A Peste no De rerum natura (6.1138-286) de Lucrécio (III)

por Alexandre Pinheiro Hasegawa

Parte 1

Parte 2

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Ὁ βίος βραχύς, ἡ δὲ τὲχνη μακρὴ, ὁ δὲ καιρὸς ὀξὺς, ἡ δὲ πεῖρα σφαλερὴ, ἡ δὲ κρίσις χαλεπή

(‘A vida é breve, a arte é longa, a oportunidade é fugaz, o experimento é incerto, o julgamento é difícil’)

Hipócrates, Aforismos, 1

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Hippocrate refusant les présents d’Artaxerxès, de Girodet

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A descrição dos sinais da morte no DRN de Lucrécio, que veremos hoje na continuação da série aqui no Estado da Arte, não segue Tucídides, como apontam os vários comentários, mas o Corpus Hippocraticum, conjunto de textos atribuídos a Hipócrates de Cós (séc. V a.C.). Assim, alguns dos modelos do poeta latino são autores de prosa, em gêneros variados. O modo, porém, como Lucrécio descreve os sintomas é muito característico, embora não exclusivo, da chamada poesia didática: a forma catalogal. Se já na Ilíada de Homero, logo no segundo canto, há o imenso e famoso Catálogo das Naus, o elenco de nomes, porém, será sobretudo associado à poesia de Hesíodo, como ocorre na Teogonia e nos Trabalhos e dias. Não sem razão a Antiguidade atribuiu-lhe também o chamado Catálogo das Mulheres. Daí possivelmente vem o juízo de Quintiliano (10.1.52), que diz ser grande parte da obra dele ocupada por nomes (magnaque pars eius in nominibus est occupata). O mesmo Quintiliano (10.1.55), ao descrever a obra de Arato de Solos (séc. IV/III a.C.), autor de Fenômenos, poema de matéria astronômica, modelo da épica didática, diz ser a matéria dos versos sem movimento, em que não há variedade, emoções, caracteres ou discursos (Arati materia motu caret, ut in qua nulla varietas, nullus adfectus, nulla persona, nulla cuiusquam sit oratio). Embora boa parte da matéria do DRN possa ser descrita dessa maneira, o catálogo dos sintomas da morte está carregado de páthos. Não são, assim, um longo elenco de nomes, aproximando-se, por sua vez, mais das descrições dos efeitos do amor no amante, semelhantes aos de uma doença, como ocorre em Catulo 51.9-12, em célebre imitação de Safo 31 V.:

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lingua sed torpet, tenuis sub artus

flamma demanat, sonitu suopte

tintinant aures, gemina teguntur

…………lumina nocte.

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a língua, porém, entorpece, tênue sob os membros

                        emana a chama, com o próprio zumbido

                        tilintam os ouvidos, cobrem-se as luzes

…………pela gêmea noite.

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Continuamos a fazer a leitura detalhada das pequenas partes. Neste início, porém, convém fazer ainda mais uma observação sobre o trabalho com os textos antigos. Lidar com os textos gregos e latinos não é, o mais das vezes, tarefa fácil. A edição de um texto requer estudos específicos e muito cuidado. Já os filólogos da Biblioteca de Alexandria enfrentavam tais dificuldades nas edições que fizeram de Homero, Safo e Alceu, por exemplo. Ao confrontar alguns manuscritos de que dispunham, encontravam textos diversos. Qual seria, então, a real escolha de Safo? O editor precisava escolher uma lição entre as existentes. Aqui e ali, optava por alguma que não estava presente em nenhum manuscrito por julgar que todas estavam erradas. Um editor moderno enfrenta, por vezes, o mesmo problema. Os manuscritos – a maioria datando da época medieval; não temos autógrafos dos autores gregos e latinos – apresentam divergências, partes corrompidas, erros causados por vários motivos. Os escribas, a quem devemos as cópias medievais, podiam, como é evidente, errar, pulando versos, trocando palavras ou sílabas, errando a ortografia, incorporando anotações marginais ao texto etc. Identificado um problema ou divergências, o editor tem de escolher uma das lições e, por vezes, propõe conjecturas às partes que faltam ou (supostamente) equivocadas.

