Maledicência e a quebra da quarta parede no Orestes, de Eurípides

por Mácio Mauá Chaves Ferreira

Quando a tragédia começa, Orestes já assassinou sua mãe, cumprindo ordens de Apolo, e se encontra atormentado por suas Erínias, as deusas vingadoras do sangue derramado no interior da família. O matricídio, com a colaboração de Electra, irmã do protagonista, deu-se igualmente em vingança à morte do pai, Agamêmnon, que, ao regressar da guerra de Troia, fora morto pela esposa, Clitemnestra, e seu amante Egisto. Essa mãe, por sua vez, nunca aceitara a imolação de Ifigênia, sua filha, a Ártemis, com o consentimento de Agamêmnon, no momento em que, em Áulis, uma longa calmaria impedia que a expedição das naus gregas, comandada por aquele rei, cumprisse seu caminho para Troia, e o adivinho Calcas condicionou a volta dos ventos ao sacrifício dessa filha do casal real de Micenas.

A maldição familiar não para por aqui, mas nós devemos parar. Deixemos de lado o encadeamento de faltas e punições, que vêm desde os crimes de Tântalo, descendente direto de Zeus, e seu célebre castigo, passam pelo erro fatal de Níobe e a perda de seus catorze filhos, pela imprecação de Mírtilo contra Pélops, depois que esse derrotou Enômao em uma corrida de cavalos e casou-se com sua filha Hipodâmia, e pela luta fraterna entre Atreu e Tiestes, filhos desse casamento, também amaldiçoados pelo pai por matarem o terceiro irmão, Crisipo, e chegam justamente a Agamêmnon e Menelau, filhos de Atreu e Aérope, tendo o primeiro se unido a Clitemnestra; e o segundo, a Helena, irmã daquela. 

Pois bem, o enredo do Orestes de Eurípides encontra paralelo nas Eumênides de Ésquilo, última peça da sua trilogia Oresteia, que se inicia com Agamêmnon, que retrata a morte do herói na armadilha armada por sua mulher e o amante dela – tema já citado na Odisseia de Homero -, e continua com as Coéforas, em que, como vimos, Orestes e Electra se vingam de sua mãe, e aqui os paralelos com outras tragédias são a Electra de Sófocles e uma também Electra de Eurípides. A história do sacrifício de Ifigênia não só é mencionada na primeira tragédia da trilogia como um dos supostos motivos para o rancor de Clitemnestra contra Agamêmnon, mas serve também de matéria para o enredo de outras duas tragédias de Eurípides que chegaram até nós: Ifigênia em Áulis e Ifigênia em Táuris. Episódios relacionados às gerações anteriores dessa família podem ser vistos na passagem mítica da Primeira Olímpica de Píndaro, que, embora se negue a adotar as versões que, ao que tudo indica, mais circulavam sobre esse mito dos descendentes de Tântalo, faz menção a várias de suas passagens, incluindo a que dá conta do amor de Poseidon por Pélops. Temos poucos fragmentos de duas ou talvez três peças de Sófocles dedicadas ao tema dos irmãos inimigos (Atreu e Tiestes) e uma de Eurípides. E inteira nos chegou uma tragédia de Sêneca chamada Tiestes

Mas o que mais me interessa aqui é mostrar dois elementos da passagem selecionada do Orestes que ocorrem ao mesmo tempo e nos mesmos versos (128-129): um relativo ao caráter dos personagens de Eurípides; outro, a uma possível quebra de uma rígida convenção das tragédias gregas. O passo extraído da tragédia vai da primeira entrada de Helena em cena (v. 71) até a primeira entrada do Coro (v. 140), versos durante os quais Helena e Electra, tia e sobrinha, que já estava no palco desde o início da tragédia, conversam depois de se encontrarem pela primeira vez após o fim da guerra de Troia. Como sabemos, o motivo mítico dessa guerra teria sido o rapto de Helena por Alexandre Páris, filho de Príamo, rei de Troia.

Não é incomum notarmos em diversos poemas que se valem desse mito episódios que retratam o ódio que por parte dos gregos recaiu sobre a própria Helena, vista como culpada pela deflagração do combate. Em nossa passagem ela não quer andar publicamente em Micenas, constrangida pela vergonha que sente de se mostrar aos argivos (ou seja, os habitantes de Argos, que na época de composição desta tragédia era assimilada a Micenas), com o que Electra prontamente concorda (dizendo que de fato seu nome estava na boca dos cidadãos de Argos), não sem antes reprová-la, ao afirmar que sua tia não teve sensatez igual quando antes abandonou seu lar para fugir para Troia. Antes mesmo da entrada em cena de Helena, sua sobrinha no prólogo da peça assevera que Menelau tomou o cuidado de entrar na cidade à noite para que sua esposa não corresse o risco de ser apedrejada por causa dos mortos na cidade de Príamo.

O clima na cidade é esse, e não é por outra razão que Helena pede que sua sobrinha faça o favor de levar oferendas ao túmulo de Clitemnestra. Ela se recusa e sugere que Hermione, filha de Helena, seja enviada para lá. Afinal, enquanto Helena estava em Troia, sua filha foi cuidada por aquela que agora está morta. Esta seria uma boa forma de retribuição. Ela enfim concorda em enviar a filha ao túmulo da irmã. As oferendas são seus cabelos cortados e libações de leite, vinho e mel. Instruções são dadas a Hermione a respeito de como deve proceder e de que palavras mesmo deve proferir para a morta, que nesse passo é tratada como uma espécie de heroína familiar cultuada a quem se pede proteção. Com a saída de Hermíone para cumprir essas obrigações e a entrada de Helena no palácio, Electra fica sozinha em cena (o Coro ainda não entrou), e chegamos ao ponto de destaque nesse passo.

Já sabemos que as tragédias têm suas próprias convenções. Vimos nos dois textos publicados anteriormente neste espaço duas cenas de mensageiros que são exemplo disso e, por sua vez, ligam-se a outra típica convenção da poesia dramática grega, que é a unidade de espaço. Poderíamos ainda falar da unidade de tempo ou de ação, ou de qualquer outro traço desse gênero poético, tratado com rigidez por aqueles que o praticavam. Agora, importa-me esse: diferentemente do que ocorre na comédia ática, espera-se que os personagens da tragédia nunca se dirijam aos espectadores, cuja existência não deve ser, portanto, reconhecida por aqueles que estão em cena. Assim, quando ouvimos (ou lemos – agora podemos dizer) uma fala em segunda pessoa, do plural ou do singular, de um personagem que está sozinho no palco, ou seja, sem ter a quem se dirigir, os especialistas, ao comentar essas passagens, costumam supor que se trata de um apelo ao ‘mundo em geral’ (“world at large”) ou a observadores sobrenaturais imaginados para que testemunhem a situação e/ou a verdade do que se diz.

Estão longe de serem muitas as passagens em que tal fenômeno ocorre. Os exemplos normalmente citados são o Ájax de Sófocles (v. 1028), a Electra desse mesmo tragediógrafo (v. 1384), o Hipólito de Eurípides (v. 943) e, é claro, nosso verso 128, quando Electra, sem ter explicitamente com quem falar, pergunta: “Vistes como …?”. Willink, em seus comentários sobre esse verso e o seguinte, entende que estamos diante de mais um caso daquele apelo ao “mundo em geral”. West, no entanto, que também editou e comentou esta obra de Eurípides, embora plenamente ciente da convenção, põe em dúvida a sua aplicação ao nosso caso específico, alegando, sem mais argumentos, que seria pedante (“pedantic”) de nossa parte negar que na presente passagem o apelo é de fato para a audiência, como se deixássemos de lado todas as peculiaridades do caso específico e nos aferrássemos friamente a uma convenção. Curioso é que o próprio Willink, na introdução de seu livro, aproxima essa tragédia à nova comédia – o que, diga-se, Nietzsche fazia com Eurípides como um todo (ver cap. 11 de seu O Nascimento da Tragédia) – ao classificá-la como “um tipo barroco de tragicomédia ou drame noir que olha ao mesmo tempo para trás, para além da Oresteia de Ésquilo, em direção à Ilíada e à Odisseia, e para frente, em direção à Nova Comédia de Menandro”.

Quando analisamos o conteúdo desses dois versos, percebemos um comentário maldoso da sobrinha a respeito da atitude de sua tia. Electra chama a atenção para a ínfima quantidade de cabelo que Helena oferecerá a Clitemnestra, sua irmã morta, uma vez que os cortou apenas em suas pontas, e assim o fez, segundo a sobrinha, para preservar sua beleza, ou seja, por mera vaidade. (Parece bastante razoável supor que o costume à época era que se dedicasse ao parente morto uma quantidade de cabelo bem maior do que somente suas pontas, caso contrário o comentário não geraria qualquer efeito.) Ora, ainda que o caráter um tanto doméstico, comezinho, da conversa entre as duas e da própria observação de Electra possam se aproximar da nova comédia, não é sequer preciso ir até esse ponto para encontrar um paralelo no teatro para esse diálogo direto com os espectadores, porque, como já vimos, esse elemento já está presente nas parábases das comédias de Aristófanes.

Em uma tragédia com tantas peculiaridades – a única, por exemplo, a apresentar um escravo frígio não nomeado em uma longa parte cantada da peça (lembremos que essas partes eram reservadas apenas para os heróis e heroínas de maior destaque) – não seria de espantar que, em sua solidão na cena, Electra estivesse mesmo apelando à plateia, um tipo de interlocutor mais efetivo do que o mero “mundo em geral”, para desferir seu comentário cheio de rancor contra a tia. Talvez por meio desse recurso Eurípides não tenha feito mais do que dar à personagem todo o realismo que nesse momento ela merecia. Essa interpretação estaria ao menos de acordo com as palavras que Aristóteles, na Poética (1460b 31-34), põe na boca de Sófocles: “que representava ele [Sófocles] os homens tais como devem ser, e Eurípides, tais como são.” Vamos à cena:   

(Entra Helena)

HELENA:

Filha de Clitemnestra e de Agamêmnon,

Electra, donzela já há tanto tempo!

Como vais, infeliz? E teu irmão, 

o pobre Orestes, assassino da mãe?

Não me maculo ao interpelar-te,                                                                  75

atribuo teu erro a Febo Apolo.

Lamento, ainda assim, a sina de Clitemnestra,

minha irmã, que não vi, depois que naveguei

para Ílion, movida por destino

de divina insânia e, abandonada, choro a sorte.                                           80

ELECTRA:

Helena, por que eu te diria o que tu mesma vês:

os filhos de Agamêmnon em desgraça?

Sento-me insone ao lado do triste cadáver 

(pois pelos seus curtos respiros, ele é um morto)

e não recrimino os seus males.                                                                     85      

Tu, venturosa, e teu venturoso marido 

vieram até nós em nosso triste fracasso.

HELENA:

Há quanto tempo está ele caído na cama?

ELECTRA:

Desde que derramou o sangue da família

HELENA:

Oh, infeliz! E a mãe, o modo como morreu!                                               90

ELECTRA:

Tão infeliz que sucumbiu aos males. 

HELENA:

Farias, eu te imploro, algo por mim, donzela?

ELECTRA:

Bem, estou ocupada com a vigília do irmão. 

HELENA:

Aceitas ir ao túmulo da minha irmã? 

ELECTRA:

Ao de minha mãe? Por que pedes isso?                                                       95    

HELENA:

Para que leves meus cabelos e libações como oferenda. 

ELECTRA:

Não te é lícito ir ao túmulo dos parentes?

HELENA:

Tenho vergonha de mostrar-me aos argivos. 

ELECTRA:

Sensatez tardia, depois de abandonar vergonhosamente a casa… 

HELENA:

Falaste com acerto; porém, sem amor.                                                        100

ELECTRA:

Sentes algum respeito pelos micênios?    

HELENA:

Temo os pais dos que estão mortos sob Troia.

ELECTRA:

Terrível, de fato, e teu nome é gritado em Argos.

HELENA:

Presta-me então o favor de me libertar desse medo.  

ELECTRA:

Eu não poderia olhar para o túmulo de minha mãe.                                   105

HELENA:

Sim, mas é vergonhoso os servos levarem as oferendas.

ELECTRA:

Por que não mandas tua filha Hermione? 

HELENA:

Não convém a donzelas andar entre o povo. 

ELECTRA:

Ela ao menos pagaria à morta por sua criação. 

HELENA:

É verdade; eu me curvo a tuas palavras, moça.                                          110   

Mandarei minha filha; é uma boa sugestão.

HELENA:

Hermione, filha, vem para frente de casa  

(Hermione aparece

e toma estas libações e cabelos meus. 

Vai ao redor do túmulo de Clitemnestra, 

derrama leite com mel e a aspersão de vinho,                                            115

e, em pé, sobre a extremidade do sepulcro, diz:

“Tua irmã Helena te oferece estas libações 

com medo de vir ao teu memorial, temendo

a multidão argiva.” E pede que tenha a vontade                                 

benévola para comigo, contigo, com meu esposo                                      120

e com os dois infelizes, que o deus destruiu. 

Promete-lhe todos os presentes dos ínferos

que devo obter para a minha irmã.

Vai, minha filha, apressa-te e, dando ao túmulo     

as libações, lembra-te de o mais rápido retornar.                                       125            

(Sai Hermione, Helena entra no palácio)

ELECTRA:

Ó Natureza! Que grande mal tu és entre os homens –  

e salvação para os que bem te adquiriram! 

Vistes como ela cortou os cabelos junto às pontas

mantendo sua beleza? É a mulher de antes.

Que os deuses te odeiem, pois destruíste a mim,                                        130

a este e à Hélade toda. Ó, infeliz que sou! 

(O coro aparece)

Aqui estão as amigas que comigo cantam

meus lamentos. Logo privarão do sono

aquele que dorme e dissolverão meu olho 

em lágrimas quando eu vir meu irmão ensandecido.                                  135 

Mulheres mais queridas, avançai com pés

silenciosos. Não façais alarde, e sem ruído!

Tua amizade é benévola, mas o despertar 

deste aqui será desgraça para mim.  

Márcio Mauá Chaves Ferreira

Márcio Mauá Chaves Ferreira é mestre em Letras Clássicas pela USP e doutorando pela mesma universidade. Sua tradução da peça Édipo Rei foi recentemente publicada pela Editora Hedra.