A Peste no De rerum natura (6.1138-286) de Lucrécio (IV)

por Alexandre Pinheiro Hasegawa

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ὁ θάνατος οὐδὲν πρὸς ἡμᾶς

(“A morte não é nada para nós.”)

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Epicuro (Usener, 139.II)

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Dante encontra Epicuro no sexto círculo do Inferno, em ilustração de Gustave Doré

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Começo o texto de hoje retornando a uma discussão presente em um dos meus textos sobre Horácio (“A arte de ensinar a arte em Horácio”), em que retomei a distinção que Aristóteles propõe na Poética entre o historiador e o poeta (9 1451a-b). Antes de reler a passagem, convém ressaltar que, por mais que pareça uma obviedade, o que se apresenta em Aristóteles não é a visão dos antigos sobre poesia e história, mas apenas como o peripatético distinguia um gênero do outro. Aliás, o que é poesia para ele — como entende a μίμησις (mimesis) poética — não é como outros a entenderam, entendem ou entenderão. Releiamos o trecho na tradução de Eudoro de Souza, italicizado por mim:

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Pelas precedentes considerações se manifesta que não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o de representar o que poderia acontecer, quer dizer: o que é possível segundo a verossimilhança e a necessidade. Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso ou prosa (pois que bem poderiam ser postas em verso as obras de Heródoto, e nem por isso deixariam de ser história, se fossem em verso o que eram em prosa) — diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder.

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Ora, de acordo com tal perspectiva, Lucrécio não seria poeta na maior parte de sua obra, pois, ainda que escreva em hexâmetros datílicos, narra como as coisas são, nas partes da exposição da doutrina física. Ademais, no trecho que temos lido nesta série, o autor do Da natureza das coisas conta “as coisas que sucederam” em Atenas, imitando, sobretudo, o historiador Tucídides — para o trecho da peste no segundo livro da História da Guerra do Peloponeso (47.3 – 54.5), ver a tradução de Márcio Mauá Chaves Ferreira aqui no Estado da Arte. Contudo, parece não haver polêmica em considerar Lucrécio poeta, que, compondo versos, tudo tocou com a graça das Musas (1.933-4 = 4.8-9: … pango / carmina, musaeo contingens cuncta lepore), com o doce mel das Musas (1.947). Não faltará oportunidade para ver como se deu isso com os trechos apresentados hoje, em que a morte se faz ainda mais presente.

Na perspectiva de Samuel Taylor Coleridge, porém, talvez Lucrécio esteja naquele seleto grupo dos grandes poetas, ao julgar que no man was ever yet a great poet, without being at the same time a profound philosopher (Biographia Literaria 15.4). Certamente, o melhor é considerar Lucrécio de acordo com Lucrécio que, seguramente, se insere na tradição poética, grega e latina, dizendo compor carmina (“poemas”; “versos”), tocando tudo com a graça das Musas. Assim, mesmo quando narra o que aconteceu, não passa a ser historiador. Os versos do sublime Lucrécio — tomo de empréstimo a descrição de Ovídio (Amores 1.15.23-24) — serão modelares para a vindoura geração de poetas; versos que hão de perecer somente quando um único dia entregar o mundo à destruição. Assim, de acordo com Paulo Sérgio de Vasconcellos, se o poema lucreciano se apresenta sutilmente como microcosmo que reflete o macrocosmo, o engenhoso Ovídio celebra o predecessor em seus próprios termos: o poema é como o universo descrito por Lucrécio, eterno enquanto dure.

Coleridge

Quando, porém, este dia chegar, é bem provável que a pálida Morte já terá batido à nossa porta com seu pé imparcial. Sim, inevitavelmente nossa partida de xadrez contra ela conhecerá seu fim. E o que é a morte que tanto nos assusta? Epicuro, em uma de suas Máximas Principais (Usener 139. II), dirá: “a morte não é nada para nós, pois o que se dissolveu em seus elementos está sem percepção, e o que está sem percepção não é nada para nós” (ὁ θάνατος οὐδὲν πρὸς ἡμᾶς· τὸ γὰρ διαλυθὲν ἀναισθητεῖ· τὸ δ᾿ ἀναισθητοῦν οὐδὲν πρὸς ἡμᾶς). A máxima, inserida nesta recolha provavelmente produzida por discípulo, é a lição que Lucrécio quer ensinar. Qual o remédio para a morte, que nos empalidece, pintada em tenebrosas cores, como no relato da peste? E, sobretudo, qual o remédio para o medo da morte? O epicurismo. A morte nada é. O relato vai se dirigindo ao seu fim e as mortes, como verá o leitor, se acumulam na vívida descrição lucreciana, que, por vezes, segue de perto Tucídides.

