Ernesto Nazareth: um projeto de modernidade na música brasileira

O projeto 3 x 22, iniciativa da Universidade de São Paulo que conta com a parceria  do Instituto CPFL e do Sesc-SP, busca promover o debate histórico, artístico, cultural e político em torno do Bicentenário da Independência do Brasil e do Centenário da Semana de Arte Moderna a serem comemorados em 2022. Como parceiro do Instituto CPFL, o Estado da Arte promoverá uma série de artigos, podcasts, textos clássicos e entrevistas dedicados a reflexões sobre temas nacionais.

por Leandro Oliveira

No dia 17 de novembro de 1926, Mário de Andrade realizou, no Theatro Municipal de São Paulo, uma conferência chamada “Festival Nazareth”. Com presença do próprio compositor, Mário de Andrade apresentou a tese de que o compositor carioca era digno de ombrear com os clássicos. O próprio Ernesto Nazareth apresentou-se com algumas de suas músicas ao piano – tocou à ocasião sucessos como “Você bem sabe”, “Brejeiro”, “Apanhei-te cavaquinho”, “Odeon” entre outras. Os aplausos foram consagradores para ambos.

Aquela talvez fosse de fato, a primeira conferência sobre um compositor popular feita por um intelectual modernista numa sociedade artística de elite. Quatro anos antes, em 1922, Mário de Andrade, um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna, fora vaiado ao ler seus poemas no palco do Theatro Municipal de São Paulo, em fevereiro. No mesmo ano, no Rio de Janeiro, em dezembro, fora preciso que a polícia garantisse a segurança para realização de um concerto com obras de Nazareth, organizado pelo compositor Luciano Gallet (1893-1931). 

Mário voltava ao palco do Municipal, pela primeira vez desde 1922, por convite da Sociedade Cultura Artística. Naquele ano de 1926, a Cultura Artística havia se posicionado como uma das mais relevantes e consistentes promotoras culturais brasileiras, com objetivo declarado de divulgar obras literárias e artísticas “em todas suas manifestações, e com especialidade, os autores brasileiros”, como diz Nestor Pestana em uma entrevista para o jornal A Noite, de 1915. Segundo ele, tratava-se de uma espécie de “reação contra o rebaixamento moral da nossa intelectualidade”. 

É impressionante acompanhar a linha do tempo que leva ao convite de Mário de Andrade, em 1926. O primeiro sarau da nova Sociedade acontece no dia 26 de setembro de 1912, no Salão Steinway – então, o nome do auditório do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, número 95 da Rua São João. O discurso de inauguração foi do jornalista Roberto Moreira – figura querida entre os profissionais de imprensa e que, anos mais tarde, ocuparia a cadeira 30 da Academia Paulistana de Letras (na APL, teria entre seus sucessores o bibliófilo José Mindlin). A conferência inaugural foi do ensaísta e poeta Amadeu Amaral, com o tema “Raimundo Correia”; a ela, seguiu-se um concerto de piano e canto, com presença do maestro João Gomes de Araújo – que se tornaria um dos mais ativos associados da Sociedade ao longo dos primeiros anos. Estavam presentes 325 pessoas. O sucesso da primeira reunião permitiu, no mesmo ano, no dia 13 de novembro, que Armando Prado realizasse a conferência sobre “Álvares de Azevedo”; o público ouviu, em seguida, um concerto da harpista Olga Massuci Costabile.  

Em 1913, Garcia Redondo fala sobre “Arthur Azevedo”, Pedro Lessa, Ministro do Supremo Tribunal Federal, sobre “João Francisco Lisboa”, o embaixador Manuel Oliveira Lima sobre “Os Nossos Diplomatas”, Antônio Piccaro sobre “O Romantismo”. Ricardo Gonçalves, poeta e jornalista que aquela altura tornara-se já uma referência intelectual ao introduzir o anarquismo entre os círculos libertários da cidade de São Paulo, e o ator português Chaby Pinheiro, são os protagonistas em duas noites de declamação de poesia.

