O sol de amanhã e a política da prudência

por Celina Alcântara Brod

“Todas as religiões, quase todas as filosofias e até mesmo parte da ciência testemunham o esforço heroico, inesgotável, da humanidade para desesperadamente negar sua contingência.”

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Jacques Monod

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A danse macabre de Adriaen Pietersz van de Venne

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“O sol não nascerá amanhã”. Foi com uma frase curta e simples como esta que David Hume mostrou que nossas inferências sobre os fatos, tidas como indubitáveis, são na verdade crenças, arranjos associativos de nossa imaginação, não certezas. Dizer que o sol não nascerá amanhã pode parecer improvável, até mesmo um grande absurdo, mas não é uma contradição. Nem com as nossas melhores intenções conseguimos demonstrar a contradição de um grande desastre cósmico. Sabemos que dois mais dois é igual a quatro, e que assim será necessariamente, já não podemos garantir a mesma espécie de certeza para os fatos vindouros do mundo.

Para provar a necessidade de que o sol nascerá amanhã, nós precisaríamos de garantias metafísicas e condições suprahumanas que nossa finitude jamais pode ter. Teríamos que ter acesso a totalidade do tempo e uma promissória assinada pela natureza, prometendo-nos sua uniformidade e fiel constância. Dito de outra forma, precisaríamos ser criaturas oniscientes e onipresentes.

Mas o que explica nossa confiança inabalável de que o futuro será como ontem? Para Hume, nossa insuprimível expectativa no nascimento do sol a cada nova manhã deriva da experiência constante e repetida que tivemos até então. Ora, o astro rei sempre nasceu, dia após dia, por que apagaria agora? Tal repetição determina nossa mente a crer que o inobservado será igual ao observado. Portanto, é a experiência e um truque engenhoso e indispensável de nossa imaginação que constituem o fundamento de grande parte de nossas conclusões sobre o que ocorre no mundo.

Cremos, sem titubear, que ao deitar a noite e fechar os olhos iremos necessariamente acordar com o sol batendo novamente na janela. Cremos que tudo irá se repetir, ou seja, que as forças secretas que regem nosso mundo não trairão o esperado amanhã. Ao sair para o trabalho cremos que iremos entrar no carro e no fim do dia voltar para casa. Cremos, mas não sabemos. Cremos, sem pestanejar, que quando a noite cair a lua aparecerá. Cremos que ao plantar uma muda em solo fértil, ela há de crescer. Cremos, mas não sabemos.

Quando esperamos que algo ocorra no futuro, porque no passado já ocorreu milhares de vezes “a mente dá um passo que não encontra apoio em nenhum argumento ou processo do entendimento”, afirma Hume. O ponto é: não podemos justificar racionalmente nossa expectativa pela repetição, justamente porque tal expectativa não foi produzida pelo processo do pensamento. É o hábito, um princípio pré-reflexivo de nossa natureza, que nos leva a esperar que o futuro corresponda ao passado; um inevitável elo de causas e efeitos aglutinados. Hume não nega a existência da causalidade, apenas nega que sua descoberta seja feita pelo raciocínio e que seu completo acesso nos esteja disponível.

O grande feito de Hume foi mostrar que estas crenças são produtos de nossos testemunhos constates, enraizados e acoplados que, imperceptivelmente, tornam-se garantias incontestáveis. Todos os nossos raciocínios sobre os fatos do mundo estão apoiados nesta relação entre causa e efeito, a qual acumulamos e formamos ao longo da vida. É pela experiência que aprendo os efeitos que surgem da relação entre objetos, pessoas, sentimentos e até mesmo entre palavras. Mesmo um bebê, cuja jornada no mundo foi minimamente explorada, terá adquirido em pouco tempo crenças que o guiarão toda vida, um tipo de conhecimento que não veio através da razão, mas do hábito.

David Hume

Não fomos intelectualmente convencidos a acreditar que o sol nascerá amanhã, nem que carinhos e insultos geram diferentes sentimentos ou que a escassez gera o caos, tais conclusões não são produtos da razão, mas de nossa habitual percepção. São aprendizados tácitos e sensitivos, não verdades e conclusões adquiridas com raciocínios apriorísticos. Estas relações causais, que apreendemos na com a observação e a vivência, irão guiar nossas escolhas, cálculos e atos. Quando submetemos tais relações as análises frias da razão geramos conhecimento.

Hume denuncia uma verdade inconveniente: nossas inferências sobre os fatos que ocorrem no mundo podem ser mais ou menos prováveis, mas não temos como afirmar que necessariamente amanhã será igual a ontem. Podemos fazer previsões, alcançar alguns princípios gerais, ordenar os fatos com aquilo que já foi observado no passado, descrever o mundo, criar consensos científicos, hipóteses verificáveis, estatísticas plausíveis, constituições e regras de convívio inclusivas e empáticas. Mesmo assim, nossas capacidades cognitivas e emocionais são extremamente limitadas. Não temos controle sob os caprichos da natureza, não podemos prever qual o pensamento ou sentimento teremos nos próximos minutos, se quer conseguimos vincular aquilo que sabemos com aquilo que fazemos, quem dirá arquitetar o destino da nossa espécie. O homem, vejam só, não é Deus, sequer semideus.