O Sétimo Selo (Reprodução)

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Antes de passar à leitura mais detalhada dos trechos de hoje, uma nota sobre a edição do texto e crítica textual, assuntos que desenvolvi um pouco na última publicação da série. Entre os vários problemas que um texto pode apresentar está a transposição de verso(s) — por vezes, associada à interpolação de material estranho, como comentários à margem dos manuscritos. O verso — ou um conjunto deles — está fora de lugar; não faz sentido na sequência da obra. Uma passagem muito discutida neste sentido é o v. 1255: incomitata rapi certabant funera vasta (“funerais desertos, sem acompanhantes, disputavam para realizar-se”), que, por tratar dos enterros, segundo alguns comentadores, deveria vir posteriormente no texto. Deufert, por exemplo, transpõe para depois do v. 1258; Lachmann entende que deva vir depois do v. 1246, substituindo certabant por cernebant; Munro, por sua vez, o transfere para depois do v. 1234. Mantive o verso em seu local como nos foi transmitido, assinalando entre colchetes o problema.

Passo à tradução comentada dos novos trechos:

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Lucrécio 6.1208-1214: A Peste (1.8)

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ēt grăvĭtēr pārtīm || mĕtŭēntēs līmĭnă lētī

vīvēbānt fērrō || prīvātī pārtĕ vĭrīlī,

ēt mănĭbūs || sĭnĕ nōnnūllī || pĕdĭbūsquĕ mănēbānt………………….1210

īn vītā tămĕn, ēt || pērdēbānt lūmĭnă pārtĭm:

ūsqu(e) ădĕō || mōrtīs mĕtŭs hīs || īncēssĕrăt ācĕr.

ātqu(e) ĕtĭām quōsdām || cēpēr(e) ōblīvĭă rērŭm

cūnctārūm, || nĕquĕ sē pōssēnt || cōgnōscĕr(e) ŭt īpsī.

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E uns, temendo pesadamente os limiares do fim,

viviam privados pelo ferro da parte viril,

e alguns, sem pés e mãos, permaneciam, porém,……………………….1210

na vida, e outros [ainda] perdiam as luzes:

o terrível medo da morte tão profundamente os dominara.

E a certos homens tomou o esquecimento de todas

as coisas de tal modo que não podiam reconhecer a si mesmos.

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Manuscrito do DRN no acervo da biblioteca da Universidade de Cambridge (Wikimedia Commons)

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O Medo da Morte

Vimos vários exemplos até aqui do uso da aliteração por Lucrécio. Gostaria de aprofundar um pouco mais e destacar nesta passagem e nas próximas um uso particular da figura: o par aliterativo de palavras contíguas. Em alguns casos, mais do que apenas ser um ornamento, a figura pode nos convidar a ver, por meio da semelhança sonora, uma relação entre os termos. Na primeira sequência temos: limina leti (v. 1208: “os limiares do fim”); privati parte (v. 1209: “privados da parte”); mortis metus (v. 1212: “o medo da morte”); no segundo trecho, duplo par aliterativo disposto no segundo hemistíquio do hexâmetro (v. 1224): vitam vis e morbida membris, em que o adjetivo morbida (“mórbida”), do segundo par, caracteriza vis (“força”), do primeiro; no terceiro e último passo, duplo par aliterativo de novo (1226): um antes da cesura, ratio remedi, e outro depois, communis certa, em que substantivos (primeiro par) e adjetivos estão dispostos de forma quiástica: communis (“comum”) caracteriza remedi (“remédio”), enquanto certa (“certa”) qualifica ratio (“medida”). Por fim, mais um par aliterativo em conjunto com a paronomásia: aeris auras (v. 1227: “os sopros de ar”) e templa tueri (v. 1228: “contemplar os templos”). Do conjunto aqui arrolado, por causa do espaço destaco apenas mortis metus (“o medo da morte”), que traz a ideia destacada no início do texto. É desse medo, que tão profundamente domina os homens, que Lucrécio quer nos livrar, pois, como ensinava o pai Epicuro (DRN 3.9), “a morte não é nada”. Entendido isso, o homem justo pode chegar à ἀταραξία (“imperturbabilidade”) e conquistar o maior bem: o prazer (ἡδονή).

