“Parirão os montes, nascerá um ridículo rato” ou um pouco sobre a Arte Poética de Horácio

por Alexandre Pinheiro Hasegawa

Desocupado leitor: não espere encontrar aqui, pelas duas primeiras palavras, um prólogo sobre prólogo como aquele de Miguel de Cervantes para O engenhoso fidalgo D. Quixote de la Mancha. Nem pretendemos – o que seria decerto desmedida punida pelos deuses! – escrever o Quixote no séc. XXI, empreitada realizada com êxito em princípios do séc. XX por Pierre Menard. Jorge Luis Borges, que bem o conhecia, concordaria inteiramente conosco. Mas voltemos nossa atenção, primeiro, ao texto do séc. XVII, em que Cervantes narra o momento da difícil composição do prólogo, quando ora pegava na pena para escrevê-lo, ora a largava por não saber o que escreveria. Neste momento entra repentinamente um amigo que o ajuda, entre outras coisas, a citar nas margens do livro nomes de célebres autores antigos cujos ditos e sentenças deveria aproveitar a fim de que o futuro leitor o julgue como homem lido, erudito e eloquente. Antes de mais nada, o amigo recomenda mencionar as sentenças que conhece de memória ou as que não sejam difíceis de encontrar. Assim, se for tratar de liberdade e escravidão, deve citar: non bene pro toto libertas venditur auro (“a liberdade não é bem vendida por todo o ouro”), e logo à margem – diz o anônimo amigo – “citar Horácio, ou quem foi que o disse”. Ora, esse hexâmetro datílico, como bem se sabe, não se encontra na obra horaciana. Trata-se de verso atribuído a Walter da Inglaterra (Gualterus Anglicus), poeta medieval (séc. XII), que fez versão das fábulas de Esopo em dísticos elegíacos (De cane et lupo, 54. 25). O erro, como veremos, é intencional e conveniente. Cervantes já ria do ridículo das citações equivocadas, usadas para trazer um pouco de cultura e dar verniz de erudição com versos em latim…

Na continuação do divertido prólogo quixotesco, o amigo recorda que, se for tratar do poder da morte, deve logo trazer esses versos: Pallida Mors aequo pulsat pede pauperum tabernas / regumque turres (“A pálida Morte bate, com o mesmo pé, nos casebres dos pobres / e nas torres dos reis”). Agora que lemos célebres e aliterantes versos das Odes de Horácio (1. 4. 13-14), em que o poeta se dirige ao rico Séstio, a personagem não atribui a passagem a nenhum autor! Mais à frente, depois de citação bíblica, anuncia, se for falar da instabilidade dos amigos, dístico de Catão. Os famosos Disticha Catonis, antologia de sentenças em verso com ensinamentos morais, remontam provavelmente ao séc. III d.C., mas foram atribuídos a Catão o Censor (séc. III/II a.C.), conhecido por sua defesa das tradições romanas e tido como sábio. Durante a Idade Média a obra foi muito usada, quando se produziram comentários de toda a recolha. No prólogo do Quixote, porém, lemos o seguinte dístico sugerido pela personagem: donec eris felix, multos numerabis amicos: / tempora si fuerint nubila, solus eris (“enquanto fores feliz, enumerarás muitos amigos; se os tempos ficarem nublados, estarás sozinho”). Ora, os dísticos de Catão não são elegíacos, como o que temos aqui. Além disso, percorrendo toda a antologia, não se encontra nada semelhante. Os versos, na verdade, são do exilado Ovídio, nas Tristezas (1. 9. 5-6), em que felix é substituído nas edições modernas por sospes (“feliz”), lição baseada no manuscrito mais confiável, o Laur. Marc. 223 (L). Parece, pois, que o amigo do escritor, sem de fato conhecer o que menciona, atribui de novo autoria equivocadamente. Cervantes, por sua vez, acertadamente constrói o equívoco a fim de rir desse ato ridículo, como já fizera Aristófanes, de modo semelhante, no prólogo das Rãs, protagonizado por Dioniso e Xântias, que fazem rir das cenas típicas da comédia, recontadas para comicamente negá-las por preterição (praeteritio): ao dizer que não vai fazer algo, acaba por realizá-lo. Ademais, rir da convenção é um modo de demonstrar o conhecimento da mesma e meio engenhoso de refazê-la.

Codex (séc. XII) da obra de Horácio com imagem do monstro descrito no início da Arte Poética

Tomemos, então, atento e ilustre leitor, esse início não como prólogo sobre prólogo, mas um prólogo a partir de outro. A prefação do engenhoso Cervantes não só traz discussão sobre o uso de sentenças, como aquela que dá título ao texto ora em curso, mas também o autor de que nos ocupamos para a série produzida para o Estado da Arte – Estadão: o poeta augustano Horácio. Trataremos hoje da Epístola aos Pisões, mais conhecida como Arte Poética, em que se encontra o verso hexamétrico (139: parturient montes, nascetur ridiculus mus), que recentemente se tornou mais conhecido por figurar, com ligeira alteração, em rede social do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro. Abaixo comentaremos com mais detalhe a substituição do futuro parturient (“parirão”) pelo presente do indicativo parturiunt (“parem”). Deixemos por ora a cena contemporânea e voltemos ao texto latino para compreender o todo e as partes.

