Vera Magalhães: Seguimos

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Seguimos: Entre o alerta de burnout do terapeuta e as ameaças do presidente, o caminho só pode ser em frente

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por Vera Magalhães

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Era 8 de abril quando recebi um e-mail carinhoso do Gilberto Morbach, editor deste espaço, me convidando a refletir detidamente sobre o “espírito do tempo”, o zeitgeist desta nossa era pandêmica. Aceitei, mas os afazeres, a quarentena, a política e a nossa tendência natural à procrastinação fizeram com que levasse esse tempo todo até chegar aqui.

No mesmo dia em que chegou o e-mail do Gilberto, tive sessão online de terapia, uma de tantas esquisitices da quarentena. Logo na abertura, meu terapeuta, que está comigo desde 2012 e já encarou quatro eleições e duas separações do mesmo (e ainda) marido, entre outros perrengues, anunciou, entre solene e assustado:

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— Hoje entrei pela primeira vez no seu Twitter.

Curiosa, perguntei:

— E o que você achou?

— Estou em dúvida a respeito de em que momento você vai ter uma crise de burnout. E me perguntando por que você acha que precisa entrar em todas as brigas para as quais te chamam.

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O prognóstico alarmante ainda não se confirmou, e mantemos os encontros virtuais semanais para afastar o fantasma. Quanto à segunda observação dele, vamos tentar cumprir duas tarefas ao mesmo tempo: entregar a encomenda do Gilberto e desdobrar a terapia para um texto que tente dar conta da parte que me cabe no furdunço em que estamos enfiados como país, participantes do debate público e pessoas, nos vários planos. E que explica a razão pela qual, muitas vezes, tenho mesmo a sensação de precisar entrar em todas as brigas para as quais me chamam.

O convite do Gilberto veio na esteira da reação do presidente Jair Bolsonaro e de seus seguidores fanáticos, filhos à frente, a uma informação que publiquei no BR Político, site de análise e bastidores políticos do qual sou uma das editoras.

Era terça-feira de Carnaval, 25 de fevereiro. Eu estava de folga no Rio de Janeiro (última viagem pré-corona, que saudade!) quando uma fonte AA mandou um screenshot de uma conversa do presidente, com um aliado, em que ele encaminhava um vídeo conclamando à participação em atos contra a democracia que vinham sendo programados para 15 de março.

A reação do mundo político, da imprensa e das redes sociais foi imensa e imediata. A primeira atitude do Planalto e de Bolsonaro foi não negar o envio das mensagens, mas dizer que elas não eram uma convocação, mas mensagem pessoal para poucos amigos — embora tenham sido disparadas do celular com o brasão da Presidência.

Diante da gravidade do gesto, no entanto, Bolsonaro resolveu partir para o ataque. Passou a negar o envio da mensagem e a dizer que se tratava de um vídeo de 2015 — algo que foge à lógica mais comezinha, já que o vídeo, que eu publicava na íntegra na primeira reportagem, continha imagens da facada que o então candidato levou em 2018 e de sua posse, em 2019.

O presidente passou a fazer o que faz nessas horas: ataques vis e baixos, em caráter pessoal. Disse que não era da minha “laia”, me chamou de mentirosa mais de uma vez, fez insinuações de cunho sexual e misógino que já tinha dirigido à colega Patricia Campos Mello, ao dizer numa live que eu também quis dar o “furo” de qualquer jeito.

Nessa época, a pandemia de covid-19 ainda não tinha começado sua escalada no Brasil, e Bolsonaro ainda não tinha tornado rotina a participação, ao vivo e a cores, em atos explicitamente golpistas, como fez no próprio dia 15 de março (c.q.d. mais fiel impossível; obrigada pela confirmação, presidente!) e em vários fins de semana consecutivos.

(Foto: Gabriela Biló/Estadão)

O espetáculo de afronta às instituições foi combinado com a elevação da retórica anti-imprensa, que culminou em ataques físicos a vários profissionais no curso dos mesmos atos antidemocráticos e a ameaças e intimidações por parte dos apoiadores de Bolsonaro que se aglomeram (haja vírus ou não) no cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada.

A escalada autoritária do presidente, que levou à demissão de dois ministros de primeira grandeza, Sérgio Moro e Luiz Mandetta, no auge da pandemia e a uma sucessão de medidas de contenção cada vez mais duras — entre aberturas de inquéritos e decisões cassando outras do Executivo — por parte do Supremo Tribunal Federal colocou pela primeira vez seriamente no horizonte a possibilidade de um processo de impeachment vir a prosperar.