O medo é tal que tinha dominado profundamente os homens. No verso (1212), a locução adverbial (usque adeo), destacada no início e separada pela cesura, ocorre nesta mesma posição 33 vezes ao longo do poema, caracterizando assim a elocução lucreciana. Ora, não parece sem importância, portanto, o uso que Virgílio (outro epicurista!) faz da locução em apenas três passagens; uma em cada obra: Bucólicas (1.12): usque adeo turbatur agris (…); Geórgicas (4.84): usque adeo obnixi non cedere dum gravis (…); Eneida (12.646): usque adeone mori miserum est? (…). Tal locução não aparece em nenhum hexâmetro de Horácio nem dos elegíacos Propércio e Tibulo. Para ficar apenas com a pergunta da Eneida, em que à locução adverbial prende a enclítica –ne: “acaso é tão terrível morrer?” Uma nota claramente — talvez não tão evidente assim — epicurista e lucreciana.

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Desconjuntado

A passagem em que Lucrécio descreve uma parte dos sobreviventes da peste, privados de algumas partes do corpo (1209-1211), é daquelas em que o mel das Musas é generoso. O trecho começa com verso em ritmo espondaico, em que vivebant (“viviam”) é a primeira palavra e o sinônimo perifrástico conclui uma segunda parte de homens, sobreviventes sem mãos e pés: manebant / in vita (“permaneciam na vida”). Na verdade, a última palavra é tamen (“porém”), ocupando uma posição inusual (ver aqui os vv. 1215 e 1216), neste trecho perfeitamente desconjuntado. No verso mais quebrado, com duas cesuras, o poeta dispõe as mãos (manibus), na primeira parte, e os pés (pedibus), na última, e a preposição (sine) que separa os dois substantivos, no meio. Assim, o sintagma “sem pés e mãos” (sine manibus pedibusque) tem suas partes ordenadamente separadas. Chama atenção também a colocação do segundo partim no fim do período, na conclusão do verso (1211), esperado desde o surgimento do primeiro (1208). Por fim, a conjunção que introduz a parte final (1211: et) está separada de sua oração pela cesura, também de modo não usual. Os membros sintáticos estão desconjuntados como ficam os membros doentes cortados do corpo.

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Lucrécio 6.1215-1224: A Peste (1.9)

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mūltăqu(e) hŭmī c(um) ĭnhŭmātă || iăcērēnt cōrpŏră sūprā………………..1215

cōrpŏrĭbūs, || tămĕn ālĭtŭūm || gĕnŭs ātquĕ fĕrārŭm

aūt prŏcŭl ābsĭlĭēbăt, || ŭt ācr(em) ēxīrĕt ŏdōrĕm,

aūt, ŭbĭ gūstārāt, || lānguēbāt mōrtĕ prŏpīnquā.

nēc tămĕn ōmnīnō || tĕmĕr(e) īllīs sōlĭbŭs ūllă

cōmpārēbăt ăvīs, || nēc trīstĭă saēclă fĕrārŭm……………………………………..1220

ēxībānt sīlvīs. || Lānguēbānt plērăquĕ mōrbō

ēt mŏrĭēbāntūr. || Cūm prīmīs fīdă cănūm vīs

strātă vĭīs ănĭmām || pōnēbăt ĭn ōmnĭbŭs aēgrē;

ēxtōrquēbăt ĕnīm || vītām vīs mōrbĭdă mēmbrīs.

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E embora muitos corpos sobre corpos jazessem insepultos……………….1215

por terra, o gênero dos alados e das feras, porém,

ou saltava para longe, a fim de evitar o terrível odor,

ou, depois de os ter provado, desfalecia pela morte vizinha.

Porém, de fato, nenhuma ave comparecia facilmente

naqueles sóis, nem as tristes gerações das feras…………………………………1220

saíam das florestas. A maior parte desfalecia pela doença

e morria. Entre os primeiros, a força fiel dos cães,

estendida por todas as ruas, depunha a alma com relutância;

de fato, a força mórbida aos membros arrancava a vida.

