Horácio elogia Augusto, novo deus na terra, e a defesa da poesia contemporânea

Augusto, o princeps, destinatário de “Epístolas 2.1”.

por Alexandre Pinheiro Hasegawa

O segundo livro das Epístolas de Horácio, mencionado em nosso último texto para o Estado da Arte – Estadão, em que tratamos do primeiro, reúne duas longas cartas: a primeira a Augusto, com 270 versos, e a segunda a Floro, com 216 versos. Neste percurso pela obra horaciana, dedicamo-nos hoje à epístola endereçada a Augusto, destinatário ausente no primeiro conjunto de cartas a não ser pela menção em Epístolas 1. 13. 2, a quem o poeta envia seus volumina (“volumes”), provavelmente das Odes, por meio de Vínio. É, portanto, de especial interesse a epístola dirigida ao governante, ao homem mais poderoso de Roma, contra quem o poeta lutara na batalha de Filipos em 42 a. C. (cf. Odes 2. 7; Epístolas 2. 2. 46-52), mas foi perdoado e admitido no círculo de Mecenas, destinatário, como vimos, muito frequente ao longo das obras de Horácio. Desta carta a Augusto destacaremos duas questões: primeira, o endereçamento e o encômio a César, nova divindade que vive entre mortais; segunda, a discussão poética sobre antigos e modernos, que passa também pela relação dos romanos com as obras gregas.

O elogio a Augusto, a quem se dirige como César, inicia a epístola (vv. 1-4), ressaltando que ele, sozinho (solus), tem tantas e tão grandes tarefas: protege por armas o Estado romano (v. 2: res Italas armis tuteris), instrui por costumes (v. 2: moribus ornes), corrige por leis (v. 3: legibus emendes). Essa sequência assindética, com três breves orações, confere à construção agilidade, enfatizando as contínuas e diversas atividades do princeps. Assim, o poeta agiria contra os interesses públicos (v. 3: in publica commoda peccem), se por longa conversação ocupasse o tempo de César (v. 4: si longo sermone morer tua tempora, Caesar). Anuncia-se, portanto, breve epístola – ao menos, constrói-se a expectativa de que será curta – para não retardar Augusto e prejudicar os assuntos itálicos, mas os 270 versos fazem dela a maior das cartas, excetuando a Arte Poética (476 versos), também uma epístola, dirigida aos Pisões. Entre os sermones (“conversações”) – as sátiras, além das epístolas –, somente outra composição é maior: Sátiras 2. 3 (326 versos), que, não por coincidência, se inicia com interlocutor, Damasipo, a fazer crítica a Horácio por escrever pouco (vv. 1-2). Alguma ironia, pois, é possível, mesmo em epístola a tão importante e divino destinatário!

Após o preâmbulo, Augusto – título recebido em 27 a. C. que explicita sua divindade – é comparado, primeiramente, com quatro heróis que são cultuados depois de grandes feitos realizados na terra (vv. 5-6): Rômulo, o “pai Líber” (Baco) e os Dioscuros (Castor e Pólux). Esses civilizadores e benfeitores da humanidade, elencados em geral conjuntamente – cf., por exemplo, Cícero, Da natureza dos deuses (2. 62) ou o próprio Horácio, Odes(3. 3. 9-18) –, lamentaram a ingratidão dos homens (vv. 9-10) que não reconheceram devidamente os méritos de seus feitos. Os gregos são frequentemente listados no início; destaca-se, porém, no poeta romano (v. 5: Romulus et Liber pater et cum Castore Pollux) a posição de Rômulo, fundador de Roma e primeiro monarca constitucional, encabeçando o verso, imediatamente depois de se ter mencionado Augusto, refundador da Urbe e novo Rômulo – “César” é a última palavra do v. 4: si longo sermone morer tua tempora, Caesar. Não à toa, a casa de Augusto foi construída no monte Palatino, mesmo local onde Rômulo teria erguido “as muralhas da elevada Roma” (Virgílio, Eneida, 1. 7: … altae moenia Romae).

Além do destaque para Quirino – nome de Rômulo como deus (cf. a apoteose narrada por Ovídio em Metamorfoses, 14. 805-828) –, é referido à parte Hércules, sem ser, contudo, nomeado (vv. 10-12). O herói conhecido por dois atributos, a clava e a pele do leão de Nemeia, é identificado aqui perifrasticamente como “aquele que esmagou a terrível Hidra [de Lerna]” (v. 10: … diram qui contudit hydram), um dos célebres trabalhos do filho de Zeus e Alcmena (cf. v. 11: labore). Não é a primeira vez, porém, que Augusto é comparado com Hércules na obra horaciana. Em Odes 3. 14. 1-4, César, retornando a Roma (24 a. C.), depois de três anos ausente da cidade, vitorioso na batalha contra os cântabros na Península Ibérica (26 a. C.), é como Hércules, que derrotou o gigante Gerião, também na Península Ibérica, outro dos seus famosos trabalhos, e depois retornou à Grécia:

Herculis ritu modo dictus, o plebs,
morte venalem petiisse laurum
Caesar Hispana repetit Penatis
victor ab ora.

À maneira de Hércules, ó povo, César
retorna vitorioso do litoral hispânico
aos seus Penates; ele que há pouco se disse
ter buscado o louro ao preço da morte.

Civilizador do mundo, Augusto, qual Hércules – notemos como os nomes próprios, destacados em itálico, estão no início dos versos latinos (vv. 1 e 3) –, disposto a enfrentar tantos e tão grandes trabalhos em favor do povo, beberá reclinado, em morada celeste, o néctar, entre Pólux e Hércules, em razão de sua justiça e tenacidade, como nos diz o próprio Horácio em Odes3. 3. 9-12, poema já mencionado anteriormente a propósito do elenco de benfeitores da humanidade divinizados. Vale lembrar ainda da comparação entre César e Hércules feita por outro augustano, Virgílio, que, na Eneida, no discurso de Anquises ao filho Eneias no mundo dos mortos, depois de mencionar, entre os descendentes do herói troiano, César Augusto, proveniente de Iulo e, portanto, divino (6. 792: Augustus Caesar, divi genus…), compara-o com Hércules, conhecido também como Alcides (“descendente de Alceu”), e com Baco, o “pai Líber” da nossa epístola (Eneida 6. 801-805):

nec vero Alcides tantum telluris obivit,
fixerit aeripedem cervam licet, aut Erymanthi
pacarit nemora et Lernam tremefecerit arcu;
nec qui pampineis victor iuga flectit habenis
Liber, agens celso Nysae de vertice tigres.                805

Nem Alcides, em verdade, percorreu tanta quantidade de terra,
Embora tenha vencido a bronzípede corça, ou pacificado
os bosques de Erimanto e abalado Lerna com o arco;
nem Líber, conduzindo do elevado cume de Nisa os tigres,
que, vencedor, dirige os jugos com rédeas de videira.          805

É evidente que a comparação com as personagens gregas serve para mostrar como Augusto, que fará retornar a Idade de Ouro ao Lácio (cf. Eneida6. 792-793), supera esses heróis, civilizadores e benfeitores da humanidade, como Alcides e Líber/Baco. Desse mesmo modo é apresentado o princeps na sequência de Epístolas 2. 1. 15-21, depois de ter elencado as personagens gregas e romanas, como aquele que, não após a morte, mas já em vida, presente entre os mortais, é cultuado como deus descendente de Iulo (origem da gens Iulia), filho de Eneias, ao qual não haverá nem houve outro igual:

praesenti tibi maturos largimur honores                    15
iurandasque tuum per numen ponimus aras,
nil oriturum alias, nil ortum tale fatentes.
sed tuus hic populus sapiens et iustus in uno
te nostris ducibus, te Grais anteferendo
cetera nequaquam simili ratione modoque                 20
aestimat[…].

a ti, presente, conferimos oportunas honras e erguemos       15
altares sobre os quais se deve jurar por tua divindade,
declarando que nada semelhante há de nascer em outra
ocasião, nada semelhante nasceu. E este teu povo, sábio e justo,
antepondo-te, a ti somente, aos nossos chefes, aos aqueus,
de modo algum estima os demais, por maneira e razão         20
semelhante […]