Dida Sampaio, do Estadão, agredido por apoiadores do presidente Jair Messias Bolsonaro (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

É sobre esse momento agudo da crise, os ataques a jornalistas e um pouco de retrospecto do conjunto de acontecimentos que nos trouxe até aqui que este relato sem a menor pretensão ensaística vai procurar se deter.

A demonização da imprensa não é uma criação original do bolsonarismo. Há toda uma tradição de políticos de corte fascista e/ou populista que precisa transformar o jornalismo independente em inimigo para deslegitimar qualquer crítica e manter mobilizados os seguidores (eleitores) fiéis.

Na nossa história recente, esse caminho foi adotado pelo PT no pós-mensalão, graças a uma estratégia desenhada com sucesso por Franklin Martins, então à frente da comunicação do governo Lula.

Foi nessa época que surgiram os blogs chapa-branca do petismo, alimentados com lautas verbas de publicidade que ignoravam critérios técnicos de circulação e audiência para distribuir dinheiro público sob o manto diáfano da “democratização” da comunicação.

Na época, o jornalismo virou “PIG”, o “Partido da Imprensa Golpista”. Também lá, nos primórdios do que vemos hoje, as mulheres eram alvo preferencial dos ataques. Miriam Leitão, Renata Lo Prete e Debora Bergamasco foram algumas das vítimas de manchetes dos sites e blogs a serviço do lulopetismo. Também estive lá.

(Reprodução: charge do ativista Carlos Latuff Sousa)

Vieram a Lava Jato e o impeachment de Dilma, e a tensão entre o PT e a imprensa só se avolumou. Emissoras como a Globo e veículos como os principais jornais foram acusados pelo partido de fomentar uma narrativa pró-Lava Jato e contribuir para a “criminalização” do partido e o que chamaram de golpe contra a presidente.

A retórica inflamada anti-imprensa arrefeceu levemente no breve governo de Michel Temer, mas não de todo. O presidente-tampão também não deixou de pendurar na conta da mídia seus dissabores com Joesley Batista e Rodrigo Janot. A diferença é que, como político da velha cepa, Temer se entendeu com o Congresso, à custa de muita negociação com a barriga no balcão da fisiologia, e escapou do impeachment.

A eleição de 2018 levou ao paroxismo uma nova polarização que vinha surgindo, sem a devida atenção do jornalismo e da política, pelo menos desde 2013, e com mais força a partir da reeleição de Dilma e dos movimentos pelo impeachment.

As jornadas de junho de 2013, a Lava Jato, o impeachment foram tirando da toca um eleitorado de direita que tinha vergonha de se apresentar como tal desde a redemocratização. Ficava ali, “incubado” em candidaturas tucanas, quando muito se manifestando aqui e ali em episódios como as encarnações paulistas em Jânio Quadros e Paulo Maluf.

“Varre, varre vassourinha, varre a corrupção”

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A luta contra a corrupção foi a camiseta verde e amarela que muitos reacionários encontraram para vestir e ir às ruas, e Jair Bolsonaro foi o catalisador desse sentimento — a princípio difuso —, graças a uma bem pensada estratégia de construção de imagem, que começa em programas de auditório e de “stand up jornalismo” e se consolida nas redes sociais. Virou o “Mito”, símbolo da luta contra os corruptos, sem nunca ter feito parte de uma CPI, e porta-voz da nova política, mesmo tendo três filhos na política — um deles desde os 17 anos — e tendo construído portentoso patrimônio com todos os integrantes do clã na vida pública e com uma carreira marcada por práticas como rachadinhas, uso de funcionários fantasmas e de auxílio-moradia mesmo tendo imóvel próprio. Coisa de gênio!

A imprensa comeu bola e deixou isso ser construído ao longo dos anos, enquanto tratava Bolsonaro como café com leite, que “desidrataria” quando a campanha começasse para valer. Não aconteceu, a facada o tirou dos debates e de qualquer possibilidade de ter expostas suas fragilidades para governar o País, e cá estamos nós, no ano 2 do Governo Bolsonaro, mergulhados numa crise na qual a pandemia é só um dos fatores — ainda agravado pela conduta do presidente.

Quando o novo coronavírus iniciou sua jornada de morte no Brasil, Bolsonaro já vinha em sua própria escalada, portanto. E tendo a imprensa como saco de pancadas preferencial. Não fui o primeiro alvo dessa estratégia, que, se não é nova, como mostrei anteriormente, é inédita na virulência, no grau de orquestração, na participação direta e sem cerimônia do chefe de Estado, seus familiares e apoiadores próximos e, como está-se revelando, com o uso de não apenas um, mas vários gabinetes do ódio, localizados no Palácio do Planalto, no Congresso e em Assembleias, com funcionários bancados com dinheiro público e atuação financiada por uma rede de empresários simpáticos ao bolsonarismo.

