“O sonho de Catão”, de José Francisco Botelho

Para Max Mallman.

Virando-se de repente para mim e agarrando minha mão, Cipião disse: “Este é um momento glorioso, Políbio; mas tenho o funesto pressentimento de que, um dia, a mesma sina será pronunciada contra minha própria pátria”.
Políbio, Histórias.

I.
Hannibal ante portas

No segundo ano da 140ª Olimpíada, na época em que as Plêiades começam a baixar, inquietantes portentos se espalharam pela região do Lácio. No fórum romano, uma estátua do deus Términus escorreu sangue da madrugada à noite; em Antium, uma cabra deu à luz um filhote com rosto vagamente humano; em Coríoli, dez cegonhas tombaram dos céus, com olhos vidrados e vermelhos, e cinco relâmpagos sucessivos chamuscaram a antiga muralha dos volscos. Os áugures mal tiveram tempo para interpretar os presságios. Das gargantas dos Alpes, emergiram criaturas como espectros da nevasca: um exército de pesadelo, com rosto asselvajado pela travessia das montanhas. Uma inscrição em Lacínio revela seus números: vinte mil líbios; dez mil celtiberos; seis mil cavalarianos númidas e fenícios; setecentos fundibulários das Ilhas Baleares; quinhentos lanceiros núbios, vestidos em pele de hiena; quatrocentos mercenários de múltiplas nações; além disso, milhares de mulas, burros, cavalos; e cinquenta elefantes com os dorsos cobertos de geada. Aníbal havia chegado, e o horror se espalhou pela Itália.

Vieram dias de fogo, dias de espada. A Etrúria rapidamente tornou-se um segundo Érebro; até os animais fugiam, estarrecidos pelo incêndio dos campos. Os celtas da planície, sempre volúveis, acorreram às hostes invasoras e triplicaram seu número. Prosseguiam os prodígios, mergulhando cidades inteiras num frenesi profético: em Cápua, o céu cuspiu pedras em brasa; três luas foram vistas ao mesmo tempo em Óstia; duas vestais foram flagradas em cópula desvairada no precinto do templo em Roma; um bando de corvos empoleirou-se, de madrugada, no Trono Sagrado de Juno. Por todo lado observavam-se erupções do subsolo e exalações do firmamento. O pavor agiu como uma espécie de fascínio: os romanos se jogavam contra o Cartaginês como insetos enlouquecidos por uma chama. Debaixo de neves e chuvaradas, atiravam as lanças tortas de umidade contra vultos que logo desapareciam; a cavalaria númida, fazendo imprevisíveis movimentos de pinça, alvejava os patriotas com dardos e gargalhadas; e do vapor do inverno surgiam elefantes africanos, com olhos pequenos e quentes, pisoteando cônsules e legionários no lamaçal gelado. A incongruência e a extravagância dessa catástrofe lançaram o sisudo temperamento romano em uma estarrecedora sensação de irrealidade. Entre horrendos destroços de batalha, os míseros sobreviventes enfiavam a cabeça em buracos na terra e se deixavam sufocar, enquanto os fenícios cortavam os dedos enrijecidos dos cadáveres para pilhar seus anéis; figuras famélicas e delirantes vagavam pelas Vias Ápia e Latina, anunciando que o céu em breve se rasgaria para vomitar fogo; multidões acorreram ao santuário da Fortuna no Monte Algidus, rogando que postergasse a hecatombe. Em Compsa, trezentas pessoas jogaram-se no Adriático, preferindo a morte na água à escravidão na África. Rumores intermitentes anunciavam que o Cartaginês acampara a sessenta, cinquenta, quarenta estádios de Roma; e até hoje as matronas, para assustar os filhos, repetem à luz das lamparinas o inacreditável bordão: Hannibal ante portas!

Em uma nebulosa manhã de primavera, no primeiro ano da invasão púnica, o jovem e sisudo campônio Marco Pórcio Prisco acordou com os solavancos do solo e acreditou, por um instante, que os lêmures houvessem invadido seu quarto. Saltou do leito de palhas, mas notou que suas pernas eram coisas pastosas, incapazes de mantê-lo ereto. Foi de rosto contras as pedras do assoalho e viu as sandálias de couro levitarem. Ouviu os gritos dos irmãos e das irmãs, o esconjuro dos escravos, e só então percebeu que aquilo era um terremoto.

Naquela manhã, os exércitos romano e cartaginês se enfrentaram às margens do lago Trasimeno. Durante a batalha, a terra começou a tremer, sem que os combatentes cessassem a matança; o sismo se comunicou a todas as partes da Itália, mudando o curso de rios, abrindo novos golfos e arrancando pedaços das montanhas. Aníbal era a causa dessas tribulações; Marco Pórcio desejou encontrar aquela criatura portentosa e aziaga. No dia seguinte, poliu as armas, cruzou no peito o talabarte e partiu da fazenda familiar, na terra dos Sabinos, para se juntar ao exército de Fabius Cunctator. Ao pisar no limes da propriedade, marcado por um derruído túmulo etrusco, notou que um ganso entrava voando em seu campo de visão, pelo lado esquerdo do amanhecer, ao mesmo tempo em que uma coruja ululava atrás das colinas, na direção oposta. Soube que era um presságio poderoso, mas não pôde interpretá-lo. Passou roçando o musgo da sepultura e foi adiante.

Ao partir, Marco tinha dezessete anos.  Antes de completar dezoito, seu corpo estava cheio de cicatrizes. Correu a Itália, de combate em combate. Levava nas costas o escudo e a armadura; um servo o seguia, carregando panelas e caçarolas. Ao entardecer, sentava-se com o escravo sobre os alforjes, partilhava com ele o mesmo refresco de vinagre com água e conversava sobre questões agrícolas (mais tarde, esses traços seriam citados por seus biógrafos como exemplo de rústica romanidade).

