Em defesa dos autores mortos

The Library, de Johan Krouthén (1885)

por André Chermont de Lima

Definir um clássico na literatura é difícil como definir a vida: podemos reconhecer uma obra como “clássica”, mas não sabemos exatamente o motivo. Livros vivem, respiram, sugam, assustam, emitem calor e energia; tempos depois parecem não querer mais viver, padecendo dum declínio irresistível, caem no vazio, na inexpressividade. E morrem. Podem até ser lembrados por alguns, como são lembrados os defuntos, mas sua morte é um fato, e o esquecimento quase inevitável. Essa é a regra.

Talvez a comparação não seja tão boa assim, já que em geral a condição de estar vivo é uma questão cristalina, pouco ou nada relativa. Os limites da vida são como uma película fina, uma camada tênue onde habitam comatosos, moribundos ou seres muito primitivos – lembro-me de ter aprendido na escola que os vírus ocupavam interseções entre o reino animal e o mineral, e que certos microrganismos oscilam entre estados viventes e inanimados. De qualquer maneira, não queremos discutir aqui o extremo ou o sui generis. Se o relativismo do clássico não deve ser comparado à linearidade objetiva da vida e da morte, seria o caso de associá-lo a substantivos mais flexíveis, como por exemplo a beleza. Um clássico é um clássico da mesma forma que algo é belo porque é belo. Racionalizar esse tipo de convicção talvez nunca seja possível, uma vez que propõe misturar opinião com ciência – a dicotomia platônica do conhecimento versus juízo conjectural. A vida, com seus limites e seu oposto, na maior parte das vezes tão preto-no-branco, pode ser verificável pela ciência, mas a beleza nunca o será.

“Clássico é clássico e vice-versa”: não dá para escapar da sabedoria inocente ou sarcástica do jogador de futebol. Mais do que uma tirada folclórica, ela demonstra a dificuldade de se explicar a natureza do clássico – sobretudo se migrarmos da esfera esportiva para a literária, onde é obrigação tentar enxergar inteligência ou estética nas entrelinhas. Mas o problema persiste. A frase pode ter graça, mas não nos ajuda a explicar o que é um clássico e quem, ou o que, assim o definiu. Não faltam tentativas, claro; e são tão numerosas que quase nos convencem de que podem ajudar a entender alguma coisa. 

Na introdução à coleção de ensaios Por Que Ler os Clássicos?, Italo Calvino reserva nada menos que 14 tentativas de definição para a categoria, deixando claro que nenhuma delas é suficiente isoladamente e que devem formar um conjunto. Trata-se, devo admitir, de definições em boa parte poéticas mas vagas (por exemplo, “clássico é uma obra que relega o ruído do presente a um zumbido de fundo, sem o qual, ao mesmo tempo, os clássicos não podem existir” ou “clássico é o termo dado a qualquer livro que se propõe a representar o universo inteiro, um livro à altura de antigos talismãs”). Ao final da introdução, o próprio Calvino parece desistir das generalizações e, impaciente para mergulhar de uma vez na análise mais confortável dos livros com títulos, estabelece, humildemente, que ler um clássico é sempre melhor que não lê-lo. 

Quando um esforço qualquer de definição termina no xeque-mate, nos becos sem saída, a melhor solução parece sempre ser a da simplicidade. Pergunte a alguém o que quer dizer um clássico, sem lhe dar tempo de pensar, e acredito que a resposta mais natural será “uma coisa excepcionalmente boa e que sobrevive ao tempo”. O senso comum recomendaria manter ambas as premissas, idade e qualidade: afinal, uma obra pode perder o interesse e a atualidade sem necessariamente deixar de ser boa, da mesma forma que pode durar muito tempo por motivos que passam ao largo de seu valor artístico. Vale a pena, a propósito, conhecer a opinião de Proust: 