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O Modelo de Tucídides

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Desde o primeiro texto da série comentei como Lucrécio tinha o autor da História da Guerra do Peloponeso como modelo. A peste narrada pelo historiador grego em prosa é recontada em hexâmetros datílicos pelo poeta latino. Algumas passagens são muito próximas do texto grego, como é o caso dessa passagem em que se descrevem os inúmeros corpos insepultos e como os animais ou se afastavam dos cadáveres ou, provada a carne dos mortos, pereciam. Como já discuti também, não se trata de tradução ou cópia, mas de imitação, prática comum entre os gregos e que vai perdurar depois dos autores latinos. Assim como Lucrécio toma Tucídides como modelo, os historiadores também, por vezes, imitam os poetas, procurando emulá-los, como fazem Heródoto e Políbio em relação a Homero. Pseudo-Longino, por exemplo, em seu Do Sublime (13.3), dirá que Heródoto é o mais homérico (Ὁμηρικώτατος) de todos. Lucrécio, por sua vez, é muito tucididiano, como se percebe mesmo lendo as traduções. Leiamos o trecho do historiador na tradução de Márcio Mauá Chaves Ferreira, publicada aqui no Estado da Arte (História da Guerra do Peloponeso II 50.1-2):

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com efeito, as aves e os quadrúpedes que atacam os humanos, ou deles não se aproximavam, embora muitos restassem insepultos, ou, se provassem deles, pereciam. Sinal disso é que a escassez de tais pássaros tornou-se clara, e não eram vistos de forma alguma, nem mesmo ao redor de nada daquilo; e os cães, porque costumavam coabitar com homens, ofereciam uma maior sensação do que se passava.

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Os animais mencionados são os mesmos (aves, feras ou quadrúpedes e, por fim, os cães); a sintaxe é muito semelhante, com as orações coordenadas disjuntivas, descrevendo as alternativas: os animais ou se afastavam ou pereciam, ao provar os cadáveres; em seguida, a ausência das aves naquele momento; por fim, a presença dos cães. Lucrécio, porém, relata em hexâmetros; Tucídides, em prosa. No entanto, percebemos, por vezes, que um historiador narra em hexâmetros. É o caso, por exemplo, de Tito Lívio que, em seu Ab Vrbe condita (Desde a fundação da Cidade), descreve uma investida contra o inimigo em um hexâmetro e meio, com cesuras perfeitas (22.50): haēc ŭbĭ dīctă dĕdīt, || strīngīt glădĭūm cŭnĕōquĕ / fāctō pēr mĕdĭōs || uadit hostes (“depois de dizer estas coisas, empunha a espada e, formada a coluna, avança em meio aos inimigos”). É muito provável que o historiador romano esteja imitando algum poeta, possivelmente épico, nesta passagem. Enfim, assim como os historiadores são modelos para os poetas, esses são para aqueles; por vezes, os poetas narram o que aconteceu, e os historiadores, o que poderia acontecer.

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A estátua de Tucídides em Viena

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Cesuras, Quedas e Separações

Fiz notar no trecho anterior como o desmembramento dos sobreviventes é acompanhado por certa desordem sintática e mesmo métrica, com relação à cesura (caesura: corte) do verso. Tal separação métrica, muitas vezes, acompanha o andamento sintático do texto, podendo também, ressaltar algumas palavras. Por vezes, a oração não cabe na unidade do verso e ‘cai’ para o seguinte. Tal fenômeno é chamado encadeamento ou enjambement, podendo ser usado de modo significativo, quando, por exemplo, o poeta, ao falar de quedas, faz a palavra ‘cair’ — aproveitando ainda um aspecto visual — para o verso seguinte. É o caso do uso do verbo procumbo (procumbo: “cair para frente”) usado algumas vezes por Virgílio na Eneida (2.426; 9.541; 11.150), ou de praecipito (“precipitar”; “lançar-se de cima para baixo”): 2.317; 10.804; 11.617. O poeta, então, a dar destaque à palavra, deixa-a isolada, com forte pausa na sequência, que coincide com a cesura, como ocorre no primeiro caso citado (Eneida 2.424-426):

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………………………..(…) primusque Coroebus

Penelei dextra diuae armipotentis ad aram

prōcūmbīt; || cadit et Rhipeus, (…)

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……………………………………………(…) e primeiro Corebo,

pela mão de Peneleu, junto ao altar da deusa armipotente

tomba; cai também Ripeu (…)

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O poeta, por meio de sua refinada ars, faz o verbo procumbit (“tomba”) tombar com o enjambement e chama a atenção para ele, ao isolá-lo com a forte pausa sintática, coincidindo com a cesura. Tal artifício tem antecedente em Lucrécio com o uso de “separar”. No início do terceiro livro, no grande encômio a Epicuro, falando dos limites do mundo (“muralhas do mundo”), que são ultrapassados pela razão (ratio) do filósofo grego, Lucrécio usa o verbo discedo (“separar-se; abrir-se”), em enjambement seguido por pausa sintática que é acompanhada por cesura (DRN 3.16-17):

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nam simul ac ratio tua coepit vociferari

naturam rerum divina mente coorta

diffugiunt animi terrores, moenia mundi

dīscēdūnt. || (…)

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Pois logo que tua razão começou a vociferar

a natureza das coisas, tendo surgido tua divina mente,

vão-se embora os terrores do espírito, as muralhas do mundo

separam-se.

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O verbo discedunt (“separam-se”) está separado, isolado do restante da oração, disposta no verso anterior, e, pela fortíssima pausa sintática e a cesura, do que vem a seguir. Vejam-se ainda as ocorrências de discidium animai (“separação da alma”) em que, em geral, animai (genitivo arcaico) ocupa a última posição do verso, e discidium, separado, em encadeamento, está na primeira posição do verso seguinte: DRN 3.341-342; 580-581; 838-839.

No segundo trecho de hoje, tal construção, o encadeamento seguido por forte pausa sintática, ocorre seguidamente nos vv. 1219-1222. Nos vv. 1220 e 1221, isolam-se no primeiro hemistíquio do verso um verbo no pretérito imperfeito do indicativo seguido por palavra terminada em –is, formando assim paralelismo e homeoteleuto: comparebat avis e exibant silvis. Aliás, mais do que –is, a última sílaba é exatamente a mesma (-vis), que vai ecoar na sequência em vis (vv. 1222 e 1224: “força”) e em viis (v. 1223: “por [todas] as ruas”), com o reforço de primIS (v. 1222: “primeiros”) e membrIS (v. 1224: “membros”). Alguém ainda poderia ver a posição significativa de corporibus (v.1216) nesta mesma posição: em enjambement com a sequência da pausa sintática. A repetição do termo, com poliptoto, e o lugar que ocupa, certamente, lhe dão destaque. Note-se ainda a preposição (supra) como última palavra do verso anterior. O significado de amontoar corpos sobre corpos, com este segundo termo “empurrado” para o verso de baixo deixo como sugestão de mais outra disposição mimética.

Estou convencido, porém, de outra imitação. Além dos pares aliterativos já assinalados ao fim da passagem (v. 1224), é possível observar a sintaxe mimética, pois o poeta interpõe vis morbida (“a força mórbida”), sujeito e responsável pela ação de ‘separar’ a vida (vitam) dos membros (membris), justamente entre vitam e membris. Lucrécio, mais uma vez, parece desenhar com as palavras!

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Lucrécio 6.1225-1229: A Peste (1.10)

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[īncŏmĭtātă răpī || cērtābānt fūnĕră vāstă.]…………………………1225

nēc rătĭō rĕmĕdī || cōmmūnīs cērtă dăbātŭr;

nām quŏd ălī dĕdĕrāt || vītālīs āĕrĭs aūrās

vōlvĕr(e) ĭn ōrĕ || lĭcēr(e) ēt caēlī || tēmplă tŭērī,

hōc ălĭīs || ĕrăt ēxĭtĭō || lētūmquĕ părābăt.

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[Funerais desertos, sem acompanhantes, disputavam para realizar-se

rapidamente.] E não se dava uma medida certa de remédio comum,

pois o que a um permitira revolver, na boca, os sopros

vitais de ar e contemplar os templos do céu,

a outros isso era a ruína e preparava o fim.

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Serei mais breve neste fim de um texto que já vai longo, pois algo no começo foi comentado sobre os pares aliterativos (vv. 1226 e 1228), assim como na introdução mencionei o tão discutido verso 1225, que estaria fora de ordem, pois os funerais deveriam ser narrados posteriormente.

No v. 1227, observei anteriormente a paronomásia entre aeris (“do ar”) e auras (“os sopros”), que lembra aquela de Horácio nas Odes (1.5.9 e 11) entre aurea (“áurea”) e aurae (“do sopro”; “da aura”), que aproxima a “áurea” Pirra da “aura enganadora”. Ademais, por meio da sibilante no final das três últimas palavras aqui no DRN, Lucrécio parece querer reproduzir “os sopros vitais de ar”: vitalIS aerIS aurAS. Há, porém, nesta breve passagem ênfase na vogal aberta /a/, onde cai o ictus (a tônica do pé): vitAlis Aeris Auras, que se contrasta com a sequência da fechada /ô/, destacada pelo ictus: vOlvere in Ore (“revolver na boca”). Note-se ainda como a palavra ore está contida em volvere, aproximando as duas palavras, como aeris e auras logo antes.

Enfim, chega-se ao término com a ruína (exitio) e o fim (letumque), dispostos lado a lado, como sinônimos da morte. Alguns conseguiam, por meio de um remédio, “contemplar os templos do céu” (caeli templa tueri), mas o mesmo fármaco levava outros à morte. Mas o que é a morte? Lucrécio não poderia responder de outra maneira senão seguindo de perto a máxima de Epicuro (DRN 3.830): nil igitur mors est ad nos (“a morte, portanto, não é nada para nós”). FIM.

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Manuscrito de De rerum natura, por Girolamo di Matteo de Tauris

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Agradeço a Paulo Sérgio de Vasconcellos e Eduardo Henrik Aubert pelas correções e sugestões, dois grandes leitores que me acompanham nesta série. Obviamente, os erros que permanecem são de minha inteira responsabilidade. Agradeço ainda a Adir de Oliveira Fonseca Jr. pelo envio de alguns textos e a Giselle de Carvalho pela revisão. Agradecimentos muito especiais vão para os editores do Estado da Arte, Eduardo Wolf e Gilberto Morbach!

Caros leitores, esta série será interrompida durante agosto para um breve ócio sem dignidade, mas voltará em setembro para conclusão da leitura do episódio. Obrigado!

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Para Saber Mais:

Sobre Epicuro e o epicurismo, um conjunto de textos editado por Jeffrey Fish e Kirk R. Sanders (2011). Epicurus and the Epicurean Tradition, Cambridge: Cambridge University Press; um bom manual, que cobre vários aspectos, com textos de diversos especialistas, é o Oxford Handbook of Epicurus and Epicureanism, editado por Phillip Mitsis (no prelo, previsto para ser publicado neste ano), Oxford: Oxford University Press. Sobre a morte em Lucrécio, é suficiente o livro de Charles Segal (1990). Lucretius on Death and Anxiety: Poetry and Philosophy in De rerum natura, Princeton: Princeton University Press. Para os textos de Epicuro, permanece como importante referência a edição de 1887, preparada pelo célebre filólogo alemão Hermann Usener (Epicurea, Leipzig: Teubner), dividida em quatro partes: na primeira, há as três cartas e a coleção das Κύριαι δόξαι (Máximas Principais); na segunda, os fragmentos de escritos perdidos; na terceira, fragmentos que não podem ser referidos a uma obra específica; na quarta, a vida de Epicuro, a de Diógenes Laércio (Vida dos filósofos ilustres, 10), e a de Suda, o léxico bizantino. Vale mencionar aqui a resenha de Ingram Bywater (1888), na Classical Review, 9, pp. 278-279. Sobre a discussão da relação entre poetas e historiadores, indico um texto meu: “Quando os historiadores mentem e os poetas dizem verdades: ‘ficção’ e verdade na Antiguidade”, Revera, vol. 2 (2017): pp. 7-26, disponível on-line: <https://site.veracruz.edu.br/instituto/revera/index.php/revera/article/view/53>. Para outro caso de possível hexâmetro em obra historiográfica, ver a abertura dos Annales (Anais) de Tácito (1.1): Vrbem Romam a principio reges habuere (“Os reis, no princípio, governaram a cidade de Roma”). Para o isolamento das palavras em enjambement, em particular na Eneida de Virgílio, o livro de Paolo Dainotti (2015). Word Order and Expressiveness in the Aeneid, Berlin and Boston: De Gruyter, pp. 58-147, traduzido do italiano para o inglês por Ailsa Campbell. O autor usa o termo rejet para descrever o fenômeno, cunhado por Maurice Grammont (19132). Le vers français, ses moyens d’expression, son harmonie, Paris (19041).

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Alexandre Pinheiro Hasegawa

Alexandre Pinheiro Hasegawa é professor de Língua e Literatura Latinas na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP).