Quatro poetas: produções do isolamento

Męka tworzenia, Leonid Pasternak, séc. xix

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Eis um período histórico peculiar: de uma só vez, uma crise sanitária de dimensões globais, que encerra adultos e crianças, homens e mulheres, permanentemente em casa, e um Brasil instável e polarizado, talvez, como há décadas não se via. Para o jornalismo, trata-se de um prato cheio; para analistas políticos e frequentadores assíduos das redes sociais, também – bem como para os que compõem teoria e prática jurídicas, cientistas, psicólogos, sociólogos, economistas, e toda outra ordem de áreas. Nesta lista, porém, poucos incluiriam artistas, músicos, escritores – exceto quando lhes diz respeito algum movimento político desastrado. Os poetas, de modo especial?

No entanto, como toda boa literatura, talvez eles possam aportar mais ao debate do que se esperaria numa sociedade pouco dada aos versos (sim: bastaria breve consulta aos números do mercado editorial referentes ao gênero). O Estado da Arte buscou quatro nomes da poesia nacional para lhes pedir uma mostra – inédita – da produção realizada em período de quarentena.  O resultado talvez ofereça um surpreendente retrato da tensão (ou da completa falta de tensão) entre a sensibilidade e a interioridade de cada um desses autores e as vicissitudes presentes.

Os textos vêm de Hugo Langone, autor de Do nascer ao pôr do sol, um sacrifício perfeito, A descida do Monte Tabor (no prelo) e do livro-ensaio Chorar por Dido é inútil;

de Mariana Ianelli, quatro vezes finalista do Prêmio Jabuti e autora de mais de uma dezena de títulos, entre eles Trajetória de antes, Passagens, Almádena e Treva alvorada, com o qual recebeu menção honrosa no Prêmio Casa de las Américas;

de Bernardo Lins Brandão, professor da UFPR e responsável por Rua Musas;

e de Guilherme Gontijo Flores, autor de brasa enganosa, Tróiades, l’azur Blasé e Naharia.

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Hugo Langone

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Do vento

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Meus filhos choram

Enquanto trabalho.

As vocações concorrem entre si:

É assim que Deus se diverte,

Mas não creio serem essas

As delícias que encontra entre os homens.

Do lado de fora da janela,

O vento empurra folhas contra a grade

Porque gosta do som, mas eu mesmo

Penso ser algum chamado.

Sou todo ouvidos,

Vejo símbolo em tudo, chamo o outono de artista,

Busco a liturgia de uma palavra precisa e rara,

Mas tudo, segundo as aves, é só a brisa, só a manhã.

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Brasil

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Pede-se:

Ouvi-nos,

Atendei-nos,

Na breve litania

Sem cantos.

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Figueira frondosa

Sem frutos,

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Túmulo das

Promessas,

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Estertor da

Esperança,

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Devir constante do

Não,

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E a jaculatória, enfim,

Que roga a

Piedade.

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Sketch de “Summer Dreams”, Henry Scott Tuke

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Mariana Ianelli

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Os amantes de Wuhan

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Até quando? É a pergunta que nubla

Uma cidade na clausura

Desolada pelo terror de um ar irrespirável.

O comércio foi suspenso.

Os abatedouros aquietaram-se.

Os que ainda se arriscam pelas ruas

Praticam a ciência dos fantasmas.

A espera tem cachos de olhos nas janelas

Mas na casa dos amantes

Todos os olhos já se fecharam.

Nunca foram tão obedientes

Às exortações das autoridades.

Ocupados feito monges

Justificados pela peste

Estão se percorrendo milimetricamente

Pelos poros, por noites encadeadas

Num único dia sem fim, eles estão se amando

E não têm tempo a esperar que o tempo passe.

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Entre as folhas da palmeira

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Numa guerra em fogo baixo

Até os dias amanhecem

Ao contrário. Azuis do azul

De um sol desertado.

Ansiamos por alguma coisa

Que traia nossa desconfiança

Algum bem que se alastre

Mais potente

Que a claque dos carrascos.

Aceitamos rezar pelo improvável

Rezamos, rogamos e tanto

Que as poucas folhas da nossa palmeira

Empenham a vida que ainda têm

Em balançar

Por força da nossa louca vontade.

Consideramos a possibilidade

De um sacrifício.

Se depois mudarem os tempos

E uma paz se deixar tocar

De noite até o dia seguinte

Sem que se desfaça

Se o sol voltar e com ele

A nossa parte clara

Será coincidência e não será.

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Lucrécia como Poesia, Salvator Rosa

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Bernardo Lins Brandão

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os sinos

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os sinos anunciam o eterno

as flores do ipê buscam as sombras da tarde

que tomam as ruas

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a vida repousa em espelho

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os olhos ganham a leveza das aves

e a alegria se assenta em sacra sede

no desaperceber do deslumbramento

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os amigos de S. Nicolau

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nos tempos de Constantino, três homens, generais

do império, Urso, Nepociano e Aquilão, que se ocupavam em saquear cidades

na costa do Adriático, à mesa foram chamados

do bispo Nicolau

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ali provaram do vinho,

e se embriagaram e foram conduzidos a si e a alegria

que jorrava dos olhos do velho esfriou-lhes a ambição por sangue

inocente

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feliz quem se faz amigo de um santo

vão é o desejo

de combatê-lo

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abandonando o culto às fúrias, os três se fizeram simples,

mas a soberba e a calúnia de seus inimigos não tardou

em lhes encontrar

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condenados à espera da lâmina

do algoz, foi em tremor e espírito  que invocaram o auxílio

do ancião Nicolau

….

e o santo não foi lento em seu socorro

e  tão logo invadiu os terrores

noturnos do rei, de feras cobrir seus pastos

prometeu e o seu corpo insensato em vermes

formigar se as demandas da justiça mais uma vez ousasse

abandonar

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e os três prisioneiros ergueram as mãos

aos céus quando lhes perguntaram acaso conhecer o nome

de São Nicolau

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e vendo no dia seguinte ir-lhes o velho ao encontro

aos seus pés se prostraram e a ele

proclamaram escravo

e amigo de Cristo

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Cathedral Church at Lincoln, J.M.W. Turner

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Guilherme Gontijo Flores

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Matina

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A medalha é uma réstia de sol

couro e estrume na borda da luz

que desbota o capim calcinado

de tarde a tarde ao que cabe no chão

entre as dobras das leiras na terra

Um dedo aponta a chacina do dia

encoberto de musgo & feno & pó

uma unha espocando no cerne

da vida em cutícula assimila essa

carne dormente no caso do pó

Explodem na aurora umas fabulações

de azul & laranja de verde & rubi

são gritos palmeiras são olhos sementes

são cal & cimento no cais da manhã

Um asno urra as quimeras perdidas

do dia no caos do primeiro rebento

de milho & soja pela terra assolada

que cumpre a medida do corpo

a cansada mesura dos membros na mó

Cão e pato consumam o quadro

& as nuvens não cabem no moto

que esquadros ao pouco limitam

na cena decídua que a íris define

Os pés se confundem no meio da mata

mãos abrigando seivas & pólens

Na dobra dos pulsos rebentam brotos

a boca entre pastos floresce erva-doce

Vibra o barranco de vida & depois

de um tempo aceita o dia o dom

de dor & fúria a sina de som

& terra que acolhe tudo em volta

O ouvido ainda encobre a mata

num zunido estalando a paisagem

são talos novos  no olho d’água

& o metal no peito do moleque

entranhado não é medalha de ouro

estranho sol que dorme carne adentro.

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……

Wega

……

Você vai morrer sozinho

vai ser sepultado sozinho.

……

………..Você vai morrer sozinho

……….. vai ser sepultado sozinho.

……

Pense por isso no dia

que você vai morrer sozinho.

……

………..Você vai morrer sozinho

………..vai ser sepultado sozinho.

……

Tantos já nos deixaram

e você também vai morrer.

……

………..Você vai morrer sozinho

………..vai ser sepultado sozinho.

……

§

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Uchafa uri wega

ugovigwa uri wega.

……

§

……

Todas as tribos que se foram

…………acolham aqui seu filho

 …………………………….a ele acolham.

……

Todos os pais que se foram

………..acolham aqui seu filho

…………………………………acolham.

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E todos os mais velhos que se foram

………..acolham aqui seu filho

…………………………….a ele acolham.

……

Hoje ele se vai

……….. acolham aqui seu filho

…………………………….ele se vai.

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(O poema “Wega” deu-se a partir de dois cantos funerários do povo xona, transcritos por Jesús Fuentes Guerra.)

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Fugitivos (Atribuído a Honoré Daumier)

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