Pós-Feminismo: quem empodera quem?

por Isabelle Anchieta de Melo

“Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta
sozinho: as pessoas se libertam em comunhão”¹

Nunca me soou bem a palavra “empoderamento”, sobretudo porque ela parte do pressuposto da doação. Supõe-se que alguém ou algum organismo concede poder a uma mulher supostamente desprovida dele, frágil. Primeiro é preciso dizer: toda mulher tem, em si, poder de ser. Segundo: assumir esse poder é um direito humano e não fruto de uma doação.  Por isso, ainda que o objetivo seja nobre, incomoda-me essa relação desigual estabelecida pela palavra, que acaba por reforçar a ideia do sexo frágil, da mulher que precisa ser salva.

Historicamente, tudo indica que o termo “empoderamento” surge na década de 1970 sendo utilizado pela primeira vez pelo psicólogo norte-americano Julian Rappaport ao defender a autonomia de grupos minoritários. Em seguida, o educador brasileiro Paulo Freire revisita o termo criticamente para defender que, mais do que uma dádiva alheia, os próprios grupos marginalizados poderiam empoderar-se a si próprios − o que me parece uma releitura mais sofisticada da ideia.

Nessa direção, o empoderamento “não é algo que pode ser feito a alguém por uma outra pessoa. Os agentes de mudança externos podem ser necessários como catalisadores iniciais, mas o impulso do processo se explica pela extensão e a rapidez com que as pessoas e suas organizações mudam a si mesmas. Nem governo, nem as agências (e nem as ONGs) empoderam as pessoas e as organizações: as pessoas e as organizações se empoderam. O que as políticas e as ações governamentais podem fazer é criar um ambiente favorável ou, opostamente, colocar barreiras ao processo de empoderamento”.²

A despeito das minhas desconfianças iniciais com a noção “empoderamento” confesso que estou, sinceramente, convencida de que essa pode ter sido a melhor e mais inteligente contribuição social do feminismo contemporâneo. A gestação da ideia do empoderamento econômico da mulher já se apresenta em O Capital de Karl Marx, em 1867, quando ele, ao pensar a condição feminina, afirma que: “a sua igualdade civil e política não se poderá conseguir eficazmente se não se alcança a emancipação econômica”. Ele percebe, como bem interpreta mais tarde Simone de Beauvoir, que “é no plano econômico e não no plano sexual que a mulher sofre opressão”³. É mesmo de se observar que a questão de gênero se torna menor quando uma mulher com recursos econômicos está em relação com um homem com menos recursos que ela. A balança de poder claramente está nas mãos dela e o tema masculino e feminino torna-se desimportante.

Ainda que a ideia utópica de emancipação feminina e humana não tenha se concretizado (plenamente) nas sociedades ocidentais capitalistas, seria equivocado, por outro lado, tentar dissociar os avanços de direitos individuais e mesmo as margens de poder das mulheres desse sistema econômico que melhor se adapta à democracia.

Nem governo, nem as agências empoderam as pessoas e as organizações: as pessoas e as organizações se empoderam

É nesse contexto e nessa direção que o mecanismo de empoderamento econômico deixou de ser só uma bela palavra e tem se tornado um método prático de enriquecimento e, sim, empoderamento das mulheres nas sociedades capitalistas. Há hoje organismos internacionais promovendo linhas de financiamento especiais e oportunidades de negócio para elas. Ser mulher tornou-se um valor agregado que se estende aos produtos feitos por elas. Presenciamos, como nunca, a emergência das mulheres via ações empreendedoras e associativismo. Uma forma de conceder-se horizontal e mutuamente poder. Entendendo, assim, o empoderamento como “um processo em que as pessoas sejam, por elas mesmas, capazes de se autogerir, a fim de consolidar sua participação nas decisões dos acontecimentos políticos, sociais, culturais etc., os quais lhes dizem respeito”.²

Ocupar o poder econômico e político é, sem dúvida, o caminho mais inteligente para as mulheres. Eis, portanto, minha redenção parcial ao termo “empoderamento” − localizando-o, no entanto, fora de um lugar ideológico associado à esquerda − já que o empoderamento só se tornou possível nas sociedades capitalistas e democráticas.

Notas

¹ Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido, 2011, p. 97.

² ROMANO, Jorge O. Empoderamento: recuperando a questão do poder no combate à pobreza. In: ROMANO, Jorge O.; ANTUNES, Marta (Orgs.). Empoderamento e direitos no combate à pobreza. Rio de Janeiro: ActionAid Brasil, 2002.

³ Simone de Beauvoir, p. 141

Isabelle Anchieta de Melo

Isabelle Anchieta de Melo é doutora em Sociologia pela USP, jornalista, mestre em Comunicação Social pela UFMG. Recebeu prêmio como Jovem Socióloga brasileira pela Associação Internacional de Sociologia com apoio da UNESCO.