Quando eu morrer, escreverei um livro no Brasil

por Thiago Blumenthal

Enquanto estiver vivo, quero morrer no Brasil para que eu possa escrever um livro sobre minha morte. Funciona assim, eu morro, assino com uma editora, e penso em minha sonhada imortalidade, ali a alguns poucos passos de ser atingida. As melhores imortalidades são daqueles que, uma vez mortos, continuam vivos, pontifica o mito.

Boutade à parte, venho notando um comportamento similar em alguns autores de nossa literatura, quando a morte se transforma, em mais do que mote, em uma celebração do ego às avessas. Um movimento mais propício à análise de um terapeuta do que um crítico literário e, como não sou nem um nem outro, observo à distância segura daqueles que apenas observam sem entender: o jornalista.

Faço-me aqui de jornalista para levantar essa lebre de que muitos de nossos autores estão morrendo tão precocemente estando infelizmente ainda vivos – convoco o linguista para decidir onde inserir o advérbio. Não se morre ainda vivo.

JP Cuenca, PC Siqueira e Milly Lacombe estão, segundo eles mesmos, mortos. Algo declarado nas capas de seus próprios livros, que fique claro, vamos a eles: Descobri que Estava Morto; PC Siqueira Está Morto e O Ano que Morri em Nova York. Não se enganem, contudo. Eles estão vivos e, até onde sei, a algumas léguas submarinas da imortalidade. Pior, nem em seus livros eles se encontram mortos de fato, sendo a morte um joguete na mão de um narrador (e de um editor esperto) que evoca o mais árduo milagre que propõe a Fé. Morrer, sem ser morrendo, afinal.

O maior nome de nossa literatura, Machado de Assis, já apertara esse nó no laço mais escuro há um século e meio aproximadamente quando escreveu as memórias póstumas de seu Brás Cubas, obra máxima que inauguraria em definitivo um movimento de desenlace com o realismo mais concreto de outros escritos do bruxo do Cosme Velho. Ali a morte se revela ao leitor com uma piscadela a Sterne e a Dickens, e também às senhoras que consumiam os folhetins do fim do século XIX, em um gracejo baudelairiano ao evocar o verme que primeiro roeu as frias carnes do cadáver de meu cadáver.

Mais do que chocante, essa dedicatória sugere o humor de um autor fino que conhecia seus leitores (e suas leitoras) e, apesar da força do folhetim à época, na melhor tradição francesa, prenunciava a morte, essa também, de um sistema literário que obedecia à agenda de enormes prensas manuais com dia e hora para ser publicado. A ascensão do romance e a morte do folhetim seriado celebrariam, agora sim, para valer, a imortalidade, a vida eterna, do autor. Se Brás Cubas estava morto, Machado de Assis continua muito vivo em 2017.

Se a morte é um tema caro à literatura, cara não é à filosofia. A autoficção, gênero um tanto quanto incompreendido pela crítica contemporânea, criou certo fetiche pela própria morte, fazendo do evento algo digno de ser rodado em 35mm. O grande problema da autoficção é quando ela não se sustenta, e o autor depende demais da muleta de seu próprio nome — mas quem é o autor?

Uma coisa é Bob Dylan falar de si, como em Bob Dylan’s 115th Dream ou Leonard Cohen em Field Commander Cohen. Não precisamos de Google, a lenda sustenta o nome. Já a autoficção que depende demais de um nome é como uma mesa em que uma das pernas precisa de um calço ou bamba ficará. Bambo, a bem da verdade, fica o leitor, ficamos todos nós. Autoficção se transforma apenas em fracoficção, com o perdão do neologismo concreto.

Penso muito na morte. Os judeus, como os egípcios antigos (uma grande troça na verdade), pensam muito na morte. Há um apego enorme a essa ideia de que iremos partir a outro planeta, como repete meu pai em tom farsesco (e trágico). No fim, nossa morte é a morte de todos, de JP Cuenca, dos nossos desafetos, de Proust, de Machado, de Brás Cubas, daquele primeiro verme. Quando morremos, todos morrem.

Enquanto isso, enquanto não morro, nossa literatura especializa-se em pequenas mortes, romantizadas até o talo, em Nova York, mal informadas, de YouTubers, indo para os best-sellers. Mas há um respiro feliz. Em breve, inicio uma série de comentários sobre literatura contemporânea, com romances que merecem destaque, como Acre, de Lucrecia Zappi, que muito tem me tocado. Há vida, também, na literatura brasileira.

Thiago Blumenthal

Thiago Blumenthal é fundador da editora Lote 42, doutor em Literatura e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.