Houellebecq e a Serotonina da intranscendência

por Hugo Langone

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Surpreende — talvez porque tirem, eles mesmos, vantagens dessas circunstâncias — que parte dos ditos experts pouco enfatizem ser o nosso, este que há anos já corre, o tempo do messianismo político feito de políticos nada messiânicos, de uma pulverização do debate público em que por «debate» se entende «jargões», de uma polarização tão mais infecunda quanto menos tem os pés na vida real. No entanto, se estamos no campo messiânico, sabemos por outro lado que as pedras devem por vezes falar e que, por vezes, podem acusar nossas doenças interiores por seus sintomas. A unção do Houellebecq de Submissão é um deles — sua unção como «profeta»: o «profeta de tempos deprimentes», na definição da Deutsche Welle, para a qual é possível ter pesado menos as sombrias perspectivas delineadas no volume do que parte das opiniões pessoais do écrivain maudit a respeito do que vê.

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Michel Houellebecq

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Mas ocorre que, a engrossar a tormenta, nos foi permitida uma pandemia, um vírus inesperado; e, se ousamos especulá-lo, talvez para que se nos recordasse, entre tanto mais, desta fé inabalável, ainda vigente para os que nada têm e nada concebem senão o próprio corpo, a matéria, o gozo: uma fé na ciência como panaceia que ora concorre, ora se mescla, com a fé política mais desordenada. E, então, ainda que fosse apenas pelo título «científico» de sua Serotonina, definido muito antes de se ouvir falar em «coronavírus», Houellebecq pôde trocar o profetismo pelo retrato; pôde fazer-se o retratista de uma decadência civilizacional tida, ainda em muitas partes, como progresso, como vitória, como triunfo de uma liberdade que deveria primeiro receber o velho nome de «paixões».

Não se deve passar apressadamente pela expressão: «retrato» é mesmo termo conveniente porque trata-se precisamente disso, de uma obra que revela com destreza e olhar privilegiado a superfície das coisas e só. A Serotonina de Houellebecq deve, para que produza o desconcerto que produz, conservar-se na epiderme do mundo a fim de expressar esse mesmo mundo. Poder-se-ia falar, em termos hoje empoeirados, em harmonia entre forma e conteúdo; pois se, qual um bisturi, rompesse a carne, se almejasse ir mais fundo, precisaria chegar ao coração do homem, fazer a pergunta desconfortável quanto a suas motivações e suas inseguranças — seria então uma «teologia da decadência», da decrepitude, e não o romance que é. Seria a teologia que poderia redimir o problemático mundo que Serotonina expressa.

Seu horizonte, pois, é o horizonte de uma sociedade inteira, na qual invariavelmente estarão metidos tanto os que partilham quanto os (poucos?) que nada partilham de suas linhas-mestras. Eis por que, ao contrário do que talvez se desse décadas antes, não desconcerta ninguém, hoje, as selvagerias sexuais das mais vis em que Yuzu, ex-companheira de apatia e apartamento do protagonista Florent-Claude, é descrita e que serve ao agrônomo francês como ponto de inflexão: «Eu também ia ser um desaparecido por escolha, e o meu caso era particularmente simples, não tinha que fugir de uma mulher, de uma família, de um grupo social pacientemente construído, mas apenas de uma simples companheira estrangeira que não tinha nenhum direito de me perseguir», seguindo nisso «o percurso de diferentes pessoas que um belo dia, de forma totalmente imprevisível, decidiram cortar os laços com a família, os amigos, a profissão».

Yuzu fora flagrada em situações sexuais mais do que comprometedoras e grotescas, mas isso pouco suscita, em Florent e talvez no homem médio de hoje, qualquer náusea ou indignação: predomina sua dormência moral, o «não ligar» que só incita algo ainda mais maçante; de fato, o que Florent fará é deslocar-se fisicamente sem qualquer objetivo, entregar-se às memórias sem qualquer expectativa e quase nenhum arroubo. Podemos mesmo pensar que o Complexo de Portnoy de Roth hoje parece-nos pueril mesmo tendo, quando de seu lançamento, suscitado furor, que as conquistas tão «libertárias» dos beatniks nos soam agora risíveis; e assim o movimento deste nosso Ocidente resta claro — ou melhor: sua falta de movimento. Se ao menos houvesse tensão moral, algum conflito, se algo fervilhasse ali — a ira ou o riso, o que fosse — nos personagens de Houllebecq e nas páginas da vida do Ocidente, sentiríamos o sinal de algo superior, um parâmetro distante mas presente, porém não o sentimos em absoluto nem nas páginas do romance, nem na vida de alguns de nossos contemporâneos. Os personagens de Houellebecq não partilham da busca de sentido de um Frankl; aliás, nem sequer o cogitam, não têm o termo em seu dicionário.

