forma clássica como a maioria das aulas acontece no Brasil. Metodologias ativas (ensino híbrido, sala compartilhada, sala invertida, design thinking, STEAM, Aprendizagem Personalizada, Aprendizagem Baseada em Problemas ou em Projetos, entre outras) podem ganhar espaço prático nas formações continuadas.

O intuito é aproveitar o momento para também fomentarmos uma transição necessária para aulas e atividades que dialogam com um estudante que tem incorporado no seu repertório cognitivo a cultura digital. Estamos diante de um aluno que traz a demanda por uma aprendizagem calcada no questionamento e na experimentação. A transmissão é importante como técnica de ensino, mas hoje ela é insuficiente.

Toda e qualquer forma de atividade remota vai encontrar dificuldades, é um erro achar que as atividades presenciais serão substituídas. O desafio é antever os principais limites para ofertar, com bom senso, aquilo que for viável conforme as condições das redes, instituições e, principalmente, dos estudantes. Não podemos confundir a demanda que a realidade impõe por explorar ferramentas didáticas à distância, com a compreensão de que tais ferramentas podem suplantar a presença e o contato de docentes e discentes ou mesmo cair no discurso dos que olham para o momento como uma oportunidade de “baratear” o processo educativo em grande escala.

Voltando ao papel fulcral da normatização, penso que ela irá auxiliar também nos aspectos avaliativos, provavelmente, teremos de modificar os formatos usuais para contemplar as diferentes dinâmicas de aprendizagem dos estudantes em casa. Esse é um tempo profícuo para sistematizar as instruções e orientações, por exemplo, relativas à segunda competência geral prevista na BNCC para a educação básica, a do Pensamento Científico, Crítico e Criativo:

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Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas. (BNCC, 2017)

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Essa competência pressupõe: i) o desenvolvimento de estratégias de estudos; ii) trabalhar os diferentes formatos de fazer pesquisas; iii) organizar o tempo e a disciplina necessárias para essas atividades. O estudante precisa parar para pensar sobre como ele aprende, em que contexto e com quais técnicas, podemos ajudá-lo nesse sentido.

Outra competência que merece atenção é a oitava, do Autoconhecimento e Autocuidado. Ela prevê “conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas” (BNCC, 2017). Arquitetar atividades e situações que conclamem para reflexões nesse sentido pode ajudar nesse momento difícil.

A ideia é provocar os coordenadores pedagógicos e os professores para engendrarmos materiais, propostas e dinâmicas que instrumentalizem o como fazer para desenvolvermos determinadas competências. Quais recursos pedagógicos devemos mobilizar, em cada área do conhecimento, para alcançar os objetivos em cada etapa e nível educacional.

Para dar um exemplo concreto, pensando genericamente nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio, parece-me que ofertar uma “disciplina” por dia (utilizando todos os meios para que os materiais cheguem aos estudantes), com conteúdo (videoaulas, áudio aulas, tutoriais, atividades, exercícios, leituras) definido pelo docente, é um tipo de “piloto” razoável. Isso significa registrar entre 10% a 20% da carga horária diária (a depender, se for tempo integral ou não).

O ideal é contar com um tipo de avaliação combinada, que preveja a produção do estudante no dia das atividades e entregas também no retorno das aulas presenciais, um “diário da quarentena”. No caso das escolas que contam com computadores e internet, é possível organizar, por meio de agendamento separado, formas para que os estudantes que não consigam acessar em casa os materiais, o façam na escola, garantidas todas as medidas de prevenção das autoridades sanitárias.

Como assumimos que há limites estruturais em promover atividades remotamente, há de se ter flexibilidade em relação aos tempos dos estudantes e promover um acompanhamento contínuo sobre prazos, formatos e conteúdos. As redes sociais, os aplicativos de mensagens e as plataformas educativas também devem ser tomados como suportes para registros e atualizações. Muitos “casos omissos” irão ocorrer, e teremos de analisá-los com as lentes que a peculiaridade no momento exige.

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Pós-pandemia

Além de pensarmos nessas estruturas de oferta, é central refletirmos sobre o pós-pandemia, na recepção da comunidade escolar. Esse será um momento nevrálgico, tanto professores como alunos são afetados pela crise. As condições emocionais dos estudantes, por exemplo, serão diferentes de um retorno de férias, muitos podem ter perdido entes queridos, podem estar abalados psicologicamente por situações que ocorreram durante o isolamento.

A perda da renda ou do emprego por parte de membros da família ou mesmo do estudante pode resultar na dificuldade de continuar os estudos. O acolhimento precisa ser planejado a fim de garantir que a evasão não aumente e que as desigualdades previamente existentes não se acentuem por alguma omissão das instituições ou redes.

Estudantes concluintes do ensino médio ou do superior estarão ansiosos em relação às avaliações finais, à recuperação das aulas e a suas formaturas. Outra preocupação será com as avaliações nacionais, como o ENEM, que precisa ter seu cronograma revisto. A maioria dos países que encerram o ano letivo nesse período está adiando suas avaliações nacionais do fim do ensino médio, infelizmente, sem manter um diálogo mais orgânico com as redes estaduais, até o momento, o Ministério da Educação mantém o calendário das provas impressas para início de novembro. Mais do que isso, como bem apontou esse editorial do Estadão, o ministro da educação optou por debochar daqueles que o criticaram ao invés de adotar postura republicana e analisar a possibilidade de revisão das datas do ENEM, pleito justo e legítimo dos secretários estaduais de educação.

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(Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

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As estratégias adotadas durante o distanciamento social devem ser a base para o planejamento da reposição de aulas no retorno. É difícil imaginar que escolas irão dobrar a carga-horária diária com a mesma estrutura física e de pessoal, o tempo integral é realidade de uma minoria das escolas brasileiras. Por essa razão, além de sábados e de dias letivos que podem entrar verão adentro, temos de pensar em ensino remoto, via EAD ou não, como alternativa para recuperar as aulas.

A perspectiva de elaborar trabalhos e projetos interdisciplinares, simulados, desafios criativos de resoluções de problemas, produções técnicas e artísticas em horários distintos das aulas, garantindo equilíbrio entre atividades individuais e coletivas, é bem interessante para o retorno. Conforme forem os parâmetros legais para o reconhecimento de registro de carga horária de determinadas atividades, podemos tomar a reposição das aulas como uma oportunidade para os docentes proporem desafios mais disruptivos para os estudantes.

Atendendo as normativas nacionais e de sua rede de ensino, é momento de inovar e ousar sim, sem receio de tentar algo distinto, individual, coletiva e institucionalmente. Por meio das alternativas elencadas aqui, podemos ampliar a plasticidade curricular e transcender a fronteira espaço-temporal da sala de aula. Isso produzirá ruídos, desconfortos e mais trabalho em alguns casos, tanto para estudantes quanto para docentes.

A circunstância também pode instigar o desenvolvimento de habilidades digitais naqueles atores que, por questões pessoais e não por falta de acesso, não são familiarizados com as tecnologias. Competências digitais são fundamentais hoje para o exercício da cidadania em um mundo cada vez mais conectado. A apreciação a arte, a busca pela informação e a participação nos debates públicos requerem essas competências.

Sei que as redes de ensino e as gestões escolares estão preocupadas com as reformulações de seus calendários, a permissão para reduzir os dias letivos não se estende para a carga horária, o mínimo de 800 horas anuais deve ser cumprido, até agora. Teremos de usar a imaginação para não prejudicarmos nenhum estudante, esse texto apenas reflete sobre algumas possibilidades, outras existem e estão sendo implementadas e outras ainda serão criadas.

O que não podemos é nos dar ao luxo de usar do não feito na história (nosso déficit de infraestrutura, problemas de acesso à internet, que não vão mudar no curto e médio prazo) para nada fazer agora. A educação é estratégica para a superação da crise sanitária, humanitária, política, econômica e social que iremos atravessar.

A escola é um cinturão de proteção social que deve se manter ativo em tempos de pandemia e mostrar toda sua força no retorno das atividades. A proteção social envolve perseguir o aprendizado dos estudantes, garantindo até sua alimentação em muitos casos, passa por subsidiar condições factíveis de trabalho para professores, por fomentar que as famílias se mantenham comprometidas com ações educativas e, ainda, ter cuidado com a saúde mental das comunidades escolares.

Educação é o agora e o porvir, como um elástico amarrado em nós, ela precisa dar segurança e equilíbrio no momento de crise, mas também ir adiante, olhar o que o futuro vai exigir de habilidades e competências, de estudantes e professores, e de valores e posturas, da sociedade. Em “Água viva”, Clarice Lispector assevera: “a invenção do hoje é o meu único meio de instaurar o futuro”. Esse deve ser nosso espírito, é tempo de se mobilizar, de se reinventar, de planejar, propor e agir.

Despeço-me com um de meus poemas de quarentena. A arte, afinal, inspira e emociona. Hoje, sabemos que pouco aprendemos se não nos emocionarmos. Façamos juntos.

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Vendo através do solo

O sol claro se dissolve na cerração.

A luz pinga, cava o seu caminho em direção

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aos meus olhos subterrâneos que estão lá

sob a cidade, e eles veem a cidade

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de baixo: ruas, fundações das casas –

como fotos aéreas de uma cidade em tempos de guerra

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mas ao contrário: fotografar da toca…

retângulos mudos em cores sombrias.

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É lá que as coisas acontecem. Ninguém pode diferenciar

os ossos dos mortos daqueles dos vivos.

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A luz do sol cresce, inunda

cabinas e cascas.

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Tomas Tranströmer, Nobel de literatura de 2011.

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Tomas Tranströmer

Gregório Grisa

Gregório Grisa é doutor em Educação e PhD em Sociologia.