Poesia em Casa – Especial Polônia: a resistência poética

O polonês Zbigniew Herbert: uma das vozes mais potentes da poesia moderna.

por Pedro Gonzaga

Na segunda parte de nosso especial sobre a poesia polonesa, escolhi três autores que, juntos, ajudam a traçar um painel das violências sofridas pelo país no século XX, talvez, dos territórios europeus, um dos mais massacrados. Lendo a poesia de Tadeusz Rosewicz, em especial, deixo-me tomar pela perplexidade tão bem descrita por George Steiner, em No castelo do Barba Azul: como, apesar da alta cultura europeia, gestou-se o horror das grandes guerras, sobremodo a Segunda, e como toda essa cultura não foi suficiente para impedir o horror dos campos de concentração. Por outro lado, talvez a poesia e as artes não tenham o poder de impedir nossa barbárie, talvez nem seja essa sua principal função. Ao pensar na Guernica, ou em “Morte do leiteiro”, do Drummond, o que vemos é uma tentativa de dar forma permanente a violência, feito um lembrete, feito uma lembrança que nunca morre, e que, de algum modo, serve como consolação, como resistência à voragem do tempo que tudo iguala, que tudo aniquila.

Apresento, primeiramente, dois poemas de Tadeusz Rozewicz, marcados pela calcinante ferocidade da guerra. Nota-se em ambos o posterior vazio de sentido deixado pela perda do poder das palavras para descrever qualquer evento humano, interno ou externo.

Uma árvore 

Felizes eram
os antigos poetas
o mundo como uma árvore
eles feito crianças
O que devo pendurar
no galho de uma árvore
que sofreu
uma chuva de metal
Felizes eram
os antigos poetas
em torno da árvore
dançavam feito crianças
O que devo pendurar
no galho de uma árvore
que foi queimada
e não cantará outra vez
Felizes eram
os antigos poetas
sob o carvalho
cantavam feito crianças
Mas nossa árvore
se partiu à noite
ao peso de um
cadáver desprezado

O sobrevivente

Tenho vinte e quatro anos
levado ao matadouro
sobrevivi.
Seguem alguns sinônimos vazios:
homem e fera
amor e ódio
amigo e rival
escuridão e luz.
O modo de matar homens e feras é o mesmo
eu vi:
caminhões de homens esquartejados
que jamais serão salvos.
Ideias são meras palavras:
virtude e crime
verdade e mentiras
beleza e feiura
coragem e covardia.
Virtude e crime valem o mesmo
eu vi:
num homem que era a um só tempo
criminoso e virtuoso.
Procuro um professor e um mestre
talvez ele possa restaurar minha visão audição e fala
talvez ele possa renomear objetos e ideias
talvez separar a escuridão da luz.
Tenho vinte e quatro anos
levado ao matadouro
sobrevivi.

Completando nossa seleção, escolhi mais dois poemas, um poema de Zbigniew Herbert, das vozes mais potentes da poesia moderna polonesa, e um último do ainda vivo e recentemente laureado (tema de uma de minhas colunas recentes), Adam Zagajewski.

A chuva, por Zbignew Herbert

Quando meu irmão mais velho
voltou da guerra
trazia na testa uma pequena estrela de prata
e debaixo da estrela
um abismo
um estilhaço de granada
o atingira em Verdun
ou talvez em Grünwald
(ele tinha se esquecido dos detalhes)
ele costumava falar muito
em várias línguas
mas ele gostava acima de tudo
da língua da história
até ficar sem fôlego
exortou seus camaradas mortos a correr
Rolando Kowalski Aníbal
ele gritou
que era esta a última cruzada
que Cartago logo haveria de cair
e então aos prantos confessou
que Napoleão não gostava dele
nós o vimos
ficar cada vez mais pálido
desertado por seus sentidos
volver-se devagar num monumento
pelas conchas musicais dos ouvidos
uma floresta de pedra entrou
e a pele de seu rosto
estava protegida
graças aos botões secos
e cegos dos olhos
nada mais dele sairia
exceto o tato
que histórias
ele contava com suas mãos
na direita tinha romances
na esquerda memória de soldado
eles tomaram meu irmão
e o levaram para fora da cidade
ele volta a cada outono
magro e muito quieto
ele não quer entrar na casa
bate na janela para me chamar
caminhamos juntos pelas ruas
e ele me recita
histórias fantásticas
tocando-me o rosto
com dedos cegos de chuva

Imortalidade, por Adam Zagajewski

Esses pobres poetas do século dezenove
sonhadora de faces rosadas
nossos grandes irmãos incandescentes de
inspiração permitiram que seus retratos fossem feitos
em Paris estrelas hoje das antologias escolares
e autores de citações que justificam
toda injustiça

Pedro Gonzaga

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Seu livro mais recente é Em outros tantos quartos da Terra.