Nos manuscritos que nos transmitem a obra horaciana, a Epístola aos Pisões não aparece com as outras duas epístolas longas, a Augusto (epist. 2. 1) e a Floro (epist. 2. 2), comentadas em nossos dois últimos textos; por vezes aparece depois das Odes, em segundo lugar, ou depois de Odes, Epodos e Cântico Secular, em quarta posição. Daí, podemos perceber como a Arte Poética foi vista já na Antiguidade como texto à parte, autônomo, embora não saibamos exatamente como, quando e se Horácio a publicou. Tal autonomia também foi importante para que Quintiliano (séc. I d.C.) a intitulasse Arte Poética, em duas passagens da Formação do Orador ou Instituições Oratórias: no prefácio a Trifão (2): usus deinde Horati consilio, qui in arte poetica suadet … (“valendo-se em seguida do conselho de Horácio, que na Arte Poética persuade …”); posteriormente, ao tratar do vício de misturar, por exemplo, o elevado (sublimia) com o humilde (humilibus), lembra no livro 8 (3. 60) o monstro inicial da carta horaciana: id enim tale monstrum quale Horatius in prima parte libri de arte poetica fingit (“isso, com efeito, é um monstro tal qual Horácio forja na primeira parte do livro Da Arte Poética”). Esse título, que talvez seja anterior ao retor romano, predominou sobre o provável original, Epístola aos Pisões, gerando, por vezes, mal-entendidos a respeito do texto. É comum, por exemplo, pensar que Horácio escreveu um tratado como a Poética de Aristóteles, quando na verdade é uma epístola (sermo), em hexâmetros datílicos – ainda que Horácio não os considere propriamente versos –, dirigida aos Pisões, em que apresenta preceitos poéticos (também aristotélicos). Ora, se os dados biográficos, espalhados nas Epístolas, como vimos, devem ser lidos com cuidado, pois o autor forja uma persona, imita textos e mobiliza topoi, por que a Arte Poética deve ser tomada como correspondência histórica, dirigida realmente aos Pisões, com a finalidade de levá-los a compor poesia, sobretudo as do modo dramático, como tragédia, comédia e drama satírico? É possível que a carta nunca tenha chegado aos destinatários.

Quem são, enfim, os Pisões (cf. vv. 6 e 235), a quem Horácio se dirige, independentemente de ser a epístola obra poética ou correspondência histórica e pessoal? O escoliasta Porfirião (séc. III d.C.) diz que o livro – termo já usado por Quintiliano para se referir à Arte Poética como obra autônoma – foi enviado a Lúcio Pisão, “que posteriormente foi guardião da cidade” (qui postea urbis custos fuit), e aos filhos dele. Lúcio Calpúrnio Pisão (48 a.C. – 32 d.C.), chamado o Pontífice, foi cônsul em 15 a.C. e nomeado praefectus Vrbi por Tibério em 13 d.C. Político, portanto, importante, patrono do epigramatista Antípatro da Tessalônica, Lúcio Pisão “foi ele mesmo poeta e iniciado nas artes liberais”, segundo Porfirião no comentário aos primeiros versos da Arte Poética: nam et ipse Piso poeta fuit et studiorum liberalium antistes. O pai dele foi Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino, cônsul em 58 a.C., patrono do filósofo epicurista, poeta e crítico Filodemo de Gádara, e antigo proprietário da famosa Villa dei Papiri, em Herculano, onde se encontraram diversos rolos carbonizados da provável biblioteca de Cesonino, entre os quais há fragmentos do livro 5 do Sobre os poemas de Filodemo (ca. 110 – 35 a.C.), fonte importante para o estudo da Arte Poética. Os dois filhos (cf. vv. 24 e 366) de Lúcio Pisão não são identificados. Seja como for, é evidente, pois, a adequação da matéria aos plausíveis destinatários da epístola, que, por conta do exposto, deve ser situada entre as últimas obras de Horácio, época em que seria possível que Pisão tivesse dois iuvenes.

Lúcio Calpúrnio Pisão: um dos prováveis destinatários da Arte Poética

Durante muito tempo a questão que dominou os estudos sobre a Epístola aos Pisões foi a respeito de sua divisão e organização. Para resumo e avaliação das principais propostas no séc. XX, curioso leitor, veja o primeiro dos três volumes dedicados ao comentário das chamadas epístolas literárias de Horácio (epist. 2. 1; epist. 2. 2; ars poetica), produzidos por Charles Oscar Brink (nascido Karl Oskar Levy, 1907-1994): Horace on Poetry. Prolegomena to the Literary Epistles (Cambridge, 1963). No segundo capítulo da primeira parte (pp. 15-40), “The Analytic Procedure and some Analyses”, resume e discute, sobretudo, as divisões de Eduard Norden (1905), Christian Cornelius Jensen (1918), Augusto Rostagni (1930) e Otto Immisch (1932), dispostos em um quadro (p. 31) para mostrar, principalmente, as semelhanças entre eles. Observamos, antes de mais nada, que a filologia alemã foi a maior responsável por esse estudo. De acordo com Brink (1963: 20), o artigo de Norden (1905: 507), propondo a bipartição ars (“arte”: vv. 1-294) e artifex (“artífice”: vv. 295-476), iniciou uma “nova era no estudo da Ars Poetica”. Outro passo importante foi dado após a publicação do artigo de Jensen, que, trabalhando nos papiros do livro 5 do Sobre os poemas de Filodemo, parece ter descoberto referências a Neoptólemo de Pário (séc. III a.C.), cujos preceitos sobre arte poética estariam presentes na Epístola aos Pisões, como já afirmara Porfirião ao comentar a pintura monstruosa que abre a Arte Poética (vv. 1-4): In quem librum congessit praecepta Neoptolemi τοῦ Παριανοῦ de arte poetica, non quidem omnia, sed eminentissima. Primum praeceptum est περί τῆς ἀκολουθίας (“Neste livro reuniu os preceitos de Neoptólemo de Pário a respeito da arte poética, não certamente todos, mas os mais notáveis. O primeiro preceito é a respeito da consecução [das partes]”).

