Poesia em casa – No tempo da poesia

por Pedro Gonzaga

Há em Porto Alegre, no coração do Bom Fim, uma confeitaria chamada Barcelona, tradicional como poucas coisas em nosso mundo sempre girante e avesso ao passado por um erro futurista, que como manifesto ainda tinha a virtude de sua dinâmica, mas que hoje não passa de uma forma peculiar de preguiça mental. Aqui na confeitaria há guardas de ferro e reservados, doces que ainda não são todos de chocolate. E não me parece haver ambiente mais adequado para a sutil transformação que ditarei a esta coluna, a modo de convertê-la em crônicas sobre poesia. E o assunto de hoje me ocorreu ao folhear o jornal em papel sobre a mesa, feito cortesia para os clientes, com suas páginas cada vez mais vazias em sua economia de letras, quase a ponto de poder abrigar versos como outrora.

Por absurda que pareça a ideia, durante os tempos do Romantismo, os jornais, inclusive no Brasil, traziam poemas em grande destaque, no espaço em que hoje encontramos os colunistas célebres. Na obra A vida literária no Brasil durante o romantismo, de Ubiratan Machado, é possível ver uma série de exemplares fac-similados que revelam os refinados gostos de nossos antepassados. É acessório apontar as diferenças culturais e sociais do país de então, mas há pelo menos um aspecto, que a mim interessa, que é apontar como as vogas literárias, além de certas determinações editoriais que varreram a lírica do mapa, podem não estar propriamente embasadas na realidade. Prova está no enorme sucesso do Estado da Arte, que desde seu início apostou em ensaios, textos analíticos, traduções e poemas, divergindo de tudo daquilo que os especialistas em audiência apontam como essencial para se ter sucesso. Uma verdade sobre tais pesquisas de mídia é que elas só encontram respostas convenientes às pesquisas de mídia. Grandes êxitos artísticos e jornalísticos foram muitas vezes alcançados pela pura convicção de redatores, escritores e editores, mais ocupados com a qualidade dos textos do que com respostas de pesquisas viciadas.

Olhos postos no jornal, penso no efeito que seria ter um poema estampado na contracapa. Dizem que os veículos estão morrendo. Então por que não tentar um Kaváfis, um Drummond, uma Szymborska, só para ver o que aconteceria?

Saboreando um napálmico doce da Barcelona, temo pelos empregos das agências de opinião. Um Bandeira, um Pessoa, um Eliot e a crise do país aumentaria, mas com que ganho estético.

Pedro Gonzaga

Pedro Gonzaga é poeta, tradutor, músico e professor. Doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é autor de A Última Temporada, Falso Começo e O Livro das Coisas Verdadeiras (Arquipélago Editorial), sua estreia na crônica. Seu livro mais recente é Em outros tantos quartos da Terra.