O argumento de Hume representa um duro golpe na pretensa ideia de controle e, consequentemente, na nossa arrogância intelectual. Ao escutar este filósofo escocês, nos deparamos com nossa precariedade: somos animais jogados as contingências. Talvez, sejamos animais mais sofisticados, capazes de criar esquemas conceituais que organizam nossa vida política, moral e científica para ter algum sucesso com expectativas e previsões. Sendo assim, a história das sociedades, que é a cadeia de eventos e relações do homem com seus semelhantes, é no fundo uma jornada do hábito e das paixões auxiliadas pelos poderes instrumentais da razão. Ao admitirmos com sinceridade nossa limitada condição, ficamos por um lado encabulados pela nossa insuficiência e por outro gratos pela sagacidade inata do hábito e pelas ferramentas da razão.

Agora, qual é o efeito desta revelação para a política? Que espécie de atitude e disposição surge quando descobrimos que nosso legado humano e conquistas civilizatórias devem mais a experiência, ao hábito e a nossa imaginação associativa do que as pretensões frias e lógicas da razão? Nasce o ingrediente do qual qualquer sociedade livre e decente depende: a moderação. Qualquer um que reconheça o valor da experiência, do tempo, da observação, do bom uso da razão, das nossas multifacetadas paixões e acima de tudo, a inegável contingência, irá curvar-se a prudência.

Estar ciente de que mal sabemos se o sol vai necessariamente nascer amanhã diminui na mesma proporção vislumbres de uma alquimia social. Podemos nos satisfazer com passos e probabilidades, reformas de erros específicos e ajustes úteis, mas quem é um só homem, ou um grupo, para sugerir grandes saltos e salvíficos expurgos? Quem tem direito de governar com atividades intrusas? Estas são algumas das atitudes que uma compreensão mais realista e cética de mundo irá provocar.

O cético, como escreveu Oakeshott, não está disposto “a ignorar que a função do governo é ocupada por homens da mesma estirpe dos sujeitos que eles governam”. Logo, o projeto belo e moral de um, pode ser a ruína de muitos. Em outras palavras, esta disposição mais cética em relação aos poderes da razão proporciona uma política que dá aos pensadores isolados pouco protagonismo, que desconfia de quem declara estar em posse dos rumos da História e que enxerga um radicalismo perigoso no delírio daqueles que creem serem capazes de subverter as convenções espontâneas. O prudente irá olhar para o mundo e pensar nas consequências empíricas das ideias que propõe, não se atreverá a ditar como o mundo deve ser, afinal ele admite que mal sabe como o mundo é. A moderação ostenta uma atividade política mais acanhada, mais terrestre e justamente por isso, mais humana.

A política não é o lugar de valores e verdades absolutas, é a religião que lida com absolutos: valores transcendentes que colocamos intimamente e individualmente para a alma. Estado não tem alma. Reformas e mudanças nas sociedades são possíveis exatamente porque, diferente da religião e das ideologias, as convenções da vida comum não são absolutas. Chegar até aqui, com todos nossos esquemas de trocas, linguagens, constituições, moralidade não é produto de um grupo, de um movimento, de um pensador, mas de um conjunto de fatores que não está totalmente em nosso controle. Ser prudente não significa ficar imóvel e indiferente, mas compreender o fato instransponível de que não existe na política uma via santa da verdade. Como escreveu Russell Kirk, o prudente sabe “que não se pode marchar em direção a um Sião terrestre”. O político da prudência não ousará brincar de demiurgo.

Russell Kirk (The Atlantic)

Estar ciente de nossas imperfeições significa renunciar visões alquimistas. Como escreveu John Gray, “os seres humanos são dotados de muito pouco auto-conhecimento para serem capazes de criar uma versão superior de si mesmos”. Indivíduos modestos reconhecem que o hábito chega antes das nossas ideias abstratas e mirabolantes, e que ninguém tem o direito de impor mundos alternativos e sair por aí inovando com violência. Seja para retomar com nostalgia o passado ou para levantar futuros gloriosos. Nossa espécie é caolha e falha, assim também serão nossas instituições, por isso sociedades democráticas não podem estar sujeitas ao monopólio moral de um determinado partido ou facção.

A política do linchamento, esse ethos contemporâneo do xingamento fácil, que é a prática sistemática de qualquer extremo, só consegue afirmar-se sendo anti-alguma coisa. Mas isso não é política, é apenas selvageria. Em mundo de gritos, quem ainda conversa é rei. Deixemos o sol fazer seu trabalho, ele há de nascer amanhã. Aos que ainda acreditam na liberdade e respeito que acompanha a prudência, cabe assumir com coragem a vida e resgatar o valor transformador da responsabilidade individual. Esclarecimento e maioridade, em tempos sombrios e brutais, é não negar a implacável contingência e admitir nossa condição: seres que sabem que não sabem muito. Homo pouco sapiens.

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Detalhe da Morte de Sócrates, de Jacques Louis David

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Celina Alcântara Brod

Celina Alcantara Brod é mestre e doutoranda em Filosofia Política pelo Curso de Pós-Graduação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).