Todo mundo e ninguém na poesia brasileira

por Érico Nogueira

Já faz alguns anos que a editora Mondrongo, sediada em Itabuna, no sul da Bahia, e comandada pelo poeta Gustavo Felicíssimo, vem realizando a façanha de publicar a melhor poesia brasileira recente – e, numa palavra, de publicar principalmente poesia. Contrariando o lugar-comum, segundo o qual apostar na poesia seria uma espécie de suicídio comercial, a Mondrongo vem apostando justo nela a maior parte das suas fichas, e, pois, edita livros que, se passaram despercebidos por nosso leitor mais sofisticado (mais preocupado com o próprio umbigo), e até agora não apareceram nas páginas dos grandes jornais, superam toda ou quase toda a já de si parquíssima poesia lançada pelas grandes editoras: como é o caso, por exemplo, de A Dimensão Necessária (2014, Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional) e Auto da Romaria (2016), de João Filho; Cacau Inventado (2015, finalista do Prêmio Oceanos) e Natal de Herodes (2017, Prêmio Edmir Domingues, da Academia Pernambucana de Letras), de Wladimir Saldanha; e O Corpo Nulo (2015), de Lorena Miranda Cutlak – para citar apenas alguns.

Ora, é justamente a livros como esses que acabamos de citar – os quais sozinhos poderiam mostrar a um alienígena interessado em poesia brasileira contemporânea a altíssima qualidade de certa produção mais recente – que vem se juntar agora a cereja do bolo: isto é, As Asas do Albatroz, do gigante Marco Catalão, publicado no final do ano passado.

“As Asas do Albatroz”, de Marco Catalão

Para quem não conhece o autor, trata-se de um dos mais cultos, inteligentes, sensíveis e impecáveis poetas brasileiros das últimas décadas, doutor em letras pela Unicamp, e ganhador de vários prêmios nacionais e estrangeiros. Se fosse possível resumir a sua poética (o que é altamente duvidoso, em se tratando de obra rara e complexa como nenhuma outra, talvez, no Brasil de hoje), eu diria que, na esteira do Eliot de “Tradição e Talento Individual”, a poesia de Catalão se define por originalíssimo diálogo com a tradição literária, a qual a força e a beleza irresistível do que ele realiza conseguem revitalizar e reorganizar, inserindo nela a sua marca pessoal: como, de resto, fizeram Gullar e Drummond antes dele, a cuja família poética Catalão se filia.

É fácil perceber a importância do diálogo do novo com o velho, do futuro com o passado, do inaudito com o dejà vu na poesia de Catalão: com efeito, depois de renovar a cantiga medieval em Antes de Amanhã (2008), reescrever a história da poesia brasileira em O Cânone Acidental (2010), compendiar o seu dicionário íntimo em Sob a Face Neutra (2012), e – feito notável – ressuscitar o teatro em versos no premiadíssimo Agro Negócio (2012), Catalão agora se volta, em As Asas do Albatroz, para a vida material e espiritual do poeta nesse Brasil de meados do século XXI, compondo a crônica definitiva, única, singular de alguém dividido entre a carne e o espírito, as necessidades materiais e as aspirações literárias, o inferno urgente do aqui e agora e o céu sempre adiado da poesia. Barroco? Não: moderníssimo. Vejamos como.

Constante de pouco mais de uma quarentena de poemas de extensão variada, vazados todos em verso livre – mas verso livre que é verso verdadeiro, ou seja, um constructo elaborado, engenhoso, dúctil, em que a variação rítmica das partes se resolve na superior unidade do todo, e não o tal realejo quebrado de que falava Bruno Tolentino, desculpa esfarrapada de quem se quer poeta mas ignora o básico da sua arte –, As Asas do Albatroz nos conta a vida de Epaminondas, um poeta quarentão que, embora já publicado, e premiado até, é apesar disso solenemente ignorado pelo público e pela crítica. Entre o trabalho no escritório, que é a sua vida material, e os poemas que vai compondo, lembrando ou imaginando, que são a vida do seu espírito, podemos ver nas peripécias de Epaminondas a tragicomédia de todos nós, homens e mulheres contemporâneos, perdidos entre “a malha cotidiana (despertador-banheiro-café-ônibus-trabalho)” de uma civilização que não faz mais sentido e a busca quixotesca – e por isso mesmo necessária – por alguma autenticidade, por alguma verdade, por algo que dê alguma razão de ser a esta nossa aventura humana. No caso de Epaminondas, esse algo é a poesia, claro – mas, porque há nele um pouco de todos nós, porque suas grandes e pequenas aspirações, sonhos heroicos e comezinhos, dignidades e vilezas são bem os nossos, e porque a matéria, em suma, de que é feito Epaminondas é a própria matéria humana, podemos entender que a poesia é ao mesmo tempo ela e não ela, em As Asas do Albatroz, e, consequentemente, é poesia e busca de sentido, exercício técnico e ascese espiritual, vida de arte e arte de vida.

É por isso que este é um livro extraordinário: porque, em vez de se fechar sobre o seu umbigo, como a esmagadora maioria de poetas existencialmente rasos e tecnicamente ineptos que vivem de dar declarações em feiras literárias, e não são badalados por aquilo que escrevem, senão por representar este ou aquele grupo oprimido (e assim afagar a duvidosa consciência social dos patrocinadores das feiras), Epaminondas se abre para todos nós, a tristeza dele é a nossa, nossa é a sua alegria.

Finalmente, como todos os poetas relevantes desde Baudelaire, Catalão não poderia se esquivar do tema do desencantamento do mundo, tão magistralmente tratado, em português, por Pessoa e Drummond. Ao enfrentá-lo, produziu um livro candente, uma espécie de radiografia da nossa situação existencial, expressa em versos simplesmente antológicos como “por um instante parece surgir / um nexo entre as experiências conflitantes da manhã / um verso conciso que estabelece uma analogia luminosa / entre o verso quebrado o sol nas folhas do salgueiro e o menino com o fone de ouvido”. Epaminondas é todo mundo: todos somos ninguém.

Érico Nogueira é tradutor, ensaísta e professor de língua e literatura latinas na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Capa da prestigiosa revista The Warwick Review em 2014, foi finalista do Prêmio Jabuti pelos livros Poesia Bovina (2014) e Dois (2010), além de ter recebido o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura por O Livro de Scardanelli (2008).