Certo entardecer, envolveu-se em uma escaramuça contra forageiros em um pântano nas vizinhanças de Cápua; o que parecia um combate sumário e sem importância degenerou-se em uma batalha morosa, mórbida, pesadilhesca; celtas tisnados de pigmento saltavam das paredes de neblina e os olhos dos berberes pareciam rutilar dentro da lama; Marco brandiu a espada até o fio se embaçar no sangue dos bárbaros. Olhou ao redor, tonto, raivoso: para não afundar no palude avermelhado, os últimos romanos agarravam-se aos cadáveres flutuantes de cavalos e jumentos. Pisando em um tapete oscilante de aliados e inimigos, Marco Pórcio teimava em balançar o gládio cego e aleatório. Nisso, a pedra de um fundibulário o acertou na têmpora, pelo lado do escudo. Densa baixou a sombra, e o engoliu.

Acordou no acampamento cartaginês, manietado. Havia uma vaga rachadura em sua testa, e o sangue lhe deixara o rosto preto. Acostumou-se gradualmente à dor, e os sentidos foram-se libertando da pasmaceira. Percebeu o alarido promíscuo de muitas línguas incompreensíveis que se roçavam sem se misturar. Com fascinado rancor, considerou aquele mundo exótico, assustador, malignamente não-romano. Ginetes númidas chegavam da forragem, arrogantes e esguios, cavalgando sem rédea nem freio, como era seu hábito; três gauleses nus, sentados ali perto, afiavam com punhados de areia as espadas de gume longo. Um enorme lusitano com túnica bordada de púrpura despejava vinho velho no lombo de cavalos bichados, enquanto um núbio de olhos amarelos lustrava a retesada pele dos braços com óleo de oliva. Nações incompatíveis se entreolhavam em lados opostos da mesma fogueira: assim, dois garamantes de rosto tatuado jogavam espiadelas hostis a um grupo de etíopes que mascavam lagartos secos junto às brasas. A vertigem de saquear Roma conferia a esse exército incongruente uma espécie de unidade febril. Havia outros espécimes mais familiares, porém igualmente ofensivos. Estirados na relva suja, como se estivessem num triclínio, dois jovens de peito descoberto jogavam dados; menos pelas feições que pelo ar de descaso felino, Marco soube que eram gregos − vendidos certamente a bom preço ao serviço dos bárbaros. “Típico”, pensou Pórcio, que não gostava de gregos.

Todos o ignoravam, e o jovem romano começava a perceber o quão estranho era ainda estar vivo, quando um capitão de grossas melenas ruivas entrou no campo, escoltado por cinco cavalarianos espanhóis. Apeando, despiu a cabeleira como quem tira um elmo. Uma venda embebida em vinho lhe cruzava o rosto. A essas alturas, todos sabiam que Aníbal perdera uma vista por conta da febre palúdica, nos mananciais dos Apeninos. Marco Pórcio o encarou, num êxtase de ódio. Então era assim que o arqui-inimigo despistava os espiões romanos: disfarçando-se de celta. “Típico”, pensou Pórcio, cujo desprezo pelos púnicos era ainda mais intenso que o rancor pelos gregos. Ainda estonteado pela súbita aparição, viu que o cartaginês se aproximava dele, num andar casual, o único olho dardejando veloz sob a sobrancelha pontuda. Marco ouvira dizer que Aníbal jamais pestanejava; agora que estava zarolho, essa habilidade se tornara ainda mais perturbadora, pois o facho fixo de seu olhar condensava-se numa única pupila. O cartaginês mediu Pórcio por alguns momentos, e o jovem pensou: Mandará me matar. Em vez disso, Aníbal elogiou sua bravura na batalha do pântano, ofereceu-lhe um gole de água fresca e, num tom perfeitamente casual, perguntou se não queria unir-se ao exército púnico (falou tudo isso no latim hirsuto, mas passável, que aprendera na Espanha). Demasiado atônito para sentir-se ofendido, Marco tentou articular alguma resposta à altura do momento, mas conseguiu balbuciar apenas:

− Eu? Não!

Aníbal, fantasticamente, riu. Três ou quatro espanhóis, que na verdade eram africanos, riram junto. Um garamante à beira da fogueira levantou o rosto, sem entender.

− A brevidade latina! Os romanos serão concisos até ao escrever seu próprio epitáfio − disse Aníbal, ordenando em seguida o prisioneiro fosse levado à margem do manancial e posto em liberdade.

Marco Pórcio, que há pouco sentira o repuxo do Hades, replicou com uma espécie de escândalo:

− Por que não me mata?

Aníbal deu de ombros.

− Pergunte a seus deuses − disse, já lhe dando as costas. − Perguntarei aos meus.

O jovem foi largado na barranca aquosa; cortaram-lhe as amarras e puseram em suas mãos a lâmina embotada. O estrépito da cavalaria númida dissipou-se entre as veredas do brejo, e Pórcio olhou atarantado para o sol que baixava entre os salsos chorões. Um ganso entrou voando à direita do crepúsculo; pelo lado do escudo, a cabeça ainda doía; e em algum lugar um lobo uivou.

(O conto na íntegra está no livro Cavalos de Cronos, de José Francisco Botelho).

José Francisco Botelho

José Francisco Botelho é autor de Cavalos de Cronos (Zouk, 2018), grande vencedor do prêmio Açorianos em 2019.