Para trazer alguma novidade à leitura de Epístolas 2. 1, até onde pudemos verificar, passou despercebida pelos principais comentários – Brink (1982), Rudd (1989) e Fedeli (1997), mencionados abaixo em referência completa – a importância de um dos Idílios de Teócrito (séc. III a. C.) como modelo para Horácio: o Idílio 17, em que faz, em hexâmetros datílicos, o mesmo metro das Epístolas, encômio a Ptolomeu II Filadelfo, representado como semideus (vv. 136-7: “Salve, senhor Ptolomeu, lembrar-me-ei de ti como de outros semideuses …”). O monarca egípcio, casado com a própria irmã, Arsínoe II, é colocado em paralelo com Zeus (vv. 1-4), também casado com a irmã, Hera. O elogio ao governante em Teócrito começa pelo louvor aos pais: Ptolomeu I Sóter (vv. 13-33) e Berenice I (vv. 34-57), divinizados, mencionando ainda Alexandre, o Grande (vv. 18-19), entre os deuses. Daí, faz remontar a origem de Alexandre e Ptolomeu Sóter a Héracles – nome grego de Hércules. Ademais, outra divindade a que os ptolomeus e Alexandre se associavam era Dioniso/Baco, modelo de civilizador e conquistador militar. Assim, não é casual que, tanto na passagem da Eneida, citada acima, como em Epístolas 2. 1, Augusto seja comparado a Hércules e Baco para mostrar como é um deus maior. Ora, se é correta a nossa hipótese, Horácio, a elogiar em Epístolas2. 1 Augusto, deus presente entre os mortais, rivaliza com Teócrito, no encômio em Idílios 17 a Ptolomeu II Filadelfo, primeiro entre os mortais e semideus. Vemos também como o culto aos monarcas helenísticos foi modelo para o princeps romano, aspecto já bem estudado, sobretudo, pelos historiadores.

Ptolomeu II Filadelfo, monarca helenístico, a quem Teócrito faz o encômio em Idílios 17

Ora, esse deus novo, moderno, em confronto com os antigos, gregos e romanos, encontra paralelo na discussão que se segue sobre a moderna poesia romana em confronto com a antiga. Passa-se, primeiramente, da superioridade do novo deus romano, maior do que as demais divindades, aos escritores romanos antigos, considerados melhores que os modernos a partir de absurdo paralelo com os autores gregos. Se se julgam melhores os escritos gregos mais antigos, não necessariamente assim devem ser avaliados os romanos. “Se […] os escritores romanos são pesados na mesma balança, não há muito o que dizer” (vv. 28-30: si,[…] / […], Romani pensantur eadem/ scriptores trutina, non est quod multa loquamur).

À metáfora da balança – que pode aludir à célebre disputa entre Ésquilo e Eurípides no Hades, retratada comicamente por Aristófanes nas Rãs, em que os versos de um e outro são pesados, e o mais antigo, Ésquilo, será posteriormente escolhido o melhor (vv. 1364-1410) – segue-se a comparação entre a azeitona e a noz para demonstrar o absurdo do confronto entre antigos e modernos a partir da avaliação dos escritores gregos: “nada de duro há internamente na azeitona, nada de duro há por fora na noz” (v. 31: nil intra est olea, nil extra est in nuce duri). A semelhança existente entre a azeitona e a noz não permite dizer que a azeitona não é dura por dentro, porque assim é a noz, nem que a noz não é dura externamente, pois assim é a azeitona. O confronto, portanto, entre antigos e modernos romanos a partir do juízo que se faz dos escritos gregos pode resultar em grandes equívocos. Tal analogia absurda, parece-nos, ecoa a comparação anterior entre Augusto e os demais deuses: “declarando que nada semelhante há de nascer em outra ocasião, nada semelhante nasceu” (v. 17: nil oriturum alias, nil ortum tale fatentes). A anáfora com a palavra nil (“nada”), nas mesmas posições métricas, parece sugerir o confronto: assim como César não se compara a outras divindades, passadas ou futuras, assim a comparação entre os autores romanos não se pode fazer a partir dos gregos. Mais à frente, Horácio refaz novamente a anáfora com “nada”, passando do juízo dos críticos – “como dizem os críticos” (v. 51: ut critici dicunt) – à apreciação do vulgo, afirmando explicitamente agora ser erro julgar os poetas antigos incomparáveis (vv. 63-65):

interdum volgus rectum videt, est ubi peccat.
si veteres ita miratur laudatque poetas
utnihilanteferat, nihilillis comparet, errat;              65

por vezes o vulgo vê corretamente; em outras, engana-se.
Se admira e louva os poetas antigos de tal modo que não lhes
anteponha nada, que não compare nadacom eles, erra.      65

Embora anteriormente tenha usado a forma sincopada (nil)  e agora não coloque nas mesmas posições métricas das anáforas anteriores, continua a afirmar que é erro considerar os poetas antigos insuperáveis. Seja como for, o paralelo das três passagens anafóricas com “nada”, até onde pudemos verificar, está ausente nos estudos e comentários da carta, em razão talvez da grande atenção dirigida à transmissão manuscrita da passagem sobre a comparação entre a azeitona (oleam ou olea) e a noz. Assim, partindo do elogio a Augusto, novo deus, superior a romanos e gregos, passando aos poetas romanos, antigos e modernos, que, tal como a azeitona e a noz, não devem ser julgados pelos críticos de maneira análoga à avaliação dos escritos gregos, afirma que erra também “o vulgo profano” (cf. Odes 3. 1. 1: odi profanum volgus et arceo) ao considerar os antigos poetas insuperáveis, pois, ainda que aqui e ali encontrem-se versos bem ordenados, elegantes, há defeitos que podem ser emendados.

O poeta, então, argumenta na sequência da epístola que o antigo já foi novo em algum momento. “Pois se a novidade tivesse sido tão odiosa aos gregos, / como é para nós, o que seria antigo agora […]?” (vv. 90-91: quod si tam Graecis novitas invissa fuisset/ quam nobis, quid nunc esset vetus[…]?). Não haveria, de fato, o antigo, seja grego, seja romano. Assim, embora a imitação (imitatio) fosse conceito importante para os autores antigos, também se preocupavam com a novidade (novitas). Se se contentassem os homens com o já descoberto, apenas com o antigo, nada teria sido inventado, como dirá posteriormente Quintiliano, nas Instituições Oratórias(10. 2. 4-5). É o que motiva Horácio, como vimos em texto passado desta série, a escolher a sátira, gênero propriamente romano, depois da advertência de Quirino (Sátiras 1. 10. 31-49). Daí, coerentemente com a exposição acima – de que os antigos possuem defeitos –, apontara os problemas do antigo Lucílio, inventor do gênero satírico, mas “duro em concatenar os versos” (Sátiras 1. 4. 8: … durus conponere versus).

É preciso, portanto, conhecer a arte para escrever poemas. Depois de passar pela mudança de comportamento dos gregos (vv. 93-102), das guerras às disputas atléticas, música e tragédia, lembra (vv. 103-107) como os romanos de outrora passavam o tempo em assuntos jurídicos e financeiros, e os mais velhos aconselhavam os mais novos a aumentar as posses e diminuir a ganância. No entanto, o povo moderno tem um só desejo: escrever. Ao retomar discussões dos diálogos de Platão, em particular aqui o Górgias, diz, por exemplo, que o ignorante na arte de navegar teme conduzir o navio (v.114: navem agere ignarus navis timet…), ou não ousa prescrever remédio ao doente aquele que não aprendeu a dá-lo (vv. 114-115: habrotonum aegro/ non audet nisi qui didicit dare…). Contudo, conclui Horácio, hoje, indistintamente, doutos e indoutos põem-se a escrever (v. 117: scribimus indocti doctique poemata passim). De fato, algumas coisas não ficam velhas!

