Poesia em Casa – Como se escolhe um livro? Dois poemas de Jaime Gil de Biedma

por Pedro Gonzaga

O poeta Gil de Biedma em fotografia de Bernardo Pérez em Madrid, 1992

Quanto de controle um poeta pode ter sobre seus versos, conteúdo e forma? Há, ao menos dentro da modernidade, como ainda falar em versos espontâneos? O mais próximo disso talvez sejam os irritantes, constrangedores e ocos trocadilhos, ao molde publicitário, de certa poesia brasileira das últimas décadas, incapaz de autoironia, pois se julga irônica quando é apenas óbvia. Amadoristicamente, é claro, a confissão imediata nunca perdeu terreno, talvez nunca perca, é difícil derrotar o romantismo de tantas agremiações e saraus. Mas a pergunta inicial tem a ver com os melhores praticantes do gênero. Anos atrás, por sugestão do Paulo José Miranda, cheguei à obra de Jaime Gil de Biedma, poeta barcelonense, e uma das grandes vozes da poesia espanhola do pós-guerra e para a segunda metade do século. De viagem marcada para Buenos Aires, então, cidade que se afigura como um paraíso para os leitores do mundo, com suas livrarias a cada esquina, não precisei de esforço para encontrar sua coletânea Las personas del verbo, na edição da Galaxia Gutenberg. Antes mesmo de mergulhar nos poemas, o prefácio, com alguns trechos recortados de entrevistas do poeta, já me assegurava estar diante de um componente da família artística de que sempre quis participar: poetas conscientes da expressão a ponto de terem coragem de dizer tudo, sabendo que tudo é também o espaço que o dizer não alcança. Nos dois poemas que traduzi, creio ser possível notar o cálculo dramático que faz da experiência e da encenação da experiência uma única atuação.

Antes dos poemas, no entanto, reproduzo a declaração de Jaime Gil de Biedma que me fez levar o livro das prateleiras portenhas:

“Pode haver todo o excesso de sentimentos que o poeta considere necessário exibir, mas sempre que a voz que fala no poema crie uma espécie de hiato que nos faça compreender que há alguém ali que não está completamente a favor desses sentimentos.”

“Não voltarei a ser jovem”

Que a vida avançava a sério
alguém começa a perceber mais tarde
– como todos os jovens, eu vim
a levar a vida adiante.

Deixar marca queria
e marchar entre aplausos
– envelhecer, morrer, eram tão somente
as dimensões do teatro.

Mas o tempo passou
e a verdade desagradável assoma:
envelhecer, morrer,
é o único argumento da obra.

“Louca”

A noite, que é sempre ambígua,
te enfurece – cor
de genebra ruim, são
teus olhos umas feras.

Eu sei que vais romper
em insultos e em lágrimas
histéricas. Na cama,
logo, te acalmarei

com beijos que me dá pena
dar-tos. E ao dormir
te apertarás contra mim
como uma cadela enferma.

Pedro Gonzaga

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Seu livro mais recente é Em outros tantos quartos da Terra.