Uma ode aos octagenários

por Leandro Oliveira

A nossa semana explicitou talvez uma das mais melancólicas realidades que um artista ou alguém que esteja tangencialmente envolvido com arte possa realizar. Entre tantas melancolias que assolam nosso país, o “caso Santander” talvez se destaque por marcar a recente história da arte nacional com a presença de certos setores da política nacional que, decididos a ideologizar a estética, fizeram contraponto – mimético? – às estratégias de grupos de pressão do campo ideológico oposto.

Se a batalha é travada nos termos da “arte como política”, de certa forma está tudo justificado. Mas o destino reservou uma ironia, pois vivemos também a semana em que São Paulo recebeu o Emerson String Quartet (Mozart, Beethoven, Shostakovich, Bártok), o compositor polonês Krysztof Penderecki, a violinista Isabelle Faust (com um programa duplo Szymanovsky e a integral das partistas e sonatas para violino solo de Bach) e Philip Glass. Variedade e qualidade de grandes capitais – Nova York, Berlim ou Lucerna em época de  seus prestigiosos festivais. E é isso que me leva a outras inquietações.

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O contraste entre os mundos mentais, entre o “boicote” à arte queer e a variedade de atrações paulistanas, nunca foi tão explícito. Sobretudo pois entre os nomes da semana, mais que grandes intérpretes contamos com dois dos maiores criadores do século. Glass e Penderecki são artistas que não apenas ocupam, com suas obras, parte relevante de nossa ecologia simbólica, mas que seguem como consequentes atores da liberdade e independência da arte em nosso tempos.

Na rotina pouco sofisticada da mentalidade sobre a arte em nosso debate público, acabamos por assumir sem muita discussão a acepção de que “toda arte é política”. Talvez, entre pensadores, os termos beirem o lugar comum. Não tenho tanta certeza. Tais generalidades me levam sempre à piada sobre uma briga rumorosa entre socialistas e comunistas em um bar de Berlim na década de vinte, que conclui-se em batalha campal. A polícia, chamada pelos vizinhos, acaba por intervir com seus mais sofisticados recursos, a lei e ordem do cassetete. É quando, acuado, um dos militantes grita: “calma seu guarda, eu sou anti-comunista”. A resposta é direta: “não me importa o tipo de comunista que você é!”.

Triste verdade: quando surgimos com a carta da arte-política (e seus pares, como arte apolítica, arte pós-política ou qualquer de suas variações), estamos já abduzidos pela arapuca da identidade engajada. A partir daí, o que é possível discutir, ao máximo, é o quão engajado uma obra-de-arte é. É a nova versão do dito “com martelo na mão, tudo vira prego”.

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É como artista engajado – e de algum modo um permanente dissidente – que Penderecki acaba por ser lido com sua produção monumental. Primeiramente, como um dissidente  anti-soviético quando, cultivando técnicas de experimentais, lança-se ao mercado internacional com sua “Trenodia para as vítimas de Hiroshima” (1960). Sua linguagem radical de expressividade bruta acaba por posicionar o jovem compositor como um dos grandes expoentes da vanguarda no ambiente político tenso e esteticamente conservador do leste europeu da cortina de ferro.

Seis anos depois, Penderecki cria sua “Paixão segundo São Lucas” que, hoje percebemos, inicia o percurso do compositor rumo ao reencontro com a tonalidade. A despeito de suas texturas complexas e riqueza motívica, muitos entre seus elementos aparentemente heterodoxos são de fato enraizados na grande tradição coral religiosa, arcabouço necessário para a expressão tão sincera de sua religiosidade – religiosidade que aliás, Penderecki passa a fazer questão de enfatizar.

Assim, objetivamente contra-cultural – e político – Penderecki será quando “trai” o movimento da vanguarda internacional, e faz as pazes com o tonalismo e as tantas práticas polifônicas que serão o cerne de sua música madura. Seu gesto é político, pois reativo às doutrinas internacionais da música de concerto “respeitável” – respeitável apenas entre os seletos apologetas, pois falamos de uma música pouco ou nada aderente ao público habitual das salas de concertos, público que, não à toa, começava a preferir a música do passado àquela de seu próprio tempo. Talvez não curiosamente, é quando deixa de fazer parte do clube dos radicais e passa a falar mais diretamente ao público tradicional que Penderecki passa a ser mais consistentemente relevante: não cedendo aos anacronismos do realismo soviético, e tampouco cedendo aos prosélitos do radicalismo idealista da vanguarda.

“Minha arte, com suas profundas raízes cristãs, visa restaurar o espaço metafísico humano, destruído pelos cataclismos do século 20. Restaurar a dimensão sagrada da realidade é a única maneira pela qual o homem pode ser salvo.” É quando mais se torna ele mesmo – um homem a expressar sua fé deliberadamente católica, fé que o levará à amizade com o cardeal Wojtila entre os tantos atores que acabarão por formar os grupos de resistência que discreta ou explicitamente participarão da formação e crescimento do Solidariedade nos anos oitenta – é apenas então que Penderecki deixa de ser um entre tantos arrivistas de uma música para iniciados e torna-se o atual monumento da arte da segunda metade do século XX.

