Karl Ove Knausgaard desvenda as razões da escrita e da arte

por Renata Velloso

Ninguém precisa perguntar para um sapateiro por que ele fabrica sapatos, ou para um padeiro por que ele produz pães (e, para não ficarmos só nos exemplos do século XIX,  por que um empreendedor cria um App de paquera). Mas e a arte? 

Há evidências de arte produzida por Homo Sapiens desde o período paleolítico. Os primeiros registros artísticos indicam que há pelo menos 73.000 anos o ser humano produz arte. Por quê?

Em Inadvertent (o segundo volume da série Why I write, editado pela Universidade de Yale) Karl Ove Knausgaard, premiado romancista Norueguês, desvenda o mistério da produção artística ao tentar, em um fluxo de consciência autobiográfico, entender as suas motivações pessoais. Afinal, o que leva um escritor a escrever? 

A pergunta parece simples, mas como diz o romancista no início do seu ensaio, a simplicidade é traiçoeira. Karl começa então a desatar o nó do seu pensamento de uma maneira simples: com uma fofoca. Ele conta que assistiu a uma palestra em que um sujeito, que ele descreve de forma caricatural como alguém “que tinha um suéter enfiado por dentro das calças”, tenta responder essa pergunta. O suposto almofadinha dizia na palestra que escrevia porque iria morrer. E essa é de fato uma motivação importante para a espécie humana: nos perpetuarmos. Para Karl, no entanto, havia uma comicidade involuntária no descompasso entre a pretensão do palestrante e a sua banalidade.

Medíocres ou não, o fato é que nós humanos conscientes da nossa finitude na Terra, queremos deixar sementes. Vem daí o clichê: um filho, uma árvore, um livro. 

“A literatura acontece entre a solenidade da morte e a falta de cerimônia da vida” explica Karl. Para ele, escrever é “criar um espaço para que alguma coisa possa ser dita”. 

Para explicar como um artista usa a arte para expor o seu mundo interior, o escritor toma como exemplo o pintor Edvard Munch (Karl Ove acaba de lançar também uma biografia sobre o pintor compatriota, famoso pela obra O Grito). Munch perdeu a mãe muito pequeno e sua irmã mais velha, que acabou ocupando o papel de mãe, também faleceu ainda durante adolescência do pintor. Em decorrência dessa juventude trágica, Munch perdeu a confiança no mundo e sua arte expressa o desespero desse desalento. Mas Karl vai mais fundo e explica que só de longe a vida de Munch pode ser reduzida em apenas uma sentença e que na realidade ele não produziu milhares de pinturas porque “perdeu a confiança no mundo”. A arte é mais do que isso, ela é uma forma de organizarmos nosso mundo, hierarquizar o que faz parte do exterior, da cultura e o que faz parte da identidade do artista.

Para Karl, ele só tornou-se realmente um escritor quando conseguiu criar um espaço literário no qual era possível expressar-se, perdendo a propriedade e o controle sobre esse próprio espaço, a tal ponto que a sua escrita podia fluir tão naturalmente quanto a leitura. Inadvertidamente.

Mas ele então reflete, honestamente, que não é por isso que ele escreve, já que ele escrevia antes de descobrir o valor desse espaço de verdade literária.

O escritor reflete também sobre a sua infância, usando o estilo que o consagrou, fazendo um relato simples e honesto da sua relação pessoal com os livros e as suas influências. Para o autor, ler é uma forma diferente de pensar e a literatura significava ao mesmo tempo um esconderijo e um local onde ele se tornava visível, ao menos para ele próprio.

O Grito, de Edvard Munch (1893)

Karl compara o ato de escrever com a interação com um ouriço no jardim. Nessa metáfora inusitada, o romancista explica que escrever prosa assemelha-se a ficar horas sentado, em silêncio, observando o jardim até que o ouriço finalmente saia da sua toca; enquanto escrever poesia seria sair no escuro e, sem querer, chutar o ouriço. Para ele, em ambos os casos a escrita acontece sem planejamento é esse descuido consciente que libera o autor do criticismo, especialmente do auto criticismo, possibilitando um escrever livre e honesto.

Por outro lado, Karl admite que são os limites que dão forma e sentido à escrita. Mas as regras que o escritor se auto impôs não tem como objetivo seguir determinado estilo literário e sim expressar essa honestidade em seus textos. O autor revela que na sua famosa série de seis volumes, Minha Luta, as regras que ele se impôs foram as seguintes: escrever apenas sobre coisas que realmente aconteceram, de cabeça, ou seja, sem pesquisar ou confirmar os fatos com outras pessoas e em uma determinada quantidade por dia (ele revela que começou com apenas 5 páginas diárias e foi aumentando gradualmente até chegar em 20). O autor explica também que com a escrita ele buscava abranger as suas próprias noções do mundo, para que tudo o que estivesse por baixo, pudesse emergir para a superfície.

Para Karl a literatura interfere na forma como nós vemos o mundo e que, junto com a ciência e a religião, a arte também busca respostas para as mesmas angústias humanas: O que é esse mundo? De onde ele veio? Qual o sentido da vida? Quem sou eu? Essas são as perguntas filosóficas mais importantes da humanidade e para as quais não temos respostas. Essa ansiedade, o desconforto sobre o desconhecido é que propulsiona a criação artística, científica e religiosa. 

Foi na busca por estas respostas filosóficas que o autor criou o seu espaço literário “maniacamente confessional”, onde foi preciso perder o controle, deixar a escrita vir como um avalanche para que ela pudesse se revelar. Assim, por paradoxal que seja, a honestidade escancarada possibilitou que o escritor pudesse se distanciar de si mesmo e tornar sua obra universal.

E por fim ele conclui: Sim, eu escrevo porque quero abrir o mundo.

Renata Velloso

Renata Velloso é formada em Administração Pública pela EAESP-FGV e Medicina pela Unicamp, trabalha com projetos de inovação na área de saúde no Vale do Silício na Califórnia, é colaboradora do Terraço Econômico e autora do livro de empreendedorismo para jovens e adolescentes "Criando Unicórnios".