Neoptólemo de Pário, provavelmente do séc. III a.C., foi gramático, poeta e crítico grego de quem nos chegaram pouquíssimos fragmentos – as referências antigas sobre o autor podem ser vistas no livro de Brink (1963: 47). Ele escreveu dois poemas épicos: um sobre os feitos de Dioniso (Dionysias) e outro intitulado Trichthonia. Como gramático e crítico, escreveu: em pelo menos três livros, o Glossarium, pelo qual foi chamado o Glossógrafo, tratando extensivamente do significado das palavras poéticas; o De vocibus Phrygiorum, sobre as palavras frígias; o De epigrammatis, sobre os epigramas, e o De facetiis, provavelmente em verso, sobre os ditos espirituosos. Até a descoberta de Jensen do livro 5 do Sobre os poemas de Filodemo era tudo o que tínhamos sobre Neoptólemo, considerado seguidor, sobretudo, da escola peripatética. Em 1918, então, o filólogo e papirologista alemão, trabalhando sobre os fragmentos de Filodemo, julgou ter descoberto referências a Neoptólemo de Pário. A questão não é tão simples, paciente leitor! Na verdade, não há de maneira clara o nome de Neoptólemo no papiro. Na passagem em questão, onde possivelmente se encontra a referência, Filodemo critica certas doutrinas poéticas, provavelmente selecionadas e censuradas por um tal Filomelo, de quem não temos nenhuma informação a não ser essa. De um dos autores das doutrinas discutidas por Filodemo não se lê o nome completo no papiro, mas apenas o final -tólemo (-τóλεμος), suplementado assim por Jensen (col. 10.33): [Neop]tólemo ([Νεοπ]τóλεμος), que o identifica com o autor mencionado por Porfirião no comentário à Arte Poética. A suplementação proposta foi universalmente aceita, mas a doutrina ali exposta deve ser tomada com certa cautela. Não sabemos se relatamos o problema com clareza. Resumamos: o que temos no texto muito fragmentado é provavelmente o relato de um relato sobre um autor cujo nome termina por –tólemo, sem qualquer referência a Pário, citado para ser refutado. Em suma, não há certeza de que se trata de Neoptólemo de Pário, mas é provável que seja, já que, dos 18 nomes gregos que conhecemos cujo fim é –tólemo, há apenas um conhecido por ser crítico de poesia: Neoptólemo de Pário. Por fim, ainda que seja o crítico mencionado por Porfirião, a exposição da doutrina por Filodemo, que vai censurá-la, pode estar enviesada.

O caso, talvez um pouco complicado e muito específico, parece, porém, ilustrar bem a dificuldade que por vezes se tem de atribuir autoria aos textos antigos – mas não só – encontrados ao longo do tempo. No nosso caso, ainda se lê parte do nome, mas em determinados papiros não há nenhuma letra que identifique o autor, como o de Qasr Ibrim, descoberto em 1978, contendo poucos versos, atribuídos ao poeta elegíaco Galo (séc. I a.C.). Até então se conhecia apenas um verso pentâmetro desse autor, frequentemente mencionado pelos contemporâneos, como Virgílio e Propércio. Sem dúvida foi um grande achado e provavelmente é correta a atribuição, mas não temos certeza de que se trata de versos do elegíaco Cornélio Galo. Bem poderia ser imitação do amante de Licóride realizada por outro poeta. Outros textos, porém, trazem a autoria, mas quem garante que a atribuição no manuscrito é correta? Aristóteles na Poética, por exemplo, atribui o Margites a Homero (cap. 4, 1448b-1449a); o epigramatista Marcial (séc. I d.C.), o Culex (“Mosquito”) a Virgílio (14. 185). No entanto, as duas obras hoje são consideradas anônimas pelos filólogos modernos. Por fim, muitas traduções não marcam os suplementos realizados pelos editores, como fizemos acima, entre colchetes. Daí, o leitor – você, meu caro e incauto leitor! – julga que lê um verso de Píndaro, mas se trata de composição, em boa parte, de um moderno filólogo inglês, alemão ou italiano. Por essas e por outras, assim surge um novo autor do Quixote!