Krzysztof Penderecki
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Em artigo de 9 de fevereiro deste ano, o Estado da Arte trouxe trechos da entrevista que o jornal The Guardian realizou com o compositor Philip Glass, à ocasião de seus 80 anos. Reproduzo um trecho:

“Essas divisões nunca sararam. Essas pessoas acabaram de morrer! As pessoas que não querem você não mudam de idéia. Você sobrevive a eles, se tiver sorte. Estão todos mortos agora, os caras mais velhos. A batalha nunca foi vencida ou perdida. O exército apenas foi embora.”

Tratava-se da resposta a um dos assuntos mais perversos da música clássica de nosso tempo: a patrulha que certos setores da criação acabaram por fazer com as estéticas tonais, melódicas, e de procedimentos ou estruturas repetitivas. Em outras palavras, aquele das linguagens conservadoras. Em algum momento – e a resposta reverbera esta questão de modo inequívoco – um dos lados da controvérsia teve seu general, e ele chamava-se Pierre Boulez.

A guerra acabou? “Não, não, não, não e não” é a resposta contundente do compositor. Boulez e Stockhausen, seus antípodas, são alguns destes que “acabaram de morrer”. O primeiro, com uma área de influência não pequena, foi inclusive diretor musical da Filarmônica de Nova York, cidade onde Philip Glass mora há pelo menos quarenta anos.

E para se ter uma dimensão do que foi esta “batalha”: acaba de ser anunciada a PRIMEIRA APRESENTAÇÃO pública de uma obra de concerto de Glass – o maior compositor vivo residente em Nova York – pela Filarmônica local. É o que o compositor, que completou 80 anos no dia 31 de Janeiro, celebrando a programação de seu concerto para dois pianos, acaba de anunciar em seu Twitter.

O artigo, reitero é de fevereiro deste ano. O mais bem sucedido compositor de música clássica norte-americano – e os termos de seu sucesso podem ser medidos tanto pelo número de fãs, quanto pela quantidade e impacto da obra – foi boicotado pela Orquestra Filarmônica de Nova York até as vésperas de seus oitenta anos. Evidentemente, com argumento que sua música era simples demais, direta demais, pop demais, o artista foi deslegitimado, e viu-se distante de boa parte de seu público.

Sua apresentação em São Paulo, com a integral de seus estudos para piano, talvez não faça a cabeça dos pianistas impressionados e impressionáveis com virtuosismos circenses ou compositores que sabem tudo da história e das técnicas de vanguarda – assim como talvez passem distante da crítica que mais gosta de dialogar com a academia ou com os grupos socialmente engajados do que com o público das salas de concerto. Mas certamente, digo de antemão, será um dos pontos altos da temporada musical paulistana deste intenso ano de 2017.

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Penderecki e Glass, cada um a seu modo, como deve ser no ambiente da arte, lutam contra o consenso. Suas obras hoje parecem mainstream, mas apenas por terem, com a força de sua dedicação, furado os bloqueios impostos pelo establishment de seus tempo. São artistas monumentais exatamente por reservarem em si uma inequívoca convicção, a mais legítima e rara, aquela dos indivíduos que entendem a arte ao mesmo tempo sob a tênue linha entre o risco e a responsabilidade.

O risco, necessário dizer, não é o do sucesso ou fracasso: afinal, o que ganha ou perde uma obra bem ou mal sucedida? E, afinal, quem assegura o que é uma coisa ou outra? O risco do empreendimento artístico é a própria pretensão deste diálogo necessário com o que de mais imaterial a espécie Humana pode produzir; que ele se torne, em algum termo, um diálogo concreto, ou seja, que ultrapasse os limites daquele que fala e toque aqueles que ouvem, é seu paradoxo evidente. E a responsabilidade é que esta mensagem, sendo verdadeira, transforme as pessoas; não no sentido de fazê-las melhor, mas de permiti-las acessar outras formas, outras cores, outros universos sensíveis que eventualmente seguiriam inexplorados nesta grande aventura da existência humana.

A convivência de uma variedade múltipla de expressões humanas é, para uma verdadeira estética, um valor maior. Como diz  Clive James “os construtores de campos de concentração podem ser criadores de um tipo – é possível imaginar um arquiteto que trabalhe feliz para aperfeiçoar o design dos postes de concreto que suportam uma cerca eletrificada de arame farpado – mas eles estavam no negócio para subtrair a variedade do mundo criado, não para adicionar a ele.” Podemos sugerir que os arquitetos do nazismo, e os talibãs excluem-se da grande conversação civilizada exatamente por estarem, em seus respectivos projetos, lutando pela restrição dessa variedade, não sua multiplicação.

Esta é a característica maior da sensibilidade humanista, o amadurecimento pela variedade, permanente e exuberante variedade, a ser cultivada com empenho, com consciência e convicção. Que aqueles que boicotam, censuram ou se negam a espalhar esta boa nova, saibam de uma vez por todas: lutam contra o que de mais legítimo e alto a Modernidade pode aspirar. E nós em São Paulo, nesta semana, convivemos privilegiadamente com o frescor da liberdade através da arte de dois octagenários, mesmo que sob os ecos da senilidade da paixão de jovens ativistas e militantes.

Leandro Oliveira

Leandro Oliveira é autor do livro “Falando de Música: Oito lições sobre música clássica” (editora Todavia, 2020). Tem experiência internacional em transmissões de música clássica, e é responsável pela direção das transmissões da “Maratona Beethoven”. Realizou doutorado com pesquisa na área pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.