Por que estão (sempre) desqualificando os manifestantes?

por Isabelle Anchieta de Melo

Ora são estudantes coagidos, idiotas ou ingênuos úteis, ora os manifestantes são chamados de bolsominions fanáticos, manipulados e radicais de direita. Há um esforço precipitado de rotular e generalizar as pessoas que se manifestam de um lado e do outro. Uma estratégia que tem sido usada, desde 2013, pelos governos no poder com apoio de alguns formadores de opinião no sentido de minimizar a força das ruas. Mas ao que tudo indica os que persistem no uso desse artifício não se deram conta dos seus efeitos colaterais. A história recente demonstrou, como bem reconheceu o presidente em entrevista recente, que foram às ruas que ditaram as mudanças do país e, ouso dizer, ditarão o seu futuro. Quem virar as costas para o fenômeno corre um grande risco de ser engolido por esta nova força social. Ela não é, como alguns tentam acreditar, uma onda passageira.     

É o nascimento e consolidação da nossa (tão reclamada) cidadania e não pode ser reduzida a um jogo de manipulações. Destacar as interferências e interesses que, de fato, existem em qualquer manifestação social é perder a complexidade de todo o fenômeno. Esses brasileiros mais aguerridos, violentos, que debatem, se contradizem e que deixaram de se interessar apenas por futebol e novelas são uma novidade de nosso tempo. São sintoma de uma verdadeira e combativa democracia, que pressupõe, sempre, o consenso difícil.

Por isso, me soa demasiado desrespeitoso com os brasileiros e as brasileiras que deixam seus compromissos para expor o seu cartaz e, pacificamente, estão lutando por uma agenda política e social para o país, se verem reduzidos a um estereótipo superficial, ou mesmo serem medidos por uma disputa numérica. Em um país em que as questões políticas estavam na última posição da lista de prioridades, ter uma centena de pessoas nas ruas já é um enorme avanço. O que devia ser celebrado é desvirtuado.

Há três erros fundamentais nessa desqualificação/estereotipização dos manifestantes. Primeiro, ela é falsa. Diz mais de uma tentativa dos atingidos de minimizar um movimento que percebem, sim, como ameaçador e imprevisível. Segundo, porque o efeito dessa desqualificação é o contrário do pretendido. Ao invés de arrefecer os ânimos dos manifestantes, coloca combustível na fogueira, incentivando outro movimento em resposta e prolongando seus efeitos. Terceiro, desconsidera o elemento mais importante para a legitimidade do poder: a opinião pública. Nenhum governo, mesmo o mais despótico, mantém-se no poder por muito tempo sem algum grau de apoio popular.

Por isso, o que mais me impressiona é a incapacidade das pessoas que estão no poder de mensurar o alcance destrutivo da opinião pública ao afrontarem abertamente os manifestantes. Será que não se deram conta de que o feitiço da desqualificação se virou contra o feiticeiro? Basta lembrar do sucesso destrutivo do “Pixuleco” para a reputação de Lula, dos memes com as falas de Dilma, da desintegração política de Aécio Neves e da vilania de Eduardo Cunha. Exemplos desse jogo reverso de estereótipos. Mas parece que poucos aprenderam sobre a história recente, especialmente os novos inimigos da nação.

Insisto: os movimentos sociais no Brasil são a chave para compreender os rumos políticos e mesmo econômicos do país. Pouco se enfatiza, mas trata-se da ação social mais longa, persistente, descentralizada e contundente de nossa História. Manifestantes que são, ao mesmo tempo, o motor e o anúncio desse “para onde vamos”. Eis que enfim, os brasileiros precisam ser chamados pelo que, em sua maioria, são: cidadão que saem às ruas em prol do que acreditam ser o melhor para o país.  

Isabelle Anchieta de Melo

Isabelle Anchieta de Melo é doutora em Sociologia pela USP, jornalista, mestre em Comunicação Social pela UFMG. Recebeu prêmio como Jovem Socióloga brasileira pela Associação Internacional de Sociologia com apoio da UNESCO.