Da boca do perspicaz a palavra acídia surgirá de imediato. Houellebecq é mesmo, na Serotonina, o fiel retratista da acídia. Que o move, afinal? Qualquer interlocutor seu lhe dá o que pensar, mas só. O turista que flagra em relações nada lícitas com uma menina de pouca idade lhe causa repulsa — talvez a maior demonstração de paixão em todas as páginas do romance —, mas mesmo ali lhe falta veemência: é um mero fato registrado ao lado de muitos outros. As soluções sensuais que seu psiquiatra sugere para que venha a recobrar certo ânimo na vida interior e exterior pouco lhe interessam: tanto faz que venha a ficar sexualmente impotente, que só lhe reste morrer por dentro, pouco a pouco. Costumava-se dizer que a morte tem a palavra final, mas ali não há sequer a palavra e não há importância conferida ao «final». Pode-se morrer, pode-se não morrer, pode-se ficar impotente, pode-se não ficar impotente. Tudo se reveste de uma naturalidade deprimente, pois trata-se, no fundo, da inação de uma putrefação espiritual.

É preciso se deter neste ponto. Nem mesmo o prazer, o desejo, é capaz de suscitar qualquer coisa que seja minimamente intensa. O horizonte da Serotonina de Houellebecq carece de toda transcendência. O prazer nada diz, a transgressão nada diz, a retidão de pouco serve. Têm a monotonia de todo o resto. Não há nem o gozo da bondade nem o da iniquidade. Não há nenhum diálogo entre um «eu» e um «tu» que possa fazer vislumbrar um anseio do coração. Qualquer esforço conduz a um «esforço para quê?». O amor mesmo é distante: Florent só o descobre na memória, sempre em retrospecto e sempre passando-nos a sensação de que projeta algo do seu presente ali; sequer à sua tresloucada tentativa de recuperar uma velha namorada ele consegue dar seguimento. Cogita matar o filho pequenino desta moça para que ela — e quiçá ele — sinta algo, para que a inércia seja vencida, mas não prossegue… e, no fundo, possivelmente tanto faz. Sentimo-nos tentados a afirmar que o desejo mesmo já seria uma vitória, já seria uma «violência» repleta de significado.

Naturalmente, a política surge, e surge tal como se nos apresenta hoje. Ao retratista de nosso tempo não foge que talvez seja ela, num mundo só imanente, a tentativa derradeira de conferir sentido à existência. Todavia, isso lhe é impossível. Quando Aymeric, velho colega de Florent, abandonado pela esposa, deprimido, se une a outros produtores rurais em manifestação, «parecia disposto a tudo, e felizmente os homens dispostos a tudo são poucos mas podem causar estragos consideráveis»; «parecia animado, sinceramente animado e até zombeteiro, mas também muito distante, claramente estava em outro lugar, acho que nunca tinha visto alguém tão longe, lembro bem disso porque me passou pela cabeça a ideia de descer o talude e correr até lá, e no mesmo instante entendi que seria inútil, que naquele último momento nada de amistoso ou de humano o tocaria». Tendo, então, percorrido com a mira de sua arma o pelotão da gendarmaria que se aproximava, «[a]lgo diferente se estampou então em seu rosto, como uma dor generalizada; virou o cano, colocou-o debaixo do queixo e apertou o gatilho».

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(Reprodução: Reuters)

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É este o mundo incapaz de olhar para o alto, de perscrutar na abóbada celeste uma fresta que poderia indicar a existência, para nós, de algo mais.

Em texto que acresceu a um volume de seu marido Dietrich, Alice von Hildebrand assinala que «a imanência mesma da sequência de prazeres leva os homens a acreditar que não há esperança de transcendência para si, e isso faz que os homens se lancem ainda mais brutalmente sobre as migalhas de satisfação que o prazer pode prover». Ocorre, porém, que anos depois deste diagnóstico já é preciso fazer outro: nem sequer sobre as migalhas do prazer alguns se mostram dispostos a se lançar. E, se nem mesmo diante de algo que parece prometer um estado de deleite imediatamente acessível o homem parece sensibilizar-se, que se dirá da tentativa de tatear seu universo interior, de descobrir, em sua toda a constituição, corpo e alma, que nele existe o famoso coração inquieto de Santo Agostinho, que procura o amor completo, o Amor que carece aos personagens desta Serotonina e que, imutável, misericordioso, paterno, poderá um dia dar fim ao desejo em todas as acepções que a palavra «fim» é capaz de receber.

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(Reprodução)

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Hugo Langone

Hugo Langone é poeta e doutor em Teoria Literária, autor dos livros Do nascer ao pôr do sol, um sacrifício perfeito (7Letras, 2015), A descida do monte Tabor (no prelo) e Chorar por Dido é inútil: Santo Agostinho, as Confissões e o manejo da literatura pagã (Filocalia, 2017).