Sem entrar em detalhes muito técnicos, não sabemos se o DRN foi editado pelo próprio Lucrécio ou por outra pessoa. Não se conhecem autógrafos dos autores latinos que no séc. I a.C. circulavam em rolos de papiro, os voluminavolumen, no singular, que obviamente dá origem a ‘volume’. Os manuscritos mais antigos do texto completo datam do séc. IX d.C. e os dois principais códices recebem, em razão de seus formatos, os seguintes nomes: Oblongus (O) e Quadratus (Q), supostamente derivados de um arquétipo (Ω) talvez do séc. VIII d.C. O texto de Lucrécio foi redescoberto no Renascimento por Poggio Bracciolini, em 1417, manuscrito hoje perdido [P], sobrevivendo apenas uma cópia desse feita por Niccolò Niccoli, preservada na Biblioteca Medicea Laurenziana de Florença (L), da qual descendem várias outras cópias. Assim, um editor moderno, confrontando os vários manuscritos, encontra divergências e problemas, informados no chamado aparato crítico, em que o editor anota lições divergentes nos manuscritos consultados e, por vezes, as conjecturas para os lugares problemáticos. Um caso particularmente difícil no DRN é 6.1195: duraque, in ore iacens rictum, frons tenta tumebat, assim editado por Bailey, texto que em geral adotamos para comentar. Para esse verso, porém, seguimos lição diversa. Giussani, autor de um dos comentários citados em nosso primeiro texto, edita assim: duraque, inhorrescens rictum, frons tenta tumebat, seguindo Karl Lachmann, importante filólogo do séc. XIX, que deu origem ao chamado método lachmanniano de crítica textual. Por sua vez, Munro, cuja edição mencionamos também em texto passado, propõe: in ore trucei. Há outras conjecturas, mas, em nosso entendimento, a mais convincente conjectura é a de Deufert: molle patens rictum, na edição mais recente do DRN (ver abaixo em ‘Para Saber Mais’). Enfim, os problemas que envolvem a edição de um texto não são poucos, exigindo sempre muito estudo e pesquisa.

A história da descoberta do manuscrito por Poggio Bracciolini é recontada por Stephen Greenblatt em seu premiado best-seller The Swerve: How the World Became Modern (New York: W. W. Norton & Co., 2011), publicado no Brasil em 2012 com o título A Virada: O Nascimento do Mundo Moderno (São Paulo: Companhia das Letras, tradução de Caetano Waldrigues Galindo). O livro, vencedor do Pulitzer Prize na categoria Non-Fiction (2012) e do National Book Award na mesma categoria (2011), propõe a tese de que tal descoberta, o manuscrito do DRN de Lucrécio, mudou o curso da história humana, tendo influenciado Botticelli, Einstein, Darwin, Galileu, Montaigne, Shakespeare, entre outros. Voltaremos a essa obra em futura publicação.

Leiamos os trechos!

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Lucrécio 6.1182-1189: A Peste (1.7)

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mūltăquĕ praētĕrĕā || mōrtīs tūm sīgnă dăbāntŭr,

pērtūrbāt(a) ănĭmī || mēns īn maērōrĕ mĕtūquĕ,

trīstĕ sŭpērcĭlĭūm, || fŭrĭōsūs vūltŭs ĕt ācĕr,

sōllĭcĭtaē pōrrō || plēnaēquĕ sŏnōrĭbŭs aūrēs,…………………………………………1185

crēbēr spīrĭtŭs aūt || īngēns rārōquĕ cŏōrtŭs,

sūdōrīsquĕ mădēns || pēr cōllūm splēndĭdŭs ūmŏr,

tēnŭiă spūtă mĭnūtă, || crŏcī cōntāctă cŏlōrĕ

sālsăquĕ, pēr faūcēs || raūcā vīx ēdĭtă tūssī.

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E ademais muitos sinais de morte, então, eram dados:

a mente do espírito, perturbada em amargura e medo,

a sobrancelha sombria, o rosto furioso e agressivo,

também os ouvidos, agitados e plenos de barulhos,…………………………………1185

a respiração ofegante ou profunda, esparsamente crescendo,

e o líquido brilhante de suor escorrendo pelo pescoço,

o tênue escarro, diminuto, contaminado por crócea cor,

e salgado, com dificuldade expelido pela garganta por rouca tosse.

