Marina Tsvetáeva e o amor de WhatsApp

por Flavio Quintale

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Em um recente programa de televisão francês que me deparei por acaso navegando pela internet, aparecia a história de um jovem casal que namorava pelo WhatsApp sem nunca ter se visto pessoalmente. O programa preparou finalmente esse primeiro encontro a pedido da moça perdidamente apaixonada. O rapaz havia rompido com ela via chat pela impossibilidade da relação, devido aos mais de quinhentos quilômetros de distância que os separam em meio à pandemia. Mas a vida real não ofereceu a volúpia da paixão virtual. Foi uma decepção. O acontecimento remeteu-me diretamente à russa, Marina Tsvetáeva, poeta do sofrimento, poeta do amor: “Sem o amor, não me há vida… quando não amo — eu não sou eu”.[1]

Tsvetáeva teve uma vida conturbada, exilada em Berlim, Praga e depois em Paris escapando dos bolcheviques, até retornar a Moscou, sua cidade natal, em 1939, culminando com seu suicídio em 1941. Contudo, seus sofrimentos não se limitaram às constantes mudanças, à vida economicamente miserável depois de 1917, à morte por inanição da segunda filha em 1920 aos três anos de idade, à prisão do marido e da filha mais velha e a incompreensão de vermelhos e brancos à sua escolha pela independência “nem nosso, nem vosso”, como se lê em suas Confissões. Tsvetáeva sofria de amor. Sofria de amores. Esses inúmeros amores raramente terminavam em encontros físicos. Serviam de combustível para incendiar seu coração e transformar esses sentimentos um tanto desordenados em poesia. “Não importa: homem, mulher, criança, idoso — desde que eu ame! Com a condição de que eu ame”. [2]

Ela se apaixona pelo então jovem crítico Alexander Bakerak sem jamais encontrá-lo. Ele havia escrito um artigo elogioso sobre suas poesias. Ela inicia um amor epistolário. Ele se mantém neutro apenas tratando de questões de interesse poético. Ela tem dificuldade em aceitar que amem seus poemas, mas que não a amem, de tal maneira ela se coloca e se entrega em seus poemas. Não são apenas palavras, é toda a sua alma. Alguns meses depois, de repente, ela rompe a relação amorosa unilateral com o crítico, dizendo-lhe que já não o ama mais e que descobrira um novo amor. De maneira semelhante, a história se repitará com os poetas Nicolai Gronski e Anatoli Steiger.

Alguns outros casos de paixão virtual por parte de Tsvetaeva chamam à atenção pela celebridade dos envolvidos: os poetas Rainer Maria Rilke e Boris Pasternak. Pouco antes de partir para o exílio, Tsvetáeva teve um breve encontro com Pasternak em Moscou, que será a origem de uma longa troca de correspondências durante quatorze anos entre os dois poetas, publicadas pela editora АСТ de Moscou, com o título “Чрез лихолетие эпохи… Марина Цветаева – Борис Пастернак, письма 1922-1936“ (Ao longo de tempos difíceisMarina Tsvetaeva – Boris Pasternak, correspondências 1922-1936). Pasternak colocará Tsvetáeva em contato com o poeta Rainer Maria Rilke. Eles trocarão cartas em 1926, ano da morte do poeta austríaco. Logo a calorosa admiração pela obra poética de Rilke transforma-se em paixão pelo homem. Embora Rilke mantenha-se menos inflamado pela paixão avassaladora do que a correspondente distante, talvez por não crer tanto no amor à distância e desmotivado pela leucemia que lhe consumia em seus últimos dias, ele responde com uma elegia, tentando fazer voltá-la à razão, deixando claro que eles são “artífices de signos, nada mais”.  Mas Tsvetáeva parece não se importar, fingir não perceber as reticências de Rilke, e terminará mais uma vez decepcionada, sofrendo de amor. No escrito autobiográfico Tua morte, inspirado no amado poeta morto, Tsvetáeva diz que “em matéria de amor, somos gauches até a morte”.[3]

Com Pasternak não será diferente. Mas a relação amorosa virtual encerra-se em 1935, quando Pasternak vai a Paris para o Congresso em defesa da cultura, visivelmente um ato de propaganda política soviética. O encanto se desmancha no ar. O divino Pasternak das cartas é apenas um homem de carne e osso a serviço dos soviéticos que mostra excessiva preocupação em comprar presentes para a mulher nas boutiques chiques de Paris. Mais uma decepção. Mais um sofrimento: “É o meu caminho — desde a infância. Amar: sofrer”.[4]

Amar e sofrer, como se amar fosse uma necessidade absoluta condicionada ao sofrimento, uma força vital que a remetia ao amar, antes de tudo a si mesma, e consequentemente ao sofrer no mais íntimo do seu ser quase como a essência de sua própria existência. Amar é igual a sofrer que é igual a Tsvetáeva, “tu, sou eu + a possibilidade de amar a mim mesma. Tu, única possibilidade de amar a mim mesma. A exteriorização da minha alma”.[5]

Essa ligação absoluta entre poesia, viver, amar e sofrer teria um desfecho coerente, mas desgraçadamente trágico no domingo 31 de agosto de1941: “Como pude parar de escrever poemas, posso um belo dia parar de amar. Então morrerei… Acabarei certamente me suicidando”.[6] Sem saber do paradeiro do marido, executado pouco tempo depois pela polícia stalinista por traição, e da filha Alia presa no gulag, Tsvetáeva deixou o filho Mour de dezesseis anos que comentará poucos dias depois do suicídio da mãe: “Ela fez o certo, ela tinha motivos para se suicidar; era a melhor solução e dou plena e inteira razão a ela”.[7] O perdão do filho foi seu amor finalmente correspondido. Mour morreria três anos depois em julho de 1944, com dezenove anos, no campo de batalha. Um número em meio aos vinte e cinco milhões de soldados soviéticos mortos durante a Segunda Guerra Mundial.

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Tsvetáeva e o filho

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Alia voltaria do gulag dezesseis anos depois e consagrará o resto de sua vida à publicação das obras da mãe. Segundo amor de Tsvetáeva correspondido. Hoje, Tsvetáeva é amada por milhares de leitores de seus poemas e de suas obras em prosa e desperta compaixão em tanta gente pela sua vida repleta de tribulações.  Brancos e Vermelhos. O amor foi correspondido.

Em tempos de covid-19, com tantas restrições de locomoção e impossibilidade de encontros, por prudência e temor de serem infectados, parecem explodir as paixões e os amores de WhatsApp. Como se, tu, do whatsapp, sou eu + a possibilidade de amar a mim mesmo/a mim mesma. Vai lá saber quantas Tsvetáevas com Pasternaks e Rilkes não estariam produzindo grandes obras poéticas do nível da moscovita que é, sem dúvida, uma das maiores poetas russas do século XX? Saberemos um dia, se eles tiverem salvado suas mensagens. Tomara, porém, que o fim das histórias não seja demasiado trágico.

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Sombra de Tsvetáeva no cemitério de Montparnasse, 1938

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Notas:

[1] Marina TSEVETAEVA. Vivre dans le feu (Confessions), p. 670 e 691.

[2] Marina TSEVETAEVA. Vivre dans le feu (Confessions), p. 520.

[3] Marina TSEVETAEVA. Ta mort, in: Récits et essais (œuvres, tome II), p. 228.

[4] Marina TSEVETAEVA. Vivre dans le feu (Confessions), p. 308.

[5] Marina TSEVETAEVA. Vivre dans le feu (Confessions), p. 307.

[6] Marina TSEVETAEVA. Vivre dans le feu (Confessions), p. 705.

[7] Marina TSEVETAEVA. Vivre dans le feu (Confessions), p. 708.

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Flavio Quintale

Flavio Quintale é tradutor literário, bacharel em jornalismo e doutor em Letras pela USP e pela Universidade de Könstanz, Alemanha. Foi professor de Literatura Comparada na Universidade de Aachen, Alemanha.