Em 1914, o advogado Plínio Barreto realiza uma palestra sobre “Gregório de Mattos” e o médico Alberto Seabra (fundador do primeiro laboratório de homeopatia do Estado de São Paulo e, mais tarde, um dos fundadores da Universidade de São Paulo) fala sobre “Tobias Barreto”. A temporada 1915 termina com as três primeiras conferências de Alfredo Pujol sobre “Machado de Assis” – que, numa série de sete conferências para a Cultura Artística, concluídas em 1917, realiza o primeiro estudo documentado da obra do escritor. Ainda em 1915, nos dias 8 e 12 de outubro, ninguém menos que Olavo Bilac (1865 – 1918) convidado a recitar sua própria poesia – leu cerca de trinta poemas inéditos, à ocasião. Não deixa de ser estimulante que, completando dezoito anos no dia 9 de outubro daquele ano, já há quatro anos aluno do Conservatório Dramático Musical (onde ocorre a récita de Bilac), Mário de Andrade pudesse ser um jovem assinante das atividades da Sociedade Cultura Artística, presente nas declamações de Bilac…

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Mas há uma linha lógica entre as conferências que nos levariam à presença de Mario, em 1926. Já em 1914, o engenheiro e arquiteto Ricardo Severo da Fonseca e Costa fala sobre  “Arquitetura Tradicional no Brasil” – parte de uma série de conferências que se tornam reconhecidas como marcos do neocolonialismo no país. Para o evento do Cultura Artística, a conferência contou com “projeções luminosas a cargo do sr. Dr. Luis Wanderley, a cuja gentileza a Sociedade da Cultura Artística se mostrou muito grata”, como noticiou o Estadão, à ocasião. 

Em 1915 a preocupação com a causa modernista nacional se torna aberta. Com o Clube Germânia lotado, Afonso Arinos explicou, no dia 5 de fevereiro, a diferença entre lenda e mito por meio de suas origens e temas. No final, aplaudidíssimo, ligou o tema à guerra, referindo-se aos saques e à destruição da arte e dos monumentos da humanidade que barbarizavam a Europa. Era o início de um ciclo de conferências intitulado “Lendas e Tradições Brasileiras”, que anunciado desde a primeira noitada de 1912, teve sua realização em pleno ambiente da Primeira Guerra mundial. Não deixou de ser um ponto alto que mostrava a excelência dos saraus  a que a Cultura de propunha realizar. O número de sócios voltou a ultrapassar os 300 e a quarta conferência de Arinos, no dia 5 de abril, despertou tanto interesse que o evento teve que ser, mais uma vez, auspiciado pelo Theatro Municipal. Ao todo, o ciclo “Lendas e Tradições Brasileiras” ocupou sete noites na temporada de 1915. 

Em 1917, a Sociedade Cultura Artística traz a companhia “Les Ballets Russes” de Serguei Diaghilev. Após o escândalo da “Sagração da Primavera” de Igor Stravinsky, em 1913, a companhia representava a inequívoca vanguarda da arte de seu tempo, com espetáculos arrojados e ao mesmo tempo de grande apelo visual. Sua presença no palco do Theatro Municipal de São Paulo em uma noite exclusiva para a SCA foi um dos marcos da primeira fase da instituição, e marcou definitivamente a internacionalização de sua temporada. A noite do dia 3 de setembro contou com a participação do maestro Ernest Ansermet – que além de regente estável da companhia era o diretor musical dos “Concertos Sinfônicos de Genebra”. 

O programa teve duas partes: “Canções Populares Russas” de Anatol Liadow, “O Pássaro de Fogo” de Igor Stravinsky, o “Prelude a l’Aprés-midi d’un Faune” de Debussy, “As Delícias do Poder” e a terceira parte da sinfonia “Antar” de Rimsky-Korsakov, todas em versão para orquestra; após o intervalo, os balés “Carnaval”, “Thamar” e “Príncipe Igor”. A crítica no Estadinho:

“Triunfo completo foi deveras esse. Pois, conseguir-se numa capital acanhada como a nossa encher completamente um teatro com lotação para quase 3000 pessoas a ponto de se ver forçada a própria diretoria a se alojar nas galerias; e apresentar um programa seleto, em que figurou a grande troupe de bailados russos, que se celebrizou em todas as platéias da Europa e que por isso mesmo se vende tão caro; conseguir isso tudo em São Paulo é um verdadeiro “tour de force”, bem significativo do esforço ingente e vontade inquebrantável dos diretores da benemérita sociedade.”