No entanto, o mentiroso Horácio (v. 112: mendacior), que em verso afirma não escrever versos (v. 111: ipse ego, qui nulos me adfirmo scribere versus), mostra como o poeta tem papel importante na cidade, sendo-lhe útil, retomando mais uma vez discussões de Platão, agora o da República (livros 2, 3 e 10). Este erro (v. 118: error) e loucura (v. 118: insania) – a descrição do poeta insano também se encontra em Platão (Íon, 533d e ss.) e no próprio Horácio, relembrando Demócrito (Arte Poética, 295-297) –, erro e loucura, descritos como leves (v. 118: levis), têm suas virtudes (v. 119: virtutes). Segue-se, então, a defesa da poesia na formação dos homens, não distinguindo se é antiga ou nova (vv. 119-131):

[…] vatis avarus
non temere est animus; versus amat, hoc studet unum; 120
detrimenta, fugas servorum, incendia ridet;
non fraudem socio puerove incogitat ullam
pupillo; vivit siliquis et pane secundo;
militiae quamquam piger et malus, utilis urbi,
si das hoc, parvis quoque rebus magna iuvari.          125
os tenerum pueri balbumque poeta figurat,
torquet ab obscenis iam nunc sermonibus aurem,
mox etiam pectus praeceptis format amicis,
asperitatis et invidiae corrector et irae;
recte facta refert, orientia tempora notis                     130
instruit exemplis, inopem solatur et aegrum.

[…] o ânimo do vate
não facilmente é avaro; ama os versos, só se dedica a isto;   120
ri das perdas, das fugas dos escravos, dos incêndios;
não planeja nenhuma trapaça a um sócio ou a um órfão,
ainda menino; vive de legumes e pão de segunda;
embora preguiçoso e inepto ao serviço militar, é útil à urbe,
se concedes isto: que por pequenas coisas também              125
as grandes são ajudadas. O poeta forma a boca tenra e
balbuciante da criança, e agora já das conversas obscenas
afasta o ouvido; logo forja também o coração com preceitos
amigos, como censor da brutalidade, da inveja e da ira;
narra feitos dignos, instrui com exemplos notáveis              130
os tempos que nascem, consola o pobre e o doente.

Na epístola, então, em que se elogia o princeps Augusto, louva-se também o poeta, livre de certos vícios como a avareza: não se abala com perdas, não engana sócios e órfãos, vive com pouco e é útil à cidade (v. 124: utilis urbi), se César – retoma aqui o destinatário – admite que o poeta, pequeno, pode ajudar nos grandes assuntos de Roma (v. 125). Na sequência (vv. 126- 131), desenvolve-se a função pedagógica do poeta, formador desde os primeiros sons pronunciados pelas crianças (v. 126), afastando em etapa seguinte das obscenidades (v. 127) e forjando o caráter em outro estágio com preceitos. Além de instruir as novas gerações, consola também o pobre e o doente, lembrando outro elogio: o do poeta Árquias, feita por Cícero, no Pro Archia (“Em defesa de Árquias”), discurso em que defende a cidadania romana daquele, fazendo louvor do estudo das letras (cf. 16-17, especialmente), tão necessário – cada vez mais – em nossos tempos.

Logo depois, no centro da epístola (vv. 132-138), como observado por Fraenkel, aparece o vate como dom das Musas, concedido a meninos e meninas, de quem aprendem as preces, os hinos, o louvor aos deuses, para pedir chuva, afastar as doenças, repelir os perigos, produzindo paz e abundância nos campos, que, embora haja certo ceticismo da crítica, pode aludir ao próprio Augusto, o deus que institui a paz (pax Augusta), produzindo abundância nos campos – o adjetivo augustusderiva do verbo augere(“aumentar”, “fazer crescer”). Vale lembrar aqui que Horácio compôs o Carmen Saeculare (“Canto Secular”), hino em louvor a Apolo e Diana, executado por 27 meninos e 27 meninas, para os Jogos Seculares, realizados em 17 a. C., que Augusto mandou organizar a fim de celebrar a nova época de Roma, conduzida por ele. Aqui se encontram o louvor do poeta e da poesia, a eternizar Roma e Augusto, e o elogio do princeps, o deus a estabelecer a paz na terra.

Remo e seu irmão Rômulo, fundador de Roma e primeiro monarca

Porém, dirigindo-se à conclusão, lembra do poetastro Quérilo que, com seus versos mal compostos, louvou Alexandre, o Grande (vv. 232-234). A fama dos grandes homens não pode, afirma o poeta, ser confiada a poetas medíocres para que os feitos grandiosos se eternizem. Daí a tradição transmite que Alexandre teria preferido ser o Tersites de Homero a ser o Aquiles de Quérilo. Por outro lado, Augusto, esse deus maior, têm poetas excelentes, como Virgílio e Vário, capazes de celebrar e eternizar os feitos de César (vv. 245-250). Horácio, por fim, dessa maneira faz sua recusa (recusatio), dizendo-se incapaz de tal empresa. Assim, nem mesmo ele, o poeta, gostaria de ser celebrado por versos mal escritos (v. 266). A recusa a celebrar os feitos de César é, por um lado, adequada ao gênero ora em curso, o da epístola, do sermo, humilde como deve ser a conversa; por outro, numa espécie de preterição, ao dizer que não fará, acaba por celebrar os feitos de Augusto, como faz também em Odes 4. 2, por exemplo, mostrando como o poeta lírico pode fazer adequadamente o encômio desse novo deus, só possível por meio de nova poesia, de nova poética, uma poética do principado, como diz Barchiesi.

Para saber mais

Mencionamos ao longo do texto três comentários: o mais completo e muito minucioso de C. O. Brink, Horace on Poetry. Epistles Book II: the Letters to Augustus and Florus, Cambridge, 1982, pp. 31-265; o mais breve para a coleção Cambridge Greek and Latin Classics, de Nial Rudd, Horace. Epistles Book II and Epistle to the Pisones (‘Ars Poetica’), Cambridge, 1989, pp. 1-12; 75-122; outro robusto comentário é de Paolo Fedeli, Q. Orazio Flacco. Le Opere, II.4: Le Satire. Le Epistole. L’Arte Poetica, Roma, 1997, pp. 1317-1392. Sempre referida por todos os comentadores a obra sempre importante de Eduard Fraenkel. Horace, Oxford, 1957, pp. 383-399 (cap. VIII). Entre os artigos, destaco o de Alessandro Barchiesi, “Insegnare ad Augusto: Orazio, Epistole 2, 1 e Ovidio, Tristia II”, MD31, 1993, pp. 149-184. As epístolas de Horácio recentemente foram objeto de algumas dissertações e teses entre nós, como já mencionamos no último texto, mas importante repetir aqui: Camilla Ferreira Paulino da Silva, em A representação do lugar social do poeta no principado de Augusto a partir das Epístolas de Horácio, tese defendida em 2018 (UFES), em que, entre outros assuntos, estuda como o autor se representa e a partir da construção do éthos epistolar propõe-se como modelo para os novos membros da elite romana; Bruno Francisco dos Santos Maciel, em O Poeta Ensina a Ousar: ironia e didatismo nas Epístolas de Horácio, dissertação defendida em 2017 (UFMG), propõe a leitura do conjunto de epístolas, explorando ironia e didatismo como estratégias discursivas, apresentando ainda a tradução em verso das Epístolas 1 e 2 (incluindo a Arte Poética). Por fim, para ler ainda em português a Epístolas 2. 1, citamos a tradução de R. M. Rosado Fernandes, em Horácio. Arte Poética, Lisboa, 2012, 4ª. Revista e Ampliada, em que se incluem traduções também de Sátiras 1. 4 e Epístolas 2. 2, a Floro, com introdução e notas de Rosado Fernandes. Essa edição, porém, muito útil, infelizmente traz alguns problemas. Sem ser exaustivo, pois não se trata de resenha, corrijam-se os seguintes erros: v. 3: emendea por emendes (p. 58); v. 7: gertus por genus (p. 58); não traduzidos parte do v. 41 e todo v. 42 (p. 63); v. 114: agete por agere; ignanus por ignarus (p. 68); não se entende bem o ponto de interrogação na tradução dos vv. 118-119 (p. 69). Para a representação de Augusto, o já célebre Paul Zanker, Augusto e il potere delle immagini (tradução italiana de Flavio Cuniberto), Torino, 2003 e, entre nós, o livro de Paulo Martins, Imagem e Poder. Considerações sobre a Representação de Otávio Augusto, São Paulo, 2011.

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Alexandre Pinheiro Hasegawa

Alexandre Pinheiro Hasegawa é professor de Língua e Literatura Latinas na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP).