Pós-filosofia: versão conceitual da pós-verdade?

por Arthur Grupillo

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Há casos em que, ao se negar uma coisa, se afirma o oposto. Na matemática, faz-se muito isso. Mas há casos em que não, e eles ocorrem bastante na filosofia. Na vida, acredito que temos os dois casos. Antigamente, as pessoas tinham medo de dentista. Depois, elas passaram a ter medo de não ir ao dentista, o que, pensavam, poderia ser afinal muito mais doloroso. De modo que não é nenhum enorme perigo dizer que não ir ao dentista é mais nocivo do que ir, porque isso soa, de fato, como alguém que quisesse dizer que você deve ir ao dentista. Mas caso bem diferente se passa, por exemplo, com a seguinte afirmação de Tolstói: “Antigamente, temendo deparar com objetos de arte capazes de corromper as pessoas, proibiam-na completamente. Agora, diante do medo de privar-se de algum prazer proporcionado pela arte, patrocinam toda e qualquer arte. Penso que o segundo erro é bem mais grosseiro que o primeiro, e que suas consequências são mais nocivas”.

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Tolstói, pelo pincel de Ilya Repin

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Porque a frase de Tolstói pode soar como “devemos proibir objetos de arte capazes de corromper as pessoas” é um enorme perigo sair dizendo-a por aí. Sim, porque as pessoas que morrem de um medo ainda maior de serem privadas de qualquer prazer não admitirão a possibilidade de isso ser cogitado, mesmo que seja nocivo. Tomadas pelo medo de privar-se, admitirão todas as coisas. Mas, ao contrário do exemplo do dentista, o que o escritor russo quer dizer não é que devemos proibir objetos de arte capazes de corromper, mas sim que o medo de ser corrompido é menos nocivo do que o medo de privar-se de qualquer coisa em geral, talvez porque este possa, em última instância, tornar-se um medo diabólico de deixar de ser corrompido.

Dito de maneira menos lógica, quando alguém proíbe completamente uma coisa porque ela pode corromper, isso é certamente nocivo; mas quando alguém não proíbe uma coisa porque não pode privar-se de nenhuma coisa, isso é ainda mais nocivo porque apaga todo juízo, ao ponto de poder significar que as pessoas estão dispostas a tudo, mesmo ao que possa corromper ou, em último caso, desde que seja possível corromper. Tolstói não estava falando sobre proibir ou não proibir, mas sobre medos e discernimento. Ele não estava querendo dizer que devemos proibir coisas; estava dizendo algo muito mais fundamental e inofensivo do que isso. Provavelmente ele estivesse querendo dizer apenas que o melhor mesmo não é nem ter medo da arte nem apego absoluto a ela, mas experimentá-la com critério, coisa que não é possível no outro exemplo — pois não consigo imaginar alguém que vai, mas não completamente, ao dentista. (Embora fosse igualmente insensato ir a todos os dentistas com medo de perder a dor maravilhosa da máquina própria de cada um deles.)

Penso, da mesma maneira, que é um enorme absurdo proibir qualquer pensamento. Mas penso também que é muito mais nociva a obrigação de cultivar todos os pensamentos. É sem dúvida um enorme prejuízo não só para a filosofia, como para a democracia, que alguém não possa expressar o que pensa. Mas é um prejuízo ainda maior que todos sintam a insuportável pressão de ter de expressar tudo o que pensam. Proibições de pensar é algo inaceitável. Alguém pode, se quiser, pensar que Cinderela é uma chata de galochas boazinha que está ali como um mal velado, um bullying contra as irmãs feias ou um ressentimento contra a força da inveja, e que é uma história que não deveria ser ensinada às crianças se queremos que elas sejam fortes. Seria terrível se não tivéssemos esse pensamento no mundo, porque nele precisamos às vezes também de um pouco de humor. Mas muito mais nocivo é alguém que pensasse poder distribuir gratuitamente nas esquinas lotadas de gente um remédio contra um vírus que se espalha em aglomerações. Pois logo também poderia, ainda que isso seja improvável, surgir alguém que pensasse em injetar desinfetante nas veias. Não demoraria muito, então, para um ser, diante de jornalistas ávidos, anunciar solenemente que bastaria transmitir sexualmente o vírus a um esquerdista para estar curado dele.

É certamente nocivo proibir um pensamento. Mas mais nocivo mesmo é alguém sentir-se obrigado a pensar e expressar todos os pensamentos que puder. Para ser mais claro, utilizarei um exemplo, que na verdade são alguns exemplos.

Como professor, recebo regularmente pedidos de avaliação de artigos científicos para publicação em periódicos acadêmicos de filosofia e áreas correlatas. Já faz algum tempo, noto que alguns textos são excessivamente apologéticos ou militantes. Em vez de argumentar, oferecer dados e razões, inferir suas conclusões e deixar que o leitor se posicione sobre o trabalho publicado, frequentemente os(as) autores(as) é que se posicionam. Eles(as) apresentam a visão de um filósofo, ou relacionam conceitos com outros conceitos, e marcam sua posição, como um ato, um gesto, e não parecem mesmo muito preocupados(as) com as razões em contrário. Como essas avaliações são às cegas, terei o cuidado aqui de não explicitar nenhum conteúdo específico, para não expor ninguém. Mas, no quadro geral, penso que estamos diante de um fenômeno novo e muitíssimo interessante. Tentarei explicar. Como o fato já me aconteceu algumas vezes, tomo a liberdade de suspeitar de que o último não tenha sido a oitava exceção. Mas foi certamente o mais emblemático, e que lançou, para mim, luz sobre o que agora talvez consiga descrever ou narrar. Imaginem só:

Um(a) autor(a) envia para um periódico acadêmico um artigo, no qual se apega, militantemente, a um filósofo ou ideia. Um revisor tece suas observações, tais como: que poderia ser menos a-crítico, que poderia ventilar argumentos em contrário, e que a Coisa que ele ataca tão violentamente pode ser mais complexa do que se supõe e que, portanto, nem tudo ali se ajusta à conexão que quer estabelecer. Dias depois, o artigo volta, com uma imensa carta de justificativa e com o texto modificado e ampliado. Isso porque o revisor aceitou, gentilmente, avaliar uma versão reescrita. Que ele encontra, então? Uma longa e obstinada justificativa na qual o(a) autor(a) declara, simplesmente, o seu “intuito” de concordar com o filósofo ou ideia em questão, embora não tenha lhe passado pela cabeça que explicitar um intuito talvez não seja suficiente para justificar a concordância. Para isso, o(a) autor(a) teria que oferecer argumentos pelos quais concorda com o filósofo ou ideia, e não simplesmente marcar ou reiterar essa concordância. Mas a carta segue desfilando palavras como “escamoteados”, “impostos”, “inculcados”, etc., referindo-se a aspectos da vida que coube àquele filósofo ou ideia revelar. Lendo aquelas considerações, e comparando-as com o texto reescrito e ampliado precisamente para levar em consideração as observações do revisor, tem-se um misto de tristeza e alheamento.

Sugeriu-se que o(a) autor(a) mencionasse teorias alternativas. Ele(a) agora o fez, de fato, mas tão a jato como o papa-léguas passa pelas armadilhas do coiote, mas sem que houvesse nenhuma armadilha. E ingênuo quem pensa que a menção a teorias alternativas fosse para mostrar que o problema é difícil, que há argumentos em contrário, e ainda menos que se enfrentasse esses argumentos. Não mesmo. As possibilidades de interpretar distintamente uma categoria teórica, por exemplo, jamais se transformam, na pena do(a) autor(a), no menor sinal de que sua visão possa ser mitigada. Pelo contrário, ele(a) a repete sempre mais e de novo, encontrando motivações renovadas para reforçá-la. Aliás, é apenas neste sentido que as observações do revisor são levadas em consideração, como mais motivos para reiterações, nunca para a escuta e a internalização da revisão. Pergunto-me, sinceramente, em que um(a) autor(a) perde acrescentando, mesmo numa mísera nota de rodapé, que uma determinada visão de um filósofo ou ideia está sujeita à discussão, e que não é óbvia? Absolutamente nada! Mas há, e foi aqui que eu pensei em Tolstói, a obrigatoriedade de não ser neutro, de marcar posição, de deliberadamente fazer o texto mais ideológico que se puder, porque a “neutralidade científica” é para ser evitada a todo custo.

Além disso, há sempre uma Coisa que precisa ser criticada, e que varia muito: o Ocidente, a razão, a técnica, a filosofia, a religião, quando não especialmente o cristianismo. Poucos discordariam de que essas coisas são complicadas e amplas demais, e que, portanto, uma crítica delas tem de ser razoavelmente delimitada. Então o revisor vai lá e lembra: delimitar melhor o objeto da crítica. E que recebe, então, em resposta? Aqui, talvez, o fenômeno se revele: o(a) autor(a) está ciente da complexidade do que ataca com tanta veemência, mas entende que certos aspectos, que ele(a) privilegiou, também fazem parte da Coisa. Em outras palavras, decidiu fazer um uso seletivo do material para benefício de sua “posição”. Quanto aos demais elementos daquela complexidade e que não foram selecionados… Bem, aqui a coisa se mostra ainda melhor: o(a) autor(a) reconhece a complexidade que não abrangeu, mas não a entende como algo que poderia diminuir o alcance de sua explicação; segue em frente afirmando apenas que sua leitura é uma leitura, e que concorda tranquilamente que pode haver outras. Diante de um questionamento simples, de que a categoria poderia estar inflada, o(a) autor(a) apenas se limita a apontar que há outras leituras, e que a dele(a) não tem outra pretensão se não a de ser uma leitura. Aproveita-se, assim, de certo ideologismo melancólico para defender, basicamente, uma associação vaga entre ideias, sob a justificativa cínica de que é uma associação entre ideias, e que poderia haver outras. A atitude básica por trás disso tudo é a de não perder nenhuma associação entre ideias que possa ser feita.

Para esse fenômeno, com o qual acredito que muitos já devem ter deparado, penso que o conceito de pós-filosofia se aplica bem. Aproveito-me aqui do que o filósofo e crítico de arte Boris Groys chamou de antifilosofia, que teria iniciado com Marx e Kierkegaard. Em analogia com a noção de antiarte, Groys escreveu sua Introdução à antifilosofia definindo-a como um “novo ramo da filosofia” que “não opera com crítica, mas com ordem”. Assim, temos a ordem de modificar o mundo, e não de interpretá-lo; temos a ordem de dar o salto da fé, em vez de raciocinar; de transformar o próprio corpo em um corpo sem órgãos e pensar de maneira rizomática, em vez de lógica, e assim por diante. Enquanto, para Groys, os filósofos são aqueles que amam a verdade e estão à procura dela, consumindo ofertas de verdade com critérios tão exigentes que nunca a encontram, os sofistas são os vendedores de verdade, os que afirmam tê-la encontrado. Por isso, os antifilósofos teriam tentado romper com a mercantilização da verdade, por parte de filósofos consumidores e sofistas produtores.

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Boris Groys

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O conceito de Groys é muitíssimo interessante. Mas acredito que o fenômeno que descrevi acima a partir de um caso emblemático é já um pouco diferente.

Algumas das publicações ou mesmo discussões mais recentes não são antifilosóficas simplesmente porque não supõem uma ordem a partir da qual, e só depois do cumprimento da qual, a verdade pode se dar. Não exigem um salto, para depois permitir a experiência. Pelo contrário, esses textos são antes gestos, atos, que nada exigem do leitor, que nada oferecem ao leitor, mas são apenas marcações de posições, do(a) autor(a) para si próprio(a), mas não só isso. Uma posição, entre outras, possível, sem qualquer pretensão de ser minimamente real. E, contudo, a veemência do ato é espantosa. O que se pretende não é dizer algo sobre algo, nem revelar as condições em que algo possa ser revelado, mas escolher uma Coisa, uma fantasmagoria, e levar adiante uma retórica de marcação de posição para outros também, e especialmente, que se identifiquem com a mesma fantasmagoria. Assim, elege-se como inimigo o Ocidente, a razão, a religião, e quando se depara com a complexidade dessas coisas, a atitude metodológica fundamental é a falsa humildade que abdica da verdade, mas que avança, como um lobo, sobre a mera possibilidade de tangenciá-la. Os usos seletivos não incomodam, pois se a Coisa pode ser vista dessa maneira, deve ser vista desta maneira. Nenhum pensamento deve ser desperdiçado, com ou sem paixão, no sentido inverso do belo título de George Steiner. Esta atitude, diferentemente da filosofia e da antifilosofia, talvez pudéssemos chamar de pós-filosofia.

Pois ela não é um decreto contra a mercantilização da verdade, mas também não é como o amor e o consumismo do filósofo por verdades ofertadas; é, antes, a disseminação em massa de falsas verdades, fake truths, que não passam nos critérios exigentes do filósofo. Se este pensa que a forma venal é inapropriada à verdade que ele mesmo procura na forma venal, inviabilizando seu encontro, o pós-filósofo oferece qualquer possibilidade de verdade. A atitude básica é: ao menor indício de que algo pode ser visto sob a perspectiva de algo, sentar e escrever um texto. Se argumentos em contrário existirem, ignorar, pois não se trata da verdade nem da aparência da verdade, mas simplesmente da possibilidade de que outros a comprem, de que se contentem com a falsa verdade sem critério. Sobretudo porque há outras pessoas com medo da Coisa, e diante da Coisa, qualquer porrete é plausível para atacar e defender. É possível que o surgimento de mídias sociais acadêmicas, com compartilhamento de textos e drafts, blogs e discussões filosóficas em redes sociais comuns, mesmo envolvendo técnicos da área, potencializem o fenômeno. A pós-filosofia sequer se compara com a antiga forma apologética de filosofar, pois o apologista pelo menos julga que algo é realmente verdade e, mais do que isso, procura trazer seus melhores argumentos em defesa de uma ideia ou crença religiosa. O pós-filósofo não precisa de argumentos, nem da mera aparência de verdade. Ele não é nem mesmo um antifilósofo, pois a ele basta que sua visão seja uma visão, na esperança de encontrar concordância com outros tenham medo da mesma Coisa.

Se a pós-verdade é um problema tipicamente científico relacionado a evidências, a pós-filosofia é uma negação deliberada não de fatos, mas de razões em contrário. Não porque se esteja convencido de que elas sejam falsas. Pelo contrário, considera-se que elas possam ser boas razões, mas reivindica-se o direito de seguir ignorando-as. É um negacionismo de razões. Reconhece-se que elas existem, mas um impulso psicológico ainda mais profundo e sobretudo a necessidade de combater a Coisa se impõem tão fortemente, que se pode prescindir delas. Não há a menor necessidade mesmo de uma aparência de verdade. Esse negacionismo filosófico só é possível, talvez, porque a filosofia lide tanto com verdades de fato quanto com verdades de razão, para utilizar a memorável distinção de Leibniz. Espero que não chegue o dia em que o negacionismo atinja a matemática. Não sei o que viria depois.

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Leibniz

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Recentemente, um colega filósofo fez uma associação entre pós-verdade e realismo filosófico, como se a obstinação de determinados sujeitos políticos fosse fruto não de uma descrença na verdade, mas, ao contrário, de uma grave crença na verdade. Ele acrescentava que autores ligados ao realismo, como Aristóteles e Tomás de Aquino, seriam alguns dos filósofos preferidos de um guru brasileiro que vive no exterior. Esta relação, sinceramente, me parece tão vaga como a de um pós-filósofo, e este colega ficaria surpreso em saber sobre quais filósofos são os textos tão obstinadamente negacionistas quanto a razões que me têm caído nas mãos. Talvez ele esteja querendo se referir, então, à força de enunciação de quem se apega tão fortemente à própria “verdade” que nenhuma outra possibilidade lhe interessa. Mas tudo aquilo a que pessoas assim não estão abertas é a uma realidade independente de si.

Supor que haja uma verdade em filosofia, que haja uma realidade independente de cada um, só pode gerar humildade e prudência, como, aliás, são as bases de uma ética das virtudes aristotélico-tomista. Até mesmo os idealistas, que não acreditam numa realidade independente, não deixam de manter um pressuposto realista metódico, frequentemente identificado com a própria razão. É por isso que continuam argumentando, levando em consideração razões em contrário, tentando refutar uns aos outros. Isso porque, embora não acreditem na verdade, a amam. O pós-filósofo, pelo contrário, não ama nada, mas odeia muitas coisas. Ou, melhor ainda, odeia uma Coisa. Esta precisa ser combatida com qualquer arma, de verdade ou não. Isso, que não é sequer um idealismo, é uma pós-filosofia porque não possui os critérios de quem ama ou consome. A força de enunciação, que pode sugerir a crença numa verdade, independe da concepção de verdade pressuposta, e parece se apoiar muito mais numa disposição psicológica. Talvez se explique pelo medo. Todos que neste momento filosofam não por amor a algo, mas por ódio a algo, acabam por livrar-se de todo critério. A expressão “louco de raiva” é certeira, e em muitas línguas, como no inglês mad, estar com ódio ou raiva e estar louco, deixar de lado a razão, é basicamente a mesma coisa. A filosofia tem no amor à verdade o seu fundamento. Quem filosofa por ódio, acaba por levar adiante uma “filosofia” que nem tem pretensão de verdade nem se preocupa com a aparência da verdade, e rejeitam razões com o mesmo rigor que negacionistas rejeitam fatos.

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Detalhe d’A Escola de Atenas, de Rafael

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Arthur Grupillo

Arthur Grupillo é jornalista, professor de filosofia da Universidade Federal de Sergipe, autor do livro O homem de gosto e o egoísta lógico: uma introdução crítica à estética de Kant.