Ainda na campanha, reportagem da jornalista Patrícia Campos Mello, na Folha de S.Paulo, mostrou que empresas bancavam, sem declarar à Justiça Eleitoral, impulsionamentos por meio do WhatsApp para atingir eleitores e espalhar fake news contra adversários. Foi vítima de uma campanha de ódio das mais violentas já assistidas, teve seu celular invadido por ameaças e, mais recentemente, foi caluniada em depoimento na CPMI das Fake News por parte de um ex-funcionário de uma das empresas que faziam os impulsionamentos, que fora sua fonte em uma das reportagens sobre o assunto.

Bolsonaro e os filhos citaram várias vezes Patrícia para não insinuar, e sim afirmar, que ela trocara as informações que publicou por algum tipo de sedução à fonte. Ela e o jornal estão processando Bolsonaro e os demais responsáveis pela campanha de destruição de sua reputação nas redes sociais.

Outras jornalistas são sistematicamente expostas, com o uso de suas vidas pessoais, produção de memes de cunho machista e misógino, respondem a ameaças e têm o trabalho vinculado à aparência física, à idade ou ao estado civil, algo que nunca é feito com jornalistas homens.

Nesse campo, não há comparação possível entre o que acontece no atual governo e episódios anteriores de ataques à imprensa: tanto que veículos de comunicação chegaram ao ponto de retirar profissionais da cobertura diária do Palácio da Alvorada, pelos riscos físicos a que esses jornalistas estavam submetidos.

Isso não é normal e já é sintoma de um ambiente de supressão das liberdades democráticas — algo que só se agravou depois que Bolsonaro passou a investir diuturnamente para boicotar a estratégia de enfrentamento da pandemia e a acossar as instituições com a sombra de um golpe que poderia vir de seus grupos extremistas e ter o aval das Forças Armadas.

O STF tratou de colocar freios ao ímpeto golpista do presidente; os militares demoraram, mas deixaram claro que não embarcariam na aventura; Fabricio Queiroz foi preso e o presidente recolheu, ao menos por ora, os flaps.

Com a lupa do Supremo e da CPMI das Fake News colocada sobre a rede de destruição de reputações que corria solta nas redes sociais, os ataques a jornalistas também arrefeceram. Eles seguem, mas sem a orquestração de meses anteriores.

A pandemia também acabou por reforçar a importância da imprensa livre e profissional, evidenciando as redes de desinformação e separando fatos de fake news.

Iniciativas como as tomadas pelas redes sociais, de suprimir postagens fake de presidentes da República, ou banir páginas e perfis “inautênticos” — muitos deles administrados por funcionários do governo ou de parlamentares bolsonaristas —, também ajudaram a conter os hidrófobos.

Mas é preciso ir até o fim na apuração do mecanismo de financiamento de ataques sistemáticos à imprensa e aos jornalistas. “Follow the money”, diz o mantra de todo investigador quando diante de crimes de corrupção desde Todos os Homens do Presidente.

Tanto o STF quanto a CPMI têm elementos para avançar nessa direção, inclusive novos, fornecidos por investigações como a empreendida pelo Facebook. Que sigam até o fim.

All the President’s Men, 1972 (Reprodução)

Para encerrar, volto ao início deste texto, o pedido do Gilberto e o alerta do terapeuta. À frente de um dos programas mais tradicionais de entrevistas da TV aberta, o Roda Viva, de uma coluna publicada duas vezes por semana no Estadão e no front diário no BR Político e nas redes sociais, sigo exposta a uma saraivada de críticas.

Mas decidi que não vou mais entrar em todas as brigas para as quais tentam me atrair. Anos de terapia precisam servir para alguma coisa, não é mesmo?

Os casos de crimes estão nas mãos de dois brilhantes advogados criminalistas, que me procuraram para atuar sem cobrar honorários, pois estão comprometidos com coalizões que visam garantir a liberdade de imprensa como princípio basilar da democracia.

Não entrar em todas as batalhas não significa, de maneira alguma, recuar, calar ou consentir. As várias vezes em que Bolsonaro mandou jornalistas calarem a boca apenas reforçou o sentido de dever e a gana de buscar a informação que ilumina as trevas com as quais o presidente pretende impedir o debate público.

Um aviso claro e curto: não vai rolar, é melhor “já ir se acostumando”. Seguimos.

(Reprodução: TV Cultura)

Vera Magalhães

Vera Magalhães é jornalista, apresentadora do Roda Viva (TV Cultura), colunista do jornal O Estado de S. Paulo e editora do site BR Político.