Feita a ressalva sobre a identificação, retomemos o fragmentário texto de Filodemo, em que ele expõe a divisão da arte poética proposta por Neoptólemo em três εἴδη (“aspectos”, “espécies”) a fim de criticá-la como absurda. A tripartição em poeta (ποιητής), poema (ποίημα) e poesis (ποίησις) se descobre na seguinte passagem em que assinalamos os suplementos apenas no texto grego estabelecido por Jensen (col. 11. 5-11): ἀτόπως δ[ὲ] κα[ τὸν] τὴν τέχνην [καὶ τὴν δύν]αμιν ἔχοντα τ[ὴν ποι]ητικὴν εἶδος [π]αρίσ[τησι τῆ[ς] τέ[χ]νη[ς μ]ετὰ τοῦ ποήματο[ς] κατῆς ποήσεως (“ora, absurdamente descreveu aquele que tem a arte e a capacidade poética como uma espécie da arte, junto com poema e a poesia”). Assim, o poeta, “aquele que tem a arte e a capacidade poética”, é um aspecto ou espécie da arte como o poema e a poesia. Ora, a divisão tripartite da arte poética de Neoptólemo, deduzida do relato crítico de Filodemo, serviu, por exemplo, à divisão da Arte Poética de Horácio proposta por Brink (1963: 13; 138, com esquema comparativo): introdução (vv. 1-40), em que se discute a unidade; em seguida, parte relacionada ao poema (vv. 40-118), em que trata de “ordem e estilo” (p.13); outra relativa à poesis (vv. 119-294), “sobre como organizar um assunto considerável e sobre o que Horácio considera os maiores gêneros de poesia”; por fim, parte em que todos estão de acordo, seção dedicada ao poeta e à crítica poética (vv. 295-476).

A censura de Filodemo a Neoptólemo é uma batalha terminológica. Assim, depois de criticar como absurda a tripartição, o epicurista procura corrigir o peripatético, dizendo (col. 11. 11-26) que esse deveria ter chamado às poesias (ποιήσεις) disposições (δια[θέσει]ς). Em seguida, surge-lhe ideia ainda melhor (ἔτι … βέλτιον): aos poemas (ποήματα) deveria ter chamado obras (ἔ[ρ]γα) e às poesias, tecidos (ὕφη); por fim, ao poeta, “aquele que tem a capacidade e trabalha a partir dela”. A censura terminológica continua, melancólico e entediado leitor, passando ainda pelo uso de poética (ποιητική), pois Neoptólemo chama à atividade (ἐργασία) poética, mas, segundo Filodemo, deveria ter assim chamado a arte (τέχνη). E como toda boa polêmica conclui essa parte chamando-o ignorante (ἀ[γ]νοε[ῖ]) e julga ridículo (καταγέ[λ]α[στον]) o que Neoptólemo disse.

Por fim, o que, então, cada um entende por poema e poesia, distinção que tem longa fortuna nos autores antigos? Filodemo, admirado (θαυμα[στὸν]), diz (col. 11. 26-12.6) que para Neoptólemo somente o assunto (ὑπόθεσιν) é próprio da poesia e somente a composição das palavras ([σύνθεσιν τῆς] λέξεως) tem parte no poema. Desse modo, parece relacionar a poesia à parte retórica da invenção, que trata da res (“matéria”, “assunto”), e o poema à parte da elocução, que trata dos verba (“as palavras”). O epicurista, porém, pensa que “poema e tudo em geral são próprios da poesia” (τοῦ ποήματο[ς καὶ] πάντων ὅλως τῆς ποήσ[ε]ως ὄντων), pois “a poesia é também poema, tal como a Ilíada; porém, os trinta primeiros versos dessa são poema, mas não poesia”. Assim, Filodemo não considera, como faz Neoptólemo, poesia e poema como aspectos coordenados da arte, mas subordina o poema à poesia, como (pequena) parte (“os trinta primeiros versos” da epopeia) ao (grandioso) todo (a Ilíada).

Ora, era de se esperar que Horácio, se seguiu a divisão de Neoptólemo – poeta, poema e poesia – fizesse também uso dos termos, de acordo com o entendimento do peripatético, ao longo da Arte Poética, ou ainda, observando as críticas do epicurista Filodemo, o corrigisse, servindo-se da definição de poesia e poema desse último. No entanto, Horácio emprega uma única vez o termo poesis ao longo da epístola, na famosa comparação entre poesia e pintura (v. 361: ut pictura poesis: “como a pintura, a poesia”), tantas vezes retomada pelos renascentistas, tornando-se locus communissimus, mas que já remonta a Aristóteles, na Poética (1448a), em que compara poetas e pintores, e anteriormente a Simônides de Ceos (séc. VI/V a.C.), mencionado por Plutarco (De gloria Atheniensium, 346f), ao dizer que “a poesia é pintura que fala e a pintura é poesia muda”. Ora, Horácio, na parte dedicada, segundo os estudiosos modernos, ao poeta (vv. 295-476), usa poesis (“poesia”) para falar da arte toda, ou seja, compara arte pictórica e arte poética. O termo poema (vv. 99, 263, 276, 303, 342, 377 e 416), por sua vez, é usado de modo variado, ora de modo genérico (vv. 99, 303, 342, 377 e 416), ora de modo específico (vv. 263, 276) como bem demonstrou Marcos Martinho dos Santos (2000: 212-213), em importante artigo entre nós, em que compulsa inúmeras fontes, anteriores e posteriores (pp. 218-225), que não só distinguem entre poema e poesia, mas também poética e poeta. Há regularidade somente, com exceção de dois versos (99 e 377), no uso do termo no plural (poemata), disposto sempre no quinto pé do hexâmetro. 

Horácio, portanto, embora pudesse conhecer a terminologia e o debate, não faz uso na Arte Poética de poesis e poema, de acordo com a doutrina nem de Neoptólemo nem de Filodemo. Assim, mais do que tentar descobrir na epístola as possíveis divisões de Neoptólemo – sem qualquer fonte segura que nos informe que ele dividiu em três partes um texto, em prosa ou em verso, sobre arte poética –, moldando e repartindo o texto horaciano para provar hipótese de que Horácio o seguiu nisso, seria melhor apenas descobrir ali os preceitos de Neoptólemo de que trata ao longo da epístola, sem tão rígidas divisões, pois é isso, na verdade, o que nos diz o texto de Porfirião citado acima, sem mencionar divisões ou mesmo os conceitos de poema e de poesis, que, como já dissemos, tem longuíssima fortuna, recolhidos, por exemplo, pelo filólogo alemão Friedrich Marx na célebre edição dos fragmentos de Lucílio (1905: 129-131), no comentário ao fr. 338, autor modelar para Horácio. Enfim, não seria estranho que o poeta latino seguisse a divisão de Neoptólemo, mas não observasse a terminologia do peripatético? A filologia, por vezes, heroico leitor, também pode combater moinhos ou então somos nós a raciocinar como “os sonhos de um doente” (Arte Poética 7: aegri somnia).

Villa dei Papiri, onde se encontraram os fragmentos de Filodemo de Gádara

Sem, portanto, se valer da terminologia de Neoptólemo nem de Filodemo, Horácio, porém, discute a congruência das partes a formar um todo uno (vv. 8-9: ut nec pes nec caput uni / reddatur formae: “de tal modo que nem pé nem cabeça sejam restituídas a uma única forma”). Ou, segundo Pseudo-Acrão (séc. III/IV d.C.), no comentário ao primeiro verso, Horácio trata da disposição (dispositione) e do acordo das partes do canto (convenientia carminis). Assim, desde o início, na descrição da pintura monstruosa, Horácio trata de partes (“pé” e “cabeça”), incongruentes no caso, e da unidade do todo, ausente no monstro inicial e assim explicitada: sem “uma única forma”, ou seja, de modo negativo, na descrição viciosa e ridícula (v. 5: risum), preceitua a virtude que será repetida, de formas variadas, ao longo da epístola. Neste sentido, como dissemos, encontramos dificuldades de defender divisões de grandes seções em que Horácio trataria apenas de partes (poema) e do todo (poesis) ou de elocução e invenção. Ora, a formulação sobre a incongruência das partes mencionada aqui no início (vv. 8-9) será retomada bem à frente, ao concluir a parte que nos interessa (v. 152): primo ne medium, medio ne discrepet imum (“de tal modo que do começo não discrepe o meio, nem do meio, o fim”). Preceitua aqui, portanto, que as partes sejam congruentes entre si, sem agora explicitar a unidade do todo. Como apresentam os comentadores das passagens citadas acima, Horácio parece depender aqui de Aristóteles (Poética, caps. 7, 8 e 23), direta ou indiretamente – não há evidências, incrédulo leitor, da circulação da Poética entre os romanos –, e do Sócrates de Platão (Fedro, 264c), ao criticar o discurso de Lísias:

(…) δεῖν πάντα λόγον ὥσπερ ζῷον συνεστάναι σῶμα τι ἔχοντα αὐτόν αὑτοῦ, ὥστε μήτε ἀκέφαλον εἶναι μήτε ἄπουν, ἀλλά μέσα τε ἔχειν καί ἄκρα, πρέποντα ἀλλήλοις καί τῷ ὅλῳ γεγραμμένα

“todo discurso deve ser organizado como um ser vivo, tendo ele mesmo uma espécie de corpo, de modo a não ser desprovido de pé, nem de cabeça, mas ter partes médias e finais, escritas adequando-se umas às outras e também ao todo”. (trad. Maria Cecília Gomes dos Reis)

Aristóteles, na verdade, no cap. 7 (1450b-1451a) da Poética, também fala, ao tratar do mito trágico, do todo, que é constituído de partes (princípio, meio e fim) – partes que se sucedam por necessidade. Assim, o mito trágico deve constituir um todo, não começando nem terminando ao acaso, que tenha certa grandeza. Além disso, o belo não só está nas partes ordenadas, mas também na grandeza do todo, complementa o filósofo, que, por fim, compara ainda o mito a um ser vivo. Bem parece, portanto, que Horácio tenha em mente Platão e Aristóteles, embora a formulação nec pes nec caput (v. 8: “nem pé nem cabeça”) já apareça proverbialmente entre os latinos antes de Horácio para falar da incongruência da fala ou do texto: Plauto, em duas comédias (Asinaria 729; Captivi 614), e Cícero, nas Epístolas aos familiares (7. 31. 2). Assim, nossa expressão (“sem pé nem cabeça”) parece ter sua origem lá nos antigos, mas seu uso não tem fim!

Talvez seja no cap. 8 (1451a) da Poética de Aristóteles, em que preceitua a unidade de ação (πρᾶξις), opondo o modelar Homero a outros poetas, que compuseram uma Heracleida ou uma Teseida, que tenhamos – não evidência, cuidadoso e fiel leitor – um sinal de que Horácio teve acesso ao texto. É possível, porém, como preferem outros, que o preceito tenha chegado por via indireta, por algum peripatético, como Neoptólemo de Pário. Enfim, diz o filósofo grego que o mito (μῦθος: “trama”; “enredo”) é uno não por ser de uma única personagem, como Héracles ou Teseu, mas por ser em torno de uma única ação, como fez Homero na Odisseia, seja por arte, seja por natureza. Esses poetas, autores de obras sem unidade, anônimos aqui, serão chamados cíclicos, como aparece, por exemplo, no epigrama de Calímaco (28 Pf. = Antologia Palatina 12.43), em que, defensor do diminuto, da brevidade, vitupera o longo “poema cíclico” (vv.1-2: ἐχθαίρω τὸ ποίημα τὸ κυκλικόν, οὐδὲ κελεύθῳ / χαίρω, τις πολλοὺς ὧδε καὶ ὧδε φέρει: “detesto o poema cíclico, nem me agrada / a estrada que leva muitos pra cá e pra lá”). Notamos, antes de passar ao esperado trecho de Horácio, persistente leitor, que o poeta helenístico usa “poema” (ποίημα) para tratar de obra longa – longuíssima –, do todo, não observando a distinção que relatamos acima entre poema e poesia. Ademais, “cíclico” (κυκλικόν) carrega ambiguidade, pois significa também “comum”, ou seja, o poema praticado e apreciado por muitos, a que Calímaco se contrapõe também nos Aitia (fr. 1. 27-28 Pf.). Horácio, então, como Aristóteles, opõe o escritor cíclico a Homero, ao tratar de novo da congruência das partes e unidade do todo, na passagem em que aparece o provérbio que dá título ao nosso texto (ars vv. 136-142):

nec sic incipies, ut scriptor cyclicus olim:
‘fortunam Priami cantabo et nobile bellum.’
quid dignum tanto feret hic promissor hiatu?
parturient montes, nascetur ridiculus mus.
quanto rectius hic, qui nil molitur inepte:
‘dic mihi, Musa, uirum, captae post tempora Troiae
qui mores hominum multorum uidit et urbes.’

Nem começarás assim, como outrora o escritor cíclico:
“Cantarei a fortuna de Príamo e a nobre guerra.”
O que, digno de tão grande boca, produzirá este prometedor?
Parirão os montes, nascerá um ridículo rato.
Quanto mais corretamente aquele que nada constrói de modo inepto:
“Fala-me, Musa, do varão, depois dos tempos da captura de Troia,
que viu os costumes e as cidades de muitos homens.”

É evidente, parece-nos, que Horácio no trecho acima, como repetem os comentários, não só retoma preceito aristotélico, mas também alude a Calímaco, elocutivamente, ao mencionar o “escritor cíclico” (v. 136: scriptor cyclicus). A presença calimaquiana é corroborada por passagem anterior (vv. 131-132), quando Horácio diz como tornar “matéria comum” (131: publica materies), argumento que pertence a todos, própria do poeta (131: privati iuris): isso conseguirá, se ele não se detiver no caminho comum e aberto a todos (vv. 131-132: … si / non circa vilem patulumque moraberis orbem: “se / não te detiveres à volta do lugar comum e aberto [a todos]”). Ora, como assinalam comentadores modernos e antigos (cf. Ps-Acrão ad loc.), orbis (“círculo”; “região”) é equivalente ao grego κύκλος. Daí, Horácio não só fala do “lugar comum e aberto a todos”, a estrada ampla e que carrega muitos em Calímaco, mas também já anuncia aqui os poetas cíclicos. Enfim, parece retomar a elocução calimaquiana muito de perto, reproduzindo, de modo semelhante, a ambiguidade que temos no “cíclico” (κυκλικόν) do epigrama.

Horácio trata, como dissemos, de parte (início) que não se adequa ao todo. Assim, não se deve começar (incipies; cf. v. 14: inceptis gravibus plerumque magna professis: “aos começos graves, o mais das vezes, e que prometem grandes coisas”), prometendo todo o ciclo troiano, nem se inicia, dirá adiante (vv. 146-147), “o retorno de Diomedes pela morte de Meleagro, nem a guerra troiana pelo ovo duplo” (v. 147: geminoab ovo) – a expressão ab ovo torna-se proverbial para indicar as origens mais remotas de um assunto. Daí, como Homero, o poeta deve se apressar ao desenlace (v. 148: ad eventum festinat) e arrebatar o ouvinte para o meio dos acontecimentos (v. 148-149: … et in medias res / … auditorem rapit) – a expressão em negrito também se torna proverbial, citada aqui e ali de modo equivocado, para indicar a estratégia homérica, que se opõe ao começo da origem, invertendo a ordem cronológica da narrativa. Por fim, antes do último ponto, esperançoso leitor, o autor da epístola, mais do que mencionar Homero pelo nome, faz perífrase e traduz, não palavra por palavra (verbum ad verbum) como fiel tradutor (vv. 133-134: fidus interpres), o célebre começo da Odisseia, condensando os três versos iniciais gregos em dois hexâmetros latinos (vv. 141-142), assunto que deixamos para outra oportunidade. Já o verso do poeta cíclico (v. 137), embora identificado por Ps-Acrão (ad loc.) como pertencente a poeta chamado Antímaco, não é possível, com o que dispomos hoje, saber de quem é, pois não corresponde a nada que nos chegou. 

Por fim – sim, apressemo-nos à conclusão, gentil leitor… leitor, ainda está aí? –, finalmente, dizíamos, Horácio, a reprovar o escritor cíclico e rir dele, menciona o famoso provérbio com que iniciamos esse texto (v. 139): parturient montes, nascetur ridiculus mus (“parirão os montes, nascerá um ridículo rato”). A variação com o presente (parturiunt), transmitida por alguns códices secundários, pode derivar da citação que Jerônimo (Adversus Iovinianum 1. 238) faz com tal alteração, gerando também variações medievais com o verbo no presente. Porém, tanto Porfirião como Ps.-Acrão, ao comentarem o verso, apresentam-no com o verbo no futuro, assim como Sérvio Honorato, gramático do séc. IV/V d.C., no comentário à Eneida (8.83: …viridique in litore conspicitur sus: “no verde litoral é vista uma porca”), chamando a atenção para o monossílabo em final de verso, lembra o hexâmetro horaciano também com monossílabo nesta posição. O fato já chamara a atenção de Quintiliano (Inst. 8.3.20), mas o retor latino repara, não em verso da Eneida, mas em um das Geórgicas (1.181: … saepe exiguus mus: “muita vez o pequenino rato”). O uso é realmente raro em Virgílio: por exemplo, até o v. 476 do livro 8, mesma extensão da Arte Poética, encontramos a prática em quatro oportunidades (vv. 43, 71, 83, 400); porém, sem ultrapassar a metade da epístola (v. 152), há, pelo menos, 11 monossílabos em final de verso. Não vamos aqui comentar a particularidade de cada uso, mas para atenuar o monossílabo nesta posição, antepunha-se-lhe outro monossílabo ou um dissílabo. Daí, os exemplos de Virgílio assinalados serem vistosos. Assim, Quintiliano, pela raridade do polissílabo antecedendo o monossílabo em fim de verso, julga que Horácio no v. 139 imita o Virgílio geórgico (imitatus est). O fato métrico, portanto, em Horácio, ressalta a grandeza anunciada em desproporção à pequenez gerada. Ademais, o andamento espondaico, com três polissílabos no verso (parturient, nascetur e ridiculus) dão a impressão do anúncio inchado de quem, como o escritor cíclico, se propõe a cantar toda a guerra de Troia, mas gera ridículo rato. O provérbio provavelmente estava em fábula de tradição esópica, como é possível deduzir de Fedro (4. 24) e do comentário de Porfirião à mesma passagem horaciana, que cita o provérbio em grego: ὤδινεν ὄρος […] ἔτεκεν μῦν (“a montanha paria […], nasceu um rato”), encontrado com variação em Ateneu (14, 616d). Plutarco também alude ao provérbio na Vida de Agesilau (36. 9): narra o autor que os egípcios, quando foram prestar homenagem ao homem poderoso, julgaram-no bem diverso do que se dizia e exclamaram que a montanha tinha parido um rato. Assim, parece claro que a citação com o presente não vem direto de Horácio, meu justo e incansável leitor!

Esperemos também nós não ter prometido muito e gerado um ridículo rato! A citação, por vezes, pode se voltar contra nós mesmos. Lembramos, por fim, os códices medievais da Arte Poética, que trazem, em geral, na letra capitular a ilustração do monstro descrito logo no início do texto (vv. 1-4): o rosto de bela mulher, a que se junta o pescoço de um cavalo, em um corpo com variadas penas, finalizado por um peixe negro. Nada mais impróprio, já que Horácio considerava pintura viciosa! De acordo com o próprio autor, mais do que ornar, o ilustrador produziu ridícula imagem. Tomemos esse cuidado para que não sejamos pegos pelo próprio texto que citamos. Enfim, benevolente amigo, continuaremos no próximo texto da série a tratar da Epístola aos Pisões, retomando a pintura monstruosa para falar da construção dos versos de Horácio, que muito assombraram os leitores. Vale!

Para Saber Mais:

Antes dos textos, gostaria de agradecer meus amigos, críticos e incansáveis leitores. Cervantes tinha os seus, eu tenho os meus! Artur Costrino, Cecilia Marcela Ugartemendía, Eduardo Henrik Aubert e Giselle Carvalho, que leram, sugeriram e corrigiram esse texto, adentrando, não meu gabinete, mas o computador, com variadas mensagens, gentis e inteligentes! Os erros que permanecem são inteiramente de minha responsabilidade; os poucos acertos atribuamos à longa tradição de comentários à obra horaciana.

O tamanho da bibliografia não só da Arte Poética, mas de toda obra horaciana, como se sabe, é equivalente a um poema cíclico, infindável! Para a consulta, indicamos a homepage pessoal do filólogo alemão Niklas Holzberg, que organiza as publicações sobre Horácio até 2017. Faltam alguns textos obviamente, mas muito pouco. Um trabalho realmente útil (link aqui).

Dos comentários, destacamos: além do volume I, já mencionado no corpo do texto, o mais completo e muito minucioso comentário de C. O. Brink, Horace on Poetry. The ‘Ars Poetica’, Cambridge, 1971; o mais breve para a coleção Cambridge Greek and Latin Classics, de Nial Rudd, Horace. Epistles Book II and Epistle to the Pisones (‘Ars Poetica’), Cambridge, 1989, pp. 19-37; 150-229; outro robusto comentário é o de Paolo Fedeli, Q. Orazio Flacco. Le Opere, II.4: Le Satire. Le Epistole. L’Arte Poetica, Roma, 1997, pp. 1459-1613; mais breve, mas ainda útil o de Augusto Rostagni, Arte poetica di Orazio. Introduzione e commento, Torino: 1930. Sobre Neoptólemo de Pário, dois artigos apenas: o fundamental de Hans Joachim Mette, “Neoptolemos von Parion”, Rheinisches Museum für Philologie, 123, 1980, pp. 1-24; Elizabeth Asmis, “Neoptolemus and the Classification of Poetry”, Classical Philology, 87, 1992, pp. 206-231. Sobre Filodemo de Gádara, ver a bibliografia organizada e comentada por Annick Monet, no site da Bibliothèque des Sciences de l’Antiquité (Université Lille 3) (link aqui).

Para o livro 5 do Sobre os poemas, mencionamos: Christian Jensen, Philodemos über die Gedichte fünftes Buch, griechischer Text mit Übersetzung und Erläuterung, Berlin, 1923; Cecilia Mangoni, Il quinto libro della Poetica (PHerc. 1425 e 1538), Edizione, traduzione e commento, “La scuola di Epicuro”, 14, Napoli, 1993; tradução inglesa de David Armstrong, “Philodemus, On Poems Book 5 translated from the edition of Mangoni”, in Dirk Obbink (ed.), Philodemus and poetry. Poetic theory and practice in Lucretius, Philodemus and Horace, New York / Oxford 1995, p. 255-269. Sobre a divisão da Arte Poética e os termos poema e poesis, Anthos ArdizzoniΠΟΙΗΜΑ. Ricerche sulla teoria del linguaggio poetico nell’ antichità, Bari, 1953; Eduard Norden, “Die Composition und Litteraturgattung der horazischen Epistula ad Pisones”, Hermes 40, 1905, pp. 481-528; Marcos Martinho dos Santos, “O monstrum da Arte Poética de Horácio”, Letras Clássicas 4, 2000, pp. 191-265, melhor texto em português sobre a Epístola aos Pisões, em que o autor propõe haver na primeira parte, prólogo e passo subsequente (vv. 1-118), tratamento de poíesis e poíema; Nathan A. Greenberg, “The Use of Poiema and Poiesis”, 65, 1961, pp. 263-289. Evidentemente, esses aspectos também são tratados nos comentários mencionados acima. Sobre a Villa dei Papiri, ver Tiziano Dorandi, “La Villa dei Papiri a Ercolano e la sua Biblioteca”, Classical Philology, 90, 1995, pp. 168-182. Sobre a iconografia nos códices da ars, o belo artigo de Claudia Villa, “Ut poesis pictura. Appunti iconografici sui codici dell’Ars poetica”, Aevum 62, 1988, pp. 186-197. Tratando de diversas questões, remetemos ao volume da revista italiana Materiali e discussioni per l’analisi dei testi classici, dedicado somente à Arte Poética: Attila Ferenczi and Philip R. Hardie (eds.): New Approaches to Horace’s Ars poetica, MD 72, 2014. Para ler em português o texto da epístola, citamos novamente a tradução de R. M. Rosado Fernandes, em Horácio. Arte Poética, Lisboa, 2012, 4ª. Revista e Ampliada, em que também informa e comenta outras traduções em Portugal (pp. 34-41). No entanto, tal edição, com notas e boa introdução, traz infelizmente inúmeros erros no texto latino, p. ex.: v. 14: ete por et; v. 16: adsuitar por adsuitur; v. 32: cinca por circa; v. 51: dabitorque por dabiturque; v. 56: com por cum e Catanis por Catonis; v. 68: melins por melius; v. 76: iclusa por inclusa; v. 85: libena por libera; v. 95: plerrunque por plerumque; v. 157: dantus por dandus; v. 161: imberbus por imberbis e custo de por custode; v. 174: casligator por castigator; v. 178: sempre por semper, entre outros. Embora a introdução e os comentários sejam, por vezes, anacrônicos e, a nosso ver, equivocados, a tradução de Dante Tringali em A Arte Poética de Horácio, São Paulo, 1993, é correta. Temos grande apreço por essa edição, pois nos levou a querer estudar latim para poder ler o texto original. Para os leitores do italiano, há bela tradução poética de Giacomo Leopardi. Para as edições dos dois escoliastas citados, Porfirião e Pseudo-Acrão ao longo do texto: a de Otto Keller, Pseudacronis Scholia in Horatium Vetustiora, vol. II, Stuttgart, 1967, e Alfred Holder, Pomponi Porfyrionis. Commentum in Horatium Flaccum, New York (1894, repr. 1979). Por fim, mencionamos o estudo, que teve pouca fortuna, de Pierre Grimal, Essai sur l’Art Poétique d’Horace, Paris, 1968, em que propõe dividir a epístola de acordo com as quatro causas aristotélicas: a formal, vv. 1-45 (pp. 55-77); a material, vv. 46-118 (pp. 79-132); a final, vv. 119-294 (pp. 133-212); a eficiente, vv. 295-476 (pp. 213-225), resultando em seções áureas, quando se estabelecem razões entre as partes e as partes e o todo (ver “Apêndice I”, pp. 227-228).

Alexandre Pinheiro Hasegawa

Alexandre Pinheiro Hasegawa é professor de Língua e Literatura Latinas na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP).