A importância das virtudes e seus limites

por Denis Coitinho

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As virtudes têm uma forte presença entre nós como padrão normativo, sobretudo como um critério para sabermos como devemos viver as nossas vidas. Ao longo da história da humanidade, podemos observar claramente sua presença. Na antiguidade clássica, as virtudes cardeais de prudência, temperança, fortaleza (coragem) e justiça eram consideradas centrais tanto para a felicidade dos indivíduos como para se alcançar o bem-comum na sociedade. No contexto medieval, as virtudes teologais de fé, esperança e caridade foram adicionadas às virtudes cardeais como padrão moral desejável de todo cristão. A partir da modernidade e contemporaneidade, outras virtudes epistêmicas e morais foram incluídas como parâmetros centrais para uma vida bem-sucedida, tais como curiosidade, autonomia, integridade, resiliência, solidariedade, humildade, etc., a despeito da hegemonia das éticas principialísticas, tais como o kantismo e o utilitarismo.  E elas não se restringem ao mundo ocidental. Para o budismo, por exemplo, a eternidade, felicidade, verdadeiro eu e pureza são qualidades centrais da vida do buda, sendo o estado mais elevado que se pode alcançar como ser humano. Também o confucionismo tem por referência cinco virtudes para a felicidade pessoal e comunitária, a saber, amar o próximo, ser justo, agir segundo os valores morais, cultivar a sabedoria e sinceridade e manter a consciência da vontade dos céus.

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Confúcio

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Mas o que são mesmo virtudes e por que elas seriam desejáveis?

Virtudes são traços de caráter (comportamento) que levam as pessoas a agir de forma desejável. Em outras palavras, a virtude é um traço de caráter permanente manifestado nas ações habituais, que é algo bom para a pessoa possuir em razão de pensarmos que isto garantirá a sua felicidade ou o seu sucesso, o que já indica que o seu valor é estipulado socialmente. Por exemplo, uma pessoa prudente é aquela que regularmente age com bom senso, equilíbrio, tendo a capacidade de tomar decisões sensatas e uma pessoa justa é a que tem a disposição para dar ao outro o que é o seu direito, tanto no sentido distributivo como retributivo, sendo o oposto da ganância. Por outro lado, a pessoa moderada tem a habilidade do autodomínio, podendo controlar os desejos e apetites, de forma similar que o corajoso é aquele que demonstra uma habilidade para enfrentar os desafios sem covardia. O ponto é que tomamos este comportamento como desejável porque imaginamos que uma pessoa sem estas qualidades dificilmente obterá sucesso em sua vida. Seria possível imaginar alguém que é imprudente, covarde, intemperante e injusto tendo uma vida bem-sucedida? Seria desejável viver em uma sociedade onde os cidadãos apenas demostrassem falta de generosidade, desonestidade, deslealdade, arrogância e vaidade, entre outros vícios? Penso que não, e isto talvez revele que tomamos estes padrões normativos como essenciais na orientação de nossas vidas, bem como que atribuímos muito valor ao esforço dos indivíduos para serem pessoas melhores, considerando que são as ações repetidas que formam o caráter.

Agora, seria o caráter dos agentes um determinante psicológico confiável para ação?

Muitos defendem que não, uma vez que as circunstâncias do ato, tais como o contexto ambiental e as dinâmicas sociais, parecem influenciar decisivamente as decisões humanas. Essa posição é conhecida na literatura por “situacionismo” e ela adota uma postura cética em relação à confiabilidade do caráter moral. Merrit, Doris e Harman, por exemplo, em “Character” (The Moral Psychology Handbook, 2010, p. 355-401), fazem referência a diversos experimentos em psicologia social para defenderem a tese de que os traços de caráter moral de um agente não seriam robustos, isto é, não seriam consistentes com uma ampla gama de situações relevantes. Um dos experimentos relatados é o conduzido por Isen e Levin, que revelou que as pessoas que encontraram uma moeda de 10 centavos de dólar foram vinte e duas vezes mais propensas a ajudar uma mulher que havia deixado cair alguns papéis do que os que não encontraram nenhuma moeda em seu caminho.

Outro experimento realizado por Darley e Batson mostrou que os pedestres despreocupados foram seis vezes mais prestativos com certas pessoas que apresentavam dificuldades do que os pedestres ocupados. Na mesma linha, Mathews e Cannon demonstraram que até mesmo o ruído ambiental parece influenciar o comportamento humano. O experimento reportou que as pessoas que estavam expostas à condições normais de ruído foram cinco vezes mais propensas em ajudar um homem aparentemente machucado que havia derrubado alguns livros do que aqueles que estavam sob efeito do barulho causado por um cortador de grama (Ver Merrit, Doris e Harman, 2010, p. 356-357).

A partir destes experimentos e outros similares, tal como o experimento Milgram, por exemplo, que procura ressaltar como as ações dos agentes são influenciadas pela obediência a uma autoridade externa, os “situacionistas” concluem que os traços de caráter moral não são consistentes, sobretudo se considerarmos um conjunto amplo de situações relevantes que parecem influenciar a decisão, bem como ponderam que, embora o caráter seja estável sob o tempo, ele deve ser compreendido consistentemente em uma situação específica e, também, que o caráter moral da pessoa não tem uma correlação forte entre uma virtude particular e outras virtudes.

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Recorte de anúncio para um experimento Milgram

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Embora eu considere relevantes estas evidências empíricas que procuram destacar os limites do raciocínio moral, não acredito que elas comprovem que as virtudes não existem e que estas não podem servir de motivação da ação, sendo o caráter virtuoso uma espécie de ilusão. Penso que elas apenas podem mostrar que, em muitas circunstâncias, sofremos influências externas que também motivam as ações humanas, não sendo o caráter virtuoso um padrão normativo imune ao mundo. Mas deixem-me explicar esta ideia mais detalhadamente.

Vejamos o experimento Milgram mais de perto (Behavioral Study of Obedience, 1963, p. 371-374). Conhecido como experimento da obediência à autoridade, criado pelo psicólogo Stanley Milgram, seu objetivo foi mostrar que as pessoas são claramente suscetíveis a uma autoridade externa em suas deliberações, decisões e ações, não sendo o caráter um móbil confiável. Realizado na Universidade de Yale, no ano de 1961, o experimento tinha por finalidade mostrar como as pessoas possuem uma tendência em obedecer a certas regras em razão de uma autoridade heterônoma, sem criticidade. Os participantes eram levados a acreditar que estavam assistindo a um experimento educacional inovador, em que eles deveriam aplicar choques elétricos a um aprendiz para facilitar o aprendizado. Os choques variavam de 15 a 450 volts e, a cada resposta errada do aprendiz, o professor deveria aplicar um choque cada vez maior. Acontece que apenas os que faziam o papel dos professores é que estavam sendo testado, uma vez que os aprendizes eram atores que fingiam sentir dor, da mesma forma que os responsáveis pelo experimento eram acadêmicos envolvidos na pesquisa ou mesmo atores. Os dados foram realmente impressionantes: 65% dos participantes continuaram aplicando choques elétricos nos aprendizes até o nível máximo de 450 volts, sendo que todos foram até o nível de 300 volts.

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Stanley Milgram e seus alunos, em 1961

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Mas o que esta pesquisa realmente comprovou?

Claramente, ela indicou que a maioria dos indivíduos testados, 65% do total de 40 homens com idade entre 20 a 50 anos, foram influenciados fortemente por uma autoridade externa, a saber, o responsável pelo experimento. Mas, igualmente revelou que 35% (14 homens) dos participantes pararam antes de atingir o nível máximo de choque. Não esquecendo de ressaltar que, na medida em que os choques aumentavam, os aprendizes gritavam, simuladamente, e pediam para que o experimento fosse encerrado. Mesmo considerando que a maioria aceitou a autoridade científica, indo até a voltagem máxima, alguns indivíduos se recusaram em continuar, como foi o caso do professor do Antigo Testamento, nome dado a um dos participantes que se recusou a continuar aplicando os choques, alegando razões morais religiosas. Mesmo considerando que o responsável pelo experimento estimulava os participantes dizendo “Por favor, continue”, “O experimento requer que você continue”, “É absolutamente essencial que você continue”, “Você não tem outra escolha a não ser continuar”, o professor em questão demostrou ter uma forte preocupação com o bem-estar e saúde do aprendiz, dizendo que ele tinha escolha, sim, e foi isso que o fez parar de aplicar os choques (Milgram, 1963, p. 371-378).

Esse exemplo parece demostrar a importância do caráter virtuoso do agente. E isso porque o professor demostrou ter prudência para dar mais peso ao bem do indivíduo do que ao bem do experimento, autonomia para agir de forma autorregulada, não aceitando como legítima a autoridade do cientista, compaixão pelo sofrimento do aprendiz e integridade em razão de sua ação ter sido coerente com o conjunto de valores e princípios tomados como corretos, tais como o da dignidade e integridade da pessoa.

É claro que isso não prova que em certas circunstâncias os agentes não sejam influenciados pelo mundo externo. Porém, parece apontar que, em muitos casos relevantes da vida cotidiana, o caráter moral parece ser a fonte motivacional da ação, além de indicar que, de forma geral, as virtudes estão intrinsecamente conectadas na condução do agente virtuoso, como foi o caso da conexão entre prudência, autonomia, compaixão e integridade no exemplo referido anteriormente. É importante lembrar que, desde Aristóteles, se toma a prudência (habilidade de identificar os meios adequados para realizar um fim bom) como uma virtude intelectual que é condição de possibilidade de todas as outras virtudes, sejam elas morais, como a coragem, moderação, justiça, generosidade ou epistêmicas, como a humildade, curiosidade, integridade.

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Aristóteles, detalhe d’A Escola de Atenas

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Além disso, é importante ponderar que do fato de alguns indivíduos agirem por influência externa não se segue que eles não devam ser virtuosos, a menos que existisse algum impedimento natural para tal, o que não parece ser o caso, pois temos exemplos reais de pessoas virtuosas, como o professor do Antigo Testamento no experimento Milgram, além de outros exemplos bem conhecidos como o de Sócrates, Nelson Mandela, Sophie Scholl, entre outros.

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Sophie Scholl

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Por fim, gostaria de refletir sobre o importante papel pragmático que as virtudes parecem desempenhar na vida humana, inclusive na vida das organizações. É bem conhecida, no universo da gestão, a frase proferida por Peter Schutz, ex-CEO da Porche, que disse “Contrate o caráter, treine as habilidades” (“Hire character, train skill”). No contexto em questão, que era o da reorganização da empresa ocorrida na década de oitenta, isto pareceu implicar em uma mudança paradigmática. Ao invés de se levar em conta apenas as habilidades técnicas dos colaboradores para o sucesso de uma empresa como era habitual, a partir desse momento, o mais relevante passou a ser o poder contar com certas virtudes, tais como lealdade, honestidade, coragem e solidariedade. Se, antes, o comportamento moral dos colaboradores não era relevante, contemporaneamente esta dimensão ética parece central, uma vez que a ausência de certos comprometimentos pode implicar, inclusive, em casos de assédio moral e sexual, bem como em casos de fraudes e corrupção que as empresas buscam evitar de toda forma.

Note-se que a maioria das empresas atualmente procura funcionários que, além de terem uma competência técnica específica, sejam, por exemplo, confiáveis, resilientes, solidários, íntegros. Estes componentes éticos determinariam não só que uma pessoa execute as tarefas esperadas eficientemente, mas também que ela possa ajustar-se à cultura da organização da qual faz parte, sendo colaborativo. Dito isso, é possível estipular que a integridade parece ser uma das virtudes mais significativas atualmente no universo organizacional tanto privado como público, uma vez que o agente íntegro é aquele que age coerentemente a partir de seu conjunto valorativo que ele toma como correto ou verdadeiro e consegue conectar-se com os princípios e valores que são defendidos coletivamente. Por exemplo, um agente íntegro provavelmente não fraudaria e nem tentaria corromper alguém, bem como não assediaria nenhum colega e isso porque a integridade é uma virtude social que capacita o indivíduo a melhor compreender os valores que são intersubjetivamente compartilhados.

Importante reconhecer que essa virtude se mostra central não apenas para a felicidade individual, garantindo a estabilidade psicológica, mas também parece essencial nas esferas da política, direito e economia para a conquista da estabilidade social. Além da integridade ser uma qualidade fundamental do gestor, tanto público como privado, e ser um padrão normativo muito importante no direito e na política, muitas empresas estão usando atualmente o critério de integridade como uma importante qualidade normativa na seleção de seus colaboradores, bem como uma maneira de lidar com casos de corrupção e assédio que pretendem evitar. Há inclusive um teste de integridade que está sendo aplicado em várias empresas influentes para saber se seus funcionários compartilham os valores éticos organizacionais, chamado PIR – Potencial de Integridade Resiliente (S2 Consultoria). Este teste é uma ferramenta de gestão para analisar a integridade e resiliência do profissional frente a dilemas éticos, querendo evitar casos de fraude, corrupção, assédio moral e sexual, além de corporativismo.

É claro que isto não é uma prova definitiva para tomar o caráter moral como confiável, mas creio que possa ser ao menos uma prova suficiente, até mesmo para os “situacionistas”, do valor das virtudes em nossas vidas. Talvez isso se dê por temos uma forte crença em nossa capacidade de correção e uma disposição para nos tornarmos pessoas melhores. No fim das contas, que tipo de vida teríamos sem essa expectativa? Provavelmente, uma vida que não valeria a pena ser vivida.

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Sete virtudes, Francesco Pesellino, c. 1450

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Denis Coitinho

Denis Coitinho é professor do PPG em Filosofia da Unisinos e Pesquisador do CNPq. Doutor em Filosofia pela PUCRS, com pós-doutorado na London School of Economics e na Universidade de Harvard. É autor de Justiça e Coerência e Contrato & Virtudes, ambos por Edições Loyola.