As idades da vida

por Fabrice Hadjadj

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O relativismo é em si mesmo muito relativo. Para alguns, a verdade depende antes de tudo do lugar; para outros, da época; para outros, ainda, da eficiência (é o que se chama de pragmatismo); para muitos, depende, hoje, do indivíduo… Os céticos da antiguidade propositadamente iam além, e relativizavam a própria individualidade. Pirro constata “a mudança perpétua de nossas afeições”: “saúde, doença, sono, vigília, alegria, tristeza, juventude, velhice, ousadia, medo, necessidade, riqueza, ódio, amizade, calor, frio, respiração, expiração… Tudo parece diferente dependendo se estamos em disposições diferentes quando o percebemos”. A cada estado de espírito a sua verdade. Uma obra de arte que eu odiei teria me agradado se eu não estivesse com dor de cabeça naquele dia. E a mulher mais bonita do mundo tem pouco efeito sobre mim, mesmo quando estamos nus — ou precisamente porque estamos nus – se a temperatura ambiente estiver em torno de -30°C… O indivíduo não é indivisível o suficiente para ser o critério último do relativismo, e o relativismo individualista aparece como a tentativa muito dogmática de não considerar essas relatividades mais encarnadas e humilhantes que marcam a fragilidade de meus próprios julgamentos.

Na enumeração de Pirro, há uma relatividade decisiva que nossa sociedade rejeita especialmente: a das idades da vida. A citação anterior evoca “juventude, velhice” — à qual acrescentamos imediatamente “infância”. Certamente meus gostos quando eu tinha seis anos não são os mesmos daqueles dos meus quarenta e cinco. E até acredito que um torturador particularmente cruel poderia submeter-me a um suplício ao impor-me incessantemente os “paraísos” da minha infância.

Da antiguidade aos tempos modernos, distinguem-se geralmente sete idades da vida (exceto o período intrauterino), que podem ser relacionadas com o número de planetas, com os dias da semana, com os dons do Espírito Santo: infantia, pueritia, adulescentia, juventus, gravitas, senectus, grandævitas. Essas diferentes idades transformam o quantitativo em qualitativo: a continuidade dos anos se transforma na descontinuidade dos estágios. Estágios que, como nota o grande historiador, Philippe Ariès, “não correspondem apenas a fases biológicas, mas a funções sociais”. Há as idades dos brinquedos, da escola, do amor e dos esportes corteses, da guerra e da cavalaria, da magistratura, da ciência e do estudo, da devoção. Esta é a sabedoria do Eclesiastes: “um tempo para tudo”. É também a de Shakespeare em As You Like It (Ato II, Cena 7): “O mundo é um grande palco, / E os homens e as mulheres são atores. / Têm as suas entradas e saídas, / E o homem tem vários papéis na vida, / Seus atos sendo sete”. O que faz do mundo um mundo, e não um “círculo” ou um “grupo”, é esta diversidade e esta legitimidade de cada idade da vida, cada uma tendo um papel a cumprir, para não dizer seu mundo a comunicar, em oposição e em compensação aos outros.

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As You Like It por Francis Hayman, c. 1740

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Ora, é bem claro que essa legitimidade e essa diversidade quase não são mais consideradas. Das sete, passamos a três idades (já que falamos por último de “terceira idade”) — ou antes a uma incerteza sobre o número, que proíbe qualquer correspondência simbólica ou social. Porque é a adolescência que agora tende a espalhar-se como azeite e tornar-se o modelo exclusivo. Alguns analistas denunciam, assim, o “juvenismo” de nossos dias. É preciso notar, porém, que esse juvenismo ou adolescentismo são na verdade a negação da adolescência e da juventude: cada idade segue a anterior e clama pela seguinte; uma adolescência que não tende à idade adulta, um jovem que perde o seu centro de “gravidade” (para retomar a expressão latina que afirma o peso ou a ponderação do homem maduro) já não são juventude ou adolescência, mas outra coisa, que não tem nome, porque daí afundamos na mais completa confusão: a garotinha se veste no estilo pin-up, a velha quer se passar por lolita, o menino vira CEO de uma start-up da informática que dá o tom na Bolsa…

Tal é o indivíduo da teoria tecno-econômica — sem idade. A sua saída da diversidade das idades da vida implica a perda da diversidade das funções sociais, doravante reduzidas a uma única: o consumo. Jovens e velhos se alegram juntos no acesso comum aos bens. Não é neles, mas nos produtos que compram, que ainda se podem ver idades residuais. Mas o que os motiva é o mesmo impulso. Eles têm a mesma relação com o mundo, que não é mais um mundo, mas um clube de consumidores.

É por isso que a figura do adolescente acaba prevalecendo sobre todas as outras. O adolescente está na posição de consumidor ideal. Ele ainda não entrou na laboriosa insignificância do empregado; ele ainda é informe o suficiente para se abrir a todas as inovações. É verdade que ele não tem salário. Mas a esta adolescência infinita, que não se pode deixar de correlacionar com a ideia de crescimento ilimitado, associa-se naturalmente o espírito de rentista. Este é o Segredo de Polichinelo[*] do transumanismo e de seu assim chamado super-homem: ser um perpétuo adolescente rentista, onde tudo é apenas o último videogame.

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As Sete Idades do Homem de Richard Kindersley em Londres

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Nota:

[*] Conforme explica o próprio F. Hadjadj, a expressão “um segredo de polichinelo . . . designa uma informação conhecida de todos e que no entanto ainda se pretende confidencial” (A profundidade dos sexos: por uma mística da carne. São Paulo: É Realizações, 2017, p. 143.) [NdT]

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Este texto foi originalmente publicado na revista Limite. Tradução de João Cortese.

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Fabrice Hadjadj é filósofo, escritor e diretor do Instituto Philanthropos, em Friburgo, Suíça.