FOCO: OTHON, de Jean-Marie Straub & Danièle Huillet, 1969-1970

por Jean-Louis Comolli

uma parceria com a Foco – Revista de Cinema

No turbilhão acelerado das imagens e dos sons, nós nos vemos uns aos outros? Ver a quem, a quem ouvir? Não deveríamos enxergar, todos, nada além de uma única mesma coisa? Esse mundo tomado de convulsões que salta de tela em tela? Reconduzido ao visível, o outro é observado, enjaulado nessas telas, observado, temido como um inimigo.

O cinematógrafo de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub se propõe a construir um espectador que não seja nem um voyeur nem um vigia. Paradoxo. Tanto em uma sala de cinema quanto vagando de site em site, o ato de ver se relaciona com o que a psicanálise chamou de “pulsão escópica”: esse irrefreável apetite de ver, tudo ver, ver mais e mais (em cores, em Scope, 3D…). Ver para gozar e gozar desse “controle” exercido sobre os outros.

A expressão familiar o ressalta: “deixar boquiaberto”. É essa “plenitude”, essa realização do visível pelo visível que se tornou o objeto exaustivo da atual Hollywood. Ontem, a fábrica dos sonhos confeccionava um cinema feito de margens e do fora-de-campo, de tal modo que os sonhos, passados ao filtro do olhar interior do espectador, pertenciam mais ao registro da sugestão do que ao registro da ilustração.

Essa pulsão que cria o voyeur cria também o espectador. A história do cinema, entretanto, nos ensina que são numerosos os cineastas (de Jacques Tourneur a Abbas Kiarostami, passando pelos Straub) que não tencionam satisfazer essa pulsão sem frustrá-la ao mesmo tempo. Mostrar, sim, uma vez que ainda se trata de cinema mas não tudo, não de imediato, não de qualquer modo, não a qualquer hora. Mostrar parcialmente, seletivamente. Mostrar enquanto se esconde, revelar enquanto se encobre.

É desse modo que mostrar pode se tornar novamente um gesto simplesmente humano, amigável, franco, longe dos automatismos das milhares de máquinas do visível. Nada é dado no cinema, sobretudo o olhar, nada está lá por acaso, o olhar é uma construção que implica a cegueira; e o real, se porventura for capturado pelo registro cinematográfico, se retira diante do avanço sem pudor do espetáculo.

Desse modo o não-visível é ao mesmo tempo o limite e o limiar do visível. É nesse sentido que o cinema de Danièle Huillet e de Jean-Marie Straub é um cinema poético: o mundo que eles fazem vir ao olhar não se reduz às suas dimensões visuais. Ele é trabalhado pelo fora-de-campo, e o rigor dos enquadramentos, a escassez dos movimentos da câmera, a restrição dos eixos das tomadas, a contenção (tão surpreendente nos dias de hoje) do número de planos, a própria duração desses planos, impõe ao desejo de ver uma regra de austeridade que confere muito mais potência àquilo que é mostrado. Ao mesmo tempo, um regime como esse imposto ao visível termina por libertar a parte sonora do cinema. Ver menos para ouvir mais. Que sensação perturbadora, ouvir como pela primeira vez o farfalhar das línguas, a recitação, a dicção, a palavra cantada… Como se descobríssemos os sons de um passado mítico que o cinema faz regressar, que ele torna presente: o som das árvores, dos animais e dos homens quando eles ainda habitavam o mesmo tempo e o mesmo espaço precisamente aquele dos mitos.

A hipótese dos Straub é simples: ir ao cinema é antes de tudo se dar a chance de ver de forma verdadeira, e os espectadores são deveras aqueles cujos “olhos não querem se fechar o tempo todo” [Les yeux ne veulent pas en tout temps se fermer] (título do filme tirado do Othon de Pierre Corneille). Trata-se, portanto, de aprender a ver. Cada filme é uma oficina onde se formam o olhar e a escuta do espectador. A utopia é das mais loucas: transformar o voyeur em espectador, transformar o espectador tornando-o verdadeiramente observador, transformar o mundo tornando-o verdadeiramente visível. Programa político. É a maneira de filmar que é política, não somente os “temas”.

Esse programa deve ser tomado ao pé da letra: impossível possibilidade de um cinema que se desvia do espetáculo? Há cinquenta anos, em Porretta Terme, uma cidade aquática próxima de Bolonha, Danièle Huillet e Jean-Marie Straub discutiram com espectadores e críticos, escandalizados ao ouvirem-nos dizer como, na opinião deles, os filmes da época eram “pornográficos”. Para nós todos, não poderia haver “pornografia” fora da exploração espetacular das cenas de sexo. Mas e hoje em dia? Todas as imagens que dançam ao nosso redor não são elas mesmas suspeitas de publicidade? A miséria, a indignação, a enfermidade, a luta, a beleza, a feiúra, o horror, a nudez, a morte, não há mais nada longe da posse do espetáculo. É preciso tudo ver, tudo mostrar, até a náusea. Bem, não!, nos diz o cinematógrafo de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. Salvar o cinema contra ele mesmo, refreá-lo contra a ladeira fatal do espetáculo comercial, parece-me ser uma das tarefas mais importantes do presente.

Jean-Louis Comolli, amante de jazz, crítico e teórico de cinema, editor-chefe dos Cahiers du cinéma de 1965 a 1973, professor e realizador.

(Texto originalmente publicado no jornal Les lettres françaises. Republicado no livro Corps et cadre. Lagrasse: Verdier, 2012. Traduzido por Fábio Visnadi)

Nossos agradecimentos ao sr. Jean-Louis Comolli e a Fábio Visnadi.