Monumentos: história e memória são diferentes, mas o anacronismo é o mesmo

por Caio Vioto

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O que significa um monumento histórico? Ele representa fielmente um personagem, fato ou momento? Quais as possibilidades e margens de interpretação? São perguntas importantes, mas que parecem preocupar pouco aqueles que propõem sua derrubada e se apressam em julgar o passado. Qualquer um que estuda ou pensa a história de maneira séria e científica sabe que o maior “pecado” do historiador é o anacronismo, ou seja, olhar para o passado a partir dos valores do presente. Além disso, é necessário distinguir história e memória, embora sejam assuntos correlatos.

A História, enquanto disciplina, tratada de maneira científica, acadêmica e profissional, tem tão somente a função de compreender o passado, em suas múltiplas dimensões. O historiador não é juiz da história, assim como qualquer cientista social não tem por ofício a normatização dos fenômenos sociais, mas sua compreensão, quando não, dada a multiplicidade de possibilidades, uma descrição bem restrita dos eventos. Desde o início do século XX, com a perda de força e influência do positivismo, a História e as demais Ciências Sociais deixaram de tentar emular as chamadas “ciências duras”. Os positivistas, partindo do princípio epistemológico de que é possível entender a totalidade das coisas, pretendiam fazer uma espécie de “física social”, estabelecendo relações estritas de causa e efeito entre as ações humanas, inclusive as passadas. A despeito do aperfeiçoamento das Humanidades ao longo dos últimos cem anos, esse modelo ainda paira no senso-comum, talvez porque seja mais fácil. É muito mais simples dizer que o evento A causou o evento B do que pensar as nuances, as diversas possibilidades de compreensão ou, mais ainda, imaginar o que se passava nas mentes das pessoas do passado, o que as levava a agir daquele modo, como percebiam o que acontecia em seu tempo. No entanto, como bem ensinou Lucien Febvre, a função do historiador não é simplificar o que é complexo, mas mostrar a complexidade por trás daquilo que parece simples.

Diante disso, um mesmo evento, período ou personagem histórico pode ser estudado de diferentes formas, sob diversos prismas. Basicamente, existem apenas duas exigências. A primeira delas é mais fácil de cumprir: o historiador não pode inventar ou omitir fatos. Não pode dizer que o Brasil foi descoberto em 1650, nem que Platão foi um filósofo moderno. A segunda — que é, resumidamente, o próprio ofício do historiador — trata-se de analisar as fontes primárias (documentos do período estudado) e confrontar a historiografia, ou seja, com o que foi produzido anteriormente, por seus pares, sobre seu objeto de estudo. Assim, estando balizado pelos fatos e levando em conta o que outros historiadores escreveram sobre o assunto, o historiador possui uma margem relativamente extensa para formular novas compreensões e abordagens. Exatamente por isso é virtualmente impossível estabelecer uma verdade histórica.

Quando falamos sobre memória, isto é, o passado como ele é lembrado, as possibilidades se fragmentam mais ainda, pois as relações afetivas entram no jogo. A memória, por sua vez, também é objeto da História. Um historiador pode se interessar por pesquisar como uma sociedade de um determinado período pensava sobre outra, de uma época anterior. Exemplifiquemos, já entrando no objeto deste ensaio: o imaginário paulista acerca dos Bandeirantes foi construído, principalmente, no final do século XIX, com o fortalecimento das oligarquias cafeicultoras no cenário nacional, e após a Revolução de 1930, quando São Paulo perde parte de seu protagonismo. Aquele, porém, estava longe de um retrato fiel dos sertanistas, representados como homens fortes, brancos, de ascendência europeia e vestidos de maneira imponente, a desbravar territórios inexplorados. Grande parte dos “reais” Bandeirantes eram mestiços, andavam em farrapos, muitas vezes descalços, e buscavam o enriquecimento pessoal. Essa descrição também se choca com a visão que os coloca como exploradores brancos oprimindo violentamente os povos indígenas. Além de muitos partilharem do sangue e da cultura nativa, eles também estabeleciam alianças com algumas tribos para poderem enfrentar outras. Dessa forma, ao levarmos em conta as nuances e os contextos, percebemos os paradoxos e a cotidianidade da história: não se tratava de heróis ou vilões, nem de opressores e oprimidos, mas de pessoas agindo e reagindo conforme as circunstâncias de sua época. Assim, vemos que os monumentos, mesmos os erguidos mais recentemente, dizem mais sobre o imaginário paulista de fins do Oitocentos e início do século passado do que sobre os próprios Bandeirantes e a colonização.

Algo semelhante pode ser dito sobre o emblemático Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill. Embora sua biografia e trajetória política possam trazer controvérsias raciais, os monumentos em sua homenagem não foram erguidos com a intenção de exaltar essa faceta, mas sim seu papel político no Reino Unido e, principalmente, sua atuação na Segunda Guerra Mundial. Não é como se neonazistas erguessem, hoje em dia, um monumento a Hitler. Da mesma forma, trata-se de uma situação diferente de quando, por exemplo, num contexto de transição política, um monumento que homenageia um ditador é destruído. Porém, quanto mais o tempo passa e a memória se dissipa, faz menos sentido, inclusive simbólico e político, descarregar as energias e indignações no monumento.

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(Reprodução: SkyNews)

Se já é impossível, levando em conta a historiografia, e pensando de maneira calma e racional, dar um veredicto definitivo sobre um personagem histórico, tomar essa decisão movido pela emoção e pelo presentismo, em meio a uma multidão de leigos, chega a ser leviano. Os personagens históricos não foram super-heróis nem supervilões. Eram pessoas, movidas por circunstâncias, que se comportavam conforme as mentalidades de seu tempo, trazendo todas as contradições e paradoxos da vida humana. Os indivíduos de outras épocas — assim como nós hoje — não eram pessoas puras e totalmente ilibadas, como certamente não são os que se apressam em julgá-los. Se começarmos a tirar do armário todos os esqueletos e a cobrar pureza do passado, não sobrará monumento algum para contar a história.

Caio César Vioto de Andrade

Caio César Vioto de Andrade é Doutorando em História e Cultura Política pela UNESP-Franca.