A mente inquieta de Massimo Cacciari

Inaugurando a parceria entre o Estado da Arte e a Editora Âyiné, trazemos hoje um trecho inédito do ensaio sobre o Humanismo de Massimo Cacciari, um dos maiores pensadores italianos vivos. Além disso, trazemos uma introdução de Emanuel França de Brito, Professor de Língua e Literatura Italianas no Instituto de Letras da UFF.

O ensaio de Cacciari faz parte do volume integral dos Humanistas italianos a ser lançado pela Âyiné, com tradução do Prof. França de Brito dos textos italianos dos humanistas e das 8 introduções de Ebgi, uma para cada seção da obra. (A tradução dos textos latinos é de Elaine Cristiane Sartorelli, professora e pesquisadora na USP.)

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A mente inquieta de Massimo Cacciari

por Emanuel França de Brito

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Cacciari (Reprodução: Âyiné)

O grande florescimento artístico e arquitetônico que arrebata a Itália a partir das primeiras décadas do século XV – sobretudo na cidade cujo nome também remete a uma flor, Florentia, Firenze, “Florença” – costuma ser o fato mais lembrado mundo afora quando se trata de contrapor o desenvolvimento do pensamento daquele Renascimento ao período que o antecede, o famigerado Medievo. Mas se, por um lado, são muito valorizados os méritos artísticos, retóricos e filológicos impulsionados pelo mecenato de algumas gerações da família De’ Medici (que pelo fomento da arte e da literatura institucionalizava-se no poder), por outro, uma visão hoje consolidada da atividade intelectual dos humanistas tende a não reconhecer uma contribuição efetiva deles à história do pensamento filosófico.

“Mas será que essa grande arte poderia ter nascido sem uma implícita filosofia da arte?” Essa é a pergunta que Massimo Cacciari, um dos grandes pensadores italianos vivos, busca responder no seu primoroso ensaio sobre o Humanismo. Lançado originalmente em 2016 como prefácio à coletânea Humanistas italianos organizada por Raphael Ebgi (com textos latinos e italianos dos séculos XIV e XV), o texto de Cacciari acabou ganhando uma versão corrigida e foi lançado independentemente em 2019 (La mente inquieta: saggio sull’Umanesimo), ambos pela editora Einaudi. Por aqui, o texto voltará a compor o volume integral dos Humanistas italianos a ser lançado pela Editora Âyiné, com tradução minha dos textos italianos dos humanistas e das 8 introduções de Ebgi, uma para cada seção da obra. A tradução dos textos latinos é de Elaine Cristiane Sartorelli, professora e pesquisadora na Universidade de São Paulo.

Subentendendo um convite feito por Hegel em algumas poucas linhas das suas Lições sobre a história da filosofia, Cacciari nos conduz por um percurso que estabelece visões mais complexas do período, principalmente no que se refere às obras e contradições de alguns de seus protagonistas, como Leon Battista Alberti, Lorenzo Valla e Giovanni Pico della Mirandola. Será o olhar desses autores em relação ao passado que irá exprimir, para Cacciari, a visão deles sobre o futuro, seja em relação ao mundo sensível como ao não-sensível. Nesse sentido, as reflexões discursivas e filológicas daqueles personagens estariam muito além de meras tarefas técnicas do resgate e da difusão do texto. Essas reflexões seriam capazes de tentar um novo olhar sobre o passado devido ao seu “amor-estudo” pelo logos no seu significado mais complexo, ligando-os diretamente aos fazeres filosófico e teológico e despertando neles um “urgente presente”.

Pico della Mirandola

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Para Cacciari, não seria possível falar de filosofia de um período intensamente artístico sem fazê-lo considerando a arte, a linguagem e o pensamento especulativo como intimamente relacionados. Isso obviamente teria de passar por um “problema da língua” em que é observada a função fundadora do poeta, sobretudo a partir de artistas-teóricos como Dante, Petrarca e Boccaccio – os três grandes mestres que impulsionam um modelo de língua “natural” para o registro não apenas artístico do saber, mas também científico e filosófico. Não por acaso, mais da metade dos textos selecionados para a coletânea na qual o texto de Cacciari foi originalmente publicado como prefácio foram escritos em latim, a língua que ainda insistia em se manter corrente para os gêneros de escrita mais elevados. E será nessa mesma tensão sobre o registro linguístico em língua florentina ou em língua latina que Cacciari irá imprimir o tom de desequilíbrio aos sistemas tão harmônicos e pacificadores normalmente atribuíveis ao Renascimento.

