O tribalismo e as vantagens de ser um extremista

por Celina Alcantara Brod

De alguma forma a intolerância faz com que as pessoas se sintam bem, caso contrário, como explicar o contágio alarmante e a capacidade que o fanatismo tem de mover massas e indivíduos? Nessas horas, nada como o humor para denunciar as limitações e as contradições mais insolentes do ser humano. Em um genial sketch de Monthy Python, John Cleese desmonta com o típico tom irreverente a dinâmica psicológica tentadora que se manifesta no engajamento de indivíduos a grupos extremistas. No quadro icônico, radicais da esquerda e da direita são representados de maneira ridicularizada, porém, nada muito distante da realidade, afinal de contas, pessoas podem, de fato, ter comportamentos extravagantes quando se encontram em aglomerados ensandecidos.

Supremacistas brancos carregam tochas na Universidade da Virginia (Foto: Alejandro Alvarez/Reuters)

No script de Cleese, ambos os espectros são agraciados com uma lista oficial de inimigos: se caso você escolher ser um radical da direita poderá sentir-se bem odiando as minorias barulhentas, os sindicatos, os grevistas, os manifestantes, os esquisitos e os comunistas. Mas, se o que lhe apetece é ser um radical da esquerda, você irá sentir-se bem colocando o mal do mundo e sua raiva nos americanos, nas corporações, nas autoridades, nos traidores do movimento e na mídia enquanto luta pelo esmagamento do capitalismo opressor. O único inimigo que ambos extremos têm em comum é, naturalmente, o moderado. Assim, uma das vantagens de ser um extremista é a agradável sensação de poder fingir que “o mal inteiro está em seus inimigos e toda bondade do mundo está em você”, ironiza Cleese.

O radicalismo pode ser reconhecido como uma inclinação obsessiva por uma resolução de mundo e um desejo intransigente por mudanças espetaculares. Para Eric Hoffer, o pensador estivador que estudou os movimentos de massa, embora haja diferença entre movimentos religiosos, políticos e nacionalistas, todos compartilham da mesma força motivadora geradora de entusiasmo. Homens com esperanças extravagantes aliadas a um descontentamento e frustração interna irão buscar em doutrinas, líderes e grupos uma fonte de poder, propósito e orgulho. O movimento é atrativo não porque “satisfaz um desejo por autodesenvolvimento, mas porque satisfaz a paixão pela auto-renúncia”. Os adeptos extremistas tendem a olhar o auto interesse como impuro, corrompido e vil. Renascidos para uma nova vida em um corpo coletivo, suas cadeias de argumentos são máquinas de guerra que transformam homens comuns em carrascos abnegados, os quais Hoffer denominou de “verdadeiros crentes”. 

O fanático, no mais último grau de paranoia, irá negar a humanidade daqueles que se colocam entre ele e sua alucinação. Percebe-se junto a isso a existência de um certo coro e ritmo repetitivo que ecoa sua imaginação inflamada e empatia tolhida. Uma espécie de retórica capaz de moldar homens bombas, revolucionários terroristas, multidões raivosas alimentadas por uma agenda anti-qualquer coisa. Uma fala cujos refrões são persistentes e hegemônicos. Esse é o tipo de repertório percebido por Winston, protagonista da obra 1984 de Orwell, ao analisar a fala de Syme, um fervoroso membro do Partido. Para Winston, “o que falava não era o cérebro de um homem, era sua laringe. O material que ele produzia era formado por palavras, contudo não era fala no sentido lato: era um ruído emitido sem a participação da consciência, como o grasnado de um pato.”

O duckspeak de Orwell remete a aquilo que Gustave Le Bon, autor da obra Psicologia das Multidões, denominou de “apagamento da personalidade”. Para Le Bon, “a personalidade consciente desvanece-se e os elementos e as ideias de todas as unidades são orientados numa direção única”. Ou seja, a individualidade é diluída em uma crença geral, em que os sentimentos aflorados são simples e exagerados. O indivíduo, perdido na sensação embriagante de pertencimento a algo maior do que sua ínfima subjetividade, é incapaz de graduações, por isso aceita ou recusa opiniões em bloco. Nas palavras do autor, “libertam-se do sentimento da sua nulidade e da sua impotência” e afundam na conformidade. O sentimento extremado propaga-se por sugestão e contágio e é fortalecido pela aprovação geral que suscita. Além do duckspeak e o auto-esquecimento, há ainda a ausência de responsabilidade nos atos violentos, o que leva o indivíduo a cometer ações primitivas que ele jamais cometeria caso estivesse isolado.

Mas, haverá cura para o fanatismo? Para Amós Oz, “o fanatismo muitas vezes origina-se na vontade imperiosa de modificar os outros pelo o próprio bem deles”, por isso, segundo ele, “o fanático é um grande altruísta: está mais interessado em você do que nele mesmo”. Estas são algumas entre outras valiosas reflexões do autor israelense compiladas em uma pequena obra intitulada Como curar um fanático. Com uma jocosidade pessimista, em três conferências, Oz discorre sobre essa idiossincrasia humana que se manifesta na História. Na prescrição do autor israelense na luta contra o fanatismo estão o humor, a curiosidade, a argumentatividade e principalmente a capacidade de imaginar o outro. Para ele, a boa literatura pode ser uma grande aliada, uma vez que ela proporciona uma fantasia que indaga perguntas empáticas: e se eu fosse ele? E se eu fosse ela? Contar histórias envolve imaginar outras vidas, outras possibilidades, outras crenças e outras saídas e, também, aprender a “viver em situações em aberto”, escreve Oz.

Comédia à parte, a tragédia é real. O fanatismo, esse impulso atávico, é um mal que tende a deixar em seu rastro muito estrago. Desde os mais de 900 fiéis envenenados no People’s Temple do pastor comunista Jim Jones, aos homens encapuzados da Ku Klux Klan; à ira e patrulha agressiva dos Antifas; o fervor primitivo e racista da passeata de Charlottesville, em pleno 2017; ao ataque a liberdade de expressão em campos universitários aqui e em outros países, conduzido pelas políticas identitárias de fanáticos da esquerda e da direita. Todos estes eventos, mesmo que diferentes entre si, estão de alguma forma ligados a um instinto tribal que invoca inimigos externos para gerar uma coesão opiótica.

Obediência voluntária, intolerância, agressividade, impulsividade mórbida, censura e pensamento conspiratório são alguns dos efeitos desta praga ancestral. Muitas vezes, pessoas bem-intencionadas acabam afugentando suas incertezas e frustração ao entregarem-se à uma causa maior. Conquistam um tipo de liberdade avessa, pois elas estariam, finalmente, livres da dúvida e de si mesmas. Por isso, a multidão, como escreve Le Bon, é “destituída de espírito crítico”.

A verdade é que, de uma forma ou de outra, todos somos tribais, moldados e contagiados por inúmeros grupos. Como é possível, então, diferenciar um movimento sadio de um movimento sádico? Começando pela infinita diferença entre as graduações. Defender uma ideia argumentativamente e fazer concessões é diferente de compelir a transformação dos outros ou forçar falas e comportamento alheio. Além disso, reivindicações sadias não estão calcadas na culpabilização de forças ocultas ou na demonização de uma classe de pessoas para legitimar suas reivindicações. 

O fato é que estamos vivenciando um oximoro: a política da inclusão sectária. Amy Chua, em sua obra Political Tribes: Group Instinct and the Fate of Nations, escreve sobre essa estranha e tóxica dinâmica de grupo contemporânea. Perdeu-se o tom universalista e deixou-se de defender valores que transcendem o grupo, como as liberdades individuais e a igualdade sob a lei. Para Chua, as palavras de Martin Luther King, que impulsionaram as políticas identitárias dos anos 60, “eu tenho um sonho de que meus filhos sejam julgados pelo seu caráter e não pela cor de suas peles” é um exemplo de reivindicação universalista. Já a política identitária contemporânea na busca por afirmação das diferenças inevitavelmente subdivide-se, dando origem às identidades de grupo em constante proliferação que exigem reconhecimento. Nessa luta por uma identidade, radicais acabam culpabilizando e demonizando outros grupos.

Um dos efeitos ricochete da agenda identitária “cuja incansável repreensão, insulto e intimidação podem ter causado mais danos do que benefícios” foi, segundo Chua, fortalecer grupos extremistas reacionários anti-imigração, defensores da supremacia branca e anti-minorias.  Ao que tudo indica, as ideias impulsionadas pelo Iluminismo: liberdade individual, secularismo, tolerância e pluralismo não foram capazes de satisfazer os instintos primitivos de clã. E quanto mais complexo o mundo se torna, mais sedutor o tribalismo nos parece. 

Esta política tribal desdobra-se sob um jogo de linguagem que marginaliza e inclui simultaneamente. A retórica em ambos os espectros busca hoje o enrijecimento das diferenças ao invés da liberdade individual e igualdade independente das diferenças. Há nesta dinâmica toda uma gama de palavras que sinalizam rapidamente o inimigo e localizam o aliado. Caso alguém escorregue com determinado termo ou frase, será rapidamente identificado. As características do grupo, desde a cor da pele ao status socioeconômico, são o que designam e delimitam antecipadamente o indivíduo, não mais suas ações no mundo, o que inevitavelmente rouba a espontaneidade de todos. Por estes motivos a política identitária é um jogo perigoso, uma interação entre grupos que fortalece paixões violentas e enfraquece concepções democráticas. 

Os diques sociais que formamos ao longo de nossa caótica civilidade, tal como a tolerância, perdem forças quando discursos tribais e sectários ganham um certo verniz de legítimos. Neste caso, a rede de expectativas e demandas imparciais, isto é, a recusa de um padrão de julgamento duplo, que é essencial para que haja respeito mútuo em oposição ao favorecimento de círculos estreitos, é enfraquecida. Uma sociedade de bárbaros é justamente aquela que abandona as virtudes civilizatórias e reforça a parcialidade tribal. Precisamos compreender esse impulso sectário, que está mais preocupado em um olhar moral diante do grupo e não mais diante de uma simpatia e tolerância abrangente. Instigar a revolução de nós mesmos e nossas responsabilidades individuais antes de querer revolucionar os outros.

Amós Oz clama por uma educação que nos ensine sobre o fanatismo, que nos instrua a evitar as armadilhas desta prática que embala o indivíduo no auto-esquecimento e nesta “atração especial, um gosto especial pelo kitsch”. Em um mundo onde as interações são ampliadas na tridimensionalidade das plataformas digitais, em que as ideias contagiam e infectam com amplo alcance sugestionando as mentes que votam e escolhem líderes, cabe perguntar: que espécie de ideias estamos proliferando? As redes sociais constroem pontes, mas também proporcionam a retroalimentação fanática: o two minutes hate orwelliano na palma das mãos. Como difundir a tolerância e ampliar a imaginação? Por que se aceitou como virtude, uma virtude preguiçosa, a política identitária?

Celina Alcântara Brod

Celina Alcantara Brod é mestre e doutoranda em Filosofia Política pelo Curso de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).