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Logo no início é perceptível a forte aliteração em /m/ nos dois primeiros versos: MultaqueMortis … / … MensMaerore Metuque. Junta-se ainda na forte sequência do segundo verso, o –mi de animi em posição de destaque, logo antes da cesura e sílaba forte pela posição (animí). Como dissemos já, é recurso frequente em Lucrécio e, sem dúvida, imprime na elocução característica pela qual se distinguem os versos de Ênio, como o célebre verso dos Anais (104 Skutsch): o Tite tute Tati tibi tanta tyranne tulisti (‘ó Tito Tácio, tirano, tu mesmo suportaste tanto’). Tal aliteração, porém, foi vista como excessiva e o verso é apresentado como vicioso na Retórica a Herênio (4.18). Citemos mais outro verso de Ênio, o onomatopaico (451 Skutsch): at tuba terribili sonitu taratantara dixit (‘e a trombeta, com terrível som, disse “taratantara”’). A imitação que Virgílio faz desse verso na Eneida (9.503) elimina a palavra onomatopaica taratantara, tornando a aliteração mais suave: at tuba terribilem sonitum procul aere canoro (‘e a trombeta [ressoou] ao longe terrível som pelo bronze melodioso’). Parece significativa a substituição da palavra onomatopaica pelo ‘bronze melodioso’ (aere canoro), em possível crítica à repetição excessiva de /t/, percebida como viciosa, como julgará Quintiliano. Lucrécio recorre bastante à aliteração e há alguns versos muito enianos, como o famoso DRN 4.1071: VolgiVagaque Vagus Venere ante recentia cures (‘e, vadio com a vagueante Vênus, cures [as feridas] ainda recentes’). Ainda nesta passagem temos o verso 1188 com aliteração de /c/ toda concentrada na segunda parte: tenuia sputa minuta, CroCi ContaCta Colore. O ornato ainda foi muito usado em prosa, por exemplo, por Górgias (séc. V/IV a.C.), que no Encômio a Helena (9) diz: δεῖ δὲ καὶ δόξῃ δεῖξαι τοῖς ἀκούουσι (‘é preciso, porém, que eu demonstre à opinião dos ouvintes’), ou no Agamêmnon de Ésquilo (268), que deve ser lido com o comentário de Fraenkel (1950 ad loc.): πῶς φῄς; πέφευγε τοὔπος ἐξ ἀπιστίας (‘o que estás dizendo? Escapou-me tua palavra por ser inacreditável’). Assim, alguns autores usam mais, outros menos, e é uma forma de distinguir a elocução de um poeta ou orador. Algumas dessas figuras são chamadas ‘gorgiânicas’ pelo emprego assíduo do orador grego mencionado logo acima. Lucrécio faz uso frequente da figura, como temos notado.

Outra figura que explora o som das palavras é o homeoteleuto, em que duas ou mais palavras próximas têm identidade fonética nas terminações, como no v. 1188: … spUTA minUTA, que pode mimetizar o som dos diminutos escarros expelidos pela rouca tosse; som ecoado em conTAcTA, no mesmo verso, e ediTA, no seguinte. Encontra-se também homeoteleuto no verso 1185: sollicitAEplenAEque, apesar da partícula enclítica –que acrescida no adjetivo plenae. Um indício para o uso significativo de tais figuras é a presença da palavra ‘som’ (sonitus ou sonor). Vejam, por exemplo, citados acima: sonitu em Catulo 51.10 e Ênio (451 Skutsch); sonitum em Virgílio, Eneida 9.503, e sonoribus em Lucrécio 1185. Nesta investigação, por exemplo, se descobre que o terribili sonitu de Ênio, antes da imitação de Virgílio mencionada acima, já tinha encontrado eco no DRN 6.155: terribili sonitu flamma crepitante crematur (‘com terrível som, queima-se em chama crepitante’), em que a aliteração parece mimetizar os estalos da chama (cre– … cre– …). Tal aliteração, por sua vez, sonoramente memorável, será de novo imitada por Virgílio com dupla aliteração na Eneida (7.74): atque omnem ornatum flamma crepitante cremari (‘e todo o ornato queimar-se em chama crepitante’). Os exemplos são vários, mas o que importa aqui, primeiramente, é perceber como tal ferramenta é indispensável para a leitura e caracterização desses poetas ou oradores, como tal investigação também pode revelar imitações que um poeta faz do outro, algumas ainda não presentes nos melhores comentários.