A seguir, um trecho inédito do ensaio de Cacciari:

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“Certamente, a filosofia não será encontrada se for procurada onde os humanistas não intencionavam coloca-la. É a filologia deles e a concepção que eles tinham de língua que devem ser entendidas filosoficamente, é a concepção de tempo histórico que disso deriva (como Dilthey havia compreendido), é o cerne originário do “círculo hermenêutico” que se desenvolve a partir dali. Há filosofia na consideração central do papel desenvolvido pela faculdade imaginativa no operar o nexo entre as formas universais da alma e a sua parte estético-perceptiva (fundamento teorético, esse, de uma obra como o De vita de Ficino). E há filosofia, como veremos, não na redescoberta do platonismo enquanto tal, mas na compreensão da problemática essencial das suas relações com o aristotelismo, de um lado, e com a tradição teológico-filosófica, tanto da cristandade como das outras religiões monoteístas, de outro. Há filosofia, ainda toda por analisar, no problema da tradução ou da traduzibilidade entre as diversas línguas em que as civilidades pensam e se exprimem.[1] Há filosofia na constante polêmica contra as abstrações, conduzida antes de tudo justamente com a arma da filologia, para “desencantar” a mesma filosofia de se consumir no âmbito de categorias meramente linguísticas. A crítica que tantas correntes da filosofia contemporânea dirigem ao Humanismo, de ter pensado abstratamente o Homem na forma do “quid est Homo”, pode valer para o De dignitate et excellentia hominis de Manetti, para o De laboribus Herculis de Salutati, mas não para Valla, muito menos para Alberti, nem, como veremos, vale para Pico. Para todos esses, quis es homo? é a pergunta, tu homem é o thauma a ser compreendido. Já não dizia Dante no De vulgari que é como se cada um possuísse um intelecto próprio e singular? Maquiavel e Guicciardini não irão repetir essa mesma ideia em chave dramático-cética? “Eu acredito que, como a Natureza fez aos homens diferentes rostos, lhes tenha feito também diferentes engenhos e diferentes fantasias” (Carta a Soderini, 13-21 de setembro de 1506). E, de novo, o extraordinário do existir incurabilis consiste na sua facultas loquendi. Fazer filosofia significa essencialmente, portanto, pesquisar-interrogar os fundamentos de tal faculdade e as capacidades que ela abre. Quem, por fim, havia imposto, com a própria grandeza epoch-machend de sua obra, que nesses termos fosse formulada a pergunta sobre a existência do homem, se não aqueles que, para dizer com Valéry, haviam dado voz à língua, haviam tornado viva a sua forma, ou seja, os poetas? Sem Dante, Petrarca, Boccaccio não há Humanismo e nem mesmo filosofia do Humanismo.[2]

Francesco Petrarca

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 São esses os Autores que introduzem o Humanismo como grande época de crise, passagem decisiva entre o outono do Medievo e a mudança radical de estado, a katastrophé que inaugura o Quinhentos, sobretudo na Itália. Bem antes que Maquiavel e Guicciardini refletissem sobre grandes “mudanças de reinos, impérios e estados”, sobre “altos acidentes e fatos coléricos” que abalam “o sítio itálico” (Decennale secondo, 1-5), essa catástrofe havia sido pressentida pelos intérpretes mais agudos e desencantados da dramaticidade dos tempos, Alberti e Valla, como espelho de um Humanismo que poderíamos realmente definir como trágico. Lorenzo Valla é a grande figura do Humanismo em dissídio, crítico, até a heresia, de toda forma de erudição sedentária, cuja latinitas significa a exata definição do texto enfrentado, a clara memória do passado que é raiz, a precisão no uso da língua que vive em nós. Não pode haver para ele nenhuma ratio abstrata da língua em que ela se exprime. Os pensamentos não se dão senão em forma linguística, e não pode haver ideias em si claras se representadas de modo confuso. A linguagem não é um revestimento do pensamento, do qual seria desejável privar-se. Os anjos talvez se comuniquem entre si mediados pela força do intelecto puro, mas o homem pensa-comunica por meio do signo duplo, sensível e espiritual, da linguagem. É esse o seu drama e a sua extra-ordinariedade em relação a qualquer outro animal, anjo, deus. A crítica de Vico ao cartesianismo nasce a partir daqui; poderíamos dizer que nasce daqui aquele ramo crítico do racionalismo moderno que no Setecentos se explicita em Herder e em Hamann.[3] O mesmo reconhecimento do “valor” da história, em um sentido inteiramente concreto que encontraremos em Maquiavel, possui em Valla o seu autor: a partir da história, ele diz, deriva o maior conhecimento da natureza humana, e são as suas experiências que depois se transformam em normas, preceitos e todo outro gênero de sabedoria (Historiarum Ferdinandi regis Aragoniae libri tres). A sentença maquiavélica: que nos guie a história, caso nos seja concedido um guia a nos orientar na vicissitude universal; e que se conecte indissociavelmente ao sentido que a filologia assume com Valla.

Será possível sustentar que, no Humanismo, não encontramos uma plena consciência da fundamental aquisição filosófica contida na ideia que palavra e conceito concrescem, e de modo historicamente determinado, mas talvez podemos encontrar algo a mais: isto é, que cada palavra de cada língua re-vela uma mina inesgotável, que cada uma penetra em um passado, em uma história, de atos, pensamentos, dramas, todos pensantes em si, e com os quais, se temos a intenção de compreende-los, é necessário estabelecer um diálogo. A palavra nunca é simplesmente falada, mas também é sempre falante, dirá Franz Rosenzweig em A estrela da redenção; a palavra fala. É exatamente esse o sentido da filologia do Humanismo. E, ao mesmo tempo, cada palavra é como a verdadeira do poço do passado. Uma filologia filosófica deve ousar descer, sabendo bem que “revocare gradum superasque evadere ad auras/ hoc opus, hic labor est” (Eneida, VI, v. 128-29). A pietas pelo passado é um sentimento vazio quando não se orienta a um novo início. Um filólogo que não experimenta esse perigo no seu labor – o perigo de não conseguir “evadir” do poço, dando vida ao diálogo entre o que encontrou ali, “no fundo”, e a sua presente destinação – não pertence à escola dos Valla. Essa escola combate tanto a filologia que não se conecta criticamente com Hermes (que não se preocupa, poderíamos incluir, com Nietzsche, em se desenvolver lento pede do conhecido a algo de ainda in-audito, do conhecido em direção a águas nunca percorridas), quanto aquela filosofia que soberbamente (a arrogância dos filósofos de Vico!) abstrai o seu ego cogito do ego loquor, e esse último do plural que necessariamente comporta: ego loquimur et locuti sumus. A linguagem comum fala em cada um de nós, e cada um de nós é, portanto, por ela também falado; no entanto, ela ao mesmo tempo vive enquanto cada um de nós a fala e, falando-a, a transforma. A insistência do Humanismo sobre o Comum, sobre o Universal, possui esse significado concreto, se encontra e se torna real no contínuo devir da praxi linguística.

Giambattista Vico

A mais autêntica filosofia do Humanismo talvez se encontre justamente, e paradoxalmente, no in philosophos! de autores como Alberti e Valla, na sua radical aversão àquela arrogância que tem a pretensão autofundante do exercício da razão. Antes do discurso está a língua. Antes da philo-sophia está a razão da língua, indissociável da razão do corpo (como ainda Vico soube mostrar antes e melhor de tantos Modernos e pós-Modernos: nenhuma língua nasce do raciocínio, dirá Wittgenstein). Além disso, antes da philo-sophia está a sophia dos saberes concretos, das technai ou artes. O Humanismo “ama” o logos enquanto se faz, desde a sua matriz, primeiro “ilustre” e depois arte; arte que, através da memória ativa, imaginativa do Antigo, saiba se manifestar também como clássica. Por outro lado, não teria nunca surgido a grande civilidade artística admirada in primis justamente por aqueles que desconhecem ou entendem mal a importância filosófica do Humanismo. Apenas pelo fato de que a cultura do período se agitava e pensava também no sulco da filosofia que estamos delineando, essa podia constituir o humus da Cúpula de Messer Filippo, do púlpito de São Lourenço, do Palazzo Rucellai, das pinturas platônicas de Botticelli. O exercício da arte e o papel do artista, daquele que sabe fazer (e pode saber-fazer, como se viu, apenas se “orientado” pela Filologia-Hermes-Filosofia), puderam assumir uma importância central, mesmo politicamente, porque filosoficamente central havia aparecido a interrogação em torno dos problemas da expressão do pensamento, da vis imaginativa, da inventio, da relação entre pensamento e pintura.[4]

O exame crítico do philosophein tradicional é um elemento essencial do pensamento do Humanismo. Esse exame não diz respeito apenas à Escolástica e aos “dialéticos” tardo-medievais que a colocam em crise (aos quais tanto Valla quanto, mais tarde, Pico demonstram sempre estima e atenção); são também enfrentadas questões decisivas do pensamento clássico. Exemplar, nesse propósito, é ainda Valla com o De vero falsoque bono, obra-limite, como aquelas de Petrarca ante retroque prospiciens, sinal de crise em todos os sentidos.[5] Encontramos ali os temas fundamentais da sua filosofia da linguagem, cuja forças chegavam a sustentar o valor de Tomás enquanto herdeiro dos “antigos teólogos” e não pela sua metafísica (essa, ao contrário, lhe teria resultado de um embaraço!). Encontramos ali aquela nova abordagem aos problemas da própria metafísica, por conta da ignorância que essa demonstra da semântica dos seus termos-chave (ens, quidditas, realitas) que a ameaça de ser condenada à insensatez. Aparece aqui, ao menos em seu germe, a ideia da natureza inevitavelmente finita, historicamente determinada, de cada linguagem filosófica capaz de “funcionar” apenas internamente a certas estruturas linguísticas.[6] Sobre um tal fundamento crítico, diremos justamente genealógico-desconstrutivo, Valla avançava a sua própria proposta filosófica, completamente direcionada contra aquele estoicismo que também constituía uma corrente importante do pensamento humanístico. Aqui, ele adere decididamente à espiritualidade dos Pais, semper reformanda; em particular, a Agostinho. Mas o faz para se destacar disso imediatamente e quase provocadoramente com a descoberta do epicurismo nos seus traços mais realísticos, ou mais romanos. Como Alberti (e como Maquiavel, ao fim dessa era), Valla também pinta a existência humana nas instâncias concretas que a movem à ação, nos fins reais que persegue agindo. E todos os fins se reduzem a um princípio: a busca pelo prazer pessoal, compreendido ontologicamente; a vontade incondicionada de perseverar no seu próprio ser se exprime como vontade de prazer, naquela ideia de voluptas, que irá seduzir o jovem Ficino. Qualquer tipo de ascetismo que desconheça esse poder é mera hipocrisia. Prazer deve ser o amor pelo logos; a Dama Filologia deve dar prazer. E Filosofia significará procurar a verdadeira voluptas, a sua medida mais plena, sem absolutamente desprezar as outras, e ainda menos as do corpo. A tarefa de uma paideia filosófica consistirá em ensinar como o nosso natural conatus à eudaimonia, à vida feliz, pode ser satisfeito. Erasmo, admirador incondicional do Valla filólogo, recuperará também muitos dos temas do seu epicurismo e da sua polêmica contra o ascetismo religioso, mas “emburguesando” um pouco a sua vis polemica (o mesmo poderia ser dito do Elogio à loucura em relação às mais “malditas” entre as Intercenales de Alberti ou ao Momus. Antropologias filosóficas quase opostas: as da linha Alberti-Maquiavel e a tão “temperada” de Erasmo).

(Foto: Armando Rotoletti/Editora Âyiné)

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Notas:

[1] Desde A tarefa do tradutor de Walter Benjamin (1923) até A tradução, um desafio ético, de Paul Ricoeur, reapresentam-se motivos essenciais da tradição humanística, “fontes” majoritariamente ignoradas por esses autores.

[2] Sobre a tríade dos clássicos e sobre a grandeza de sua atividade fundadora, cf. A. ASOR ROSA, Storia europea della letteratura italiana. Turim, 2001, partes IV e V; ID., Letteratura italiana. La storia, i classici, l’identità nazionale. Roma, 2014, parte II.

[3] Isaiah Berlin compreendeu isso perfeitamente nos seus ensaios sobre Maquiavel e Vico nas vicissitudes da cultura europeia, presente em The Crooked Timber of Humanity. Londres, 1990 [trad. it. Il legno storto dell’umanità. Milão, 1994] e em Against the Current. Oxford, 1981 [trad. it. Controcorrente. Milão, 2000].

[4] Sobre as relações entre filologia-filosofia e arte figurativa do Humanismo, permanecem essenciais as pesquisas de A. CHASTEL e R. KLEIN, L’Europe de la Renaissance: L’âge de l’Humanisme. Bruxelas, 1963 [trad. it. L’Umanesimo e l’Europa della Rinascita. Milão, 1963] (além, naturalmente, do também deles Arte e Umanesimo a Firenze al tempo di Lorenzo il Magnifico cit.). Ainda sobre a relação pensamento-pintura devem ser vistas as páginas que Valéry dedica a Leonardo, suprema reivindicação do papel da pintura como arte que requer “todos os conhecimentos e quase todas as técnicas”; “e eu digo que Leonardo tem a pintura como tem a filosofia” (Léonard et les philosophes). Dedicado particularmente ao “signo conceitual” dos frontispícios, há o belo ensaio de L. SIMONUTTI, La filosofia incisa, em F. MEROI e C. POGLIANO, Immagini per conoscere. Florença, 2001.

[5] Sobre esse Petrarca, cf. E. GARIN, Dante e Petrarca fra antichi e moderni, em ID., Rinascite e rivoluzioni cit.

[6] Para esses desenvolvimentos que implicam problemáticas centrais do pensamento contemporâneo, entre Heidegger, Gadamer e Derrida, não posso me abster de referir o meu Labirinto filosofico. Milão, 2014.

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Emanuel França de Brito

Emanuel França de Brito é Professor de Língua e Literatura Italianas no Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense (UFF).