“no mesmo jornal em que o moralista do ‘Premier Paris’ nos fala de um acontecimento, de uma obra-prima, e com maior razão de uma cantora que teve o ‘seu momento de celebridade’ e indaga: ‘quem se lembrará disso daqui a dez anos?’, logo na terceira página a resenha de uma seção da Academia das Inscrições não fala muita vez de um fato em si mesmo menos importante, de um poema de escasso valor, datado da época dos faraós e que ainda é conhecido integralmente?”¹

Estamos diante da inevitabilidade do inexplicável. Não faz sentido argumentar: “inexplicável porque eu posso considerar esse livro um clássico e você não. Simples assim”. Mais razoável seria afirmar: “o fato de eu não considerar um clássico não significa que não o seja”, da mesma forma que tenho todo o direito de desprezar os Beatles ou me incomodar com as curvas de Rubens, mas não o de contestar seu lugar nos cânones da música popular ou da pintura. Estou convencido de que nada disso ajudará na discussão, já que odiar algum artista consagrado contribui para minar o que me parece uma das principais qualidades do clássico, ou seja, a irrefutabilidade de seus atributos artísticos. E tal irrefutabilidade deve, além disso, persistir através dos tempos, sem sofrer (ou sofrendo minimamente) a erosão do tempo e dos modismos. Muitos artistas e muitas obras gozam da convicção geral a respeito de sua eternidade: Giotto e Botticelli são indiscutíveis, mas como lidar com as centenas de pintores medievais cujas obras são expostas, com diferentes graus de ostentação, nos museus europeus sem que alguém consiga diferenciá-los? Proust, you’ve got a point. Ser antigo, em alguns casos, significa ganhar certos privilégios.

Ao afirmarmos, assim, que a antiguidade é capaz de moldar um clássico, sem que necessariamente a qualidade entre na fórmula, vemo-nos diante daquele beco sem saída – o mesmo beco que se projeta à frente de quem afirma que o clássico é clássico por ser bom. Nos ensaios de “Parerga e Paralipomena em que trata de literatura, Schopenhauer reflete sobre os desafios enfrentados pelos autores talentosos para serem reconhecidos: “escritores podem ser classificados como meteoros, planetas e estrelas fixas”. Sobre a última categoria, reservada aos “imortais”, ele observa que, apesar de sua posição “segura no firmamento”, muitos anos são necessários até que sua luz se torne visível aos habitantes deste planeta. Autores de grande talento, segundo ele, são obrigados a encarar a incompreensão do público, a inveja e a concorrência agressiva dos medíocres, a solidão e o desespero de estarem à frente de seu tempo. O lento e imprevisível processo que leva ao reconhecimento de uma obra-prima não parece ter mudado muito nestes últimos 150 anos. Apesar das belas metáforas e das mais bem apresentadas queixas da parte de filósofos e artistas, a descrição da trajetória das grandes obras rumo à consagração pouco acrescenta quando nos voltamos para as qualidades que as habilitam como tais. Aqui cabem poucas generalizações: é preciso analisar caso a caso, e não apenas seu conteúdo, mas as relações entre as características intrínsecas e as circunstâncias, digamos, “ambientais” (históricas, sociais, psicológicas, morais) que contribuíram para sua elevação ao firmamento das estrelas fixas. Apesar de eternos, clássicos não pairam no ar alheios ao seu entorno: grandes escritores costumam ser antenados como jornalistas. Tudo isso é sumamente complicado. Fiquemos, insisto, com o simples, com o modelo de definição do dicionário de crítica literária que dispensa a torrente de esforços intelectuais com o singelo verbete “excepcional; antigo; e exemplar”². Aqui voltamos ao início, talvez um pouco tontos com o raciocínio circular, frustrados com a ausência de uma conclusão profunda ou elaborada. 

E se agregarmos dois fatores adicionais ao problema, (i) a autonomia da obra em relação a seu autor – o que nos recomenda enorme cuidado ao dar tratamento de clássicos a autores que nem sempre acertam, ou acertam uma única vez (a obra é sempre mais inteligente que seu criador) e (ii) a existência do que chamo de “clássicos zumbis” – aquelas obras que caíram no limbo mas seguem, não obstante esquecidas e semimortas, firmemente “clássicas”? Quem ousaria retirar do cânone épicos como Orlando Furioso ou O Uraguai? Quem, por outro lado, as leu com propósitos não-acadêmicos? Mark Twain afirmou que clássico é um livro que todos elogiam mas ninguém lê. Italo Calvino enxerga diferente, prefere defini-lo por algo que sempre desejamos reler, o que me parece uma tentativa tão boa quanto qualquer outra das suas. Seria alguma inaceitável injustiça contra inúmeros autores clássicos vastamente lidos colocar Ariosto e Basílio da Gama no mesmo balaio? Além disso, os “clássicos zumbis” guardam em seu âmago essa resiliência das grandes criações, seu potencial de ressurreição, reinvenção, redescoberta: como recorda Harold Bloom, o Cânone [uma forma de denominar o catálogo dos clássicos] “tornou-se uma escolha entre textos em luta uns com os outros pela sobrevivência… em cada época, alguns gêneros são vistos como mais canônicos do que outros”³. Graças a essa lógica, a história dos clássicos não se resume a uma pilha de livros que vai crescendo ao longo do tempo com o acúmulo indiscriminado, aritmético, de produções excepcionais. A entrada de um clássico no Cânone pressupõe a saída ocasional de outro, que por sua vez pode reentrar no futuro, e assim sucessivamente. 

Se tudo conspira a favor do mistério insolúvel quando o assunto é o clássico, a analogia de Schopenhauer ajuda, pelo menos, a reconhecer a importância da distinção entre os meteoros, planetas e estrelas. Pouco sabemos das razões que levam um escritor a alçar-se à classe mais longínqua e brilhante dos corpos celestes, mas seria admissível apenas recordar que meteoros e planetas existem e podem, nas palavras do filósofo, “frequentemente ofuscar as estrelas e serem confundidos com elas pelos inexperientes; mas só porque estão mais próximos”. A lição é assim resumida: sejamos sensíveis à possibilidade de erros de julgamento e à existência de infinitas variáveis externas, e evitemos qualquer etiquetagem feita às pressas. E já que caímos na tentação do aconselhamento, talvez caiba, aqui, abrir um pouco mais o leque das sugestões:

– Desconfiemos de “gênios contemporâneos” e modismos: Schumann, que tinha pretensões de ser escritor antes de firmar-se como compositor, costumava recomendar a seus alunos lerem os “dois maiores autores de todos os tempos”, Shakespeare e Jean Paul Richter. A partir do último quarto do século passado, o solo tornou-se especialmente fértil para a passagem dos “meteoros”, como bem avalia Bloom: na “Idade de Warhol, na qual muitos são famosos durante quinze minutos (…) a imortalidade durante um quarto de hora é (…) livremente outorgada, e pode ser vista como uma das consequências mais hilariantes do ‘abrir o Cânone’”;

– Desconfiemos, na mesma linha, de críticos precipitados: “Por que Michel Houellebecq é o escritor mais importante do século XXI”, título de recente artigo do, apesar disso, ótimo Pedro Sette Câmara na “Gazeta do Povo” – a concorrência é tão extensa e o século está tão em seu início que qualquer grande escritor surgido há quarenta anos, digamos, teria todo o direito de reclamar o atual milênio como seu

– Confiemos na burrice e na cegueira de editores, como os que rejeitaram Proust e se deslumbram com um fenômeno novo a cada par de meses; 

– Impressionemo-nos menos com prêmios literários: quanto mais festejados, em geral mais cartas marcadas eles homenageiam e menos preocupados com literatura eles são;

– Tenhamos menos fé em nós mesmos, sobretudo se acordarmos predispostos a alardear pelos botequins da vida que finalmente achamos o “maior autor vivo”, um novo Machado de Assis ou um novo Hemingway (como já ouvi alguém chamar o recém-falecido Philip Roth; é bom deixá-lo amadurecer como Roth e não compará-lo a um clássico no afã de transformá-lo em um);

– Acreditemos em novos Kafkas mandando queimar manuscritos por aí, e na infidelidade de amigos como Max Brod. Muitas vezes pode ser recompensador sair em busca de talentos longe dos círculos de nomes festejados, premiações, premiados e entendidos – noutras palavras, não fará diferença se a melhor descoberta dos últimos anos estiver viva ou não

– Por fim, atentemos ao princípio, tão em voga, da economia de recursos: “ler o que é bom”, defende Schopenhauer, “é condição para que não se leia o ruim, pois a vida é curta e o tempo e a energia limitados”. Não quero entrar nessa vereda, porque temo ser mal compreendido: sob nenhuma hipótese arrisco supor que nossos contemporâneos sejam, em regra, piores que nossos antepassados, e que não haja mais lugar para clássicos nestes tempos de twitter, de policiamento ideológico, intelectuais de youtube disputando espaço nas redes com multidões de internautas imbecilizados e indiferentes e, para honrar Jean-François Revel, muita informação inútil e mentiras. O que é possível explorar, num contexto em que não se sabe bem quando nasce e quanto sobrevive um clássico, são as duas questões básicas sobre a natureza do leitor: o que ele pretende e aonde quer chegar com o objeto da sua leitura. Na verdade, se estamos em busca do que é mesmo “bom”, a escassez de candidatos vivos ao posto de “estrelas” nos baratina mais do que ajuda. Talvez sempre tenha sido assim; é um grande risco comparar nossa triste época com qualquer outra. 

Na falta de perspectiva de longo alcance, resta-nos confiar no tempo. Leiamos os contemporâneos por nossa conta e risco – sobretudo se não tivermos muita pretensão de achar espelhos atuais nos velhos clássicos, como gostam de fazer os profetas dos novos Machados. Se, pelo contrário, preferirmos ter esse tipo de pretensão, melhor lembrar o episódio de um velho embaixador que, ao ouvir o colega mais jovem dizer que nunca havia lido a “Divina Comédia”, retrucou: “eu o invejo; você ainda terá um prazer que eu nunca mais terei, o de ler Dante pela primeira vez”. Na verdade, a lição que nos interessa aqui vai além da anedota, e é especulativa: serve para a hipótese de o jovem ter preferido dedicar seu tempo a algum autor vivo. “Leia o que quiser, mas tenha sempre a consciência de que, ao ler alguém que não seja Dante, você está tomando a decisão de não ler Dante”.

Escolhas desse tipo sempre fazem vítimas inocentes. E não queremos tratar candidatos a clássicos como danos colaterais, por mais que nos arrisquemos a cair nas armadilhas do modismo, da precipitação e outros tipos de erro de julgamento. Apostamos – queremos apostar – em gente do calibre de Milan Kundera, Vargas Llosa, J.M. Coetzee, Margaret Atwood, Ian McEwan, Haruki Murakami, o próprio Michel Houellebecq; e os falecidos há tempo insuficiente (pelos parâmetros do clássico) para que a poeira cósmica se condense: Philip Roth, Ferreira Gullar, Amos Oz, Doris Lessing. Mas não foi assim que Virgílio consolou Dante à porta do Purgatório?: 

“‘Não tenhas medo’, disse o meu Senhor,
‘que o nosso estado é bem satisfatório;
Não retenhas, mas solta o teu vigor.
Estás chegando agora ao Purgatório,
vê lá o ressalto que o percorre em torno,
e a entrada ao fim do trilho promissório.” 

Notas

¹ Proust, Marcel. “Em Busca do Tempo Perdido – À Sombra das Raparigas em Flor”. Editora Globo, 2006.

² The Penguin Dictionary of Literary Terms and Literary Theory”. Penguin Books, 1999.

³ Bloom, Harold. “O Cânone Ocidental”. Temas e Debates – Círculo de Leitores, 2013.

André Chermont de Lima

André Chermont de Lima é diplomata de carreira e atualmente exerce o cargo de Ministro-Conselheiro na Representação do Brasil junto à UNESCO, em Paris.