Nosso dia seguinte

por Nicolás José Isola

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(Philip Fong/AFP)

São 20 horas em São Paulo. Desde meu apartamento, escuto os aplausos para os profissionais de saúde que provêm dos edifícios contíguos. Contudo, um parece mais próximo. Com meu filho Tobías, de sete meses, nos braços, caminho da sala ao meu quarto para ver de onde vem o ruído. Minha esposa, Guillermina, médica formada na Universidade de Buenos Aires, que trabalha em um hospital todos os dias, em meio à expansão do vírus, aplaude erguida junto à janela. Conhecendo-a, está aplaudindo aos demais, e não a si mesma. Pego as mãos de Tobias, começo a aplaudir com elas e lhe digo: “Aplaudamos a mamãe que cura as pessoas”. O aplauso de seu filho a desarma. Ela se desfaz em lágrimas.

É um período louco. Minha mulher chora desconsolada, enquanto o presidente deste país diz que isto é uma “gripezinha” e que o mundo exagera.

Muitos se sentem angustiados e intolerantes por causa da incerteza. O vírus faz emergir medos inconscientes. Na quietude analógica, nossa psique digital se torna irritável. Galgos enjaulados.

Alguns que vivem sozinhos viram sua solidão potencializada. “Quero um abraço e não posso ter”, me disse outro dia uma mulher de uns cinquenta anos que vive sozinha. Não ver ninguém por semanas é uma dura provação.

São dias de muito silêncio. Diversos pássaros regressam às ruas com a diminuição do trânsito. Gostamos que voltem a cantar, como gostamos dos peixes em Veneza. O fato é que regressam porque nós fomos embora: mensagens da natureza que nos aguardam na caixa de correio no dia seguinte, o do fim do confinamento. É possível que as apaguemos sem sequer lê-las.

Aqueles que se lamentavam por não ter tempo para seus filhos, agora se esgotam com a perturbação da convivência incessante (até a melodia mais bela precisa de pausas).

A proximidade familiar desejada se torna para alguns como um bumerangue de enfado. Ironicamente, nossa avidez pela tranquilidade estava alicerçada na normalidade de estar afora, circulando. Entretanto, ocorrem diversos processos: alguns precisam socializar, outros voltam a valorizar intensamente as escolas.

Ingressamos em uma temporalidade muito menos instantânea e fragmentada do que aquela a qual estávamos acostumados. Somos viciados nas multitarefas dentro de um filme francês. Tudo acontece lentamente.

Exploramos o uso de plataformas virtuais de educação e as fake news nos invadem. Os grupos de WhatsApp nos enchem de vídeos humorísticos sobre a quarentena (e rir nos salva). Há reuniões familiares através de câmeras e amigos que não se viam há meses agora arranjam um tempo.

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Música nas sacadas italianas em meio ao lockdown (Foto: DW)

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Como ao se apaixonar, quando há vontade, consegue-se um tempo. Mas subimos em uma onda frenética, com uma pose pedante: “Estou a mil”. A mil não há tempo para perceber que algumas pessoas oxigenam nossa vida. Enlouquecidos, temos tornado o estarmos ocupados um valor: é elegante. Às vezes, querido leitor, somos mais adolescentes do que podemos crer. Fazendo cócegas no princípio de não contradição aristotélico, alguns transmitem uma live de meia hora no Instagram para dizer que desconectemos do celular.

“A única coisa que me mantém saudável são as redes”, me disse uma mulher de uns quarenta anos. Como no final do filme “O segredo dos seus olhos”, dizendo: “por favor, diga que, ainda assim, que fale comigo”. A palavra e o contato nos dão sentido e nos mantêm vivos.

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‘El Secreto de tus Ojos’, 2009

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Existimos com os outros, sabíamos, mas agora estamos saboreando isso de outro modo. Há dois significados distintos do verbo saber: conhecer e saborear. Todos nós sentimos sabores, inclusive os intragáveis: incertezas, angústias, sofrimentos, ócio, família, dúvidas, solidão, avós.

A vida, essa boxeadora implacável que nos educa, sem nos perguntar se temos vontade de aprender, nos desferiu o pior golpe baixo: separou-nos e colocou em perigo quem amamos.

Mateo, meu filho de quatro anos, que vê todos os dias sua mãe ir ao hospital, se levanta iludido e, sorrindo, dispara: “Papai, o coronavírus já se foi ?” Fecho meus olhos, uma espada entrou nesse centímetro de coração sem couraça. “Ainda não, meu filho”.

Ainda que abundem os sábios de plantão, não há receitas para passar por esse infortúnio do confinamento que nos é imposto. Digo confinamento porque não é isolamento social. Diferentemente do que o senso comum nos sussurra, sentir-nos isolados é uma decisão interna, muito mais do que um fato objetivo. Podemos eleger essa autopercepção condescendente, ou podemos tomar esse ensaio social como um experimento individual de crescimento: é a primeira vez que somos obrigados a viver assim, vamos gerar algo bom disso.

Por isso, não estamos encerrados, estamos guardados porque resguardamos a vida. Estamos cuidando para que o vento deste vírus atroz não apague o fogo bendito de nossas velas sagradas. Perguntemos: o que iremos aprender com este vento? Extrair lições de moral vitais nas situações difíceis é um grande indicador de maturidade de uma pessoa. Essa resiliência para pensar no que é belo dentro do angustiante, essas flores cheias de esperança, que brotam em meio à dor de nosso asfalto.

Seria vida esse intervalo de vida, ou somente uma pausa insuportável? Por acaso esse fato estranho nos ajudará a viver melhor o resto de nossa história? O que faremos no dia seguinte? Seremos os mesmos? Haveremos aprendido alguma coisa? Não seria absurdo que haja sido em vão?

Batem à porta. Pergunto quem é: “Daniel, o vizinho do quinto andar”. Nossos filhos brincam juntos com frequência. Abro a porta e na maçaneta há uma sacola pendurada. A três metros de distância, Daniel me diz: “É uma torta que fizemos. Espero que gostem, um abraço!”. E entra no elevador.

Devemos ter muito cuidado, esse vírus malvado, que nos afasta das pessoas e não nos deixa nos tocarmos, também está gerando muitas carícias ternas. E os gestos são uma armadilha letal se os hospedamos: podem mudar nossa vida.

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(Alessandra Tarantino/AP)

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(Publicado originalmente na Argentina, no jornal La Nación, em 04/04/2020. Tradução de Mariana Gikas.)

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Nicolás José Isola é filósofo e doutor em Ciências Sociais.