A descrição é ágil com cada sintoma ocupando um verso, com exceção dos últimos dois versos: o estado da mente (1183), a expressão do rosto (1184), os sons no ouvido (1185), a dificuldade da respiração (1186), o líquido pelo pescoço (1187) e o escarro expelido pela tosse (1188-9). A rapidez da descrição, associada ao acúmulo de sintomas, pinta vívida imagem (ἐνάργεια: ‘enargia’) da aproximação da morte. Para a enargia como qualidade da descrição, capacidade que poeta ou orador tem de fazer o ouvinte ou leitor de ‘ver’ o que se descreve, remetemos a Quintiliano (8.3.61-71), que a coloca entre os ornamentos e divide em três tipos. A discussão sobre tal ornamento requer muito mais espaço do que dispomos aqui. Mais referências sobre o assunto faremos na seção ‘Para Saber Mais’, logo depois do fim dos comentários.

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Manuscrito do DRN no acervo da biblioteca da Universidade de Cambridge (Wikimedia Commons)

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Lucrécio 6.1190-1198: A Peste (1.8)

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īn mănĭbūs || vērō nērvī || trăhĕr(e) ēt trĕmĕr(e) ārtūs………………………..1190

ā pĕdĭbūsquĕ mĭnūtātīm || sūccēdĕrĕ frīgŭs

nōn dŭbĭtābăt. ĭtem ād || sūprēmūm dēnĭquĕ tēmpŭs

cōmprēssaē nārēs, || nāsī prīmōrĭs ăcūmĕn

tēnuĕ, căvāt(i) ŏcŭlī, || căvă tēmpŏră, frīgĭdă pēllĭs

dūrăqu(e), mōllĕ pătēns || rīctūm, frōns tēntă tŭmēbăt.………………………….1195

nēc nĭmĭō rĭgĭdā || pōst ārtūs mōrtĕ iăcēbānt.

ōctāvōquĕ fĕrē || cāndēntī lūmĭnĕ sōlĭs

aūt ĕtĭām nōnā || rēddēbānt lāmpădĕ vītăm.

…..

Contraíam-se os nervos nas mãos, e os membros tremiam,…………………….1190

e dos pés um frio não hesitava em subir, passo

por passo. Então, por fim, no último momento,

as narinas comprimidas, a tênue extremidade da ponta

do nariz, os olhos cavados, as cavas têmporas, a pele fria

e dura, a boca aberta, pendente, a fronte permanecia tensa.…………………..1195

E não muito depois os membros jaziam em rígida morte.

E, geralmente, na oitava luz candente do sol

ou ainda na nona lucerna entregavam a vida.

………..

Os sintomas do último momento (1193-4) são muito próximos à descrição que se faz no Corpus Hipprocraticum, não encontrando paralelo em Tucídides. Assim se diz no texto atribuído a Hipócrates (Prognóstico 2): ῥὶς ὀξεῖα, ὀφθαλμοὶ κοῖλοι, κρόταφοι συμπεπτωκότες (‘o nariz afilado, os olhos cavados, as têmporas afundadas’). Primeiramente, a sequência das partes descritas (nariz, olhos e têmporas) é exatamente a mesma; a caracterização é também muito semelhante, com exceção do nariz. A caracterização da boca, aberta e pendente (1195: ‘a boca aberta, pendente’), trecho comentado na introdução e que parece corrompido, encontra paralelo no mesmo texto hipocrático (Prognóstico 2), caso a conjectura esteja correta: θανατῶδες δὲ καὶ χείλεα ἀπολυόμενα καὶ κρεμάμενα καὶ ψυχρὰ καὶ ἔκλευκα γινόμενα (‘É também sinal da morte quando os lábios estão abertos, pendentes, frios e brancos’). Aliás, são tais paralelos que, por vezes, ajudam a realizar boas conjecturas para textos corrompidos ou supostamente corrompidos. Deufert, que seguimos neste verso, encontra paralelos para patens rictum (e.g.: Prud. perist. 10.906: patente rictu) e um paralelo interno para molle rictum (5.1064: mollia ricta fremunt duros nudantia dentes).

A repetição, no verso 1190, da littera canina (‘letra canina’), /r/ – assim chamada pelos romanos, pois na percepção deles soava como o rosnar do cão –, parece imitar o tremor dos membros: … veRo neRvi tRaheRe et tRemeRe aRtus. Talvez uma associação entre o som canino e o tremer possa ser vista (ou escutada?) em verso de Juvenal (5.11): et tRemeRe et soRdes faRRis moRdeRe canini? (‘e tremer e morder a sujeira da comida canina?’). O som áspero e trepidante também pode ser percebido em outra passagem de DRN, quando o poeta descreve membros cortados em batalha e que são vistos tremer em terra (3.644: ut tRemeRe in teRRa videatuR ab aRtubus id quod: ‘que é visto tremer na terra o que [cortado] dos membros’). A repetição excessiva da mesma letra também se encontra entre os gregos. Um exemplo sempre lembrado e já parodiado na Antiguidade é o verso da Medeia (476) de Eurípides, com o acúmulo de sigmas, visto como vicioso por alguns autores: ἔσωσσ‘, ὡςσασιν Ἑλλήνων ὅσοι (‘eu te salvei como todos os helenos sabem’).

Paronomásia é outra figura muito frequente no DRN. A figura que explora a semelhança morfológica e fonética entre palavras de significados diversos foi bastante estudada no poema em associação com a analogia que Lucrécio faz entre os átomos (elementa), que formam o mundo, e as letras (elementa), que compõem as palavras. Entre as passagens em que o poeta faz tal analogia, explicando a teoria atomística (1.196-8, 814-29, 907-914, 2. 688-699, 1013-21), a terceira (1.907-914) exemplifica com as palavras ignis (‘fogo’) e lignum (‘madeira’).  O uso ficou conhecido modernamente como atomologia, uso que procura fazer o leitor ou ouvinte perceber como, com os mesmos elementos e pequenas mudanças, se forma uma coisa ou outra. Na passagem, a paronomásia ou adnominação pode ser vista no v. 1193, entre as palavras nares e nasi; no v.1194, entre cavati e cava, e nos vv. 1197-8, com lumine e lampade, as duas últimas palavras ocupando a mesma posição em versos sucessivos. Famosa paronomásia do DRN encontra-se na passagem em que fala do desejo sexual (4.1054 e 56): há evidente jogo de palavras entre amor (‘amor’) e umor (‘fluido’), repetida ainda em 4. 1065 e 66.

A luz no lugar do dia é tropo aqui repetido com variação: primeiro (1197), o poeta usa lumine solis (‘luz do sol’), luz natural, e depois (1198) fala de lampade (‘lucerna’), luz artificial. Os dois termos (lumine e lampade), como dissemos, ocupam a mesma posição no verso, penúltima palavra, formando todo o quinto pé. Além disso, o mesmo uso metonímico é reforçado pela paronomásia, anotada acima. A luz no DRN está associada também à vida, em contraposição à escuridão, que pode representar a morte. Luzes e trevas são imagens recorrentes no poema, como assinalamos em nosso primeiro texto para a série.

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(Wikimedia Commons)

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Lucrécio 6.1199-1204: A Peste (1.9)

quōrūm sīquĭs, ŭt ēst, || vītārāt fūnĕră lētī,

ūlcĕrĭbūs taētrīs || ēt nīgrā prōlŭvĭ(e) ālvī.………………………………………………1200

pōstĕrĭūs || tămĕn hūnc tābēs || lētūmquĕ mănēbăt,

aūt ĕtĭām || mūltūs căpĭtīs || cūm saēpĕ dŏlōrĕ

cōrrūptūs sānguīs || ēxplētīs nārĭbŭs ībăt:

hūc hŏmĭnīs || tōtaē vīrēs || cōrpūsquĕ flŭēbăt.

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Se algum desses, como ocorria, evitara os funerais da morte,

posteriormente, porém, aguardavam-no o definhamento e a morte

com tétricas úlceras e com negro fluxo das entranhas,

ou ainda, com dor de cabeça, muito sangue putrefato,

frequentemente, saía das narinas repletas;

para aí todas as forças e a substância do homem fluíam.

……..

Destaca-se no trecho, quanto à sonoridade, a repetição de –is em posição forte e antes da cesura: taetrIS (1200), capitIS (1202), sanguinIS (1203) e hominIS (1204). No verso 1203, em que os espondeus tornam o andamento mais lento e pesado, há ainda expletIS, reforçando a repetição, embora nesta posição a sílaba seja fraca. Nesse mesmo verso há muitas sibilantes, com o final –GUIS de sanguis em posição tônica, ecoado no verso seguinte por –IS, –ES e –US, sempre em posição forte, das palavras hominis, vires e corpus. Chama a atenção também a colocação dos três verbos no pretérito imperfeito do indicativo sempre em fim de verso, reforçando o homeoteleuto em –bat: maneBAT (1201), iBAT (1203) e flueBAT (1204), posição, aliás, frequente (ver os vv. 1182, 1195 e 1196). O primeiro e o último verbos (1201 e 1204) não só têm ainda a penúltima sílaba igual (-e), mas também são precedidos por substantivos com a partícula enclítica –que: letumque e corpusque.

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Lucrécio começa neste trecho a descrever aqueles que conseguem escapar da peste. A morte, enfim, chega para todos, mesmo aos sobreviventes. A vida é breve, e a peste pode abreviá-la, mas a arte eterniza, como faz aqui Lucrécio com seu poema. A oportunidade para agir no momento certo é fugaz, e o mal, então, se espalha, tomando conta de todo o corpo, não sendo, por vezes, mais possível salvá-lo. Nem sempre o experimento nos garante a cura, e a medicina pode não ter a solução imediata. Como vimos, ela, por vezes, balbucia, sobretudo quando não há investimento, não se valoriza a ciência, julgando-se tudo plano e superficial. Em tais situações, avaliar é difícil com tanta falsa informação e ignorância. A arte, porém, permanece; arte e ciências são luzes na escuridão da peste e da estupidez; pálida estupidez humana que não precisa de doença para matar.

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Manuscrito de De rerum natura, por Girolamo di Matteo de Tauris

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Agradeço a Eduardo Henrik Aubert, Giselle de Carvalho e Paulo Sérgio de Vasconcellos as correções e sugestões. Os erros que permanecem são de minha inteira responsabilidade.

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Para Saber Mais:

Sobre os manuscritos e transmissão textual do DRN, ver L. D. Reynolds in L. D. Reynolds (ed.), Texts and Transmission: a Survey of the Latin Classics, Oxford, 1983: 218-22; ver ainda D. Butterfield, “Some Problems in the Textand Transmission of Lucretius” e M. Deufert, “Overlooked Manuscript Evidence for Interpolations in Lucretius?: the Rubricated Lines”, ambos in R. Hunter e S. P. Oakley, Latin Literature and its Transmission: Papers in Honour of Michael Reeve, Cambridge, 2016: 22-53 e 68-87. Sobre o chamado método lachmanniano, usado pelo filólogo alemão, K. Lachmann (1793-1851), que o aplicou em sua edição de Lucrécio (Berlim, 1850), em busca, entre outras coisas, da reconstrução do arquétipo, ver S. Timpanaro, La genesi del metodo di Lachmann, Padova, 1985, em particular pp. 63-80. Sobre conjecturas, ver R. G. M. Nisbet, “How Textual Conjectures Are Made”, MD 26 (1991): 65-91. Sobre Hipócrates, com várias traduções do Corpus Hipprocaticum, ver a obra de H. F. Cairus e W. A. Ribeiro Jr., Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença, Rio de Janeiro (2005). Sobre Lucrécio e a arte médica, ver J. H. Phillips, “Lucretius on the Inefficacy of the Medical Art: 6. 1179 and 6. 1226-38”, Classical Philology 77 (1982): 233-5. Sobre enargia, ver G. Zanker, “Enargeia in the Ancient Criticism of Poetry”, RhM 124 (1981): pp. 297–311; H. F. Plett, Enargeia in Classical Antiquity and the Early Modern Age, Leiden and Boston, 2012; P. A. O’Connell, Enargeia, “Persuasion, and the Vividness Effect in Athenian Forensic Oratory”, Advances in the History of Rhetoric 20 (2017): 225-251, DOI: 10.1080/15362426.2017.1384766. Sobre paronomásia no DRN, ver J. M. Snyder, Puns and Poetry in Lucretius’ De Rerum Natura. Amsterdam, 1980. Para uma resenha deste livro e discussão da chamada atomologia, ver D. A. West, “Farewell Atomology”, Classical Review 32 (1982): 25-7. Para edições e comentários, ver o primeiro texto da série. Acrescentamos, porém, a referência à edição de M. Deufert: Kritischer Kommentar zu Lukrezens De rerum natura, Berlin and Boston, 2018. Para uma resenha do livro de S. Greenblatt, ver William Caferro, “The Swerve: How the World Became Modern by Greenblatt”, Modern Philology 111 (2014): E306-E308; ver ainda uma resenha mais polêmica de J. Monfasani para a Reviews in History (1283) com uma breve resposta do autor: https://reviews.history.ac.uk/review/1283. Data de acesso: 9 de junho de 2020.

Alexandre Pinheiro Hasegawa

Alexandre Pinheiro Hasegawa é professor de Língua e Literatura Latinas na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP).