O futuro, o passado: Observações sobre A Fera na Selva, de Henry James

por Juliana Amato

A Fera na Selva (Reprodução)

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Em A fera na selva, de Henry James, há mais que dois personagens. Há o tempo, um terceiro, que não os acompanha e não se deixa dominar. É da busca inquieta pelo tempo que nasce a angústia do protagonista, John Marcher; e é por causa dela que para ele não há presente, apenas futuro e passado; e não há fatos, apenas as suas próprias sensações.

A novela é toda narrada em terceira pessoa por um narrador não identificado que segue a perspectiva de John Marcher, e conta a história do relacionamento desse protagonista com May Bartram — eis o tempo: march, may —, mulher que ele reencontra por acaso depois de um intervalo de quase dez anos e que é reconhecida como a guardiã de seu maior segredo, condenando a si própria a uma espera sem fim.

O texto é todo escrito no passado: John Marcher e May Bartram avistam-se em uma visita que ele faz com amigos à  tradicional propriedade de Weatherend, aberta para exposição. Ainda sem saber o motivo, sem saber de quem se trata exatamente, Marcher sente-se atraído por aquela presença, observando que

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Ela estava ali num sentido muito mais sólido que qualquer outra pessoa; estava ali em consequência de coisas sofridas, de uma maneira ou de outra, nos anos de intervalo; e ela se lembrava dele tanto quanto ele dela — só que bem melhor.

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Esse pequeno trecho logo nos primeiros parágrafos da novela sugere qual será o comportamento dos dois ao longo da história: May Bartram será aquela que está e sabe, ao passo que Marcher se mostrará como aquele que perscruta e supõe, tão preso às próprias impressões e à própria visão de seu terrível futuro que nunca poderá estar, tampouco saber.

No fim das contas, após um breve diálogo em que Marcher tenta desenterrar o passado — e erra tudo —, May lhe oferece o fio que corrige as suas suposições equivocadas — afinal, ela estava lá na ocasião, de fato, e se lembra — e os conduz a quase dez anos antes, a uma viagem a Nápoles, onde os dois acidentalmente presenciaram uma importante descoberta arqueológica. É interessante notar os diversos registros de passado nesse início: o casal reencontra-se nos salões tradicionais da antiga propriedade de Weatherend, que “faziam pesar tanta poesia e tanta história”, e começam a investigar a própria linha do tempo relembrando da importante descoberta arqueológica que presenciaram na ocasião. Ora, não deixa de ser uma nova e importante descoberta a ambos, uma revelação surpreendente a seu mundo particular. E Henry James o anuncia sutilmente, optando pelo jogo com os passados, com o passado, até chegar a esse primeiro marco.

Henry James

É também logo no início que o narrador apresenta o conflito de John Marcher. Curiosamente, esse conflito tão íntimo e pessoal sequer nos é apresentado pelo próprio Marcher, ou pelo narrador, mas por May. Parece até que Marcher não sabia que vivera e vivia aquele conflito até que May o apresentasse. Como uma arqueóloga (tive de voltar às escavações), ela vai afastando rochas, pincelando o pó das pedras, num diálogo que fará emergir, enfim, à revelação do mal de seu amigo.

Você disse que desde muito cedo na vida carregava consigo, em seu íntimo, a sensação de estar sendo poupado de algo estranho e insólito, talvez monstruoso e terrível, que cedo ou tarde poderia lhe acontecer; que sentia até os ossos seu presságio e sua sentença, e que seria talvez dominado por ela.

Aqui se estabelece a grande questão de Marcher, seu desassossego com o mundo e o motivo de sua ausência do tempo presente, de sua dificuldade em aderir a qualquer coisa que seja, como podemos ler em diversas passagens iniciais. Sem adjetivar o personagem, o narrador o descreve apresentando o seu comportamento como alguém que é levado, que está sempre absorvido na multidão, ou seja, alguém que nada escolhe ou assume por temer as consequências que virão. Vive, assim, em função de um futuro incerto, e como sempre vivera desta maneira, pelo futuro, não tinha nada em seu presente e nada que fosse em seu passado digno de lembrança. May, por outro lado, vivera de fato esse passado — ela estava lá —, e por isso podia lembrá-lo muito bem.

É curioso observar também, no trecho citado e em toda a novela, os tempos verbais empregados. O pretérito imperfeito e futuro do pretérito são os mais frequentes, nunca o presente, nunca o futuro simples, mas sempre o passado constante e o tom condicional do futuro.

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Vanitas, Still life (Reprodução)

No fim da primeira parte, May oferece a Marcher o fio da meada para que não se despedissem daquele reencontro sem perspectivas. Por ser a única a conhecer o segredo de Marcher, ela é o seu elo com o presente e torna-se, por assim dizer, o seu elo com a vida e o mundo real, já que se propõe a esperar com ele pelo estranho e insólito evento. Marcher sequer sabe se o teme — pede tal resposta à amiga:

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“Você mesma dirá, se achar que tenho medo. Se esperar comigo saberá.”

“Muito bem, então.” Eles vinham, a esta altura, atravessando a sala, e junto à porta, antes de sair, fizeram uma pausa, como que para chegar ao desfecho completo de seu entendimento. “Ficarei à espera com você”, disse May Bartram.

Se Marcher estivesse atento a qualquer coisa além de si mesmo e suas próprias questões, ele saberia que aquele “algo estranho e insólito” já surgia em seu horizonte.

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Com a mudança de May a Londres os dois passam a conviver, a amizade se estreita. São páginas de espera em que não encontramos nenhum alívio de Marcher, nenhum movimento em direção à libertação da fera. O tempo é marcado pela mudança das estações, o presente segue condicionado a suas próprias conjecturas sobre o futuro incerto e o personagem sequer observa ou pondera sobre a relação com a amiga, o que nos faz refletir que o interesse de Marcher em relação a May está apenas no fato de ela conhecer o seu fardo, não há qualquer interesse pela moça em si. Desde o início, May interessa a Marcher apenas na medida em que ela se interessa por ele. Até mesmo a ideia de casamento, que justificaria à sociedade a amizade próxima e constante dos dois, é mencionada pelo narrador e descartada graças à convicção própria de Marcher de que “um homem de valor não se permite partir acompanhado de uma mulher a uma caçada de tigres”.

O que parecia a ele uma amizade desinteressada era, da parte dela, a razão de sua vida. Entretanto, ou por isso mesmo, a partir do início da espera com Marcher, May Bartram começa a desintegrar-se, desvanecer-se. Seus olhos também passam a olhar para o futuro incerto do amigo, seu presente vai deixando de existir, e, por estar, apenas, ela vai justamente deixando de estar. O contorno etéreo que May adquire culmina em sua doença, quase ignorada por John Marcher até que se torna irreversível. O par de olhos leitores acompanham essa transformação de May desde o princípio:

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Também sob a aparência exterior dela instalou-se o alheamento, e a conduta visível tornou-se para ela, no sentido social, um falso retrato dela própria. Não havia senão um retrato dela que fosse sempre verdadeiro, e este ela não podia dar diretamente a ninguém, menos ainda a John Marcher. Toda a atitude dela era uma declaração virtual, mas a percepção disso parecia destinada a só ocorrer a ele como uma das muitas coisas necessariamente saídas da sua cabeça.

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À espera de um futuro, sem construir um presente, uma perspectiva de futuro ou ter um passado a que pudessem se apoiar, os dois viviam a deriva da espera, a deriva das palavras não ditas; e sua aparentemente profunda relação vai se revelando frágil a ponto de precisar ser lembrada com frequência de sua razão. Era assim que o futuro impunha-se ao presente, esvaziando este, e era assim que a fera de Marcher aproximava-se sem alarde.

Acometida pela doença, com seu futuro determinado, May levará consigo também o futuro de Marcher, já que não estará por perto para seguir esperando com ele. É nesse momento que o futuro incerto de Marcher transforma-se em seu passado: durante a sua agonia, May tenta dizer ao amigo que o que lhe haveria de acontecer já havia acontecido. Inicialmente como uma esfinge —

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Quase tão branca quanto cera, o rosto com marcas e sinais numerosos e finos como se tivessem sido traçados com agulha, o tecido macio e branco das roupas realçado por um cachecol verde esmaecido, cujo delicado matiz fora depurado pelos anos, ela era o retrato de uma serena, requintada, mas indecifrável esfinge, cuja cabeça, ou melhor, cuja figura como um todo, tivesse sido polvilhada de prata.

—, depois, na escuridão e ruína, ela deixa como herança a certeza de que o bote da fera já fora dado, e que ele não sofrera. Mais de uma vez May tentara declarar-se sem palavras, colocando-se à frente de Marcher como quem se declara e apenas espera (o que fizera durante toda a vida), mas ele se mantinha obsessivamente dentro de si e das próprias impressões para ver qualquer outra coisa.

O próprio narrador, seguindo a impressão de John Marcher, afirma tal fala de May como um marco (mais um, aqui neste texto): se antes desse marco Marcher vivia em relativa paz com seu passado e atormentava-se com o futuro, a partir da revelação e morte de May ele passou a viver sem temer o futuro, mas inquieto e devastado por um passado que não conheceu. O próprio narrador define a invisível sentença: “Assim como era no Tempo que ele teria de se defrontar com seu destino, era igualmente no Tempo que seu destino se cumpriria”, e o que restava a Marcher, então, era perscrutar o passado em busca das respostas que não viveu.

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… era-lhe igualmente difícil sentir temor ou esperança quanto ao seu futuro; tal era a ausência, em suma, da possibilidade de que alguma outra coisa ainda estivesse por acontecer. Ele teria que conviver inteiramente com a questão, a do seu passado não-identificado, a de ser obrigado a ver seu destino amordaçado e encoberto de maneira impenetrável.

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A narrativa inicia então um terceiro momento. A expectativa do futuro transformou-se em busca pelo passado e John Marcher tenta descobrir o que passou por ele sem que ele visse. Diz o narrador que

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A consciência perdida tornou-se então para ele como o filho extraviado ou sequestrado de um pai inconsolável; buscou-a por toda parte como se batesse de porta em porta e indagasse nas delegacias de polícia.

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Marcher nos confirma tal afirmação, partindo para uma viagem ao redor do mundo atrás desse par de olhos vorazes que nunca lhe foram revelados.

De alguma maneira, em seu íntimo — assim identificamos sem esforço — Marcher sabe que esse passado, que esse acontecimento, é May Bartram, e a procura sempre acaba conduzindo-o de volta à lápide da amiga.

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A página aberta era o túmulo de sua amiga, e ali estavam os fatos do passado, ali a verdade da sua vida, ali as distâncias antigas em que podia se perder. Fazia isso de tempos em tempos, e o efeito era tal que lhe dava a impressão de vagar pelos velhos anos de braços dados com um companheiro que era, do modo mais extraordinário, seu outro eu, seu eu mais jovem; e vagar, o que era mais extraordinário ainda, em torno de uma terceira presença — uma mulher que, ela própria, não vagava, mas mantinha-se imóvel, quieta, cujos olhos, movendo-se para acompanhá-lo, nunca cessavam de segui-lo, e cuja posição servia a ele, por assim dizer, como ponto de orientação. Foi assim, em suma, que ele conformou a sua vida — alimentando-se apenas do sentimento que outrora tinha vivido, e dele dependendo não apenas como apoio, mas também como identidade.

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Nessa última parte da novela, o par de olhos da fera surge em diversas referências e impulsionam na busca de John Marcher: são dois olhos sem brilho os nomes de May no cemitério, que acompanhavam sem mover-se o destino de Marcher, e serão os dois olhos de um estranho, num ataque silencioso naquele jardim de morte, que selarão a descoberta e o trágico reconhecimento do personagem.

Esse olhar, de um cidadão desconhecido expressivamente emocionado diante de um túmulo, sem poder conter a sua dor, passa pelos olhos secos de Marcher e o traz para a realidade, para o momento presente e para a própria vida pela primeira vez, como se fosse a primeira vez que ele olha para o mundo e não o relaciona ou associa a si mesmo, como se descobrisse que há a realidade afora, que há emoções, e emoções alheias.

Tal descoberta petrificou Marcher e ele foi obrigado a aguardar o bote final sem mover-se, num acerto de contas impiedoso. Viu aproximar-se o rosto com “uma espécie de fome em sua expressão”, identificou que ali havia algo que ele nunca vira antes, e então se deu conta:

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Paixão alguma jamais o tocara, pois esse era o sentido da paixão; ele sobrevivera, andara a esmo, definhara, mas onde estava a sua profunda devastação?

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Naquele rosto desconhecido Marcher compreendeu seu próprio vazio existencial, reconheceu que não vivera qualquer experiência significativa, que nada o tocara, nada o abalara ao longo de toda a sua existência. Nem mesmo o que poderia transformá-la para sempre, se ele tivesse estado um pouco mais atento — e então o nome de May desenhado na pedra selou o seu destino de forma implacável.

Pasmo, desorientado e em desespero profundo “com a cegueira que ele alimentara”, John Marcher desperta nas páginas finais do livro, em um trecho de fôlego inquietante, como se toda a vida dele desmoronasse vertiginosa e claramente. Nas últimas frases, nos últimos suspiros, defrontou-se com tudo o que não vira antes para depois, qual Édipo, sentir que “as próprias lágrimas pareciam congelar em seus olhos”.

Inconfundível e impetuosa, desta vez revela-se a Fera a John Marcher, que encontrava-se inerte, cego com a própria iluminação. Veio faminta para cobrar a conta do Tempo. Da cegueira inconsciente à cegueira da descoberta, Marcher cumpre o seu destino vazio, sabe e, por saber, sucumbe. Quem é, afinal, a temida fera do título? Podemos imaginar que seja o estranho no cemitério, com sua expressão atormentada e o olhar desesperado. Podemos pensar que é a própria May, cujos olhos seguem os passos de Marcher por toda a vida à espreita, sem revelar-se. Podemos ser nós, os leitores, com nossos pares de olhos atentos, tudo observando, proferindo as nossas sentenças e acompanhando Marcher além das páginas. Pode, também, ser o Tempo, aquele que perseguimos e nos persegue, sempre implacável em seu acerto de contas.

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The old man with an hourglass and a skull, Balthasar Denner

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Juliana Amato

Juliana Amato é escritora, tradutora, preparadora e revisora de textos. Autora de Brevida (Edith, 2011), Correspondência (Publicações Iara, 2014) e do site Microclima (julianaamato.com).