A razão instrumental e as paixões violentas de um líder

por Celina Alcântara Brod

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“A teoria revolucionária enquistara em um culto dogmático, com um catecismo simplificado e facilmente assimilável e o No. 1 como pontífice máximo celebrando no altar da Razão de Estado.”

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 Arthur Koestler, O Zero e o Infinito

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Arthur Koestler (Reprodução: Erich Hartmann/Magnum)

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Toda e qualquer ação humana está vinculada a alguma emoção. É impossível que a vontade seja motivada, única e exclusivamente, por uma conclusão racional. A razão sozinha não motiva. Da mesma forma que não matamos a fome lendo um cardápio, não agimos corretamente apenas porque conhecemos algum princípio racional. São estas as ideias que perpassam o famoso jargão de David Hume: “a razão é, e somente deve ser, escrava das paixões”. A frase provocativa serve tanto para nossas ações prudentes, por exemplo, não procrastinar ou comer demais, quanto para nossas ações morais, como não enganar ou prejudicar alguém.

Hume está enfatizando um aspecto irredutível da nossa psicologia: para que haja ação, não basta sermos convencidos intelectualmente, há algo além de argumentos que move ou freia nossa vontade. Neste sentido, é falso dizer que há um embate entre razão e paixão, pois quando o assunto é tomar uma decisão a tensão acontece entre paixões: emoções, desejos ou sentimentos mais intensos e violentos rivalizam com outros, mais calmos e serenos.

Se alguém age de modo diferente do que deveria agir, isso não diz nada sobre sua racionalidade, mas diz muito sobre suas motivações e caráter. Já para a filósofa kantiana Christine Korsgaard, razões para ações “devem ser capazes de motivar pessoas racionais”. Se Hume estivesse vivo, provavelmente refutaria o requerimento de Korsgaard da seguinte forma: se razões nos motivam a agir é porque elas remetem a sentimentos existentes, caso contrário seríamos completamente indiferentes a elas. A ideia de que podemos atribuir a moralidade alguma espécie de conformidade com uma norma racional é negar o próprio fundamento que nos permite dizer que algo é moral, a saber, nosso sentimento diante de uma determinada ação. Um pouco de observação diária e somos capazes de concluir que a censura moral resulta de nossa aversão aos sentimentos que impulsionam uma ação, não a algum erro de cálculo.

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Hume por Allan Ramsay, 1766

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Mas nem tudo está perdido, pois a razão é uma servente competente. Ela é capaz de informar os meios necessários para obtermos um fim ou as consequências de uma ação cruel, ou amorosa. A razão-escrava, com seu mecanismo de associação de ideias e cálculos probabilísticos, é habilidosa em projetar cenários possíveis, sentimentos futuros ou os efeitos de uma determinada atitude. Além de todos estes dotes, ela também consegue corrigir nosso imediatismo espaço-temporal, mitigando nossa inclinação a parcialidades, preconceitos e interesses pessoais. Tais correções nos colocam em contato com o sentimento moral, aquele que ocorre quando imaginamos o outro e ampliamos nossa simpatia para um ponto de vista geral. Portanto, escolher sempre envolve algum sentimento, para o bem ou para o mal.

Se alguém deseja envenenar o cachorro do vizinho, a razão sabe informar os diversos meios para efetuar essa vontade; vontade motivada por uma paixão violenta.  Além dos meios, também recebemos da razão informações sobre os efeitos factuais e sentimentais dessa ação. Ou seja, se não desejamos sentir remorso ou infligir dor em alguém, a razão indica o caminho para tal destino. Se não lhe damos ouvidos é porque um futuro arrependimento ou o sentimento moral foram incapazes de derrotar a paixão contrária. Caso a decisão pelo envenenamento for o resultado do embate, então estaremos diante de uma ação imoral e viciosa, mas não irracional. Agora, caso uma paixão mais calma vença, instigada pela imaginação e simpatia e resolvemos renunciar a paixão intensa, teremos uma ação virtuosa. Como observado pela filósofa humeana Annette Baier, a razão de Hume não é pura, é uma razão socializada, que leva em consideração sentimentos compartilhados e nossa autoaprovação.

Irracionalidade, ao menos dentro desta perspectiva humeana, é sabotar o fim desejado usando os meios errados. Por exemplo, irracional é querer abrir uma porta empurrando a maçaneta ao invés de girá-la. É também irracional subir em uma goiabeira esperando encontrar alguma maça. Mas, não é irracional prejudicar alguma pessoa para atingir interesses próprios ou até mesmo “preferir a destruição do mundo inteiro a um arranhão em meu dedo”, afirma Hume. Se a razão me informa das possíveis consequências da minha ação, seja qual for a escolha final, a ação resultante terá sido racional.

Esta foi uma das ideias que Hume fincou como referência para entendermos o comportamento humano e a formação do nosso universo moral. A moralidade, essa esfera da vida que distingue atitudes certas de erradas, provém de sentimentos básicos que compartilhamos. A razão jamais conseguiria extrair deveres apenas relacionando ideias e abstrações, pois as crenças que temos sobre o que não devemos fazer nos é fornecida pela experiência de nossas interações sociais. “Nenhuma ação pode ser virtuosa ou moralmente boa, a menos que haja na natureza humana algum motivo que a produza, distinto do sentido de sua moralidade”, diz Hume. Dito de outra forma, agir por dever só poderia existir em um mundo onde a violação desse dever nos gera mal-estar.

No fim das contas, como defendeu a filósofa Philipa Foot, a moralidade parece ser um sistema de imperativos hipotéticos (se quero x, devo y), ou seja, se queremos ser respeitados devemos respeitar, porque o respeito é algo pelo qual nos importamos. Assim como nos importamos com a gratidão, o amor, o cuidado, a amizade, o carinho e tantos outros valores. Foot argumenta contra a ideia de que juízos morais são imperativos categóricos, ou seja, comandos que dizem o que devemos fazer independente dos nossos interesses. Se isso fosse verdade, argumenta Foot, qual seria a diferença entre regras de etiqueta e regras morais? Regras de etiqueta também são o que são, independentemente do que pensamos ou sentimos em relação a elas. O comando “você não deve colocar os cotovelos sobre a mesa”, é um imperativo que não quer saber o que você pensa ou sente em relação a ele. Nós sabemos que regras morais são diferentes de regras de etiqueta, mas não pelo fato de serem categóricas.

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Philippa Foot

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Não precisamos entrar em pânico porque tais comandos não existem por si sós.  É que, no fundo, “sentimos como se o imperativo categórico nos desse algum controle sob a situação”, diz Foot. Porém, tal ideia parece ser mera ilusão, pois não há nada como um dever em si mesmo, ou seja, algo livre de razões e desejos. Se nos importamos com a moralidade é porque temos algum sentimento em relação ao que consideramos certo ou errado. A pergunta sobre por que devemos ser morais é, na verdade, uma pergunta que precede outra: por que nos importamos em discutir a moralidade? E importar-se com algo, seja o que for, já nos coloca no universo dos afetos.

Nesse aspecto Hume foi transcendental: nosso conjunto psicológico cognitivo-passional é a plataforma pela qual ordenamos os fatos, sentimos as relações e geramos uma linguagem moral. Séculos depois do escrito do Tratado da Natureza Humana, a psicologia moderna e a neurociência mostram o quanto as observações de Hume estão próximas dos resultados de pesquisas e experimentos atuais (Joshua Greene, 2001 Jonathan Haidt 2001). Cognição e afeto andam de mãos dadas na produção de juízos morais. Logo, todos somos, em maior ou menor grau, escravos de nossas paixões.

Há quem culpe o filósofo pela decadência da racionalidade no decorrer da história do pensamento, como se ao dedurar os limites da razão e mostrar a força dos afetos fosse a causa do nosso deserto moral. Ora, fazer isso é o mesmo que culpar a moldura pela pintura que ela exibe. Se David Hume não estava disposto a conceder a razão algo que, segundo ele, ela era incapaz de oferecer, era justamente porque ele entendia que o próprio idealismo racionalista era mais perigoso que o enfrentamento sincero da nossa psicologia passional.

O ceticismo moderado de Hume, quanto o papel da razão na ação, é parte da sua crítica bem como um dos pilares de suas respostas para a filosofia. Hume não estava disposto a omitir verdades inconvenientes em nome de uma prática falaciosa. Qual prática? A ideia de que a razão humana poderia desvincular-se do próprio mundo que a moldou e, desse ponto além-mundo, ditar fins morais. Aliás, é justamente quando pretendemos que a razão consegue tal feito que corremos o risco de confabular falsas filosofias e versões alternativas de mundo, isto é, sistemas de crença ausentes de apoio empírico.

A ideia de uma razão autônoma, capaz de ditar fins perfeitos para o mundo prático dos homens, estaria disposta a negligenciar a experiência, as situações e qualquer sentimento em nome de uma lógica estritamente abstrata. Hume notou que o zelo pela perfeição tem sua correspondência no entusiasmo do indivíduo, dando lugar a oposição violenta e a dogmatismo.

É precisamente pelo fato de que a imaginação pode conceber qualquer tipo ideia sobre o mundo que uma razão emancipada pode gerar erros e absurdos. Sua filosofia atentava para a força da experiência, ela é o critério que limita as elucubrações da imaginação, “sem consultarmos a experiência, é evidentemente impossível fixar qualquer limite preciso para nossa autoridade”, defende Hume. É justamente um solipsismo exacerbado — o descolamento do mundo sensorial e habitual — que alimenta a imaginação de grupos fanáticos e extremistas, que passam a enxergar o senso comum como um grande embuste.

Reconhecemos que estamos diante de um grupo fanatizado quando a preservação do grupo e da reputação do líder são mais importantes do que a realidade e os fins privados e genuínos dos seguidores. Para o psiquiatra pesquisador Robert Jay Lifton, reconhecido pela sua teoria da reforma do pensamento, “realidade é um conceito paradoxal”, pois ela combina elementos construídos e elementos diretos e factuais. Para Lifton, líderes, sustentados por uma relação de culto a sua personalidade, buscam se apropriar não apenas das mentes alheias, mas da própria realidade.

O objetivo de grupos que apresentam essa espécie de comportamento é a manutenção da figura do líder contra qualquer contrariedade externa, uma vez que ele representa o bastião da verdade de uma missão transformadora. Portanto, se algum líder deseja manipular um grupo de pessoas e convencê-las de apoiarem os seus propósitos e, para tal, ele utiliza falas que apelam para a demonização de outros grupos e a deturpação deliberada de fatos, induzindo seus seguidores ao medo e a crença na sua pessoa, sua ação não é irracional. Tal líder usa justamente da capacidade instrumental da razão, ou seja, a habilidade de informar meios para fins, para atingir seu objetivo.

Sua ação, no entanto, é imoral, pois induz as pessoas a tomarem decisões baseadas em seu falso testemunho. Neste caso, estamos lidando com alguém cuja ação é motivada por sentimentos torpes, e justamente por isso, tal homem é vicioso. A pessoa em questão age de acordo com paixões violentas, que podem variar entre o desejo de punir seus inimigos, ódio ou ressentimento. Sua ação seria, portanto, viciosa e perigosamente racional.

No entanto, como é possível que mesmo diante de ações claramente viciosas haja pessoas dispostas a confiar em tal líder? Aqui a teoria associativa de Hume é capaz de iluminar uma possível resposta. Somos seres que contagiamos uns aos outros com aquilo que sentimos e pensamos. Existe nos indivíduos uma propensão natural em crer no testemunho alheio e, por simpatia, ser contagiado pelos sentimentos de quem ele partilha afinidades. O uso da baixa retórica e da eloquência de um líder, combinadas com paixões violentas, afetam a imaginação e são capazes de gerar ideias e sentimentos vívidos.

Se as paixões, violentas ou calmas, impulsionam o agir e a simpatia é capaz de fazer com que haja a contaminação de crenças e emoções, então, a interação entre um líder e seus seguidores será de extrema importância. Se o líder constantemente cria uma divisão entre aqueles que o seguem e os “outros”, tal ideia impossibilita que a simpatia atue de forma alargada, ela ficará restrita a aqueles que confiam nas ordens e testemunhos do líder. Nessa espécie de estrutura social não importa mais o que é dito ou o que é feito, mas quem o diz e quem o faz.

Assim como o líder utiliza da sua razão instrumental para atingir seus fins, fins motivados por paixões violentas, os seguidores, cuja imaginação é bombardeada pela realidade imposta pelo líder, gradativamente substituem o uso de uma razão que visa fins privados e socialmente alargados, pelos fins ditados pelo próprio líder. As paixões violentas que motivam essas ações, podem ir desde o medo, o entusiasmo político e, até mesmo, a esperança.

Portanto, essa espécie de líder, além de imoral não faz um uso virtuoso da razão que tem.  Ele utiliza o seu conhecimento sobre causas e efeitos — inferências sobre o mundo dos fatos e das emoções — para dar vazão a fins maldosos. Mesmo diante das informações que sua razão-escrava lhe fornece, informações sobre os as consequências dos seus desejos perniciosos, este líder resolve perseguir seus interesses mesmo assim. Há nele ausência de firmeza de caráter, ou seja, a qualidade de ser influenciado por paixões calmas e sentimentos morais. Talvez isso explique um dos fenômenos mais intrigantes da humanidade: fatos não são suficientes para mudar opiniões ou ainda pior, mudar paixões.

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(Reprodução)

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Celina Alcântara Brod

Celina Alcantara Brod é mestre e doutoranda em Filosofia Política pelo Curso de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).