“Dedication”, de Wole Soyinka

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“Dedication”, poema de Wole Soyinka, na tradução de Adriano Migliavacca.
Apresentação de Delo N’dafá Nanque.

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Wole Soyinka

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Aqui, compartilhamos a tradução do poema “Dedication”, pelo professor Adriano Moraes Migliavacca. Escrito em 1963 e publicado no livro de poemas Idanre and Other Poems em 1967, trata-se de um canto mítico dedicado por um pai à sua filha, composto por tercetos peculiarmente rimados. A vida aqui surge como uma experiência pessoal-coletiva que acontece dentro da totalidade cósmica; é, portanto, um fenômeno que, se assentando no princípio da continuidade, só é possível e verdadeiramente potente quando encenado em estreita afinidade com a criação que lhe serve de ambiente, com a história, mas também com as divindades. Estão aqui os conhecidos temas de Wole Soyinka como vida e morte, ser e não ser, ser e tornar-se, passagem e continuidade, o trágico e o dever, entre outros.

Soyinka é profunda e peculiarmente africanista em sua escrita, o que se manifesta no diálogo inteligente e criativo que tece em seus textos com as culturas tradicionais africanas, especialmente a iorubá. Em “Dedication”, isso aparece de maneira sugestiva no próprio nome da filha a quem o poema é dedicado: Moremi, provavelmente uma homenagem à mítica rainha Moremi Ajasoro, a mais alta heroína iorubá e a mais querida das mulheres, guerreira da liberdade e intermediadora entre os deuses e seu povo, logo, entre vida e morte, escravidão e liberdade; imagem da liberdade e do sacrifício que demanda. Para libertar da escravidão seu povo com ajuda do deus do rio Esimirin, teve de sacrificar Oluorogbo, seu filho, como sinal de lealdade. O mito de Moremi é importante e forte no imaginário iorubá ainda hoje, e sua relação com os tercetos de “Dedication” provam que também reveste-se de importância cultural e intelectual para nosso poeta. Nesse sentido, o uso repetido da imagem da água vai além de sugerir sua importância como símbolo de vida ao lado da terra e do ar, mas conversa particular e sutilmente com o mito de Moremi, cujo povo foi liberto por um deus do rio.

O surgimento deste poema, no Brasil, por meio da tradução do professor Adriano Migliavacca, é mais que oportuno, pois nos vem em um momento em que a vida está sendo erodida, sob a força brutal de uma pandemia que vai ceifando milhares, auxiliado pela hegemonia da insensibilidade relativamente à vida, o que de certo modo faz lembrar a Nigéria dos anos de 1960 (período do nascimento do poema), assaltada e dominada pela apostasia da vida imposta pela tirania. Pandemia ou tirania nenhuma é motivo para apostatarmos da vida, e “Dedication” nos lembra que viver é preciso e viver da maneira mais alta: dançando com o vento como pião no meio da tempestade, gerando sentido e proferindo “mel” para e em um mundo absurdo e amargo que multiplica a violência e a dor em sua obsessiva negação do humano. E pagar a nossa dívida com a terra-comunidade.

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Delo N’dafá Nanque

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NOTA DO TRADUTOR: O título do poema, “Dedication”, pode ser corretamente traduzido como “Dedicatória”, em consonância com sua natureza. Escolhi aqui a tradução alternativa “Dedicação” pela sugestão à dedicação que o pai tem com sua filha e a dedicação que ele mesmo pede que ela tenha à vida ao dedicar a ela tal peça literária.

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Dedication

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For Moremi, 1963

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Earth will not share the rafter’s envy; dung floors

Break, not the gecko’s slight skin, but its fall

Taste this soil for death and plumb her deep for life

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As this yam, wholly earthed, yet a living tuber

To the warmth of waters, earthed as springs

As roots of baobab, as the hearth.

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The air will not deny you. Like a top

Spin you on the navel of the storm, for the hoe

That roots the forests plows a path for squirrels.

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Be ageless as dark peat, but only that rain’s

Fingers, not the feet of men, may wash you over.

Long wear the sun’s shadow; run naked to the night.

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Peppers green and red—child—your tongue arch

To scorpion tail, spit straight return to danger’s threats

Yet coo with the brown pigeon, tendril dew between your lips.

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Shield you like the flesh of palms, skyward held

Cuspids in thorn nesting, insealed as the heart of kernel—

A woman’s flesh is oil—child, palm oil on your tongue

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Is suppleness to life, and wine of this gourd

From self-same timeless run of runnels as refill

Your podlings, child, weaned from yours we embrace

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Earth’s honeyed milk, wine of the only rib.

Now roll your tongue in honey till your cheeks are

Swarming honeycombs—your world needs sweetening, child.

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Camwood round the heart, chalk for flight

Of blemish—see? it dawns!—antimony beneath

Armpits like a goddess, and leave this taste

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Long on your lips, of salt, that you may seek

None from tears. This, rain-water, is the gift

Of gods—drink of its purity, bear fruits in season.

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Fruits then to your lips: haste to repay

The debt of birth. Yield man-tides like the sea

And ebbing, leave a meaning of the fossilled sands.

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Dedicação

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Para Moremi, 1963

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A terra não herdará do caibro a inveja, chãos de estrume

Rompam, não a sutil pele do geco, mas sua queda

Prove este solo para a morte e prume-o fundo para a vida

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Como o inhame, térreo todo, ainda que tubérculo

Vivo à calidez das águas, térreo qual fontes

Qual raízes do baobá, qual a lareira.

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O ar não te negará. Como um pião

Te gire no umbigo da tormenta, pois a enxada

Que enraíza as florestas ara uma senda aos esquilos.

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Sê sem idade qual turfa preta, mas que só dedos

De chuva, não pés de homens, te lavem embora.

Longa veste a sombra do sol; corre nua para a noite.

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Pimentas verdes e rubras — criança — tua língua arqueiem

A cauda de escorpião, cospe retorno reto às ameaças de perigo

Arrulha, ainda, com o pombo pardo, orvalho rebento entre teus lábios.

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Te abriguem como a carne das palmeiras, ao céu erguidas

Cúspides em ninhos de espinhos, seladas como o cerne da semente —

A carne da mulher é óleo — criança, óleo de palma em tua língua

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É labilidade à vida, e vinho desta cabaça

Do mesmo atemporal correr de córregos a preencher

Tuas pocinhas, criança, de teu desmame, acolhemos

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Leite melífluo da terra, vinho da única costela.

Agora rola tua língua no mel até tuas bochechas serem

Colmeias enxameadas — teu mundo precisa de doçura, criança.

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Urucum ao redor do coração, giz para surtos

De mácula — vês? Amanhece! — antimônio

Sob axilas qual uma deusa, e perdure esse gosto

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De sal em teus lábios, para que nunca o busques

Nas lágrimas. Esta água, da chuva, é a dádiva dos deuses

Bebe de sua pureza, dá frutos em tempo.

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Frutos, então, aos teus lábios: apressa-te a saldar

A dívida da nascença. Gera marés de homens como o mar

E, à vazante, deixa um sentido nas areias fósseis.

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Adriano Moraes Migliavacca é tradutor e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
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Delo N’dafá Nanque é Mestre e doutorando em Teoria Literária pela UFPE e professor de inglês.