Em janeiro de 1918, o convidado para um recital de declamação e música é o poeta, cantor e compositor Catulo da Paixão Cearense (1863 – 1946) – autor de mais de quinze livro de poemas, entre eles “Meu sertão” (1918), “Sertão em flor” (1919), “Poemas bravios” (1921), “Alma do sertão” (1928). Àquela altura, suas poesias eram já adaptadas por Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros, João Pernambuco e interpretadas por grandes vozes como as de Eduardo das Neves e Vicente Celestino. Entre suas obras-primas do período, “Luar do sertão” (1914 – para ouvir clique aqui) e “Caboca di Caxanga” (1912 – para ouvir clique aqui).

Esses antecedentes talvez expliquem o porquê de, dezoito dias depois da semana modernista, Villa-Lobos abrir com aplausos o ano musical do Cultura Artística. O concerto do dia 7 de março, com sete peças musicais do compositor, foi uma verdadeira consagração. Nenhuma das obras – composições de 1914 a 1919 – foram apresentadas nas três noites da Semana de Arte Moderna. O sucesso do evento por parte do público e da crítica fez com que o primeiro concerto do compositor para a Cultura fosse o começo de uma longa colaboração. 

Villa retornaria dirigindo concertos de câmara, orquestra e como instrumentista. Em 1925, chegou a dar três concertos e encerrou a temporada com sua grandiosa Missa-Oratório para vozes mistas e orquestra. Voltaria ainda em 1929, quando após uma temporada vitoriosa em Paris, participará de dois saraus seguidos. Em março de 1922, Villa tem 35 anos e estava ainda longe de ser um compositor consagrado. Não apenas por eventos dedicados a sua obra, mas também pela qualidade dos corpos artísticos que lhe estavam a disposição, é possível dizer sem temor de exageros que a Sociedade Cultura Artística está na biografia do compositor sobretudo como espaço privilegiado onde lhe são dadas as condições ideais para seu desenvolvimento.

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Tampouco Ernesto Nazareth (1963 – 1934) era um neófito. Em 1926, já havia deixado em segundo plano suas atividades na Casa Mozart (onde tocava obras para os clientes saberem o que comprar) ou no Cinema Odeon (onde acompanhava as projeções de cinema mudo), o mais luxuoso da capital federal. Sua turnê por São Paulo é demonstração de uma certa respeitabilidade. Antes disso, fora convidado por Alberto Nepomuceno para apresentar-se na  Exposição Nacional, e já havia apresentado alguns recitais no “Instituto Nacional de Música” (hoje Escola de Música da UFRJ, então localizado à Rua Luís de Camões). Tivera uma lista de obras publicada no Manuel universel de la littérature musicale, editado em Paris por François Pazdirek. Já em 1914, acompanha a primeira edição da polca “Apanhei-te, cavaquinho” e o catálogo da Casa Beethoven (Nascimento Silva & Cia.), onde dezenove outras composições de Nazareth aparecem gravadas em rolos de pianola, confeccionados nos Estados Unidos.

Em 1920, Heitor Villa-Lobos dedica a Ernesto Nazareth seu “Choros nº 1, para violão” e nesta época já existem cerca de sessenta gravações de suas peças. Provavelmente, as vaias no evento de dezembro de 1922, no Instituto Nacional de Música, eram mais para Luciano Gallet – o organizador – que o sempre amigável instrumentista e compositor.

Em suas conferências de 1926, Mário de Andrade defende a música de Ernesto Nazareth ao sugerir que o compositor era essencialmente instrumental – enquanto todas as outras modalidades musicais populares procuravam se apoiar no verso oral. “Pois Ernesto Nazareth se afasta dessa feição geral dos compositores coreográficos e por ter uma ausência quase sistemática de vocalidade nos tangos dele. É o motivo, a célula melódica ou só rítmica que lhe servem de base para as construções”, diz. Associando muito de sua obra à tradição pianística chopiniana, conclui que a obra de Nazareth “é mais artística do que a gente imagina e deveria de estar no repertório dos nossos recitalistas”.

No espírito das reflexões desta série 3 x 22 do Estado da Arte, tanto quanto a reconstituição histórica daquele momento vigoroso da cultura musical brasileira, vale também o ouvido atento à observação de Mário de Andrade.

Confira o Café Filosófico CPFL especial 3 x 22  “A Música na Semana”, com a professora da USP Flávia Toni.

Leandro Oliveira

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, e anfitrião do projeto "Falando de Música" da Osesp.