Falando de música: fake news sobre Seiji Ozawa

por Leandro Oliveira

Seiji Ozawa (Reuters)

Nessa semana, recebi em diversos grupos de WhatsApp e de alunos diversos o vídeo com Zubin Mehta e Seiji Osawa regendo juntos a Orquestra Filarmônica de Viena — uma circunstância rara e divertidíssima com dois maestros no pódio, dirigindo, um pouco atrapalhados, uma peça que para todos efeitos dispensa maestros, a pequena polka de Johann Strauss Jr., Unter Donner und Blitz, seu opus 324.

O texto que acompanhava o vídeo encaminhado era um pouco perturbador:

“O Maestro Seiji Ozawa tem Alzheimer. Zubin Mehta recentemente lhe prestou uma homenagem, levando-o a reger um pequeno concerto. Veja o gesto de carinho entre os dois e a alegria dos músicos da orquestra. Ozawa se distrai de seu papel e Metha o reintroduz no show. Ele reage imediatamente, apontando para alguma entrada dos metais. (A música permanece na memória, mesmo em estágios avançados da doença).”

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A coisa era por demais embaraçosa e considerei não responder. Ozawa não tinha e não tem até hoje, por onde se sabe, qualquer quadro neurológico que o proíba reger (tem outros probleminhas de saúde, mas isso não vem ao caso) e, no evento, ambos maestros se divertiam nitidamente, fingindo que eram necessários para uma orquestra que, ademais, tem aquela música mais próxima de si que qualquer um deles (Ozawa é japonês; Mehta, indiano).

Foi Jeffis Carvalho, editor da seção de cinema deste Estado da Arte, que fez o dever de casa que tive preguiça de empreender. Como bom jornalista que é, foi apurar os fatos. E os fatos me foram relatados numa mensagem posterior dele — com todo o apuro que apenas os bons profissionais do ramo podem fazer. Diz Jeffis:

“Emocionante. Sempre é algo muito especial ver juntos dois dos maiores regentes da segunda metade do Século XX, o japonês Seiji Ozawa e o indiano Zubin Mehta. Um momento único, com os dois no palco, dividindo o pódio. Mas preciso ser o chato da história. Seiji Ozawa já venceu um câncer de esôfago, lesões no quadril e na coluna e foi submetido a duas cirurgias cardíacas. Mas ele não sofre de Alzheimer. O que está no vídeo é o encerramento do Concerto de Gala dos 30 anos do Suntory Hall – a maior sala de concertos do Japão, em Tóquio […]. Zubin brinca com Seiji e eles se divertem com os músicos. É uma brincadeira de dois mestres. Nessa peça, a regência seria apenas de Mehta, mas ele leva Seiji para o palco. Os dois estavam dividindo a regência da orquestra nesse concerto. E a orquestra é simplesmente a Wienner Philharmoniker, a Filarmônica de Viena, uma das três melhores orquestras do mundo. Os concertos foram realizados em 1º e 2 de outubro de 2016. Vejam, no mesmo concerto, Seiji Ozawa regendo a Sinfonia nº 8 “Inacabada”, de Franz Schubert.”

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Implacável, Jeffis me traz o vídeo da primeira parte do evento, com Ozawa regendo a Sinfonia “Inacabada”, de Schubert.

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Todo o caso me remete a uma série de reflexões que considerei compartilhar com os leitores.

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De natureza aberta e colaborativa, o universo digital provoca um espírito de permanente participação. Mas conta, como não poderia deixar de ser, com interlocutores que nem sempre estão equipados para reconhecer, entre as informações que lhe são disponibilizadas, sua acurácia ou pertinência.

A psicodinâmica do universo público letrado sempre lidou com organismos “verificadores” — a imprensa, a academia e a escola, as editoras, o colegiado científico em seus fóruns de debate. A cada um deles, e seus respectivos protocolos, atribuímos, de acordo com sua produção e eficiência, um certo grau de prestigio e credibilidade.

Sem a atuação destes protocolos, a verdade é que ficamos à deriva, mergulhados neste Universo de informação recalcitrante. Afinal, o que nos proibiria de acreditar que algum dos maestros, ali, não estava senil? É o texto mesmo que nos diz…

Falamos de fake news? É assim com política, é assim com música, pois não?

Mehta e Ozawa festejavam, mas, atentos à legenda, que diz que um se compadece de outro, nos entristecemos. Amantes de música se comovem, impressionados com um Alzheimer que não há, deixando de entender a graça de uma brincadeira entre dois senhores…

Lembro de uma passagem de John Cage que, num sarau em homenagem a seu mestre zen, fica tenso por conta do piano e cantores, super desafinados e pouco musicais. Fazem de árias de Bel Canto algo próximo de um experimento pós-moderno – involuntariamente. Ao final, não apenas todos do público, mas também o mestre, levantam-se em aplausos entusiasmados pela performance.

Que preciosa é nossa percepção. Cage comenta: afinal, o que Rossini escreveu, o que os artistas tocaram e aquilo que seu mestre ouviu, foram três coisas completamente diferentes.

John Cage

Ouvi Seiji Ozawa pela primeira vez em Florença, no dia 07 de junho de 1998. Ele dirigia sua Mito Chamber Orchestra, num programa com obras de Stravinsky (Pulcinella) e Schubert (a versão para orquestra de cordas do quarteto A Morte e a Donzela, de Gustav Mahler), para o Maggio Musicale Fiorentino.

No terceiro movimento, o improvável: acaba a luz. Restamos todos em choque, e pelos três minutos seguintes, a orquestra tocando de cor, no escuro, só pudemos segurar a respiração. Ao final do terceiro movimento, aplausos mais que merecidos, após aquele extraordinário tour de force.

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Seiji Ozawa, sempre que o vi, rege de cor — mesmo coisas as mais complexas. É um cérebro prodigioso.

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Leandro Oliveira

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, e anfitrião do projeto "Falando de Música" da Osesp.